Aceitando o desafio de refletir sobre
a cosmologia e a sociabilidade de um determinado grupo de “moradores de
rua”
da cidade de São Carlos (interior do estado de São Paulo),
sob uma perspectiva antropológica, iniciamos um ensaio etnográfico.
A escolha desse objeto se deu, em boa medida, pelas inquietações
teóricas e pessoais de cada um e pela escassez de análises
voltadas para o tema. Tendo em vista as limitações dessa
pesquisa – sem a utilização direta de uma bibliografia -
admitimos que os resultados são preliminares, parciais e de difícil
generalização. Nesse sentido, a análise aqui desenvolvida
não tem a pretensão de esgotar a discussão proposta,
mas apontar algumas possibilidades interpretativas e fomentar futuras teorizações.
Inicialmente, partilhávamos
de uma série de pré-noções a respeito do objeto,
o que, num primeiro momento, trouxe-nos algumas dificuldades de efetivação
da pesquisa, desde a identificação visual/espacial à
abordagem primeira dos agentes envolvidos. Conseqüentemente, vivenciamos
momentos iniciais de frustração e incerteza, que inclusive
nos fizeram repensar nossas próprias concepções e
posturas teórico-metodológicas sobre “moradores de rua”.
Como primeira tentativa, imaginávamos
encontrá-los em lugares específicos (como rodoviária,
praças escuras e becos soturnos) durante o período da noite,
sozinhos ou em pequenos grupos. Desse modo, pretendíamos estabelecer
contato, com café e cigarros, para uma conversa informal. Contudo,
nossas pretensões foram mal sucedidas e, após algumas horas
de “busca”, resolvemos mudar nossa estratégia, recorrendo ao albergue
noturno de São Carlos para mais informações.
Numa segunda tentativa, após
localizar o grupo em questão – reunido na praça Nossa Senhora
do Carmo, ao lado do cemitério na Avenida São Carlos
– aproximamo-nos desse com cautela e receio, temendo produzir má
impressão que levasse a uma subseqüente não aceitação.
Após estabelecer um primeiro contato, vale ressaltar a rápida
percepção de nossos objetivos ilustrada na frase: “Vocês
não vão tirar foto não, né?”. Também
foi levantada a hipótese de que nós, estudantes, estaríamos
lá para “pegar as idéias da galera e botar num computador,
escrever livros, fazer a história da gente”.
A partir desse episódio, apesar
de nos apresentarmos como estudantes de Ciências Sociais, optamos
pela não utilização de nossas câmeras, gravadores
de som e mesmo de entrevistas como recurso metodológico
.
Além disso, nossa escolha por trabalhar, preferencialmente, na praça
deve-se ao fato de que se trata de um local apropriado pelos “moradores”,
onde as interferências institucionais se dão de forma mais
amena. Dado que nossa equipe, desde o início, foi composta por quatro
pesquisadores, foi possível abordar temáticas diversificadas
e abrangentes no contexto em questão.
Trecheiros e trecho: identidade
e dinâmica espacial
À medida que estabelecemos
diálogo com as pessoas, notamos que o grupo é heterogêneo
em sua composição. A maioria é do sexo masculino,
com idades que variam entre 20 e 50 anos, provenientes das zonas urbana
e rural das cidades de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro,
Maranhão, Mato Grosso e Goiás. Contudo, devemos ressaltar
que, de acordo com uma das assistentes sociais entrevistadas durante a
pesquisa, o maior percentual da população em situação
de rua do estado de São Paulo é proveniente da própria
região Sudeste, contradizendo a noção do senso comum
de que viria da região Nordeste.
Optamos por trabalhar com a praça
do cemitério por se tratar do principal ponto de fluxo de uma população
migrante e itinerante. No universo simbólico nativo utiliza-se o
termo trecho para designar esses espaços urbanos apropriados
pelos trecheiros e pelos quais eles pingam (transitam). Toda
cidade pode possuir um ou mais trechos. Desse modo, o trânsito
de trecheiros pode se dar dentro de uma mesma cidade ou intermunicipalmente
sendo que, na maioria das vezes, as duas práticas coexistem, estando
altamente organizadas e delimitadas para o uso dos mesmos.
Apesar de a praça ser um ambiente
público, há uma demarcação simbólica
do trecho que se dá a partir da ocupação não
aleatória do espaço com seus pertences
,
de modo que a apropriação desse ambiente pelo grupo seja
perceptível para as outras pessoas. Algumas vezes, quando surge
a necessidade de se mudar de trecho devido à não-aceitação
de um novo membro, a mudança ocorre gradualmente, “de um em um para
não dar na cara”. Na verdade, existem determinados códigos
que não permitem a inserção de qualquer indivíduo
na banca (categoria nativa usada para definir um grupo de trecheiros),
o que caracteriza a formação de diversos trechos.
A dinâmica do grupo é
extremamente instável e sua composição varia constantemente
.
Embora a identidade trecheira seja compartilhada por todos num mesmo
território, existem diferentes modos de “viver na rua” (mesmo em
se tratando de uma mesma banca), na qual: a) alguns alternam vivência
na rua com vivência em residência da família; b) possuem
família em São Carlos, mas vivem na rua e c) não permanecem
num lugar fixo por muito tempo.
Trecheiro no trecho:
uma identidade compartilhada
Adotaremos o conceito de identidade
para caracterizar um estilo de vida trecheiro no que tange à
formação de um grupo, mesmo instável, que compartilha
uma simbologia e valores em comum. Esse conjunto de códigos está
mais atrelado ao território (trecho) do que aos sujeitos.
Sendo assim, o fluxo contínuo desses indivíduos não
altera a simbologia daquilo que diz respeito ao “ser” trecheiro dentro
de determinado trecho.
Algumas noções compartilhadas
pelo grupo de trecheiros são: correria e respeito.
De acordo com a concepção local, correria remete aos
mecanismos de busca
como pedir esmolas, olhar carros, praticar furtos e, eventualmente, trabalhar,
informalmente, para aquisição de aguardente, drogas, comida
e medicamentos, bem como o dinheiro necessário para a realização
dessas trocas. Dinheiro este que deve ser compartilhado com toda a banca
que, como vimos, trata-se do grupo de pessoas presentes e aceitas no trecho.
Dentro da realidade dos trecheiros,
a idéia de respeito assume extrema importância para a organização
do grupo. Trata-se de um conjunto de valores que, compartilhado, garante
consonância ao trecho. Ajuda mútua, consciência dos
limites estabelecidos pela simbologia nativa e até o tempo de vivência
no trecho são alguns fatores abrangidos por esse. Além disso,
a correria também é uma forma de obtenção
de respeito na banca, pois, tratando-se de um mecanismo eficaz de aquisição
de dinheiro e tendo em vista que esse é coletivo e não individual,
é fato, como observamos, que quem mais contribui é
mais respeitado pela banca.
Morador de rua versus Trecheiro:
uma identidade contrastiva
Ao questionarmos sobre o que seria
um Trecheiro
,
nos foi explicado que se tratava daquele que não pára em
lugar nenhum, vive na rua, pingando de cidade em cidade e sobrevivendo
de bicos e correrias. Em contraposição, notamos mais
uma categoria nativa, a do pardal: aquele que se fixa numa cidade,
igualmente sobrevivendo de bicos e correrias. Dado que Trecheiro
está pautado numa lógica de instabilidade, a partir do momento
em que se fixa em um único trecho adquire outra conotação,
podendo tornar-se pardal. Nesse sentido, ser pardal é
fixar-se afetiva e territorialmente em um trecho específico ou -
nas palavras de uma trecheira - “é pardal porque fica numa
árvore, faz um ninho”. O termo Trecheiro é uma construção
produzida exclusivamente para se distinguir da figura frágil de
pardal. Desse modo, tem-se categorias opostas e complementares,
uma vez que só é possível definir a figura de Trecheiro
a partir de sua oposição ao pardal.
Por sua vez, o termo pardal
é por eles construído estritamente para a negação
daquilo que seria um “morador de rua”, já que esta segunda qualificação
só é utilizada por aqueles que não compartilham do
universo simbólico trecheiro. A negação do
“ser morador de rua” se dá por conta de seu aspecto estigmatizante,
ou seja, sua conexão com a figura frágil, alcoólatra,
doente mental e abandonada pela família. Apesar disso, a definição
de pardal aproxima-se mais da conotação de “morador de rua”,
no que diz respeito a uma certa fixidez que em si pressupõe sua
condenação à marginalidade e não de uma opção
de vida. Por outro lado, a figura do Trecheiro relaciona-se ao nomadismo,
remetendo a um estilo de vida escolhido pelo individuo, o que garante ao
termo uma valoração mais positiva. A partir daí, torna-se
plausível compreender porque dificilmente alguém se autodenomina
pardal, adaptando, quando necessário, o tipo ideal Trecheiro
à sua condição circunstancial, de modo que ele possa
se encaixar dentro do mesmo.
É importante ressaltarmos
que Trecheiro e pardal são dois tipos ideais; classificam-se
em circunstâncias especificas e são tomados como abstrações
e combinações de um indefinido número de elementos.
Ainda que tais elementos sejam encontrados na vivência cotidiana,
são raramente ou nunca descobertos nestas formas ideais. Os conceitos
de Trecheiro e pardal são categorias de pensamento
sobre a identidade do grupo, sendo que todas as pessoas com quem
conversamos compartilham a mesma concepção sobre esses termos.
Instituições e políticas
públicas
Os diferentes pontos de vista sobre
a população trecheira da cidade de São Carlos
podem ser ilustrados a partir das quatro instituições que
os assistem: S.O.S Albergue Noturno, Secretaria de Cidadania, Posto de
Rua e Pastoral na Rua. Notamos que a visão do albergue distingue-se
das demais, vinculando a imagem do “morador de rua” à de “vagabundo”,
enquanto que as demais partem da suposição de que se trata
de “excluídos sociais”.
O albergue e a imagem do vagabundo
O S.O.S. Albergue Noturno, a princípio,
era uma entidade filantrópica que sobrevivia de doações
e que assistia somente aos “itinerantes” e “migrantes”. Posteriormente,
devido a um convênio com a prefeitura, passou a direcionar seus serviços
também aos “moradores de rua” de São Carlos. Os serviços
de assistência à “população em situação
de rua” dessa instituição consistem em: pernoite, banho,
duas refeições diárias (café da manhã
e jantar) e fornecimento de passagens para migrantes. O expediente vai
das 18h às 7h, permitindo a entrada espontânea de usuários
das 18h às 20h. A partir desse horário são realizadas
rondas, com funcionários do albergue oferecendo estada àqueles
que estão dormindo na rua. Na verdade, trata-se de uma política
de higienização do ambiente urbano financiada pela prefeitura.
Sobre esses serviços, é
importante destacar o fornecimento das passagens: elas são distribuídas
às terças e sextas-feiras, para quatro destinos predeterminados:
Rio Claro, Araraquara, Descalvado e Itirapina. As passagens orientam o
destino do “itinerante/migrante”, geralmente encaminhados para a
cidade mais próxima à sua escolha. Trata-se de uma política
voltada diretamente para aqueles que não possuem um endereço
na cidade de São Carlos, associada à norma que prevê
um tempo máximo de três dias no albergue, refletindo uma postura
de controle municipal da população de rua para evitar a permanência
e até a criação de vínculos com a cidade.
De acordo com a visão do albergue,
existem três tipos de usuários: “morador de rua” (aquele que
não se adapta mais a um estilo de vida rigoroso e disciplinado),
o “migrante” (aquele que viaja com toda a família em busca de emprego,
procurando habitualmente trabalhar no corte de cana ou de caseiro em chácaras)
e o “itinerante” (aquele que transita de cidade em cidade, que “vive do
expediente de itinerante”)
.
O que diferencia o “itinerante” do “morador de rua” é o fato de
o primeiro corresponder ao conceito de Trecheiro, por conta da instabilidade
e transitorialidade que o caracteriza, enquanto que o segundo passaria
mais tempo num mesmo local.
Tendo em vista essa definição,
somente os que condizem com a descrição do “migrante” estão
realmente à procura de uma reinserção na sociedade
por meio do trabalho. Logo, o itinerante e o “morador de rua” são
aqueles que, nas palavras do diretor geral do albergue: “não vão
pra frente; eles não querem; eles não se adaptam mais à
vida familiar, à responsabilidade”. É possível afirmar
que, sem negar a existência de fatores externos que impossibilitem
a reinserção social, o itinerante e o “morador de rua” não
têm a intenção de abandonar o estilo de vida adotado.
Essa conotação, associada ao modo de vida hegemônico,
possibilita a leitura dessa conduta como “vagabundagem”.
Devido ao fato de o “itinerante”,
muitas vezes, dividir o mesmo espaço com os “moradores de rua” -
seja no albergue ou no trecho -, ele adquire informações
sobre o funcionamento das instituições locais e suas brechas,
fazendo uso das assistências e fazendo uso das políticas públicas
conforme suas necessidades. É o caso das passagens, que muitas vezes
são usadas para reproduzir seu estilo de vida. Alguns as utilizam
para visitar familiares ou, ainda, pingar de trechos em trechos.
Secretaria da Cidadania, Posto
de Rua e Pastoral na Rua: a imagem do excluído social
Dentro da Secretaria da Cidadania,
existem alguns profissionais voltados para as políticas de assistência
à “população em situação de rua” da
cidade de São Carlos. Entre os principais serviços oferecidos
estão: a providência de documentos, auxílio na busca
por emprego, tentativa de reconciliação com a família,
encaminhamento para tratamentos médicos, psicológicos e para
dependentes químicos. Durante nossa pesquisa, estava em pauta a
elaboração e a tentativa de implementação do
projeto de uma casa diurna. Devido a isso, esses profissionais foram os
únicos a elaborarem um levantamento estatístico da população
trecheira local.
Durante uma de nossas visitas ao
trecho, presenciamos a atuação da Pastoral na Rua,
um grupo de jovens católicos que distribui marmitas, aos sábados,
nos diversos trechos da cidade. Diferentemente do Posto de Rua, trata-se
de uma instituição que tem como um de seus principais objetivos
a supressão das necessidades imediatas dos indivíduos. E
que, além disso, interage com outras instituições
formais, realizando algumas de suas visitas dentro do próprio albergue
e até mesmo consultando a Secretaria da Cidadania para obter maiores
informações sobre algumas pessoas.
Por meio da pesquisa de campo, conhecemos
o grupo Posto de Rua, formado majoritariamente por espíritas kardecistas,
que oferecia, aos domingos, sessões de corte de cabelo, barba e
unhas, doação de produtos higiênicos pessoais e refeições.
Esse grupo utilizava as políticas assistencialistas como estratégia
de aproximação, tendo como principal objetivo uma possível
“regeneração” e restauração da “dignidade”
das pessoas. Para isso, realizavam pequenas palestras aparentemente sem
motivação religiosa
e discursos eventuais do A.A. (Alcoólicos Anônimos). Percebe-se,
a partir deste objetivo de “regeneração”, o caráter
incisivo da proposta, voltada para a conversão a um estilo de vida
tomado como ideal pelos componentes do Posto. Isso se tornou evidente a
partir do momento em que a própria instituição nos
apresentou um “ex-morador de rua” como sua “maior conquista”, sendo que
este atua, presentemente, em conjunto com o Posto e o A.A., colocando-se
como um exemplo de “evolução” a ser seguido.
Podemos dizer que aquilo que conecta
essas três instituições é a visão sobre
a população trecheira que a vincula à imagem
de pessoas frágeis, marginalizadas e doentes (alcoólatras).
O que explica o fato de seus serviços estarem voltados, em maior
ou menor grau, para uma suposta reinserção desses “excluídos”
na sociedade. Esta visão, de maneira geral, produz discursos que,
apesar de não serem compactuados pelos trecheiros, não
fazem com que dispensem (ao menos eventualmente) os recursos oferecidos
por tais serviços. Entretanto, os recursos são apropriados
na medida em que são incorporados a seu modo de vida e visão
de mundo. Não foi por acaso que notamos que, apesar de consumirem
o alimento distribuído, muitos não permanecem para a reunião
com o A.A. ou, quando o fazem, criticam arduamente seu discurso, já
que se contrapõe às percepções trecheiras
sobre bebida, demonstradas adiante.
Relações com a medicina
institucionalizada e o uso dos remédios
Quando questionados sobre os serviços
prestados pela Santa Casa e Pronto Socorro da cidade, os trecheiros
afirmaram que, apesar de se sentirem satisfeitos com o tratamento a eles
dirigido nessas instituições, recorriam a elas somente em
emergências. Em outros casos, preferem se automedicar, improvisando
com o medicamento conseguido nas correrias. Uma frase atraiu nossa
atenção: “aqui um olha pelo outro e ninguém fica doente;
aqui, só fica doente quem quer”. Esse tratamento recíproco
não se dá de modo "desorganizado". Ele segue os seguintes
critérios:
- Para feridas externas:
antiinflamatórios e antibiotico
como cataflan e amoxilina.
- Para dores internas: analgésicos
como melhoral, anador e novalgina.
Vale lembrar que os cães do
trecho também são tratados com esses medicamentos,
levando em conta a mesma lógica.
Pinga, saúde e doença
Antes de tudo, devemos esclarecer
que o consumo de pinga é rotineiro e unânime no grupo. No
decorrer do trabalho etnográfico, pudemos perceber que, além
de usual, a pinga é um elemento simbólico central entre os
trecheiros, destacando-se por ser, primordialmente, um símbolo
ambivalente e poderoso, através do qual se pode atingir tanto o
estado de doença como o estado de saúde.
Uma das manifestações
do poder da pinga é percebida por sua capacidade de alteração
da consciência
,
o que por si só não possui valoração positiva
ou negativa. Sua conotação positiva se dá quando entrelaçada
a efeitos considerados benéficos, possibilitando momentos de descontração
e união. A conotação negativa, por sua vez,
manifesta-se quando correlacionada a efeitos considerados maléficos
como o descontrole das ações e a perda das capacidades individuais,
podendo ocasionar a quebra do respeito. Ainda outra função
importante da pinga – e que faz com que esteja constantemente presente
no cotidiano do grupo – é expressa em sua competência para
“produzir” saúde e influenciar na dinâmica da sociabilidade.
A “produção” de saúde é possível graças
à alteração da consciência (“ficar na brisa”),
a emergência de estado de alerta (“ficar esperto”), a animação
e euforia. Todos estes fatores são frutos de um uso continuado e
consciente da bebida. Além disso, a pinga pode ser também
agente de estabilização emocional quando permite alterar
os malefícios da memória. Sem contar que estar em alerta
- ou ficar esperto – é condição sine
qua non para a realização das atividades diárias
como fazer as correrias (importante na manutenção
do respeito, como já analisado acima) ou proteger-se das
possíveis vulnerabilidades da rua.
Não obstante, o mesmo vetor
“produtor de saúde” pode transfigurar-se em vetor de doença,
em fenômeno desajustador da realidade do grupo. Pois, se beber é
essencial para a efetivação das atividades cotidianas,
beber sem controle pode ter como conseqüência a inatividade
e a dependência de outrem. Levada ao extremo, a situação
de descontrole, através do consumo excessivo, faz com que o sujeito
enfraqueça, pare de se alimentar, “se perca na pinga”. Citando a
esclarecedora fala de uma trecheira, “a gente que tem que beber
a pinga e não a pinga beber a gente”.
É interessante notar que em
situações nas quais “a bebida bebe a pessoa” não existem
práticas terapêuticas visando cura
.
Diferentemente, quando se está doente por qualquer outro motivo
que não a bebida, são tomadas algumas medidas quase sempre
envolvendo a regulação do uso da pinga, sendo que esta pode,
também, atuar como elemento de intermediação entre
saúde e doença. Na maioria das vezes em que um dos membros
está passando por procedimentos terapêuticos, o grupo parece
agir de maneira a impedir que faça uso de pinga, sendo que a suspensão
desta contribui (juntamente com a utilização de remédios,
em alguns casos) para a própria experiência da cura. A não
utilização de remédios e a abstinência de pinga,
conjuntamente, associam-se, ainda, a uma concepção nativa
de que a ingestão das duas substâncias vem a se tornar tóxica
para o organismo
.
De modo geral, pode-se concluir que beber pinga é uma maneira de
reafirmar seu estado de saúde, pois tudo que se relaciona à
abstinência relaciona-se, conseqüentemente, ao estado doentio.
Corpo e memória
Outra importante e elucidativa ação
observada foi o fato de um trecheiro ter confiado a outro, quando
necessitou se ausentar para a realização de uma correria,
a guarda de um dos seus mais preciosos bens, seu galo. É
imprescindível esclarecer aqui que, de acordo a concepção
local, galo significa qualquer tipo de sacola, mala ou mochila que
sirva de relicário para os bens pessoais de cada trecheiro
(roupas, fotos, bilhetes, cartas etc.). Vale lembrar que, de uma
forma quase que unânime, somente os documentos não devem ser
guardados no galo, uma vez que esses deveriam estar sempre junto
ao próprio corpo. A valorização dos documentos é
dada por sua funcionalidade prática cotidiana, como o cadastro para
utilização do albergue, viagens e até mesmo em fiscalizações
policiais. Além disso, o fato de se constituírem como um
grupo estigmatizado reafirma o valor dos documentos, já que possuir
uma identificação formalizada e burocrática é
uma das únicas maneiras, para eles, de exercerem uma cidadania
efetiva: “sem documento a gente não é nada”.
Sobre a importância do galo
como meio de guardar e transportar seus únicos bens pessoais, uma
trecheira explica que a origem do termo galo provém
de galo de briga, expressão inerentemente ambígua que explicita
a relação de dualidade que há entre objeto e portador,
tanto no que tange à dicotomia interno (corporalidade) versus
externo (bens pessoais), como significação da memória.
No que se refere à primeira dicotomia (interno x externo) temos
que o galo pode tanto significar um conjunto de bens sob posse do
trecheiro, como a própria extensão do corpo deste.
Nesse sentido, representa algo como uma “materialização”
da memória. Porém, e já introduzindo a segunda dicotomia,
a memória tanto pode se manifestar como uma lembrança afetiva
boa quanto um fardo da lembrança de experiências ruins, posto
que “se o galo tá pesado, vira um fardo”. Podemos concluir,
então, que o galo assume um significado muito mais simbólico
que material, sendo uns dos fatores responsáveis pela construção
do “ser” trecheiro.
Percebeu-se, no decorrer da etnografia,
um significativo número de pessoas tatuadas (estas, em geral, tinham
em comum a passagem pela penitenciária) o que, em alguma medida,
também se vincula à questão da memória. Freqüentemente,
as tatuagens se associavam à trajetória de vida de cada um,
refletindo experiências passadas através de nomes ou figuras
representando filhos, ex-cônjuges, familiares e situações
especificas, como ilustra o exemplo de um trecheiro que tatuou no
corpo a figura de um menino com o rosto numa lata de cola. Isto talvez
demonstre – ainda mais pelo fato de que embora ele tenha feito uso de cola,
atualmente condene a utilização desse tipo de droga – a capacidade
da tatuagem de estabelecer diálogos com o passado: seja afetivamente,
seja como fardo. Deste modo, assim como no caso do galo, as insígnias
corpóreas são a “materialização” das lembranças
negativas e positivas, sendo também fardo e afeto. Alguns trecheiros
têm o hábito de guardar no galo papéis com anotações
de acontecimentos e nomes, o que fazem também no próprio
corpo – dois trecheiros anotaram nossos nomes nas mãos, com
caneta. Pode-se dizer, então, que o galo e as tatuagens são
possibilidades de construir, reconstruir e atualizar a memória na
esfera do corpo.
Conclusão
Tendo em vista nossa escolha de uma
perspectiva etnográfica, com o objetivo de realizar uma pesquisa
que se desprenda de análises teóricas, acreditamos que nosso
olhar antropológico contribua para abrir novas possibilidades interpretativas
sobre a questão do “viver na rua”. A partir dessa abordagem, posicionamo-nos
criticamente quanto ao estereótipo do excluído social, freqüentemente
presente no imaginário coletivo, bem como em algumas interpretações
científicas, priorizando uma visão embasada na noção
que o trecheiro tem sobre si mesmo.
Notas
Optamos por relativizar o termo “moradores de rua”, através do emprego
das aspas, devido ao fato de que a experiência em campo revelou a
incompatibilidade de tal com a identidade do grupo estudado, evitando desta
maneira ocultar a complexidade do mesmo. Sendo assim, passamos a fazer
uso das próprias categorias nativas que, por sua vez, são
dotadas de grande flexibilidade e alto potencial explicativo da realidade
em questão.
É importante esclarecer que não fizemos uso de entrevistas
também pelo fato de que optamos por trabalhar com a observação
participante num contato mais informal. Já no caso das instituições
realizamos entrevistas gravadas e semi-estruturadas.
Os pertences do grupo são distribuídos de forma que a disposição
deles delimite o perímetro circular do local.
Vale notar que apenas dois integrantes estiveram presentes em praticamente
todas as visitas realizadas no local.
Sobre esses mecanismos de busca, torna-se necessário ressaltar que
se trata de escolhas flexíveis, isto é, determinadas práticas
de obtenção não são previamente impostas.
Utilizamos as formas Trecheiro e trecheiro no intuito de
diferenciar o tipo ideal (com letra maiúscula) da banca como
um todo (com letra minúscula).
Nas palavras do diretor geral do albergue: “ Trecheiro é
o itinerante, trecheiro como o próprio nome diz, ele vive
do trecho, aqui em São Carlos, São Paulo, Rio Claro,
Descalvado, Não interessa, ele veio de Araraquara, Araraquara mandou
ele pra Descalvado, já teve em Itirapina, então o que que
ele faz? Ele ia pra Rio Claro não deu, ‘pumba’ pra Descalvado, de
Descalvado, ele já tá meio mal visto aqui e ‘pumba’ pra Porto
Ferreira, em Porto Ferreira, ele vai pra outra cidadezinha e ‘pumba’ em
Ribeirão, quando chegar em Ribeirão, pá pra São
Carlos. Esse é o trecheiro, ele vive de expediente”.
Vale lembrar que, pelos relatos de representantes do Posto de Rua e Pastoral
na Rua, acreditamos que - por mais que as duas instituições
neguem qualquer caráter religioso- ambas estão inseridas
em “projetos”religiosos mais amplos como os de “salvação
e evolução da alma” ou “fraternidade e humanismo cristão”.
É provável, de acordo com o que foi relatado, que ambos os
tipos de medicamentos - antibióticos e antiinflamatórios
- sejam consideradas semelhantes na classificação nativa,
não assumindo grande importância as classificações
biomédicas.
A alteração da consciência se dá porque a pinga
“sobe na mente”. Pudemos perceber que a noção de mente se
relaciona à consciência, como é notável nas
expressões de uma trecheira quando narrava sobre situações
de perturbar e estar sendo perturbada por alguém, como: “Eu entrei
na mente dele”, “dá o ar na minha mente”.
Uma comparação entre as atitudes dos trecheiros e
de grupos provenientes de outros estratos sociais (como as classes médias)
frente às pessoas que fazem uso abusivo de bebida alcoólica
poderia propiciar conclusões interessantes. Ao menos como indicação
inicial, notamos o contraste entre as interpretações dos
trecheiros a respeito daqueles que foram “bebidos pela pinga” –
que se pautam na visão destes como pessoas que escolheram “se perder
na pinga” e, portanto, não há tratamento nestes casos – e
as interpretações de outros segmentos sociais acerca dos
que fazem uso excessivo de bebida, pautadas por sua vez na idéia
da existência de uma dependência fisiológica, sendo
a pessoa considerada irresponsável pelos seus atos e portanto passível
de submissão a tratamentos terapêuticos (quase
sempre de cunho psicológico/psiquiátrico).
É importante destacar que esta concepção trecheira
(de que a mistura de remédio e bebida é necessariamente tóxica)
diferencia-se daquela compartilhada pelos grupos altamente medicalizados,
na qual o uso do álcool elimina os efeitos do remédio, idéia
esta pautada em categorizações bioquímicas.
