Este texto tem a finalidade de apresentar
os resultados da pesquisa etnográfica que vem sendo realizada nos
cinemas pornôs na cidade de São Paulo.
Nosso objetivo foi, a princípio,
observar a possível ocorrência de redes de sociabilidade entre
os freqüentadores das salas de filmes pornôs do centro da cidade
de São Paulo, tal como ocorria nos anos de 1940 a 1970, a “Era de
Ouro” da antiga Cinelândia Paulistana (Almeida
2000). Boa parte dos antigos cinemas da região foram apropriados
por uma categoria de pessoas que deles usufrui, hoje, como lugar para o
exercício de formas específicas de sexualidade.
Adotamos o termo nativo “Cinemão”
em referência aos cinemas pornôs por considerarmos que
estes estabelecimentos, a partir da exibição de filmes pornográficos,
constituem-se como “lugares de excitação” (conforme foram
definidos por um informante) e, assim, podem ser considerados como estabelecimentos
sui generis, diferenciando-se dos cinemas convencionais.
Para este estudo, realizamos um mapeamento
dos cinemas situados na região que envolve a Praça da República,
o Largo do Paissandu e a região conhecida como “Boca do Lixo”. A
partir deste mapeamento, lançamos mão de conceitos e categorias
da antropologia urbana para classificar e analisar nosso objeto.Entre eles
as categorias “mancha”, “pórtico” e “circuito” (Magnani
2002).
Os cinemas pornôs do São
Paulo nunca haviam sido estudados de forma sistemática, faltando-nos
referenciais bibliográficos que nos servissem de base e com os quais
pudéssemos debater. Por isso a importância da etnografia,
na qual assumimos uma postura exploratória de aproximação
com o campo, a partir da qual pudemos reconhecer os principais traços
e questões que norteariam nossas pesquisas. Outro aspecto importante
de nossa pesquisa foi a descoberta do potencial da Internet, principalmente
da plataforma relacionamento Orkut,
como ferramenta de pesquisas
.
A Orkut facilitou a aproximação com os freqüentadores
dos cinemas pornôs, uma vez que eles participam de comunidades afins
para discutirem a respeito de suas experiências nesses ambientes.
Por meio dos espaços on-line chegamos aos off-line, estabelecendo
a interação com esses freqüentadores e/ou conhecedores
dos “cinemões”
.
A comunidade da Orkut “Cinemões
de São Paulo”, a principal delas, funciona como um guia ou centro
de informações onde se trocam dicas sobre quais são
os melhores cinemas do gênero, maneiras de se comportar neles, tipos
de comportamento aceitos e os mal-vistos etc. Notamos a prevalência
da opinião de certos membros, que chegam a fazer propaganda velada
de determinados cinemas.
A mancha
Das quarenta e quatro salas de cinema
que compunham a chamada “Cinelândia Paulistana” (Cf. Mastropaulo
2005), duas se tornaram igrejas, nove são estacionamentos, duas
são, atualmente, lojas, uma é um centro cultural, três
transformaram-se em casas de jogos debingo, cinco estão fechadas
e três foram demolidas. Das dezoito restantes, dezessete são,
hoje, cinemas pornôs. Somente o remanescente Cine Marabá continua
exibindo filmes convencionais, apesar da franca decadência em razão
da concorrência dos cinemas de Shopping Center.Esses dezessete, mais
os cines Ponto Zen, Strong, Cine Planet G e Santana, compõem nossa
mancha dos cinemas pornôs do centro. Segue abaixo o mapa da mancha
e a tabela contendo os nomes e a localização desses cinemas,
organizados por ordem de endereço.
Fonte: Pesquisa de Campo, 2007
Legenda:
1 Cine República - Av. Ipiranga
752
2 Cine Paris - Av. Ipiranga 808
3 Cine Windsor - Av. Ipiranga 974
4 Cine Palácio das Diversões
- Av. Rio Branco 425
5 Cine América - Av. Rio
Branco 49
6 Cine Ponto Zen - Av. São
João 1119
7 Cine Saci - Av. São João
285
8 Cine Las Vegas - Av. São
João 431
9 Cine Art Palácio - Av.
São João 419
10 Cine Hollywood/Roma - Av. São
João 577
11 Cine Ouro - Largo do Paissandu
s/n
12 Cine Arouche - Largo do Arouche
426
13 Cine Strong - Rua Amaral Gurgel
206
14 Cine Los Angeles - Rua Aurora
501
15 Cine Áurea - Rua Aurora
522
16 Cine Studio 706 (ou Cine G) -
Rua Aurora 710
17 Cine Santana - Rua do Boticario
142
18 Cine Dom José - Rua Dom
José de Barros 306
19 Cine Globo - Rua Ipiranga 955
20 Cine Planet - Rua Rego Freitas
56
21 Cine Cairo - Rua Formosa 401
O conceito de mancha é
assim definido por Magnani:
“um aglomerado de estabelecimentos
reconhecidos por seus freqüentadores como similares do ponto de vista
dos serviços que oferecem e da sociabilidade que propiciam, e que
apresentam uma implantação mais estável tanto na paisagem
como no imaginário, constituindo pontos de referência, e que
através da mancha pode-se referir a algo com formas e fronteiras
difusas, com intervalos e respingos.” (Magnani,
2005)
A Avenida São João serve
como eixo em torno do qual orbita a mancha dos cinemas pornôs (vide
mapa acima), estendendo-se desde o Vale do Anhangabaú (Cine Cairo)
até a Rua Amaral Gurgel (Cine Strong). Podemos, então, traçar
duas concentrações: uma, mais espaçada, em torno do
Largo do Arouche e outra, mais densa, nas cercanias do Largo do Paissandu.
Entre elas temos como marco divisor, para o qual utilizamos o conceito
de pórtico, um quarteirão ocupado por outros estabelecimentos
e, principalmente, pela figuras controversas dos imigrantes nigerianos.
O pórtico é definido como uma espécie de “terra de
ninguém, lugar do perigo, preferido por figuras lineares e para
a realização de rituais mágicos – muitas vezes lugares
sombrios que é preciso cruzar rapidamente, sem olhar para os lados”
(Magnani 2002).
Barbosa da Silva
(1959) nos mostra que desde pelo menos a década de 1950 esta centralidade
f era um reduto homossexual, chamada por ele de “base espacial do grupo
homossexual”.
“A área compreendida
pela Praça da República, avenida Vieira de Carvalho e Largo
do Arouche tem se mantido como porção inexpugnável
do circuito homossexual paulistano há varias décadas” que
está inserida e articulada em um circuito homossexual em São
Paulo, sendo esse circuito revelado pela “percepção, compartilhada
por seus diversos freqüentadores, de que há similaridades e
diferenças entre os serviços e equipamentos oferecidos por
determinadas territorialidades (...) serviços similares ainda que
com especificidades, em espaços descontínuos” (Simões
e França, 2005).
O circuito dos cinemas pornôs
e o circuito homossexual
Os freqüentadores dos cinemas
pornôs costumam transitar por diversos outras salas do gênero,
além dos da mancha, em outras centralidades da região metropolitana
– como a região do Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, e os centros
de Osasco e Guarulhos
.
Isso nos revelou indicios da presença de um circuito de cinemas
pornôs na região metropolitana de São Paulo Vimos,
também, que esta mancha que encontramos faz parte de outro circuito,
que podemos chamar de homossexual, muito maior, que envolve diversos outros
ambientes: baladas, restaurantes, barezinhos, saunas, casas de shows de
sexo ao vivo e strip tease (teatros), ruas de prostituição
etc. Entretanto, argumentamos que os cinemas pornôs assumem um caráter
marginal, mesmo dentro do circuito homossexual de São Paulo; não
por atrairem muitos freqüentadores de fora do circuito homossexual,
mas também pelo fato de não fazerem parte do mainstream do
circuito homossexual de São Paulo. Tal como um informante desabafou
ao relatar o senso comum no meio homossexual: “os que freqüentam os
bares gays dos Jardins, como a Ultralounge, são bichas finas, e
os que vêm aos cinemões são as bichas pegadeiras, as
qua-quá”.
Segundo Simões e França,
“bichas qua-quá” (ou “bichas poc-poc” ou “bichas um-real”) são
“termos pejorativos, quase categorias de acusação, que pretendem
designar o jovem homossexual mais pobre e efeminado, de comportamento espalhafatoso
e menos sintonizado com linguagens e hábitos modernos de gosto,
vestimenta e apresentação corporal” (Simões
e França 2005).
Esboçando uma classificação
dos cinemas
Descobrimos que alguns cinemas são
marginais mesmo entre os freqüentadores (notadamente, entre a maioria
gay), sendo alvo de críticas e opiniões preconceituosas,
o que nos indica uma certa hierarquia entre os cinemas, da acordo com o
volume de público, a localização e a presença
de prostitutas e travestis. Isto demanda a construção de
uma classificação dos cinemas. Para esta tarefa propomos
a utilização da categoria “cinemão de pegação”,
que são cinemas pornôs onde ocorrem práticas sexuais
entre homens, ou seja, a “pegação”, nome pelo qual essas
atividades são conhecidas no “mundo gay”. Usaremos a categoria “cinemão
de pegação” em conjunto com outras duas categorias nativas:
“cinemão de travas” e “cinemão de rachas”
.
Podemos, assim, distribuir os 21 cinemas da nossa mancha nessas três
categorias.
Os “cinemas de rachas” são
os cinemas onde ocorre a prostituição de mulheres (chamadas
de “rachas” pelos gays, em referencia à vagina), atividade que afasta
a presença dos freqüentadores interessados na “pegação”.
Podemos dizer que a “pegação”, nesses cinemas, é zero
ou quase zero. São eles: Cine Cairo (no Anhangabaú), Cine
Ouro (no Largo do Paissandú), Cine Teatro Santana (na Rua do Boticário),
Cine Globo (na esquina da Av. Ipiranga, com a Rua do Boticário),
Cine Áurea
,
Cine Los Angeles (ambos na Rua Aurora)
.
Os “cinemas de travas” são
estabelecimentos onde ocorre a prostituição de travestis.
Ali, a possibilidade de “pegação” é maior, apesar
do conflito – sempre latente e, às vezes, efetivo – entre os travestis
e os gays à caça de homens, roubando a clientela
dos travestis. Isto afasta boa parte dos interessados na “pegação”.
Entre estes incluímos: Cine Art Palácio, Palácio das
Diversões, Cine Hollywood/Roma e Cine América
.
E por fim, “cinemas de pegação”,
ou seja, cinemas de público completamente masculino (ou quase, pois
travestis e mulheres são raríssimos) que têm como objetivo
predominante a caça, a pegação e, muitas vezes, a
socialização entre gays. Classificaremos como “cinemões
de pegação”, entre os que estão na mancha, os seguintes:
Cine República, Cine Paris, Cine Windsor, Cine Ponto Zen, Cine Saci,
Cine Las Vegas, Cine Arouche, Cine Strong, Cine Studio 706 (ou Cine G),
Cine Dom José, Cine Planet. Sabemos que mesmo entre estes, há
uma certa hierarquia de cinemas dos mais badalados ou preferíveis
– como o Zen, o República e o Saci –, para os menos – como o Las
Vegas
.
Devemos fazer a ressalva que “cinemão
de pegação” não será encarado como uma categoria
excludente, haja vista que mesmo os cinemas onde não registramos
a ocorrência de pegação existe uma “potencialidade
de pegação”, de maneira que podemos classificar os cinemas
como maior ou menor “pegação”. E também há
a possibilidade de se converterem em local de “pegação”,
ou da “pegação” ocorrer esporadicamente neles.
A classificação que
esboçamos aqui está embasada em dois referenciais: o tipo
de público e suas respectivas práticas sexuais; e as opiniões
expressas nas comunidades do Orkut
.O
questionamento desta classificação será importante
uma forma de testar o alcance das opiniões expressas nas comunidades
do Orkut como representativas do circuito de cinemas pornôs como
um todo. Até porque as comunidades dos cinemas pornôs no Orkut
podem ser qualificadas como comunidades gays (inclusive estão inscritas
na categoria “Gays, Lésbicas e Bi”). Isso significa que as pessoas
que as freqüentam são gays (ou pelo menos se assumem como tal
no âmbito do Orkut ou dos Cinemões), trocam informações
sobre os Cinemões ou sobre o circuito gay em geral, e opiniões
a partir de um ponto de vista homossexual. Haja vista que todos os cinemas
que não correspondam bem às expectativas dos freqüentadores
são rechaçados, ou seja, se não tiver “pegação”
não serve.Porém, devemos fazer a ressalva de que, apesar
de serem gays, os membros das comunidade não fazem parte de um certo
mainstream do “mundo gay”, o que pode ser exemplificado pelas constantes
opiniões que desdenham de casas noturnas GLS mais sofisticadas,
como a The Week ou a Ultralounge.
Por fim, alguns pontos devem ser
enfatizados: primeiro, os Cinemas Pornôs não fazem parte do
“mainstream” do “mundo gay”
.
Segundo, os Cinemões são freqüentados por gays e por
não-gays
.
Terceiro, as comunidades do Orkut congregam uma parcela dos gays que freqüentam
o circuito dos cinemas pornôs.
O Ambiente
A maioria dos cinemões são
muito semelhantes entre si em termos de espaço físico. Possuem
uma ou mais salas de exibição de filmes, além de vários
ambientes que se repetem, como o bar, o hall, o dark-room (quarto escuro,
ou com uma pequena fresta de iluminação, usado para práticas
sexuais na maior parte anônimas).A primeira impressão assusta,
pois trata-se de um ambiente sujo e degradado, com muita poluição
visual. Paredes sujas e mal pintadas; em alguns nota-se a fiação
elétrica exposta, algumas cadeiras quebradas e rasgadas, banheiros
movimentados e sujos etc.
No caso dos cinemas 24 horas, por
dificuldades na limpeza e higienização desses espaços
(que é feita com o público presente), a poluição
torna-se muito mais visível, com o chão sempre sujo, com
lixo, camisinhas, bitucas de cigarro, fluídos corporais, e outras
excrescências. Muitas cadeiras são quebradas para apropriação
de mendigos que fazem de duas ou três cadeiras contíguas um
leito.
O Cine Saci se destaca, podendo ser
considerado paradigmático da maioria dos cinemas pornôs. Além
de ser referência presente no discurso da maioria das pessoas com
as quais conversamos, oferece quase que a totalidade dos serviços
de um cine pornô, e congrega categorias muito diversificadas de pessoas.
Destacamos também, como exceção, o Cine Ponto Zen,
que difere dos outros cinemas pela aparência externa e interna mais
clean. Em entrevista, um dos donos nos disse que se preocupa em proporcionar
um ambiente limpo e agradável, para que seu cinema se torne, mais
do que um cinema pornô, um ponto de encontro de um público
discreto.
O Público e suas regras
A diversidade de freqüentadores
é visível desde o primeiro olhar. Um espaço que congrega
em seu interior tipos tão diferentes como “heteros curiosos, bichas
pobres e bichas finas, jovens e coroas, michês malandros e aproveitadores
de toda espécie” etc.
Dentro desse quadro, deve ser destacado
que, no grupo de freqüentadores do cinemão, a grande maioria
é o público gay. Embora este grupo não seja coeso
e homogêneo em termos de orientações ou práticas
da sexualidade, é ele quem dá o tom das normas e atividades
relativas a esse cenário – principalmente da “caça” (como
é chamado o flerte em busca de parceiros sexuais)–, e quem constrói
o discurso em torno dos cinemas pornôs.
A movimentação no interior
da sala de exibição é intensa. Muitos (principalmente
os passivos) circulam nos corredores entre as fileiras de cadeiras para
poder observar os presentes e escolher seu possível parceiro sexual.
O Saci se apresentou como o cinema que mais congrega diferentes atores
dentre aqueles que compõem nossa mancha, lugar onde conseguimos
observar melhor algumas regras muitas vezes implícitas, como a discreta
troca de olhar entre os possíveis parceiros, carregada de significados
peculiares àquela cultura, como as piscadelas analisadas por Geertz.
Conforme nos contou um freqüentador
do cinema, “Só de olhar um bofe eu consigo falar pra vocês
se ele é ativo ou passivo”. A comunicação através
do olhar – muito comum entre os homossexuais – pode ser entendida, neste
caso, como um artifício de coqueteria, como nos mostra Simmel
.
Simmel considera,
também, que “[...] a questão erótica entre os sexos
é de oferecimento e recusa” (1983, p.174), neste caso, uma cruzada
de perna, por exemplo, colocada no contexto cultural do cinemão,
significa o acionamento de uma rede de significados implícita naquele
cenário, operando somente entre os atores que a conhecem e freqüentam.
Com essa atitude mostra-se de uma forma elegante e discreta que não
se está interessado em estabelecer este tipo de relação.
Em contraposição a isso, temos a atitude de oferecimento
que pode ser observada na extravagância do ato da masturbação
que é feita na cadeira do cinemão, apresentando de forma
explicita o órgão genital. Na mesma perspectiva, vimos que
o fato de se deixar vaga a cadeira que está margeando o corredor
e sentando na seguinte, mostra uma disposição para aceitar
prováveis companhias.
O principal atrativo do cine pornô
para muitos gays é a presença de “héteros másculos”.
Uma observação que promove essa interpretação
é o fato de as salas que exibem filmes homossexuais estarem sempre
mais vazias em relação as que exibem filmes heterossexuais,
pois os “héteros másculos” são atraídos por
este último
.
No entanto, a descrição dos cinemas como simples "local de
pegação gay" é redutora. Existem outras regras que
acompanham os diversos outros públicos de freqüentadores que
vão ao cinemão com outros propósitos e finalidades
que não a “pegação” gay, apesar de esta ser uma especificidade
que se destaca
.
Notamos posturas diferentes nos “cines
de rachas” e nos “cines de travas”, cada qual com certos detalhes no que
diz respeito às regras e atores que freqüentam. Vimos que determinados
atores e diversos outros elementos estruturais – o horário, o dia
da semana, o preço, as condições de higiene e a própria
disposição arquitetônica das salas – contribuem para
o tipo de relação especifico que cada freqüentador deseja
estabelecer, que podemos ou não chamar de sociabilidade
.
Podemos concluir das entrevistas e das idas a campo que há certa
busca pela sociabilidade por parte dos freqüentadores. A satisfação
desta busca, no entanto, depende de muitas circunstâncias e tende
a variar conforme as condições proporcionadas pelo local.
Porém, esta interação, quando ocorre, é de
proporções bem menores do que supúnhamos e se dá
em lugares específicos dos cinemas, principalmente nos bares, e
nos saguões de entrada.
Considerações Finais
Cada etnografia que fizemos nos mostrou
uma certa peculiaridade em cada um dos cinemas, que existem realmente diferentes
públicos, diferentes poderes aquisitivos e diferentes práticas
no interior destes espaços. Constatamos que os Cinemões oferecem
diversos serviços e arranjos que podem ou não serem gerais.
O filme, por exemplo, é um serviço geral – mas varia, havendo
cinemas com filmes homossexuais, heterossexuais ou cinemas com ambos os
tipos. Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas
,
não é necessariamente a exibição de pornôs
gays que atraem o público homossexual. Nossa etnografia mostra que
os Cinemões com filmes heterossexuais fazem grande sucesso justamente
porque atraem um público não-gay (ou não declaradamente
gay), de homens com uma performance máscula, ou “jeito de macho”
(Cf. Oliveira 2006
).
Nossa pesquisa mostrou também
que os cinemas pornôs apresentam uma multiplicidade e uma complexidade
de atores e práticas muito maior que a mera definição
“lugar de pegação gay impessoal”, que estes meses de trabalho
de campo não foram capazes de esgotar. Resta ainda uma grande quantidade
de questões em aberto, de contatos a serem realizados e de temas
a serem aprofundados. Ainda não temos dados esclarecedores do porquê
exatamente da pornografia ser adotada como estratégia de sobrevivência
para os estabelecimentos e de como se deu esse processo
.
Outro tema que merece uma abordagem mais aprofundada é a questão
de como funcionam as identidades sexuais no interior dos cinemas pornôs.E,
por fim,, deveremos atentar para o papel da pornografia na criação
de um “lugar de excitação”, no qual os expectadores não
se restringem a este papel, tornando-se, eles também, atores.
Notas
“A internet é hoje um importantíssimo espaço para
a busca de parceiros, trocas, sociabilidade, discussões políticas
e comunicação, com suas salas de bate-papo e, suas listas
de discussão e seus inúmeros e variados sites e portais dirigidos
á homossexualidade em suas múltiplas manifestações”
(Simões e França 2005).
Vale ressaltar, que utilizamos os pares on-line/off-line no lugar de virtual/real
(Cf. Pelúcio 2005). Segundo essa autora,
o par virtual/real implica numa oposição entre esses termos,
e o que se constata é que as interações ocorridas
no universo dito virtual são bastante reais e, muitas vezes, se
pautam na sociabilidade off-line e vice-versa.
Um entrevistado nos revelou que sempre que viaja para alguma cidade do
interior procura saber se existe algum cinema pornô e, caso exista,
tenta conhecê-lo.
A etnografia nos mostrou que a prática da prostituição
feminina, bem como a de travestis, aparecem como elementos diferenciais
importantíssimos para a classificação dos cinemas
pornôs, atestando a quase completa ausência do cine Los Angeles
dos tópicos de discussão das comunidades de cinemas pornôs
do Orkut. Haja vista que o Cine Los Angeles é um local de prostituição
feminina e as comunidades do Orkut são formadas quase que exclusivamente
por gays.
O Cine Áurea é considerado um cinema de “rachas de programa”
pelos membros das comunidades do Orkut; não obstante, diz-se que
a pegação “até rola, mas é muuuuuito mais devagar
que em cinemas mais badalados”.
Devemos aventar a hipótese de formação de um triângulo
de cinemas de prostituição feminina, que teria o Cine Ouro
como vértice e as Avenidas Rio Branco e São João como
lados. Nessa região também se verifica a existência
de prostituição feminina nas ruas. A única aparente
exceção neste triângulo parece ser o Cine América,
sobre o qual trataremos mais adiante.
O Cine América representa um caso especial. O estabelecimento era
um dos principais pontos de prostituição de travestis do
centro, até que os “travecos” foram expulsos pela administração
do cinema, em 2006. Atualmente, parece ser um território de ninguém
(indicando uma possível transição rumo a uma mudança
de características do espaço ou ao seu fechamento), haja
vista que, atualmente, o espaço tem uma freqüência mínima
com presenças esporádicas de travestis.
Podemos dizer que os Cinemões de Santo Amaro (como o Cinemar) se
enquadram nesta última sub-categoria: “cinemas de pegação
menos cotados nas comunidades do Orkut”.Os cinemas da região do
Largo 13 de maio, em Santo Amaro, não fazem parte da mancha dos
cinemas pornôs do centro, mas sim do circuito dos cinemas pornôs,
visto que os freqüentadores circulam pelos cinemas dessas diferentes
regiões da metrópole.
Estamos desconsiderando outros usos não-sexuais que se fazem dos
espaços dos cinemas como, por exemplo, local para dormir, principalmente
nos cinemas 24 horas.
Apesar de sabermos que, vez ou outra, pessoas desse mainstream vão
os cinemões.
É importante esclarecer que quando nos referimos aos freqüentadores
como gays não estamos levando em consideração
se eles se assumem sua homossexualidade em sua vida social em geral, mas
apenas no âmbito dos cinemas pornôs e de suas comunidades no
site de relacionamentos Orkut.
“Assim como a sociabilidade joga com as formas da sociedade, a coqueteria
joga com as do erotismo, e essa finalidade de suas naturezas predestina
a coqueteria como um elemento da sociabilidade” (Simmel
1983).
Estes “heterossexuais” são muito difíceis de serem abordados
para entrevistas ou conversas informais.
Nas segundas-feiras, por exemplo, notamos um número mais elevado
de freqüentadores do que nos outros dias da semana, no período
diurno, em virtude do deslocamento de desempregados e outros, para o centro
de São Paulo em busca das agências de emprego e outros estabelecimentos
com semelhantes propósitos.
Entenderemos sociabilidade, aqui, segundo a abordagem da Escola de
Chicago, conforme nos mostra Eufrásio (1996): “modos, padrões
e formas de relacionamento social concreto em contextos ou círculos
de interação e convívio social”. 1996),
Por exemplo, Simões e França (2005).
Tal como a boate pesquisada por Leandro de Oliveira, “A motivação
dos clientes pagantes para freqüentar esse espaço seria a possibilidade
de estabelecer interação erótica com esses sujeitos
classificados como ‘homens de verdade’ ou simplesmente ‘homens’” (Oliveira
2006).
Sabemos, contudo, que a estratégia funciona, visto que o cine Palácio
das Diversões, por exemplo, já opera há 25 anos com
esta categoria de filmes, embora esteja hoje em péssimo estado de
conservação.
Bibliografia Citada
ALMEIDA, Heloisa
Buarque. (2000) “Janela para o mundo: representações do público
sobre cinema”. In: MAGNANI, José Guilherme Cantor & TORRES,
Lilian de Lucca (Org.). Na Metrópole: textos de antropologia
urbana. São Paulo: Edusp – Fapesp.
BARBOSA DA
SILVA, Jose Fábio (1959). “Aspectos Sociológicos do Homossexualismo
em São Paulo”. Sociologia. Vol. XXI, Nº4.
EUFRASIO,
Mario Antônio. (1996) “A temática da sociabilidade na escola
sociológica de Chicago” In: Sociabilidades.
Publicação do LASC – Laboratório de Análises
de Sociabilidade Contemporânea. FFLCH-USP. São Paulo, outubro
de 1996.
GEERTZ, C.
A
interpretação das culturas. Rio, Zahar, 1978.
MAGNANI, J.
GUILHERME C. - "De perto e de dentro: notas para uma antropologia urbana".
RBCS,
vol. 17, n. 49, junho 2002
MASTROPAULO,
Vanderlei Henrique. (2005). Salas no escuro: Passado e Presente (sem
futuro) na Cinelândia Paulistana. Trabalho de Graduação
Individual para o Curso de Bacharelado em Geografia.
OLIVEIRA,
Leandro de (2006). Gestos que Pesam: Performance de gênero
e práticas homossexuais em contexto de camadas populares.
Dissertação (mestrado). Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Instituto de Medicina Social.
PELÚCIO,
Larissa. (2005). Na noite nem todos os gatos são pardos: notas sobre
a prostituição travesti. Cadernos Pagu, Dez
2005, no.25.
PERLONGHER,
Nestor Osvaldo (1986) “O Ghetto e a Boca: A Territorialidade Homossexual”
Revista
Espaço e Debates: Revista de Estudos Regionais e Urbanos,
ano IV, Nº 17.
PERLONGHER,
Nestor Osvaldo (1987). O negócio do michê: prostituição
viril em São Paulo. São Paulo. Editora Brasiliense.
SIMMEL, G.
"Sociabilidade - um exemplo de sociologia pura ou formal" in: Moraes, E.
(org.). Sociologia: Simmel. São Paulo, Ática,
1983, p. 165-181 (Coleção Gdes. Cientistas Sociais).
SIMÕES,
Júlio Assis & FRANÇA, Isadora Lins (2005). “Do ‘gueto’
ao mercado”. Em: GRENN, James & TRINDADE, Ronaldo (orgs.) Homossexualismo
em São Paulo e outros escritos. São Paulo: Editora
Unesp.
