“Andar pelos corredores
é equivalente a percorrer as ruas de uma cidade.
As portas que se abriam para ele
eram como se fossem portas de rua, e
as salas de visitas ou varandas,
cozinhas e quintais eram como se
fossem zonas da própria cidade:
praças e subúrbios.”
(Damatta,
1986: p.48)
Este texto surgiu de um ensaio realizado
na disciplina “A dimensão cultural das práticas urbanas”
(Pós-Graduação em Antropologia Social - USP) ministrada
pelo professor José Guilherme Cantor Magnani com o intuito aprofundar
os estudos que venho realizando, em meu curso de mestrado na área
de urbanismo, com a pesquisa “A guerra dos lugares nas ocupações
de edifícios abandonados do centro de São Paulo” .
A idéia do trabalho surgiu
de uma quantidade considerável de material audiovisual arquivado
durante meu trabalho, desde 2004, junto ao Grupo
Risco, coletivo de arquitetos e urbanistas que acompanham os movimentos
de moradia do centro; e, também, durante a realização
de meu trabalho final de graduação “Todo
espaço mal utilizado será ocupado” , além
da já citada pesquisa de Mestrado. Por essa razão,
este texto é acompanhado de um vídeo de 20 minutos que se
complementa as argumentações do artigo.
A rua como “símbolo e suporte
da experiência urbana”
Apesar de Jane Jacobs afirmar, em
seu célebre trabalho “Morte e Vida na Grandes Cidades”, que a formação
de cortiços está associada às ruas vazias e monótonas
(2000, p. 304), sempre que visitava as ocupações de prédios
abandonados da área central de São Paulo, também conhecidos
como “cortiços”, reparei o intenso movimento nas calçadas
desses prédios, além de uma intensa relação
com seu entorno. A contradição com a percepção
de Jacobs estava exatamente neste ponto: o “balé das calçadas”
em torno desses edifícios era constante. Além disso, a rua
era usada como suporte de outras manifestações sociais, como,
por exemplo, local de resistência à violência
dos despejos e reintegrações de posse, local de festa, local
de manifestação ou local de trabalho. E se fazia presente
por seu ruído constante, penetrando a intimidade dos “barracos
” construídos dentro dos prédios. A rua constituía
um espaço de sociabilidade com o restante da cidade e,também,
local de resistência e proteção à perpetuação
das ocupações. Além disso, representava um perigo
eminente: o destino de todos moradores da ocupação no caso
dos recorrentes despejos. O conceito de rua e seu uso envolviam o dia-a-dia
das ocupações estudadas.
As ruas, antes do advento dos bulevares
de Haussmann, eram mero suporte de circulação de pedestres
e de separação entre casas e vielas apertadas, aonde escoava
o esgoto. Os bulevares de Haussmann, grandes vias cortando Paris numa circulação
monumental, trazem um novo conceito para dimensão urbana:
a rua como local de passeio, de encontro com a multidão, de desfile
no anonimato das grandes cidades. As largas calçadas projetadas
por Haussmann, que, na verdade, tinham o intuito de favorecer o capital
financeiro e facilitar o controle e repressão de qualquer
tipo de manifestação social, acabariam por propiciar o encontro
entre os diversos tipos de moradores citadinos que, sob as luzes das “artérias
urbanas”: pobres e ricos, beatas e boêmios, flaneurs e blazés.
Berman (1986, p. 169) cita dois poemas de Baudelaire
para demonstrar como este poeta foi um exímio retratista desse
momento da história urbana. Primeiramente, o poema “Os
olhos dos pobres”, no qual podemos notar como se dava esse controverso
encontro de classes sociais distintas. O poema mostra o contraste entre
um casal de namorados que se encontra num recém-inaugurado café
parisiense, e uma família de “seis olhos” pobres que os contemplam
- maltrapilhos e com fome - do lado de fora, junto ao vidro das janelas.
O narrador, o homem do casal burguês retratado, diz:
“Não somente essa família
de olhos me enternecia,
mas, ainda, me sentia um tanto envergonhado
de nossas garrafas e copos, maiores
que nossa sede.
Voltei os olhos para os seus, querido
amor,
para ler neles meu pensamento;
mergulhava em seus olhos tão
belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados
pelo Capricho
e inspirados pela Lua, quando você
me disse:
'Essa gente é insuportável,
com seus olhos abertos
como portas de cocheira!
Não poderia pedir ao maître
para tira-los daqui?'”
Outro poema do autor, escolhido por
Berman (1986, p. 177), demonstra como ali se perdia
a inocência, ou acontecia “A perda do Halo”, nome deste texto de
Baudelaire em um senhor “de bem” acaba de perder seu halo (aureola)
na sarjeta e comenta com um boêmio, no bar: "depois pensei cá
comigo, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito,
praticar ações baixas, entregar-me à devassidão
como os simples mortais " . Isso aconteceu, também, devido aos bulevares
possibilitarem a abertura de buracos nos bairros mais escondidos e misteriosos,
fazendo com que tudo, agora, fosse visto e escancarado epassível
de controle.
“Pondo abaixo as velhas
e miseráveis habitações medievais, Haussman, de maneira
involuntária, rompeu a crosta do mundo, até então
hermeticamente selado, da tradicional pobreza urbana (Berman,1986,
p.175)”.
Assim, a rua passa a ser o locus
de encontro dos diversos elementos que compõem a heterogeneidade
urbana, passando de local de circulação a local de visibilidade
e confronto. Segundo Magnani é esta “rua que interessa” ao estudo
do antropólogo:
“É a rua que resgata a experiência
da diversidade, possibilitando a presença do forasteiro, o encontro
entre desconhecidos, a troca entre diferentes, o reconhecimento dos semelhantes,
a multiplicidade de usos e olhares – tudo num espaço público
e regulado por normas também públicas. " (Magnani
2007a, on-line)
Para Jacobs parte integrante e fundamental
da rua é o uso das calçadas. As calçadas são
o principal local de encontro e contato entre os nativos urbanos; nela
se reúnem pessoas que não se conhecem intimamente e que sem
as calçadas nunca viriam a se conhecer (Jacobs,
2000: p.59). Segundo a autora, a vida pública que acontece nas calçadas
está diretamente ligada a outras modalidades da vida pública.
O que se passa nas calçadas é compartilhado, é “assunto
público”, é um lugar onde as pessoas assumem, mesmo que pouco,
a responsabilidade pública pelas outras mesmo sem ter relações
com elas: é no espaço da rua que acontecem as lições
de urbanidade (Jacobs, 2000, p.61-91). Dessa maneira,
podemos pensar calçadas e ruas como uma “categoria sociológica"
(Magnani 2007b on-line) pois “fica claro que
se está falando não da rua em sua materialidade, mas em experiência
da rua” (Magnani 2007a on-line)
Todas estas características
do espaço da rua se opõem, segundo Roberto
Damatta, ao universo da casa: enquanto a rua designa o espaço
da política, da heterogeneidade, dos estranhos, locus dos perigos
e contradições; a casa é o local dos laços
de sangue, do domínio privado, das regras particulares e onde a
contradição não é permitida. Em cada um dessas
“esferas de significação social” se assumem distintos padrões
de comportamentos, gestos, assuntos e papéis sociais (1985: p. 41-45).
Damatta usa a oposição entre a rua e a casa para designar
os traços característicos da sociedade brasileira,
onde, segundo ele, a vida social “transcorre num ritmo feito de tensões
e compensações”, de maneira que aquilo que o cidadão
não tem no universo público, ou no mundo da rua, se compensa
no ambiente domestico, e vice-versa, aumentando ainda mais a oposição
casa-rua (1985: p. 76-77).
A resposta é conciliar os
dois universos por meio de interfaces mediadoras. Jacobs salienta que a
calçada é um elemento relacional: ”ela só significa
alguma coisa junto com os edifícios e os outros usos limítrofes
a ela” (Jacobs, 2000: p.29). Entre a casa e
o mundo público há espaços de transição
onde acontecem mediações entre os comportamentos específicos
do espaço público e dos espaços privados; um
local onde estes espaços se sobrepõem e se mesclam:
as janelas, portas, portões, jardins, varandas, vitrinas, etc. Segundo
Damatta, esses espaços, transitórios
ou limiares, recebem tratamentos especiais e são de onde podemos
observar a vida social (1985: p. 39). Magnani denomina o espaço
intermediário entre a rua e a residência por meio da categoria
de analise chamada pedaço: “é quando, de um lado, a casa
se abre para fora e, de outro, a rua se torna mais acolhedora: do encontro,
da interseção entre ambos é que surge o pedaço
“. Para Magnani “pedaço” é quando
um espaço demarcado torna-se ponto de referência para distinguir
determinado grupo de freqüentadores como pertencentes a uma rede de
relações (2002, p.20).
Locação [Cenário]
Os espaços de estudo deste
trabalho são as ocupações de edifícios abandonados
na área central da cidade de São Paulo. São edifícios
construídos nos anos 50, época de ouro do centro da
cidade, para onde iam os grandes investimentos do período. Estas
construções foram abandonadas a partir do deslocamento da
centralidade para a região da Paulista, por volta de 1970, seguindo
mais tarde a direção sudoeste em direção à
Avenida Luís Carlos Berrini.
Atualmente existem cerca de 9.000
pessoas vivendo em ocupações organizadas de prédios
e terrenos vazios nas áreas centrais tradicionais (Frúgoli,
2000: 60-61). Segundo Bonduki, o movimento por moradia deu um passo fundamental
quando passou a reivindicar programas habitacionais na área central
da cidade de São Paulo, ocupando os prédios vazios da região,
visto que se expandiu para a luta da reforma urbana, do direito à
cidade, levantando a necessidade de viver em locais dotados de infra-estrutura,
equipamentos sociais e empregos (Bonduki,
2005, passim). Vale ressaltar, segundo Maricato, que em grandes cidades
como São Paulo e Rio de Janeiro em moradias ilegais é onde
vivem 50% da população. Trata-se de uma gigantesca produção
improvisada da cidade, sem a participação dos governos e
sem recursos técnicos e financeiros significativos (Maricato,
2001: pg.37-38).
Edifício Plínio Ramos: esta ocupação foi
habitada por 79 famílias durante 2 anos e oito meses. Os moradores
se organizavam por meio do MMRC (Movimento de Moradia Região Centro):
as pessoas moravam em quartos/salas criados pelos próprios moradores
com divisórias de compensado e restos de madeira; os banheiros,
a lavanderia e cozinha eram comunitários; existia um atelier de
costura coletivo; uma sala administrativa do movimento; uma sala de reuniões
com cursos de reforço escolar para crianças, alfabetização
de adultos, reuniões da comunidade e aulas de break. A “Reintegração
de Posse” do edifício foi realizada em agosto de 2005, retirando
os moradores violentamente pela tropa de Choque da Polícia Militar.
Os moradores resistiram ao despejo formando um cordão humano na
frente do prédio. Dentro deles muitas das famílias se recusaram
a sair, lacrando a porta por dentro do prédio. A resposta da policia
foi extremamente violenta: spray de pimenta; bombas de efeito moral e gás
lacrimogêneo; balas de borracha nas pernas e rostos dos moradores;
detenção. As famílias não tiveram direito à
negociação ou contrapartida do Estado, e como protesto montaram
acampamento na própria rua, em frente ao edifício, que permanece
vazio até hoje, com um muro de concreto construído sobre
a porta.
Edifício Paula Souza:
nesta ocupação viviam 70 famílias desde novembro de
2002, sem coordenação por meio de movimento social. Os moradores
se organizavam de maneira auto-gestionária coletiva. No dia 6 de
outubro, foi executada a reintegração de posse do prédio,
e como as famílias não puderam negociar com o governo, acamparam
na própria rua Paula Souza, onde também se encontravam remanescentes
da ocupação vizinha, o edifício Plínio Ramos.

Escola Campos Salles: essa
antiga escola que depois de pegar fogo, oito anos atrás, foi abandonada
e 60 famílias sem-teto fizeram dela sua moradia em 2004. A
construção, em estilo eclético, é de 1911 e
na sua suntuosidade abandonada ainda restam alguns metros quadrados do
piso de mármore original, trazido da Itália. No despejo que
aconteceu em julho de 2005, as famílias se mantiveram pacificamente
cantando na frente do prédio músicas com a temática
de luta e transformação social, enquanto os policiais arrombavam
o portão e carregavam seus pertences pra fora.

“Irá chegar, um novo
dia, um novo céu,
uma nova terra, um novo mar
e neste dia os oprimidos,
numa só voz a liberdade irão
cantar.
Na nova terra o negro não
vai ter corrente,
o nosso índio vai ser visto
como gente.
Na nova terra, o nego, o índio
e o mulato,
o branco e todos vão comer
do mesmo prato.
Na nova terra a mulher terá
direitos,
não sofrerá humilhações
e preconceito
e seu trabalho todos vão
valorizar
as decisões ela irá
participar”

Edifício Prestes Maia:
a ocupação, organizada pelo MSTC (Movimento do Sem-Teto do
Centro), era símbolo de resistência e organização:
foi considerada a maior ocupação vertical da América
Latina, pois abrigava cerca de 470 famílias, constituindo praticamente
uma cidade, com quase 2000 moradores. Eram 23 andares inteiramente ocupados
mesmo sem maquinário de elevador funcionando. O imóvel, ocupado
em 2002, também representa simbolicamente as absurdas contradições
que envolvem o debate: ficou abandonado por 15 anos, sendo que o proprietário
deve atualmente cerca de R$ cinco milhões de IPTU. Depois da ocupação
os moradores retiraram cerca de 200 caminhões de lixo e entulho
do prédio, e se organizaram coletivamente na manutenção
da limpeza e segurança; havia uma biblioteca comunitária
com livros encontrados no lixo pelos catadores que moram no prédio,
programas de reciclagem, de educação, intervenções
e oficinas culturais. Os banheiros também eram de uso coletivo.
A ocupação sofreu diversas ameaças de despejo. Sua
saída do prédio foi pacífica e se deu devido a uma
negociação entre moradores e o governo aliada ao programa
municipal de “bolsa-aluguel”.

Prédio do INSS: Os
movimentos de moradia reivindicam esse prédio, localizado na avenida
nove de Julho e de propriedade do INSS, há muitos anos. Ele
foi ocupado várias vezes desde 1997. As últimas famílias
habitaram o espaço até 2004, quando saíram com um
acordo de que o prédio seria reformado e transformado em moradia,
mas as obras para o projeto são sempre embargadas. À meia
noite do dia 1 de maio de 2004 acompanhei uma ocupação-denúncia
do prédio, com vistas a pressionar o governo para a realização
do projeto. Ficou apenas a denúncia, pois a polícia chegou
logo atacando os manifestantes com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo
e spray de pimenta.
Personagens [Informantes]
Abel: Foi morador do Edifício
Prestes Maia e nele trabalhava como entregador em domicílio: carregava
geladeira, botijão de gás, etc para os andares do prédio
(que não tinha elevador para transporte nos seus 23 andares). O
botijão custava 20 reais; para subir, 30. Com apenas 1,50m
de altura, só se acreditava vendo sua capacidade de carregar, sozinho,
uma geladeira pelas escadas espremidas do Edifício Prestes
Maia.
Cecília: Foi moradora
do 11ºandar do Edifício Prestes Maia, com seus filhos e marido.
Veio de Vitória da Conquista, na Bahia, onde trabalhava em roça
de mandioca e café. Chegou em São Paulo com o intuito buscar
melhores oportunidades para seus filhos, que passavam fome no nordeste.
Elisabete: mãe de cinco
filhos, morava no edifício Plínio Ramos. Resistiu ao despejo
até o fim, dentro do prédio, com seu bebê nos braços.
Fernando: Morador do Edifício
Plínio Ramos, Militante do MRRC e estudante de Ciências Sociais
da PUC. No dia do violento despejo estava na linha de frente que protegia
o prédio. Apesar dos policiais jogarem spray de pimenta no
rosto das pessoas que estavam fazendo uma corrente na frente da porta do
prédio, manteve-se parado e levou um tiro de borracha no rosto,
que desfigurou seu nariz.
Jomarina Pires da Fonseca
- foi moradora e coordenadora do edifício Prestes Maia. Veio do
Maranhão para São Paulo há trinta anos. Sem condições
de pagar aluguel, foi morar na ocupação com seus três
filhos e marido. Toda sua família morava no 11º andar do prédio.
Sonha em voltar a morar no “Prestes”.
Seu Luís: Foi morador
do 5º andar do Edifício Prestes Maia. Porteiro do prédio,
trabalhava no turno da manhã (são três turnos de trabalho)
das sete da manhã às 3 da tarde.
Nelson: foi morador de diversas
ocupações de prédios abandonados no centro de São
Paulo. Durante o período de meu trabalho de campo era morador e
coordenador do MMRC (Movimento de Moradia Região Centro) no edifício
Plínio Ramos. Durante o despejo estava dentro do prédio e
foi levado à delegacia de policia, onde foi enquadrado, juntamente
com outras pessoas, por “formação de quadrilha”.
Neti de Araújo: coordenadora
do MSTC: Movimento dos Sem Teto do Centro. Foi moradora de rua, com seus
três filhos, por não ter mais condições de pagar
aluguel. Morou em diversas ocupações da área central.
Vive num prédio ocupado na rua Mauá. Ela, que entrou no movimento
há 10 anos, diz: “de moradora de rua a coordenadora geral; chique
né?”.
Roberta Maria da Conceição
e Severino Manoel de Souza: casal que morava no Edifício Prestes
Maia. Trabalhavam como catadores de material reciclável pelas ruas
do centro de São Paulo. Os dois vieram do sertão de Pernambuco
e se conheceram em São Paulo. Do lixo recolheram diversos livros
e fundaram a biblioteca Prestes Maia. Na sua casa também fizeram
um biblioteca pessoal, com cerca de 2000 livros.
Severino: Morava no Edifício
Plínio Ramos. Depois do despejo foi morar, com toda sua família,
na calçada em frente ao prédio vazio, ao lado de um telefone
público.
Toya – jornalista do Centro
de Mídia Independente(CMI)
,
é uma jovem de 20 anos que fazia a cobertura dos acontecimentos
das ocupações. Também era moradora de um dos prédios:
o Edifício do INSS.
O Teto e a Rua
Foram estudadas várias relações
entre moradores, prédio e a rua. Uma das primeiras foi a relação
com o entorno das ocupações. Grande parte dos moradores trabalha,
diretamente, em ofícios ligados à rua. Muitos são
catadores de material reciclável, e tiram seu sustento do material
encontrado nas ruas, usando os conhecidos “carrinhos” que são construções
feitas para trabalhar nestes espaços, e serem carregados no asfalto:“os
veículos dos catadores, feitos de ferro ou madeira, parecem antigas
bigas. Mas as rodas são retiradas de automóveis abandonados.
Nas laterais são presas as armas: varetas pontiagudas para espetar
o material a ser recolhido e cordas para amarrar a carga volumosa. Alinhados
nas calçadas, os carrinhos parecem tanques de guerra em manobra.”
(Brissac, 2004: p. 422). Outros trabalham como ambulantes
na região, vendendo seus produtos na rua e vão a pé
ou de bicicleta para o trabalho nos pontos movimentados da área
central. Mesmo os que possuem outros ofícios, também trabalham
na região tão próxima dos edifícios em que
vivem que utilizam bicicletas para locomoção ou vão
caminhando até o local de trabalho. A área central da cidade,
além de manter uma oferta de emprego privilegiada, facilita o desenvolvimento
de ofícios “improvisados” como catadores e ambulantes, pois suas
ruas caracterizam a mais rica circulação de pessoas e, conseqüentemente,
uma enorme produção descarte.
Por essa razão os centros
urbanos também propiciam a criação de muitos espaços
de sociabilidade, nos quais seus habitantes necessitam realizar constantemente
relações de negociação e de solidariedade.
Dessa forma, em frente aos prédios estudados se podia observar uma
rica vida social. Como em qualquer edifício, existiam porteiros
controlando o acesso nas entradas das ocupações. Estes conheciam
todos os moradores e deixavam, ou não, passar desconhecidos. São
os guardiões da oposição entre a “casa e a rua”, ou
seja, da transposição entre o mundo público e o mundo
privado. São os que sabem o que ou quem pode entrar e estão
posicionados estabelecendo uma espécie de interface limítrofe.
São os próprios elementos de mediação. Seu
papel é o que Jacobs chama de “figura pública autonomeada”.
Ancorados nas calçadas, são vistos e conhecidos por todos:
os de dentro e os de fora. Durante os períodos de trabalho, uma
pessoa ou outra sempre permanece na portaria para conversar e é
neste espaço que se trocam novidades, fofocas ou se comentam os
acontecimentos do edifício. O porteiro é uma espécie
de mídia: “sua principal qualificação é ser
público, conversar com várias pessoas diferentes. É
assim que se transmitem as notícias que são do interesse
das ruas” (Jacobs, 2000: p. 73). Na portaria as pessoas
também permanecem assistindo o mundo de fora, protegidas pela moldura
do espaço interior. Olham o tempo, quem está passando, aparece
um vendedor de sorvete, espera-se alguém chegar, ali acontece a
paquera. Muitas pessoas chegam do trabalho e se demoram na porta antes
de subir até suas casas. A porta de entrada do prédio é
um local de encontro social. Todos passarão por ela e, por essa
razão, se torna um ótimo lugar para passar o tempo.
Para além da soleira da casa,
portanto, não surge repentinamente o resto do mundo. Entre uma e
outro situa-se um espaço de mediação cujos símbolos,
normas e vivências permitem reconhecer as pessoas diferenciando-as,
o que termina por atribuir-lhes uma identidade que pouco tem a ver com
a produzida pela interpelação da sociedade mais ampla e suas
instituições" (Magnani, 1998:
p. 116-117).
Nas portarias também é
muito comum o uso da comunicação entre a ocupação
e o espaço urbano. Ali são colocados os cartazes, faixas
e fotografias que demonstram, como uma espécie de vitrine, o espaço
da ocupação. As fotos mostram cenas de festa internas, eventos
do prédio, funcionando não só como amostra do
mundo interior da ocupação para o mundo exterior, como para
os moradores compartilharem os momentos coletivos registrados no espaço
onde passam todos os demais moradores: a portaria. Ali estão também
estão afixados cartazes dos eventos e outras informações
relevantes a todos moradores do edifício. Na ocupação
Paula Souza também havia um barzinho - gerido por um dos moradores
- no primeiro andar,onde as pessoas do prédio e do entorno se encontravam
para tomar um café ou uma cerveja, estabelecendo outro tipo de interface
mediadora entre o prédio e a cidade, que funcionava similarmente
às portarias dos prédios estudados quanto a constituir um
local de encontro e circulação de informações
dos ocupantes.
Nas ocupações Paula
Souza e Plínio Ramos, cujas ruas onde se situavam eram calmas
e pouco movimentadas, as crianças brincavam em frente aos prédios.
Ali também interagiam com as crianças de outras casas e edifícios
dos arredores. Este espaço, tradicionalmente usado por crianças
em cidades pequenas, não é usado somente por estabelecer
um grande espaço aberto, mas principalmente por constituir um local
de sociabilidade privilegiada, sem se distanciar da segurança da
casa. É nesses locais que acontecem as primeiras lições
de vida pública e urbana para essas crianças, que segundo
Jacobs: “precisam de um local perto de casa, ao ar
livre, sem um fim especifico, onde possam brincar, movimentar-se
e adquirir noções de mundo”, ou seja, precisam brincar na
rua (2000: p.88).
As estruturas abandonadas desses
edifícios não possuem elevador em funcionamento e, desta
maneira, as escadas e corredores assumem fundamental importância.
A circulação é intensa. São ruas dentro dos
prédios. Neles as pessoas se cruzam, se encontram, se conhecem e
se comunicam entre os diversos andares. O espaço da cidade parece
penetrar o interior dos prédios estendendo outras configurações
urbanas. Na maioria dos prédios os moradores distribuíam
as casas individuais
em que moravam ao redor de um “pátio” central, aproveitando as janelas
para as casas e criando um espaço coletivo de convívio no
centro, como uma praça. Nesse local os moradores do “andar” se encontram.
Geralmente, nesses locais estão dispostos sofás de uso coletivo
onde as pessoas se reúnem. As festas de aniversário e outras
comemorações também acontecem ali. As crianças
desses andares brincam juntas nesta “praça - sala de estar”. Não
é preciso todas as mães olharem seus filhos; uma de
cada vez pode tomar conta de todas, da mesma maneira que acontece na descrição
do “olhar vigilante” das ruas de Jacobs (2000: p.88).
O “andar” se torna mais um espaço de mediação entre
a casa e a rua.
Quando visitávamos os prédios,
sempre conversávamos com as pessoas nesse local. Apesar desses "salões"
serem espaços privados, nas "casas" é mais raro se penetrar
e, quando acontece, deve-se ao estabelecimento de uma relação
mais íntima com o morador. As pessoas que vivem no mesmo andar normalmente
possuem algum laço social. Em geral são pessoas da mesma
família ou com alguma outra conexão social, como no caso
de um dos andares do Edifício Prestes Maia, onde todos moradores
do andar eram imigrantes bolivianos. Podemos encaixar o “andar” na
família de categorias para estudo etnográfico de Magnani
(2002), por estar em um território claramente definido e delimitado
por uma rede de relações. Bem como pela presença regular
de membros, com um código de reconhecimento e comunicação
entre eles, na qual seus freqüentadores não necessariamente
se conhecem, mas se reconhecem como portadores dos mesmos símbolos.
O “andar” poderia se encaixar numa categoria anterior ou de escala menor
de abrangência do “pedaço” de Magnani por constituir laços
sociais ainda mais próximos. O “andar” também estabelece
mais uma interface mediadora antes de entrar no espaço totalmente
privado da casa: um local semi-público, pois tem caráter
de espaço público para o grupo social comum ao mesmo “andar”
e caráter privado para todas as pessoas que não pertencem
ao “andar”.
Casa sim; Rua Não
É através das interfaces
entre o espaço público e o espaço privado que as ocupações
podem se mostrar para o resto do mundo. É por meio da rua e calçadas
limítrofes que se manifestam.
É comum ao saberem, por exemplo,
que foi dada a sentença de reintegração de posse,
realizarem eventos nas ruas em frente de onde moram. Os cartazes
sinalizam o protesto: “Senhor juíz, despejo é crime” , “casa
sim; rua não”, “direito à cidade”, etc. A manifestação
tem que acontecer no mundo público, no lado de fora, na rua, pois
é ali que se faz política: “quando falamos em mudança,
transformação, modificação, reforma ou revolução
estamos nos referindo quase que exclusivamente ao plano dos problemas
que emergem no mundo público: o universo da política e da
rua” (Damatta, 1985, p.89, grifo nosso).
As resistências aos despejos
durante as reintegrações de posse se dão de variadas
formas, mas sempre usando a rua e as interfaces mediadoras entre a casa
e o mundo exterior. Algumas resistem pacificamente, cantando em frente
à porta; outras fazem barreiras humanas, bloqueando a entrada nos
prédios ou lacrando a porta de entrada etc. É pela
interface mediadora da porta que se dá a violação
do mundo privado construído dentro da ocupação; dessa
maneira este local assume importância simbólica vital na hora
da resistência aos despejos. Pelas portas são retiradas as
pessoas da proteção do “lar”, de seu mundo privado, e jogadas
no mundo público dos perigos e da incerteza, lembrando o apelo dos
cartazes “casa sim, rua não”. No despejo do edifício Plínio
Ramos, o Grupo Risco, o qual faço parte, colocou uma faixa onde
foi escrita a palavra “justiça”, bloqueando, simbolicamente, a porta
de entrada do edifício de maneira que para que os policiais entrassem
e realizassem o despejo precisariam “rasgar a justiça”, criando
uma imagem favorável à manifestação dos sem-teto
e que se relacionava, diretamente, com os princípios da resistência
à invasão do mundo privado das ocupações.
O espaço da rua, além
de interface urbana de sociabilidade entre as ocupações e
a cidade, também é o local simbólico que os moradores
mais temem: é seu destino após uma reintegração
de posse. Em diversas entrevistas o termo se mantinha:
“Porque a proposta deles
[do governo] é de por a gente aonde? Na rua?” (informante Nelson).
“Se aqui está ruim, imagina
na rua” (informante Cecília).
Muitos dos moradores de ocupações
são ex-moradores de rua. Nesse caso a relação de ida
e volta para a rua, baliza o momento da morada na ocupação
como um momento de proteção e fixação urbana.
Ir para rua significa voltar a viver à deriva.
As famílias provenientes das
ocupações Plínio Ramos e Paula Souza, que se localizam
na mesma rua, quando foram despejadas montaram suas casas, em forma de
barracos, na frente dos prédios vazios para protestar contra o despejo:
nas mesma rua onde resistiram à reintegração de posse,
em uma guerra com a tropa de choque da polícia. Agüentaram
o quanto puderam: quase dois meses. E apelidaram o acampamento de “favela
José Serra”, prefeito à época, que autorizara o despejo
violento e sem contrapartida para as famílias.
Quando a casa e a rua se espacializam
A maioria das ocupações
estudadas leva o nome da rua em que estão localizadas: a ocupação
“Plínio Ramos” estava localizada na rua Plínio Ramos, a ocupação
“Prestes Maia” na avenida Prestes Maia, a “Paula Souza” na rua Paula Souza,
etc. O uso da referência do nome da rua como nome da ocupação
se mostra muito diferente do comum das ocupações mais tradicionais,
como as ocupações de terra do MST (Movimento Sem Terra) ou
mesmo ocupações urbanas periféricas do MTST (Movimento
dos Trabalhadores Sem Teto) que denominamos acampamentos com nomes de líderes
ou mártires de lutas sociais. No caso das ocupações
de prédios vazios do centro o nome da rua se torna a principal referencia,
é como se os dois espaços se misturassem ou se espacializassem.
A luta pela moradia é uma luta também pelo direito à
cidade, pelo seu direito ao urbano, é uma luta pelo “teto” e pela
“rua”.
Quando as ocupações
estão estabelecidas, e os sem-tetos têm o espaço da
casa, observamos que o uso da rua é parte fundamental do cotidiano
da ocupação, ou que a relação entre espaço
privado e espaço público nas casas populares difere da que
existe nas casas burguesas: a moradia burguesa é usada como local
onde a família nuclear guarda suas posses e intimidades dos
olhos coletivos. E, segundo Benjamin (1985b, p.74),
a burguesia tenta compensar a falta de vida privada nas cidades protegendo-se
entre quatro paredes. As casas populares, no entanto, possuem mediações
entre os espaços públicos e privados muito mais flexíveis:
as famílias são grandes e é comum que netos,
tios e tias morem nos fundos da casa, em um quarto, ou no andar de cima
do sobrado. Não existe a rigorosa segmentação de espaços,
em que cada cômodo tem uma função precisa. Dessa maneira,
as tensões na relação espaço público
versus espaço privado são mais amenas do que na família
burguesa. Berman afirma que “as ruas pertencem ao povo”, visto que,
segundo Jacobs (2000, p. 76), as classes populares
dependem muito mais das ruas para satisfazer suas necessidades que as ricas,
utilizando-a para diversos outros usos, desde o lazer até o trabalho.
Quando não existe a “casa”,
contudo, ou quando os moradores das ocupações são
despejados, a rua se torna oposta à condição de “ter
uma moradia” e a divisão entre o espaço público e
o espaço privado deixa de existir, pois a “rua” se torna o próprio
espaço da “casa”. Com este rompimento desaparecem, também,
os espaços limiares, desaparecendo, conseqüentemente, a estrutura
de sociabilidade urbana mais utilizada pelos dos moradores, que muitas
vezes permanecem mais tempo nesses espaços semi-públicos
que nos ambientes privados. O “pedaço” criado no espaço de
mediação entre a casa e a rua, cujos símbolos, normas
e vivências permitem reconhecer as pessoas, atribuindo uma identidade
àquela rede social, é extinto. As mediações
entre os comportamentos típicos do espaço público
e dos espaços privados desaparecem, pois inexiste a dicotomia entre
público e privado, bem como os espaços limítrofes.
Tudo se torna “público e privado” ao mesmo tempo. Vale ressaltar
que isto é diferente do que acontece com moradores de rua, que redefinem
os limites dos espaços considerados íntimos e públicos.
Dessa forma, podemos concluir que o espaço da rua caracteriza-se
como parte da casa também nas ocupações, estabelecendo
lugares de mediações fundamentais para as relações
sociais desse grupo. Viver na rua, contudo, exclusivamente, faz com que
esta se torne inimiga. Casa (com rua) sim; Rua (sem casa) não.
Notas
Integrante do coletivo “Grupo Risco”
Barraco é um termo nativo para designar a “casa”.
O CMI Brasil é uma
rede de produtores e produtoras independentes de mídia, que busca
oferecer ao público informação alternativa e crítica
de qualidade, buscando contribuir para a construção de uma
sociedade livre, igualitária e que respeite o meio ambiente.
Em geral, as casas são compostas por este único cômodo,
que desempenha as funções de sala e quarto ao mesmo tempo,
servindo, muitas vezes, também como local de refeições.
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