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Para que servem as ruas? A acção
do Estado na transformação dos usos do espaço público
urbano (séc. XIX – XX).
Gonçalo Rocha Gonçalves
CIES – ISCTE, Portugal
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Inúmeros
autores afirmaram a morte da rua na cidade contemporânea. Nomes como
Richard Sennett, Mike Davis ou Jane Jacobs difundiram a ideia de que, ao
longo do último século, as ruas tinham deixado de ser espaços
de socialização. Assim, as ruas teriam sido transformadas
em espaços inóspitos, habitadas por grupos e indivíduos
marginalizados e destinadas a serem um mero espaço de ligação
entre casa, trabalho e actividades de lazer. As suas conclusões,
mais do que negadas ou comprovadas, devem servir de estímulo para
tentarmos compreender o lugar da rua na vida social urbana.
O objectivo
deste texto é mostrar como a função das ruas mudou
de forma significativa nos últimos dois séculos. Em primeiro
lugar, vou introduzir algumas premissas que considero importantes para
uma discussão mais conceptual em torno deste território específico
– a rua. Assumo, contudo, um ponto de vista específico – a acção
do Estado. Assim, uma segunda parte deste artigo dedica-se à identificação
e análise das mudanças operadas sobretudo durante as décadas
finais e iniciais dos séculos XIX e XX nos usos do espaço
público urbano, concebidos, projectados, executados e negociados
por instituições e agentes estatais.
Este
período foi percorrido, em todo o universo urbano, por um movimento
de reforma. Reforma do espaço, mas também dos usos e dos
hábitos. Com a intensificação do crescimento urbano,
a cidade e as formas de vida urbana colocaram novos problemas, exigindo
novas soluções. A reforma do espaço público
urbano deve, assim, ser entendida como uma peça num amplo processo
de reforma do fenómeno urbano. As ruas passaram, aos olhos do Estado,
a ser concebidas como espaços de circulação e mobilidade.
A emergência da Estado, na sua configuração contemporânea,
como agente administrativo capaz de intervir sobre o espaço e relações
sociais é, então, fundamental para compreender as mudanças
na vida urbana moderna. De facto, sob o arco estatal albergaram-se saberes
e práticas que de forma decisiva transformaram as práticas
de rua. Não se deve contudo sobrevalorizar o poder detido pelo Estado.
As mudanças não ocorreram sem uma abrangência social
mais alargada. Em primeiro lugar porque os agentes administrativos eram
(e são) parte integrante da cidade. É um erro transformá-los
em casta à parte ou em homens sem rosto. Estes agentes eram na sua
maioria habitantes da cidade que tentavam gerir; e faziam-no enquanto tal.
Em segundo lugar, as mudanças registadas não se fizeram sem
maiores ou menores focos de resistência por parte dos habitantes
da cidade. Muitas das soluções adoptadas, assim como as razões
para processos temporalmente mais ou menos alargados, geraram-se em processos
de resistência e conseqüente negociação entre
o Estado e as populações. Neste artigo tentaremos demonstrar
como o Estado deve ser visto através da diversidade das suas acções
e como a sua acção é condicionada, mesmo a um nível
micro, pelos habitantes da cidade.
Neste
artigo vamos abordar agentes e instituições estatais relevantes
nas mudanças ocorridas na rua. Em primeiro lugar, os engenheiros.
Num plano destacado, este grupo profissional ocupou os lugares de topo
nas instituições de governo da cidade. Propôs e discutiu
conceitos e soluções de cidade e para a cidade, conduzindo
a mudanças profundas sobretudo ao nível do espaço
construído. Em segundo lugar, os médicos. Eles foram conselheiros
dos engenheiros para um espaço urbano leve, limpo e saudável.
Eles foram os grandes propagadores de hábitos mais saudáveis
e higiénicos. O último e principal exemplo aqui apresentado
é a polícia. A polícia tem sido um aspecto negligenciado
pela história urbana. No contexto da transformação
urbana foram muitas vezes considerados agentes menores. No entanto, actuando
numa dimensão quotidiana, a uma escala situacional, embora algumas
vezes de forma intermitente, deram um contributo fundamental para a mudança
de alguns hábitos urbanos.
As reflexões
contidas neste artigo começaram por ser parte de um trabalho académico
sobre polícia urbana em Lisboa. Mais tarde, a investigação
integrou-se num projecto mais alargado sobre vida urbana .
Nesse contexto, tentei explorar alguns dos resultados obtidos na pesquisa
sobre a polícia inserindo-os na temática mais ampla do governo
da cidade. Desta forma, Lisboa é o caso empírico aqui
contemplado. No entanto, nunca deixei de estabelecer comparações
com outras cidades européias e americanas, não só
porque a comparação é uma metodologia enriquecedora
do trabalho histórico, que se depara frequentemente com lacunas
nas fontes. Mas também porque (como ficará especialmente
evidente no caso da polícia), as estratégias administrativas
adoptadas pelos Estados circularam de país para país influenciando-se
mutuamente, não sendo possível compreender o fenómeno
do Estado como agente social activo sem uma perspectiva global. Este é,
portanto, um trabalho que, incidindo no exemplo de Lisboa, não pode
ser desligado da urbanização como processo global.
A
rua: um território público?
Antes
de avançarmos para a análise da intervenção
Estatal, é necessário proceder a uma aproximação
problematizadora ao conceito de rua. Quer se olhe do ponto de vista físico,
ou das apropriações sociais que os citadinos aí operaram,
as ruas mudaram significativamente durante os séculos XIX e XX.
Por isso, mais do que avaliar situações em concreto importa,
em primeiro lugar, explorar a mudança mais geral no próprio
conceito de rua. Pretende-se, assim, contribuir para um debate em que a
rua pode ser encarada como conceito explicativo de certos processos sociais.
A rua
é um espaço urbano. Trata-se de uma forma de organização
do espaço intrinsecamente ligada ao fenómeno urbano, onde
a densidade do espaço construído assume proporções
únicas. Nos campos, onde as casas são normalmente envoltas
em terrenos agrícolas, não se formam estes espaços
de ligação entre as habitações. Só a
aglomeração de pessoas em núcleos habitacionais alargados
tende a gerar estes espaços: as ruas. No entanto, o conceito de
rua enquanto espaço público é um assunto que levanta
alguns problemas. De facto, a invenção da rua como lugar
público é um processo historicamente determinável
e não uma característica intrínseca ao próprio
espaço. A rua não foi sempre um lugar de acesso irrestrito
e público no sentido de pertencer a todos. Pelo contrário,
a afirmação do carácter público da rua é
um processo que podemos observar ao longo de todo o século XIX,
sendo que em Portugal ocorre especialmente durante a segunda metade do
século. Esta mudança não pode ser separada da emergência
do Estado enquanto entidade emanada do todo social e da consolidação
do seu poder. Mas, mais do que o carácter público, a rua
ganharia ao longo do século XIX uma função social
específica – a circulação. Este processo deve ser
visto sob duas perspectivas: por um lado, as numerosas práticas
que vão deixar de tomar parte nas ruas da cidade. Por outro, a forma
como se estruturou a rua para esta nova função.
A afirmação
do carácter público – no sentido de ser de todos – é
um processo que, à partida, parece residir na própria afirmação
do Estado e do império da lei. Em Portugal, apenas na segunda metade
do século XIX a ruas da cidade passaram a ser, em letra de lei,
consideradas território de todos. Numa lei datada de 31 de Dezembro
de 1864 estabeleceu-se o carácter público das ruas da cidade,
delegando ao Estado o poder e a responsabilidade pelo seu governo:
“Estas ruas [do interior
das povoações] são públicas, designadas ao
uso de todos, sem excepção de pessoa; ninguém pode
delas exclusivamente dispor e gozar, exactamente como acontece nas estradas
de todas as ordens e nos caminhos-de-ferro. O facto de serem as estradas
situadas num município, num distrito, num país, em nenhum
tempo foi razão justa para proibir que por elas livremente transitassem
os estranhos a esse município, distrito ou nação.
O mesmo sucede nas ruas. (…) São as ruas do domínio público,
porque fazem parte da viação pública ordinária.
E classificadas assim, é incontestável o direito que o governo
tem de superintender na sua construção, conservação
e polícia, não enfraquecendo a acção municipal
ou cerceando as atribuições das câmaras, senão
mantendo-as e fortalecendo-as com os auxílios técnicos e
administrativos da autoridade central. ”
Naturalmente, o Estado não
passou imediatamente intervir de forma regular sobre a rua. Esse foi (e
continua ainda agora a ser) um processo lento, com constantes avanços
e recuos. Um processo que deve ser analisado não só do ponto
de vista legal, por meio da criação de legislação
que legitima a acção estatal sobre o espaço público
urbano, mas, também, de um ponto de vista mais estrutural, dos recursos
humanos disponibilizados pelo Estado para agirem sobre a rua. Assim, nesta
lei ficou sobretudo expressa a centralidade do Estado e da lei como mediadores
das relações sociais e a afirmação do carácter
público das ruas da cidade.
Para melhor compreendermos as transformações
ocorridas a partir do século XIX é fundamental recuarmos
no tempo. A estruturação do espaço urbano antigo foi
um processo muito diferente do actual. Na organização espacial
da cidade pré-industrial a forma e os usos da rua exprimiam uma
organização da vida urbana que, por ser diametralmente oposta
à que se vem a verificar nas sociedades capitalistas, é extremamente
útil na análise dos processos de transformação
das ruas na contemporaneidade. Assim, para compreender as mudanças
operadas a partir do século XIX é necessário começar
por perceber, de forma sucinta, a situação anterior.
As ruas da cidade foram durante
séculos uma extensão do espaço doméstico. De
facto, no caso das cidades medievais não é possível
estabelecer uma fronteira clara entre o que era espaço privado e
espaço público; eram, ambos, prolongamentos um do outro.
Assim, o traçado tortuoso das cidades antigas existia “por ausência
de autoridade municipal e de veículos de transporte, [mas também]
por um ideal de subtrair a vida familiar aos olhares de quem passa” (Ribeiro,
1994: 194). Num emaranhado onde o espaço doméstico e o público
se confundem, surgem então eixos principais para onde são
canalizados o trânsito e o comércio: eram as "Ruas Direitas"
.

Uma
característica, no entanto, era comum a todo o traçado urbano:
a vida urbana que hoje entendemos como privada estendia-se sobre rua. A
etnografia de Leite de Vasconcelos sobre a Rua Direita de Chaves dá-nos
uma idéia do que seria a vida nas urbes medievais e o papel que
nelas desempenhava o espaço rua (Vasconcelos,
1927:67-68). Ora vemos um sapateiro com o ofício ao lado; ora, mais
além, um latoeiro, com seu estendal de embudes, candeias, remeias,
grabanos ou caços, escuelas, expostas à contemplação
dos transeuntes em varas e arames, ou pousados em mesas de pau. Num sítio
vendem-se açafates e cestinhos de salgueiro e giesta, às
vezes enfeitados de cores; noutro vendem-se pães estendidos em toalhas
brancas; noutro tamancos ou socos. Enfim, não apenas habitação
e trabalho se confundem, como espaço privado e espaço público
se parecem entrelaçar num todo de difícil demarcação
de fronteiras.
Em Lisboa, alguns nomes de ruas
são ainda o rasto de uma estruturação do espaço
urbano bastante diferente da actual. Desde os nomes que remetem para actividades
económicas: o beco as escadinhas ou o largo das Olarias, o largo
das Alcaçarias bem junto do beco dos Curtumes, o beco dos Agulheiros
ou as mais centrais ruas dos Sapateiros, Retroseiros e Douradores. Passando
também por uma ligação às sociabilidades aí
praticadas, como são os exemplos dos vários espaços
“jogos da bola” ou a calçada do Jogo da Pela. Estes nomes são
uma indicação de tudo o que numa rua se passava, quer nas
casas que a ladeavam, quer no seu próprio leito. Vemos assim que
as ruas, antes de serem de todos (espaço público, portanto),
eram sobretudo de quem nelas habitava, de quem as usava. Usos que se alargavam
consoante as necessidades de quem delas de apropriava.
A partir daqui, o Estado centralizado,
primeiro na sua encarnação iluminista e absolutista no século
XVIII e, depois, no advento do liberalismo e da democracia nos séculos
XIX e XX, consolida o seu poder, sustentado num conceito de administração
activa, que o impulsionou para uma regulação social cada
vez mais visível (Hespanha,
2005). O Estado vai, então, assumir-se como actor privilegiado na
regulação da rua.
Ainda
antes de avançarmos para uma análise dos agentes e das instituições,
devemos ressalvar o papel do direito na transformação urbana
ocorrida a partir do século XIX. O sistema de controlo e de administração
implementado durante os últimos dois séculos sustentou-se
no pilar basilar do império da lei. De facto, a lei, nas suas várias
tipologias, foi um poderoso veículo codificador de valores urbanos.
As posturas municipais em particular são uma fonte central para
a compreensão do controlo estatal sobre o espaço público
urbano no seu conteúdo mas também nas formas como foi aplicado.
Pretendemos agora perceber como este movimento legal teve correspondência
no campo das práticas de governo e de administração.
A colocação de carris
constituiu um importante momento
Os
engenheiros: a construção material da cidade
Durante
o século XIX a engenharia afirma-se como uma das mais poderosas
e influentes comunidades profissionais. A emergência profissional
dos engenheiros decorreu sobretudo de dois processos: a separação
da instituição militar e consequente afirmação
da engenharia civil; e a afirmação do engenheiro como elemento
fulcral num desenvolvimento sustentado nos melhoramentos materiais. Seguindo
o modelo francês, e contrariando o modelo inglês, seria o Estado
o principal empregador dos engenheiros portugueses (Lisboa,
2002:11-14). A criação do Ministério das Obras Públicas
em 1852 constituiu um primeiro momento de afirmação social
dos engenheiros. No entanto, é a sua acção ao nível
da administração municipal que aqui nos interessa abordar.
Nos
serviços técnicos municipais de Lisboa consolidou-se o poder
dos engenheiros, não só por serem possuidores de um saber
técnico fundamental para a construção do espaço
urbano, mas também porque assumiram protagonismo assinalável
ao nível político. Estes homens afirmaram-se, então,
como detentores da capacidade técnica e do poder político
para a modernização do espaço público urbano.
O papel
dos engenheiros já tinha sido fundamental na reconstrução
da cidade após o terramoto de 1755, mas apenas na segunda metade
do século XIX a sua acção se consolida nas práticas
administrativas quotidianas. Significativamente, o primeiro engenheiro
a destacar-se dentro da máquina administrativa municipal era de
origem francesa: Pierre Joseph Pezérat. Ele foi o responsável
pela introdução na agenda municipal de um conjunto de assuntos,
entre eles o estado das ruas, que constituem uma grande parte do que hoje
consideramos ser a administração municipal. Em 1874 entrava
para os serviços camarários o engenheiro Ressano Garcia,
que se tornou rapidamente uma figura emblemática da expansão
oitocentista da cidade de Lisboa. Para além do planeamento, projecção
e construção de toda uma nova parte da cidade que se afastava
do rio em direcção ao interior, importa aqui destacar o papel
de Ressano Garcia na reorganização e modernização
dos serviços técnicos camarários. De facto, sua acção
enquanto urbanista tem sido ao longo do tempo realçada; a reforma
que imprimiu aos serviços camarários introduzindo procedimentos
administrativos que agilizaram e tornaram mais eficaz a sua acção,
deve também ser tida em conta, uma vez que possibilitou uma actuação
mais regular da Câmara Municipal. Nos anos 1930, coincidindo com
o dealbar de um regime político autoritário – o Estado Novo
–, surgiu Duarte Pacheco. Antigo director da principal escola superior
de engenharia de Portugal, ocupou durante perto de uma década, simultaneamente,
os cargos de Ministro das Obras Públicas e de Presidente da Câmara
Municipal de Lisboa. Esta sobreposição de cargos deixava
visível a indefinição de fronteiras entre o que era
Estado Central e Estado Local que, de resto, se vinha verificando desde
o século XIX.
Estes homens, e os serviços
que eles encabeçavam, destacaram-se em diversos aspectos. Observamos
a introdução do moderno urbanismo edificando novas áreas
com artérias amplas de desenho regular e ordenado, privilegiando
a boa circulação. No caso de Lisboa, podemos citar especialmente
os exemplos das avenidas da Liberdade, Fontes Pereira de Melo ou da República.
Enfim, toda a zona que se convencionou chamar Avenidas Novas e que delimitou
a expansão urbana do final do século XIX. O planeamento urbano
marcou as cidades contemporâneas. Em Lisboa, os planos de melhoramentos
gizados nas décadas finais do século XIX constituíram
uma pré-anunciação duma urbanização
programada que se difundiria no século XX. Assim, depois de décadas
de discussão, em 1948 era finalmente concluído o Plano Director
de Urbanização de Lisboa. Como resultado de esforços
que se intensificaram com a presidência de Duarte Pacheco, a existência
de um programa de urbanização que, no mínimo, orientava
a expansão da cidade significou a institucionalização
de um modelo político-urbanístico de acção
que ainda subsiste actualmente. Estes planos são o exemplo paradigmático
do poder dos engenheiros no controlo da direcção da urbanização.
Um outro campo de acção
dos engenheiros actuando ao serviço do Estado é normalmente
esquecido. Num movimento que hoje designaríamos de renovação
e requalificação do espaço urbano foram, ao abrigo
da autoridade do Estado, encetadas obras que visavam melhorar as condições
dos espaços já então edificados. Sob a designação
de “embelezamento”, foram introduzidas mudanças profundas no espaço
da cidade (Silva, 1994, 2001).
Estas acções tinham, na origem, múltiplos factores:
a melhoria da salubridade das habitações, a introdução
de transportes públicos, a segurança de quem circulava, entre
outros. Desta forma, empreenderam-se demolições de
edifícios, a renovação das velhas ruas com o alargamento
e eliminação de pequenos e confusos espaços (boqueirões,
becos etc.), a pavimentação das ruas, a construção
de passeios, elevadores, escadinhas e rampas que facilitassem a circulação.
Ainda, no campo da circulação destaca-se, a partir da década
de 1920, a introdução de normas de circulação
aplicadas através de elementos físicos introduzidos nas ruas.
São exemplos a sinalética vertical ou a marcação
de traços e mensagens no pavimento das ruas (McShane,
1999).
Se o planeamento “zoning” atribuiu
a determinadas zonas da cidade funções de habitação,
serviços ou indústria, atribuiu também às ruas
uma função específica: a de circulação.
A metáfora das ruas como artérias, por onde os fluxos da
cidade se devem movimentar, foi amplamente difundida desde o início
do século XX (Baldwin,
1999:201-229).
A
acção dos engenheiros foi fundamental na transformação
das ruas em espaços de circulação. A circulação
automóvel passou, no caso de Lisboa durante a década de 1920,
a ser um elemento incontornável nas ruas da cidade. Os engenheiros
foram arautos
de novas ruas que, promovendo o trânsito automóvel, se esforçaram
em proceder a uma separação entre o lugar dos veículos,
central na via pública, e o lugar dos pedestres, num espaço
lateral. Este foi um processo que formatou o espaço público
urbano a um aspecto que ainda hoje nos é familiar.
Os
médicos: “bons ares” na cidade e a cruzada da limpeza
O ano
de 1848 não foi apenas de revoluções e do Manifesto
Comunista de Marx e Engels;, foi também o ano do primeiro Public
Health Act em Inglaterra. Num país normalmente avesso a grandes
interferências governamentais, este momento foi o significado da
emergência de um movimento cada vez mais visível – as preocupações
com a saúde pública.
Polícia e padeiro em 1911
- Joshua Benoliel
A cidade
foi recorrentemente representada como um espaço decadente, sujo,
repleto de vícios e maus hábitos. Ruas imundas conduziam,
na passagem do século XIX para o século XX, a dois tipos
de preocupação: ao nível sanitário (com
a sujidade das ruas a ser entendida como factor essencial na transmissão
de doença; o medo dos miasmas canalizou numerosas preocupações,
constituindo motor para numerosas mudanças operadas na cidade) e
a um nível mais simbólico (a sujidade da rua era entendida
como sinónimo de decadência moral de toda a sociedade, algo
que deveria ser combatido por todos os habitantes, mas, sobretudo, pelo
governo activo do Estado). Os médicos e suas múltiplas teorias
de higiene foram poderosos agentes no processo de retirada da rua de numerosas
actividades. Desde vários tipos de comércios ambulantes até
à regulação e repressão de comportamentos moralmente
condenáveis, os médicos foram os ideólogos, mas também
os executantes, de políticas estatais de intervenção
sobre a rua com o objectivo de as limpar.
As correntes
de higiene e saúde pública não tinham a rua como finalidade
exclusiva; muito pelo contrário. A rua surgia como unidade específica,
dentro de uma ampla intervenção que contemplava assuntos
como a higiene individual, a salubridade das habitações ou
as políticas que visavam o controlo dos animais que circulavam pela
cidade. Interessa-nos aqui, num registo exploratório, tentar identificar
o lugar da rua na higienização da sociedade e o papel do
Estado nesse processo.
Os médicos
começaram por ser muito importantes como conselheiros dos engenheiros
na definição do espaço construído, projectando
novas ruas onde o ar pudesse circular livremente. Mas onde, provavelmente,
a sua acção se tornou mais visível foi na promoção
de novos modelos sociais de comportamentos higiénicos ao nível
do individuo mas, também, do colectivo social. A sua critica às
formas tradicionais de fazer comércio, onde a rua e a praça
surgiam como lugares centrais, resultou, por exemplo, no amplo movimento
de criação de mercados e matadouros municipais (ver Joyce,
2003).
A ciência
do urbanismo que se consolidou durante o século XIX deveu muito
ao desenvolvimento e aos ensinamentos extraídos da medicina social.
Os departamentos de limpeza pública passaram, na segunda metade
do século XIX, a ser um elo fundamental da administração
municipal. Até nos Estados Unidos, onde os poderes públicos
se mostravam sempre relutantes em assumir novos poderes, as instituições
municipais investiram significativos recursos nas divisões de limpeza
das ruas. Ao abrigo das concepções científicas da
propagação de germes, difundidas pelos médicos, figuras
como George Waring, Comissário de Limpeza das Ruas de Nova Iorque
na década de 1890, ganharam proeminência nas instituições
de governo da cidade (McShane,
1994: 50-56).
Em Lisboa, a crise sanitária
de 1856 - 1858 foi marcada por surtos epidémicos de cólera,
febre-amarela e difteria, atingindo-se uma taxa de mortalidade que, durante
o século XIX, apenas foi superada no ano de 1833 (Rodrigues,
1995). Este foi um momento de reconhecimento das deficientes condições
sanitárias de Lisboa. Em primeiro lugar, criticaram-se as condições
de habitabilidade, evidenciando-se as deficientes condições
das habitações existentes. Mas, também, o aspecto
mais geral da cidade, e, em particular, as condições higiénicas
das ruas mereceram fortes críticas. É aqui que se iniciam
as discussões em torno da necessidade de uma rede de esgotos que,
para melhorar as condições sanitárias do espaço
urbano, retiraria das ruas toda a espécie de imundices (cf. GOMES,
1871). Ao longo das décadas seguintes tanto o Estado central como
o local vão aumentar os seus quadros com profissionais médicos.
No Estado central através da Direcção Geral de Saúde
(FARIAS, 1834), onde se destacaram
os directores Ricardo Jorge e José Alberto Faria, actuando através
dos delegados e sub-delegados de saúde. E no município, através
da sua colocação nos Serviços de Limpeza, sem esquecer
os médicos veterinários que também viram o seu número
aumentar entre os funcionários municipais.
Um dos exemplos em que a acção
dos médicos sobre a rua mais foi visível é o da prostituição.
O controlo sobre a prostituição foi uma constante ao longo
da história. No entanto, as décadas finais do século
XVIII marcaram uma intensificação dos esforços reguladores.
No advento do liberalismo, já no século XIX, este controlo
assumiria novos contornos, baseados num novo modelo de Estado administrativo.
No caso de Lisboa, a questão do controlo sobre a prostituição
ficou marcada pela obra Da Prostituição na Cidade de Lisboa
de Francisco Ignácio dos Santos Cruz em 1841. Não por acaso,
o autor, médico formado na Universidade de Coimbra, era à
data vice-presidente do Conselho de Saúde Pública do Reino.
Assinale-se que a revolução liberal que ocorreu em Portugal
durante a década de 1820, reconhecendo os avanços feitos
desde o século XVIII, introduziu uma nova dinâmica nas questões
de saúde pública (Oliveira,
1992: 3-31).
O controlo quotidiano da prostituição,
instituído em diversos regulamentos ao longo do final do século
XIX e princípio do século XX, tinham como principal objectivo
o controlo das doenças venéreas, por meio da inspecção
sanitária rotineira às prostitutas, que para o efeito procederiam
a um registo oficial (Garnel,
2002, 2003). Mas outra dimensão da regulamentação
traduzia uma forte dicotomia público / privado. Em Lisboa, ao contrário
de outras cidades, a lei de controlo da prostituição não
instituiu um
red light district. Apesar de existirem zonas da cidade
onde as práticas da prostituição eram mais frequentes,
elas se disseminavam por toda a cidade. Assim, um aspecto normativo introduzido
nos regulamentos interessa-nos particularmente para compreendermos aquilo
que designámos como o lugar da rua no processo de higienização
da sociedade.
A prostituição apenas
seria tolerada
desde que remetida ao espaço privado – o bordel. Desta forma, o
espaço público devia ser liberto e limpo de actividades moralmente
condenáveis. A tolerância da prostituição tinha
uma das suas principais bases na repressão da prostituição
quando exercida na rua. Consequentemente, deveria existir uma limitação
desta actividade ao espaço privado, numa casa de quatro paredes
e janelas tapadas. Com efeito, não só era considerada esta
fronteira mais geral, como também as acções que colocassem
em causa esta separação. Os regulamentos referiam-se então
ao “janelar” das prostitutas. Elas estavam impedidas de vir à janela
tentar cativar clientes, devendo as janelas de suas casas estarem tapadas
com tábuas. A separação entre os territórios
públicos e o espaço privado deveria ser total. A rua era
um espaço a ser protegido e liberto para que todos pudessem circular.
A divisão entre espaço público e privado no controlo
da prostituição foi transposta para a letra de um popular
fado:
“É numa rua bizarra
A casa da Mariquinhas
Tem na sala uma guitarra
E janelas com tabuinhas
Vive com muitas amigas
Aquela de quem vos falo
E não há maior regalo
Que a vida de raparigas
É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Se canta o fado à guitarra
De comovida até chora
A casa alegre onde mora
É numa rua bizarra.”
(”A Casa da
Mariquinhas”, de Silva Tavares & Alfredo Marceneiro, sublinhado meu).
A
Polícia: ordem, resistências e negociação dos
usos da rua
Se as
acções de engenheiros e médicos têm sido muito
estudadas por historiadores, as práticas policiais, entendidas neste
contexto de transformação dos usos da rua, são, ainda,
um tema por estudar. A polícia, na sua relação com
o espaço urbano, constitui uma temática que apenas superficialmente
tem sido abordada.
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