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Dos vinte e três capítulos
que fazem parte do meu livro, The Perception of the Environment,
a maior parte foi escrita na década de 90. ‘Pare, olhe e escute!’
foi o último a ser escrito e foi, de longe, o mais extenso e o mais
difícil de escrever. Tentando lidar com a questão geral de
como as pessoas percebem o mundo à sua volta, fiquei tão
animado quanto frustrado pela literatura sobre o que era, na época,
o campo emergente da "antropologia dos sentidos". Por um lado, ela prometia
um âmbito de investigação rico e fascinante, desvendando
áreas da experiência humana negligenciadas previamente ou,
até, intocadas. Por outro lado, no entanto, o que ela parecia oferecer,
por trás de sua retórica de uma "revolução
sensória" no conhecimento, era apenas mais do mesmo, sucumbindo,
inocentemente, a um relativismo cultural cansado e amplamente desacreditado.
Assim como a antropologia mais antiga (que opunha nós ocidentais
aos ‘outros’ não ocidentais) havia retratado esses outros em mundos
culturais diferentes, a antropologia dos sentidos parecia retratá-los,
do mesmo modo, em mundos sensórios diferentes. Além de substituir
"cultura" por "sentidos" e "modelos culturais" por "modelos sensórios",
nada havia mudado.
Em meu livro, procurei repudiar o axioma
fundador desse tipo de relativismo – de que a percepção consiste,
notadamente, na modelagem cultural de experiências recebidas pelo
corpo – e substituí-lo por uma compreensão da percepção
como engajamento ativo e exploratório da pessoa inteira, corpo e
mente indissolúveis, num ambiente ricamente estruturado. Parecia-me
que esse engajamento era precisamente aquilo que estava faltando a uma
antropologia dos sentidos que não tinha nada a dizer sobre como
as pessoas, na prática, vêem, ouvem e tateiam em suas próprias
vidas, e que tinha tudo a dizer sobre como suas experiências da audição,
da visão e do tato alimentam a imaginação e penetram
suas expressões discursivas e literárias. Na completa objetificação
dos sentidos, como coisas sobre as quais que alguém poderia empreender
um estudo antropológico, parecia que os olhos, ouvidos e pele não
eram mais considerados como órgãos de um corpo que, conforme
trilha seu caminho no mundo, olha, escuta e tateia atentamente para onde
está indo. Pelo contrário, eles se tornaram instrumentos
de reprise, capturando momentos de experiência e retransmitindo-os
a uma consciência reflexiva para subseqüente revisão
e interpretação.
Essa mudança de foco, de como
as pessoas percebem o mundo real no qual habitam, para como elas habitam
os mundos virtuais de sentido, já foi bem estabelecida no estudo
daquilo que ficou conhecido como "cultura visual" e fez parte de um movimento
mais amplo de pensamento que impulsionou a expansão inflacionária
dos assim chamados estudos culturais. Para os estudiosos do visual, ver,
aparentemente, não diz respeito à observação,
a olhar a própria volta ou a atentar para o que está acontecendo.
Tampouco diz respeito à experiência de iluminação
que torna essas atividades possíveis. Antes, diz respeito, estreita
e exclusivamente, ao exame cuidadoso de imagens. Onde não há
imagens para ver, não há visão. É como se os
olhos não se abrissem para o mundo em si mesmo, mas para um simulacro
do mundo cujos objetos testemunham a experiência da visão
e nos devolvem essa experiência em nosso olhar. Desorientado nesse
mundo de imagens, no qual tudo que se pode ver é em si mesmo um
reflexo da visão, o observador parece cego ao próprio mundo.
Uma das principais reivindicações
da antropologia dos sentidos é, claro, de ter destronado a visão
da posição soberana supostamente ocupada por ela no panteão
intelectual do mundo ocidental e destacar as contribuições
de outras modalidades sensórias, não visuais, acima de tudo
para a formação sensória dos povos não-ocidentais.
É, portanto, irônico que no ‘redescobrimento’ dessas modalidades
– audição, tato, olfato, e assim por diante – antropólogos
dos sentidos tenham efetuado exatamente a mesma manobra que seus aliados
intelectuais no estudo da cultura visual. Aos mundos de imagens criados
por esses últimos, eles simplesmente adicionaram mundos de sons,
tatos e cheiros. Um sintoma desse artifício é a multiplicação
de ‘paisagens’ de todos os tipos possíveis. Se os olhos devolvem
para nós o mundo em sua imagem visual, concebido como paisagem,
então do mesmo modo os ouvidos revelam uma paisagem sonora, a pele
uma paisagem tátil, o nariz uma paisagem olfativa, e assim por diante.
É claro que, na realidade, o ambiente que as pessoas habitam não
é dividido por caminhos sensórios pelos quais elas podem
acessa-lo. É o mesmo mundo, não importa o caminho que escolham.
Mas essas múltiplas ‘paisagens’ não se referem ao mundo prática
e produtivamente habitado. Elas se referem aos mundos virtuais criados
pela captura das experiências encorporadas e perceptuais da habitação
e pela sua devolução, em formas artificialmente purificadas,
para interpretação e consumo.
Nos anos que se passaram após
2000, quando ‘Pare, olhe e escute!’ foi publicado pela primeira vez, a
‘virada sensória’ no conhecimento foi de vento em popa, em grande
parte graças aos incansáveis esforços de seu principal
representante, David Howes. Acompanhá-la tornou-se uma moda acadêmica.
Numerosas publicações surgiram, incluindo monografias, livros
didáticos e compilações de ensaios .
Existe até uma revista especializada, The Senses and Society,
voltada exclusivamente para esse campo. No entanto, a lacuna entre prática
perceptual e imaginação sensória está maior
do que nunca. Foi essa lacuna que fez com que ‘Pare, olhe e escute!’ fosse
tão difícil de escrever. Esforcei-me para fechá-la
mostrando como o que tem sido pensado e escrito em termos dos sentidos
está, necessariamente, incrustado nas práticas da vida real
como ver, ouvir e tocar. Até hoje, essa tentativa tem encontrado
ouvidos moucos. Quando isso não acontece, ela tem se deparado com
pura hostilidade.
Assim, em seu livro Sensual Relations,
David Howes declara que a pior coisa que os antropólogos podem fazer
é basear suas análises nos modelos de ‘sistemas perceptuais’
propostos por psicólogos como James Gibson ou filósofos como
Maurice Merleau-Ponty .
É óbvio quem Howes tem em mira! Para ele, qualquer um que
esteja interessado na visão e em como ela funciona, incluíndo
eu mesmo, é, automaticamente, acusado de ‘imperialismo epistemológico’.
Essa acusação é, certamente, risível. A visão
é, obviamente, importante para a maioria dos seres humanos mundo
afora, e acusar qualquer um que deseje escrever sobre ela de ter sucumbido
ao visualismo é tão absurdo quanto banir pesquisas sobre
a fabricação de ferramentas pelo homem pela razão
de que isso significa conspirar para o projeto modernista de dominação
mundial tecnológica!
Ninguém é tão ingênuo
a ponto de se crer totalmente livre de ser tendencioso. No entanto, quaisquer
vieses que surjam em estudos de maneiras como as pessoas usam seus olhos,
ouvidos e pele para perceber, ou a maneira como usam ferramentas para atuar,
são insignificantes diante do imperialismo inerente a um projeto
comparativo que limita as maneiras de pensar e conhecer das ‘culturas indígenas’
a epistemologias sensórias fechadas que são expostas à
jurisdição dominante do onisciente e onipotente antropólogo
ocidental. Esse é o projeto que Howes propõe em nome da antropologia
dos sentidos. As filosofias que ele denuncia de modo tão estridente
são, precisamente, aquelas que têm o potencial de nos levar
para além de um relativismo cultural tão abjeto, em direção
ao reconhecimento de que se as pessoas diferem nas maneiras como percebem
o mundo, é, precisamente, por causa daquilo que elas têm em
comum, a saber, sua base existencial no único mundo que elas – e
nós – habitamos. Para trazer de volta à terra a antropologia
dos sentidos, nossa prioridade deve ser restituir aos mundos virtuais do
sentido as praticidades de nossa maneira sensória de perceber o
mundo.
Traduzido,
sob autorização do autor, do original em inglês "Stop,
Look, Listen!", capítulo da obra The Perception of the Environment.
Essays in Livelihood, Dwelling and Skill. Routledge, NY, 2000 (pp.243-287).
D.
Howes, Sensual Relations: Engaging the Senses in Culture and Social
Theory, Ann Arbor: University of Michigan Press, 2003; M. Bull
and L. Back (eds), The Auditory Culture Reader, Oxford: Berg, 2003; V.
Erlmann (ed.), Hearing Cultures: Essays on Sound, Listening and Modernity,
Oxford: Berg, 2004; D. Howes (ed.), Empire of the Senses: The Sensual
Culture Reader, Oxford: Berg, 2005; C. Classen (ed.), The
Book of Touch, Oxford: Berg, 2005; J. Drobnick (ed.), The
Smell Culture Reader, Oxford: Berg, 2006; M. Paterson, The
Senses of Touch: Haptics, Affects and Technologies, Oxford: Berg,
2007; E. Edwards and K. Bhaumik (eds) Visual Sense: A Cultural Reader,
Oxford: Berg, 2008; D. Howes (ed.) The Sixth Sense Reader,
Oxford: Berg, 2009.
D.
Howes, Sensual Relations: Engaging the Senses in Culture and Social
Theory, Ann Arbor: University of Michigan Press, 2003, pp. 49-50.
Em relação ao imperialismo epistemológico, ver ibid.
pp. 239-40, fn. 8
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