|
Sobre ouvir
sons e ver objetos
Próximo à casa na qual
cresci, existia um caminho que eu costumava usar e que cruzava a linha
do trem. Ao lado dos trilhos existia um aviso aos pedestres que dizia:
“pare, olhe e escute" antes de tentar cruzar a linha. Posso não
ter seguido esse aviso tanto quanto deveria, mas, ao menos, eu sabia o
que ele significava. Para mim, e sem dúvida para outros que utilizavam
o caminho, ele fazia todo o sentido. Na ausência de dispositivos
automáticos de sinalização, de que outra forma alguém
saberia se um trem estivesse vindo, a não ser olhando e escutando?
Somente depois descobri que o que era óbvio aos pedestres era, para
os filósofos, inteiramente confuso. Para ser exato, o filósofo
pode admitir que nosso conhecimento sobre o mundo só possa
surgir através de alguma forma de percepção. Ainda
assim, parece que a única coisa que não percebemos é
a própria percepção. Você pode até argumentar
que vê o trem, mas somente por meio da luz que alcança seus
olhos. E você só o ouve através do som que alcança
seus ouvidos. Sendo assim, como você pode saber que o trem existe
a uma certa distância, como um objeto material independente, por
trás de imagens perceptivas, moldadas em luz e som, que você
tem dele? E se existe somente em sua percepção – em seus
olhos e ouvidos, ou mesmo em seus pensamentos – então, como ele
pode te atropelar? Isso não é tudo. Olhando e escutando,
recebemos um conjunto de sensações através dos olhos,
e outro, bem diferente, através dos ouvidos. Supondo que o nosso
conhecimento seja fundado em uma experiência sensorial, como sabemos
que as visões e os sons que vêm à nossa percepção
são, todos, manifestações da mesma coisa, o trem,
avançando em nossa direção? Se podemos ouvir sons
em vez de coisas (como trens), então como eu sei que esse som que
eu escuto pertence àquele trem que eu vejo?
<>
>
<>Esses são alguns dos mais
antigos dilemas filosóficos e não é minha intenção
resolvê-los aqui. Quero sugerir, no entanto, que o modo como eles
são apresentados carrega a marca de um certo modo de imaginar o
sujeito humano – a saber, como um lugar de consciência, limitado
pela pele e definido em oposição ao mundo – que está
profundamente sedimentado no pensamento ocidental tradicional. O problema
da percepção, então, diz respeito a como algo pode
ser traduzido, ou “atravessar” de fora pra dentro, do macrocosmo do mundo
para o microcosmo da mente. É por isso que a percepção
visual e a auricular são descritas, usualmente, nos escritos dos
filósofos e dos psicólogos, como processos de ver e ouvir.
A visão começa no ponto em que a luz entra nos olhos do perceptor
estacionário e a audição no ponto em que o som atinge
os ouvidos – na interface, em resumo, entre fora e dentro. No entanto,
o aviso ao lado dos trilhos do trem não dizia ao pedestre “fique
de pé, veja e ouça”. Ele dizia: “pare, olhe e escute”; ou
seja, que interrompesse uma atividade corporal, andar, e iniciasse outra,
olhar-e-escutar (como mostrarei adiante, é melhor vê-las como
aspectos de uma mesma atividade que como duas atividades distintas). Em
quê, então, consiste essa atividade? Não em abrir os
olhos, já que eles estão abertos de qualquer modo; nem em
abrir os ouvidos, já que eles não podem ser fechados a não
ser tapando-os com os dedos. Consiste, antes, em um tipo de esquadrinhamento
de movimentos, realizado pelo corpo todo – ainda que de um local fixo –
e na qual os dois procuram por, e respondem às, modulações
ou inclinações no ambiente ao qual está sintonizado.
Como tal, a percepção não é uma operação
“dentro-da-cabeça”, executada sobre o material bruto das sensações,
mas ocorre em circuitos que perpassam as fronteiras entre cérebro,
corpo e mundo.
>
<>>
<>
>
Estou me adiantando, contudo. Existe
ainda muito a ser esclarecido antes que a idéia de percepção,
delineada acima, possa ganhar corpo. Para iniciar esse esclarecimento,
precisamos investigar mais de perto as suposições que tendemos
a fazer sobre nossa experiência de ver e ouvir. Você pode tentar
descobrir o que elas são executando um simples experimento de pensamento.
Suponha que você esteja ao lado dos trilhos enquanto o trem passa.
Você vê a locomotiva e os vagões passando em grande
velocidade e você ouve o barulho do motor seguido pelos estalidos
dos vagões enquanto eles passam pelas junções dos
trilhos. Essas visões e sons são comumente tão emaranhados
em sua experiência que não é fácil de descrevê-los
separadamente, para imaginar como o trem poderia ser sem o barulho que
ele produz, ou como seria o barulho dele sem a aparência que ele
apresenta. Todavia, você pode tentar. Imagine você vendado,
ou numa noite escura como breu, na qual o componente visual da experiência
é eliminado. O som do trem se aproximando, à medida que cresce,
parece tomar de assalto e, por último, dominar, cada fibra do seu
ser. Você não resiste e se deixa levar por ele até
que, por fim, à medida que o trem se distancia, você é
deixado pelo caminho, sem ar e tonto, exatamente no mesmo lugar em que,
na verdade, você esteve o tempo todo! Mas agora, em um segundo experimento,
imagine você com os seus ouvidos tapados, como que para eliminar
o componente auditivo da experiência. Desta vez o trem parece passar
diante dos seus olhos como se fosse um espectro cuja existência mesma
residisse em dimensões diferentes daquelas do mundo ao qual você
pertence. Você o vê , registra sua presença e passagem,
mas não é movido por ele. A visão é só
uma outra aparição para adicionar à sua coleção.
Se os resultados desses experimentos,
assumidamente fictícios, têm qualquer validade, eles sugerem
que, longe de serem equivalentes, ou mutuamente substituíveis, visão
e audição são radicalmente opostas; tão diferentes
quanto estar à beira do rio vendo a água correr e ser arremessado
dentro da correnteza. Como um observador participante no evento constituído
pelo trem passando pelo local onde você está, na intersecção
do caminho e dos trilhos, pareceria que participando através dos
ouvidos, você, ao mesmo tempo, observa visualmente. De fato, a noção
de que o som pode entrar e sacudir você de um modo que a luz não
consegue tem um longo e distinto pedigree na história das idéias.
Repetidamente, os ouvidos são imaginados de modo topográfico,como
aberturas na cabeça que realmente permitem penetrar e tocar as superfícies
mais reclusas do ser. Por contraste, supõe-se que atrás dos
olhos existam telas que não permitem a qualquer luz passar, deixando
a mente no escuro – como os habitantes de uma caverna, na celebrada alegoria
de Platão, que não podem ver nada além das sombras
na parede projetadas pela luz do próprio fogo. Diz-se que o som
alcança diretamente a alma, ao passo que na visão tudo que
se pode fazer é reconstruir uma imagem de como o mundo de fora poderia
ser, baseado nas sensações induzidas pela luz. Mas, da mesma
maneira, somos mais prontamente convencidos de que ouvimos som do que de
que vemos luz. Supomos que os objetos da visão não são
fontes ou manifestações da luz, mas coisas que a luz ilumina
para nós. Os objetos da audição, por outro lado, não
são coisas, mas sons ou fontes de som .
É verdade, houve vozes dissidentes.
Uma delas foi a de Martin Heidegger. Em seu ensaio sobre “A origem da obra
de arte”, Heidegger argumenta que somente quando desviamos nossas atenções
dos objetos, ou escutamos abstratamente (por exemplo, com os olhos fechados,
como fazemoscom a música clássica), é que ouvimos
“som bruto”. Na vida cotidiana, ele insistia, não ouvimos sons,
mas as próprias coisas – a porta fechando na casa, a tempestade
na chaminé, o Mercedes como distinto do Volkswagen (Heidegger,
1971:26). Do mesmo modo, Heidegger poderia ter dito, antes escutamos o
trem do que o som que ele faz. Mas esse ponto de vista não se concilia
facilmente com a experiência diária. Pois o que dizemos escutar,
ao menos quando falamos sobre esses assuntos, é o bater de uma porta,
o assobio do vento, o zumbido ou a explosão do motor do carro e
o ruído da locomotiva. Estrondear, assobiar, zumbir, entre outras,
são palavras que não descrevem coisas, mas ações
ou movimentos os quais, devido às vibrações que causam,
na verdade sentimos como barulhos de diferentes tipos. Ou, para usar outro
exemplo, considere a palavra “cuco”. Ela é, em primeiro lugar, uma
expressão onomatopéica de um som que eu normalmente escutava
no campo e que sempre parecia emanar de um lugar distante e escondido no
meio do bosque. Dizemos que o cuco é um pássaro, mas na minha
experiência o pássaro existe, pura e simplesmente, como seu
som. Eu nunca vi um (a não ser em livros ilustrados de ornitologia).
Mas é somente ao ser visto que o cuco chega a ser apreendido como
uma coisa que produz um som, ao invés do som em si .
No devido tempo continuarei
a qualificar a idéia de que vemos antes coisas que luz, e de que
ouvimos antes sons que coisas. Devo fazê-lo mostrando que o som,
estritamente falando, não é um objeto de audição
mais do que a luz é um objeto de visão. Pelo contrário,
assim como dizer que existe luz é um outro modo de dizer que se
pode ver, dizer que existe som é um outro modo de dizer que se pode
ouvir. Luz e som são, em essência, os lados avessos
das experiências de ver e ouvir, respectivamente. Agora, como os
deficientes visuais podem nos dizer, é de fato possível ouvir
coisas assim como vê-las. E, para pessoas com visão, os olhos
são parte do sistema perceptivo para escutar, tanto quanto os ouvidos
são parte do sistema para olhar. Até esse ponto, visão
e audição são mais intercambiáveis do que diferentes.
Mas, por trás da descoberta, seja ela visual ou auditiva, de um
mundo já feito está um nível de percepção
profundo e pré-objetivo, um nível no qual a atenção
sensitiva se encontra no ápice do movimento mesmo do vir a ser do
mundo. Nesse nível, como mostrarei, as experiências da visão
e audição não são mutuamente substituíveis
do mesmo modo que– por exemplo – a língua de sinais dos surdos é
substituível pelo discurso oral. Pelo contrário, elas são
virtualmente indistinguíveis: visão é um tipo de audição
e vice e versa. Esse argumento me levará por fim a rejeitar a tese
que atribui a dominância do pensamento objetivo no ocidente a uma
obsessão pelo olho. Por enquanto, no entanto, deixe-me continuar
com o contraste entre ver e ouvir, como ele é normalmente entendido,
para examinar suas implicações no nosso entendimento, primeiro,
sobre pessoas e coisas; segundo, sobre língua, fala e escrita; e
terceiro, sobre as práticas sensoriais de pessoas em sociedades
não-ocidentais.
Visão objetifica, som personifica.
De todas as implicações
do contraste entre visão e audição, a que mais teve
conseqüências tem sido a noção de que a visão,
já que não é contaminada pela experiência subjetiva
da luz, produz um conhecimento do mundo exterior que é racional,
independente, analítico e atomístico. Por outro lado, diz-se
que a audição, já que se baseia na experiência
imediata do som, arrasta o mundo para dentro do perceptor, produzindo um
tipo de conhecimento que é intuitivo, engajado, sintético
e holístico. Para aqueles que gostariam de celebrar o método
de indagação científica positiva como a realização
máxima do espírito humano, a visão é sem dúvida
o sentido superior. Todavia, por todas essas razões, não
se deve confiar nela. O caminho visual para a verdade objetiva é,
ao que parece, pavimentado de ilusões. Precisamente porque a visão
produz um conhecimento que é indireto, baseado na conjectura dos
dados limitados disponíveis na luz, ela nunca poderá ser
nada mais que provisória, aberta a futuros testes e à possibilidade
de refutação empírica .
Mas conquanto nunca possamos ter certeza do que vemos, não existe
dúvida em relação ao que ouvimos. Uma vez que o som
nos fala diretamente, a audição não mente. Não
sofremos de problemas auriculares da mesma maneira como sofremos de ilusões
ópticas (Rée 1999:46). Em resumo, quando se trata de assuntos
da alma, da emoção e da sensação, ou das questões
“introspectivas” da vida, a audição supera a visão,
assim como o entendimento ultrapassa o conhecimento e a fé transcende
a razão.
Nada ilustra melhor essas atitudes
em relação à visão e à audição,
tão profundamente incrustadas nas sensibilidades ocidentais, que
esse trecho extraído do “Prefácio” para o clássico
estudo de percepção musical de Victor
Zuckerkandl, Sound and Symbol. Aqui ele compara o comportamento
do cego e do surdo:
A quietude, a tranqüilidade,
a confiança, pode-se quase dizer a piedade, tão comum nos
cegos contrastam estranhamente com a irritabilidade e a suspeita encontrada
entre tantos surdos... Parece que, pelo fato do homem cego confiar na orientação
do ouvido em vez do olho, outros modos de conexão com o mundo lhe
são revelados; modos que, de outra forma, são ofuscados pela
dominância do olho – como se, no domínio no qual ele entra
em contato, os homens fossem menos sozinhos, mais bem providos, mais em
casa do que num mundo de coisas visíveis para as quais o homem surdo
é direcionado e às quais um elemento de alienação
sempre se liga. (1956:3).
Como representação
estereotípica do comportamento das pessoas cegas e das surdas, essa
passagem é, obviamente, ultrajante. Ela diz muito, no entanto, sobre
como tendemos a perceber a audição como calorosa, comunicativa
e solidária; e a visão como fria, distanciada e insensível.
Não por acaso, então, inúmeros comentadores procuraram
culpar a obsessão pela visão dos males da civilização
ocidental moderna. (Jay 1993,
Levin
1988, 1993). Mais do que qualquer outra modalidade de percepção,
dizem eles, a visão nos leva a objetificar nosso ambiente, a considerá-lo
como um repositório de coisas, alheias ao nosso eu subjetivo, que
estão lá para serem apreendidas pelos olhos, analisadas pela
ciência, exploradas pela tecnologia e dominadas pelo poder. Se ao
menos pudéssemos restaurar o equilíbrio devolvendo a audição
ao seu devido lugar no sensórium, alega-se, poderíamos recuperar
uma atenção mais harmoniosa, benevolente e empática
ao nosso entorno. Então, quem sabe, poderíamos redescobrir
o que significa pertencer .
Essas queixas não são
novas; ao contrário, a depreciação da visão
é tão antiga quanto a sua elevação ao topo
da hierarquia dos sentidos. Como Don Ihde aponta em seu estudo sobre a
fenomenologia do som, “existe uma antiga e arraigada tradição
de que a visão ‘objetifica’, e, de modo oposto e não amplamente
notado, existe uma tradição de que o som ‘personifica’” (Ihde,
1976:21). A essa última tradição pertencem os argumentos
de muitos estudiosos clássicos de que a própria palavra “pessoa”
deriva do Latim personare, que significa, literalmente, “soar através
de”. Se a derivação é bem fundada etimologicamente
não nos importa ;
o que conta são, antes, as razões que a tornam tão
convincente. Essas, afirmo, encontram-se em sua concordância com
a noção amplamente sustentada de que por trás do aspecto
visível da pessoa, sobretudo da face, reside um ser interior que
se revela pela voz. Quando se fala, a voz “soa através de”, de dentro
para fora; quando se ouve, ela penetra inversamente de fora para dentro.
Onde a visão coloca um e outro vis-à-vis, cara-a-cara, deixando
cada qual construir a representação interna do estado mental
do outro com base em sua aparência externa, a voz e a audição
estabelecem a possibilidade de uma intersubjetividade genuína; de
uma comunhão participativa do eu com o outro por meio da imersão
no fluxo de som. A visão, nessa concepção, define
a individualidade do eu em oposição aos outros; a audição
define o eu socialmente em relação aos outros.
A palavra escrita e os sons da
fala
Em nenhum lugar a ambivalência
em torno das atitudes perante a visão e a audição
é tão evidente quanto nas idéias ocidentais sobre
linguagem e, sobretudo, sobre a distinção entre fala e escrita.
A desconfiança na escrita é um tema recorrente ao longo da
história do pensamento ocidental. Desde Platão e Aristóteles,
os filósofos tenderam a considerar a escrita como uma fachada exterior
e visível para a realidade interior e sonora das palavras faladas.
Platão, no Fédon (274-7), faz Sócrates declarar
que a escrita não oferece mais que “a aparência e não
a realidade da sabedoria [wisdom]” (Platão 1973). Para Aristóteles,
apenas a palavra falada representa verdadeiramente a experiência
mental, enquanto a palavra escrita representa a falada (Aristóteles
1938:115). Rousseau, para quem a escrita não era “nada além
da representação da fala”, queixava-se amargamente (escrevendo,
é claro) do prestígio e atenção oferecidos
por seus contemporâneos à escrita quando esta não era
mais que uma capa fabricada [contrived] e inautêntica para a coisa
real (Derrida 1974: 36).
E dois dos gigantes da lingüística do século vinte tinham
a mesma opinião. Para Bloomfeld
(1933:21), a escrita era “meramente uma forma de registrar a linguagem
por meio de marcas visíveis”, enquanto de acordo com Saussure
(1959:23), “a linguagem e a escrita são dois sistemas distintos
de signos: o segundo existe com o único objetivo de representar
o primeiro”. Numa famosa imagem, Saussure localizou a linguagem numa interface
entre pensamento e som, como se a consciência humana – o domínio
das idéias – flutuasse sobre um oceano de som como o ar sobre a
água (1959:112).
Em todas estas afirmações
existe uma priorização implícita da audição
sobre a visão, como se a primeira desse acesso a intimidades da
experiência humana das quais a última poderia apenas oferecer
um pálido reflexo. “A única ligação verdadeira”,
escreveu Saussure, é “a ligação do som”
(1959: 25). Ironicamente, contudo, ao mesmo tempo em que a escrita é
apresentada como não tendo outra razão de ser senão
o modelamento da fala num meio visível, a apreensão da fala
é, ela mesma, modelada sob a inspeção da palavra escrita.
Assim, entra um viés visual,pela "porta dos fundos", na nossa própria
noção do que é a linguagem. Lembre-se de que a suposição
subjacente, compartilhada tanto pelos maiores defensores da percepção
visual como por seus críticos, é a de que nós não
vemos a luz, mas os objetos que ela ilumina. Você pode não
ser capaz de ler, por exemplo, sem uma fonte de luminosidade, mas o que
você vê não é a luz e sim as palavras na página.
Igualmente, você não pode ouvir a fala a não ser que
ela seja vocalizada em som. Entretanto, sua familiaridade com a palavra
escrita o leva a acreditar que o que você ouve não é
o som ele mesmo, mas as palavras formadas nele. “Linguagem-como-palavra”,
com nota Ihde, “mesmo enquanto soa, não chama a atenção
a si mesma enquanto som” (1976: 161). Antes, o som “entrega” ou profere
as palavras que alegamos ouvir. Assim, supõe-se que palavras podem
ser extraídas do meio1 do som, e podem ser preservadas, seja como
impressões na mente ou como inscrições na página,
independentemente de seu som.

Figura 14.1 Retrato
feito por Saussure da linguagem na interface entre o plano do pensamento
(A) e o plano do som (B). O papel da linguagem é cortar a interface
em subdivisões, como indicado pelas linhas verticais pontilhadas,
estabelecendo dessa forma uma série de relações entre
idéias particulares e sons particulares. “Visualize o ar em contato
com uma lâmina d’água”, diz Saussure, “se a pressão
atmosférica muda, a superfície da água será
despedaçada numa série de divisões, ondas: as ondas
parecem a união do pensamento com a substância fônica”.
(Retirado de F. de Saussure, Course in general linguistics, Nova Iorque:
The Philosophical Library, 1959, p.112).
A linguagem, ao que parece,
é a exceção que prova a regra de que vemos coisas
(não luz) e ouvimos sons (não coisas). Quando ouvimos música,
prestamos atenção ao som enquanto tal, pois é,
certamente, no som, nem mais nem menos, que a música consiste.
Mas, quando se trata de fala, estamos inclinados a tratar a audição
como uma espécie de visão – um tipo de visão com o
ouvido, ou “visão do ouvido” – que reage ao som da mesma maneira
que a “visão do olho” reage à luz. Assim, estamos convencidos
de que apreendemos palavras, não sons. É quase como se os
sons da fala fossem vistos em vez de ouvidos. Isto, claro, é exatamente
o que Saussure tinha em mente quando descreveu o significante verbal –
o padrão de som registrado na psique – como um som-imagem (1959:
66). De acordo com ele, reconhecemos uma palavra da fala da mesma maneira
que reconhecemos uma palavra da escrita, combinando o padrão percebido
com um esquema mental pré-existente. Mas e se jamais tivéssemos
visto uma palavra, se não tivéssemos noção
da palavra como um objeto da visão? Dado que nossa familiaridade
com a escrita nos leva a modelar a audição da palavra falada
sobre a visão daquela escrita, como o poder da fala poderia ter
sido experimentado por pessoas sem o conhecimento da escrita, ou para quem
a palavra escrita foi feita para ser disseminada, no máximo, através
de sua leitura em voz alta em vez de sua reprodução impressa?
Em seu influente estudo, The Gutenberg
Galaxy, Marshall McLuhan (1962)
argumentou que a invenção da prensa
conduziu a uma era inteiramente nova na história da cultura humana,
marcada pela dominância absoluta do olho e, com ela, a um viés
em direção a uma maneira de pensar que é objetiva
e analíticae que segue um caminho linear de conexões lógicas
explícitas. Mesmo antes da introdução da tecnologia
da impressão -durante o estágio “quirográfico” de
cultura precedente-, a substituição de palavras escritas
por faladas havia começado a pender o equilíbrio entre visão
e audição em favor da primeira. Mas, entre povos em nível
“oral-aural” de cultura, para quem a escrita era desconhecida, o ouvido
exercia uma esmagadora tirania sobre o olho (McLuhan
1962: 28). Além disso, sustentava McLuhan, seu pensamento carecia
da elaboração lógica, da discriminação
analítica e da objetividade que, no Ocidente letrado, são
normalmente consideradas os marcos da racionalidade. Baseando-se nessas
idéias, um dos colegas de McLuhan, Walter Ong, buscou derivar todas
as características essenciais do “pensamento e expressão
baseados oralmente” dos traços que distinguem a audição
da visão. A cultura oral, afirmou ele, tem um caráter agregativo;
é harmônica e holística em vez de dissecadora, analítica
e atomística; é concreta e situacionalmente específica,
em vez de abstrata e independente do contexto; é focada em pessoas,
em vez de em coisas. A audição liga as pessoas em comunidade;
a visão isola o indivíduo vis-à-vis o mundo. Finalmente,
a “força interiorizante da palavra oral se relaciona de maneira
especial ao sagrado, às questões últimas da existência”.
Com a ascendência da visão, contudo, a religião dá
lugar à ciência secular (Ong
1982: 73-4).
Em suas localizações
de culturas orais e civilizações letradas de cada lado de
um “grande divisor”, tanto McLuhan como Ong efetivamente reproduziram uma
dicotomia entre participação oral e observação
visual que, como já mostrei, está profundamente incrustado
na tradição ocidental. Assim, o som, de acordo com Ong, registra
a interioridade das coisas de uma maneira que é não é
possível com a luz, que meramente reflete suas superfícies
externas:
A vista isola, o som incorpora.
Enquanto a vista situa o observador fora do que ele vê, à
distância, o som se derrama para dentro do ouvinte... A visão
chega ao ser humano de uma só direção por vez... Quando
eu ouço, entretanto, reúno som de todas as direções
de uma só vez: sou o centro do meu mundo auditivo, que me envolve,
assentando-me num tipo de núcleo de sensação e existência...
Você pode se imergir na audição, no som. Não
há maneira de se imergir similarmente na visão. (Ong,
1982:72)
É na sua afirmação
de que o ouvinte numa cultura “predominantemente oral” ouve as palavras
como som, em vez de imagens na forma de som, que Ong polemiza Saussure
(1982: 17). As pessoas numa tal cultura, “totalmente intocadas por qualquer
conhecimento da escrita ou impressão”, não ouvem palavras
como se estivessem olhando para elas. Em sua fala, toda palavra é
um movimento fugidio carregado na crista de um som que “existe apenas quando
está deixando a existência”. Foi a escrita, afirma Ong, que
amarrou as palavras e as fez parecerem coisas, “objetos estanques... para
a assimilação pela visão” (1982: 91). Assim, a escrita
transforma a palavra em vez de, como pensava Saussure, meramente representá-la
num meio alternativo.
Visão e audição
em Antropologia
Outro colaborador de McLuhan foi
o antropólogo Edmund Carpenter. Escrevendo com base em trabalho
de campo conduzido entre os esquimós Aivlik (Inuit), da ilha de
Southampton no ártico canadense, Carpenter afirmou que o mundo dos
Inuit é definido, acima de tudo, pelo som em vez da vista (Carpenter
1973: 33). Habitar um tal mundo não é se deparar com um espaço
de objetos prontos, mas participar de dentro no movimento perpétuo
de sua geração. Não existem coisas, estritamente falando,
no mundo Inuit; apenas seres que estabelecem sua presença, antes
de tudo, por meio de suas ações contínuas. A audição
é o par ressonante dessas ações com o movimento da
atenção do ouvinte. Assim, os Inuit ouvem som em vez de coisas
e são movidos pelo som, ele mesmo, como o são pelo canto.
De fato, a distinção entre fala e canto, tão central
à concepção letrada de linguagem, não faria
qualquer sentido para eles (Carpenter,
1966: 212 ). Falar e cantar são ações que, do mesmo
modo que caçar ou entalhar, “externam” ou liberam aspectos do ser
na plenitude do espaço acústico que envolve a pessoa. Diferentemente
do espaço pictórico restrito e investigado pelo olho, o espaço
acústico é “dinâmico, sempre em fluxo, criando suas
próprias dimensões momento a momento” (1973: 35; ver também
Carpenter e McLuhan 1960). Sua forma é a de uma esfera, estendendo-se
para fora da pessoa, igualmente, em todas direções. Porém,
essa esfera não tem superfície externa ou fronteira: ela
não pré-existe nem cerca o falante e o ouvinte; mas como
que toma forma à volta deles no processo mesmo de seu envolvimento
auditivo um com o outro e com o ambiente.
Efetivamente, McLuhan, Carpenter
e Ong estabeleceram entre eles os fundamentos para um campo de pesquisa,
atualmente vibrante, que veio a ser conhecido como a antropologia dos sentidos
(Stoller, 1989; Howes
1991a; Classen 1993, 1997). É verdade que certos aspectos de seu
programa têm acarretado críticas justificadas de grupos antropológicos:
a atribuição de mentalidades pré-lógicas a
sociedades “tribais” no nível oral-aural, o relativo desprezo de
outras modalidades sensoriais além da visão
e da audição e a conseqüente elisão de diferenças
entre as culturas de cada lado do “grande divisor”, entre oralidade e letramento
(Howes 1991b: 172-3, Classen 1997: 403-4). Entretanto, a idéia básica
de que as culturas podem ser comparadas em termos do peso relativo dos
sentidos através dos quais as pessoas percebem o mundo à
sua volta foi mantida. Assim, não é tanto no quê elas
percebem, mas em como elas percebem, que as culturas diferem. Não
será mais possível identificar variações culturais
com visões de mundo alternativas, como se todos percebessem seus
entornos da mesma forma (visualmente, vendo-o), mas vissem coisas diferentes
por conta de seus diferentes modos de organizar informações
perceptivas em representações. Pois a própria idéia
de que o mundo é conhecido pela sua representação
mental está atada a pressupostos sobre a preeminência da visão
que não são aplicáveis interculturalmente. Discuto
abaixo, brevemente, três estudos da antropologia dos sentidos, que
atribuem uma proeminência particular à audição.
O primeiro, de Paul Stoller, trata dos Songhay do Níger, na África
Ocidental; o segundo, de Anthony Seeger, trata dos Suyá de Mato
Grosso, no Brasil; e o terceiro, de Alfred Gell, dos Umeda de Papua Nova
Guiné .
Para os Songhay, afirma Stoller,
o som “é um fundamento da experiência”. Diferentemente da
visão, que estabelece uma distância entre o espectador e o
objeto visto, o som “penetra o indivíduo e cria um senso de comunicação
e participação” (1989: 103, 120). Para mostrar como isso
se dá, Stoller examina o significado que os Songhay atribuem aos
sons de dois tipos de instrumentos musicais – o godji (violino monocórdio)
e o gasi (tambor de cabaça) – ambos tocados durante cerimônias
de possessão, da poesia de louvação, que acompanha
essas cerimônias e das palavras ditas na feitiçaria. O godji
produz um rangido agudo, enquanto o gasi, dependendo de como é batido,
produz um “claque” ou um “rufar”. Tanto pessoas como espíritos são
excitados por esses sons, considerando-os irresistíveis. De fato,
para os Songhay, os rangidos do violino, e o claque e rufar do tambor são
as vozes dos espíritos que, em rituais de possessão, penetram
e abalam os corpos daqueles possuídos. E enquanto os instrumentos
estão soando, o cantor de louvações (sorko) recita
os nomes dos espíritos, gritando-os diretamente nos ouvidos do médium
pretendido. A força sônica do grito afeta o corpo do médium
da mesma maneira que o vento afeta o fogo, incendiando-o em paroxismos
que indicam o início da possessão (Stoller 1989: 108-12).
Na feitiçaria, também, é o próprio som do encanto
mágico que atua, poderosamente, para o bem ou para o mal, no corpo
da vítima ou do paciente. A palavra mágica é som que
existe (e sai da existência) no ato de sua enunciação.
Como tal, é um fenômeno da mesma ordem do rangido, claque
ou rufar do instrumento musical, ou do grito do cantor de louvações.
Em todo caso, é o som em si que as pessoas ouvem e ao qual elas
respondem. Supõe-se que esse som tenha uma existência própria,
“separada dos domínios da vida humana, animal e vegetal” (1989:
112).
Notas
N.T.:
no original, undersides.
Tipográfica
[N.E.].
Na
Melanésia [N.E.].
.
|
|