Sociabilidade
Urbana
Heitor Frúgoli Jr.
Colecção Passo-a-Passo
Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro
2007
72 pp
O 80º volume da bem sucedida
colecção Passo-a-Passo, da Jorge Zahar Editores, traz-nos
uma visão abrangente e original da sociabilidade urbana a partir
da confluência de duas perspectivas: a exploração da
noção de sociabilidade, entendida como prática continuada
de interacções recíprocas que vão fazendo (e
desfazendo) a sociedade, e a focalização etnográfica
na experiência do citadino que vive os espaços e territórios
urbanos constitutivos das cidades mais ou menos alargadas do mundo contemporâneo.
O convite não podia ser mais sugestivo: ir ao encontro da cidade
relacional e situacional seguindo uma explicitação muito
clara, simples e rigorosa de um conjunto de ferramentas (termos, conceitos,
métodos) que a antropologia urbana tem, ao longo das últimas
décadas, usado e incorporado no seu património. Ou, para
retomar palavras do autor: “estabelecer certas trilhas de reflexão,
dentro das quais as cidades e suas relações sociais foram
tematizadas” (p.17).
Sociabilidade e cidade
moderna são duas noções fundamentais na obra de Simmel
e que marcam o início desta retrospectiva. As várias acepções
de sociabilidade – essa “forma lúdica arquetípica de toda
a socialização humana” (p. 9) – são passadas a pente
fino, com destaque para a centralidade da idéia de “acção
recíproca” entre indivíduos que o distanciaria de autores
como Durkheim e o aproximaria de Marcel Mauss ou, até, de Lévi-Strauss,
não deixando de acentuar a visão dinâmica e profundamente
relacional que esta troca social tem para Simmel. No que se refere às
‘grandes cidades, locais privilegiados da realização do moderno’
(p. 14) o dado novo surge com o contraste entre a proximidade corporal
e a distância espiritual, tema que se tornará recorrente ao
longo de todo o século XX, desde a proximidade física e distância
social da Escola de Chicago até à acessibilidade versus
diversidade social e cultural, binómio fundacional do ‘urbano’ explicitado
na já clássica Exploring the City, de Ulf Hannerz
(1980), obra cuja importância Heitor Frúgoli bem enfatiza
neste livro. A figura do “estrangeiro, como forma específica de
interacção que sintetiza proximidade e distância” (p.
16) e a noção de “indivíduo como ponto de cruzamento
de círculos sociais” constituem, pois, duas das vertentes mais significativas
da obra simmeliana para esta incursão na sociabilidade urbana.
Sociabilidade que, no âmbito
da ‘Escola de Chicago’, adquire contornos empíricos mais específicos
e, sobretudo, uma projecção espacial muito marcada – que
teria ajudado a produzir um sentido do lugar (sense of place). A
cidade enquanto território impõe-se, tanto na sua vertente
ecológica como etnográfica, fragmentada em “mundos sociais
que se tocam, mas não se interpenetram” e que existem em torno de
formas de sociabilidade e convivência diferentes, de acordo com Robert
Park. Evitando o risco do esvaziamento de um conceito que parece abarcar
todo o ser social (citando Gilberto Velho), o autor identifica duas tipologias
que ajudam a ler o conceito: “a interacção entre diferentes
ou estranhos” e a “relação entre indivíduos que se
conhecem ou interagem regularmente” (p.30) Quanto ao primeiro caso, é
a questão da diversidade urbana, tão cara à antropologia
urbana, que é cuidadosamente trabalhada (p. 26, sobretudo) exemplificado
com alguns casos sobre o modo como a co-presença em espaços
públicos produz espaços comunicacionais onde a sociabilidade
surge, também, no seu papel criador de proximidades e distâncias
entre indivíduos e grupos – como os shopping centers
de São Paulo analisados por Frúgoli, os trabalhos clássico
de Jane Jacobs, uma interessante referência a uma etnografia do uso
da rua realizada num bairro carioca (Catumbi) por uma parceria arquitecto-antropológica
ou, ainda, uma inevitável referência a Norbert Elias e ao
seu conceito de configuração. No segundo caso, é a
relação entre iguais que interessa aprofundar, onde a sociabilidade
“intra-classista” em espaços sociais circunscritos com uma certa
homogeneidade leva certos bairros a serem olhados como comunidades que,
em certas condições de segregação sócio
espacial e marginalidade, nos conduzem ao tão popular conceito de
gueto.
As contribuições de Louis Wirth, Loic Wacquant e Jacques
Donzelot (entre outros) são aqui devidamente apresentadas, fazendo
uma reflexão extremamente actual e pertinente a partir dos casos
americano e francês que permitem o refrescamento crítico de
uma metáfora-conceito por vezes abusivamente utilizada.
Extremamente criteriosa e didáctica
é a trajectória que é traçada nesta obra do
conceito de situação, nascido no interior de um referencial
estrutural-funcionalista (p. 44), que situa, com grande clareza e segurança,
as linhas com que a antropologia urbana se tem tecido. Desde a tradição
sociológica e etnográfica da Escola de Chicago, até
à antropologia social britânica, que atingiu um dos momentos
mais ricos e férteis, do ponto de vista teórico e metodológico,
com os trabalhos do Rhodes-Livingstone Institute sobre a urbanização,
mudança e etnicidade (ou tribalismo) em sociedades africanas, a
noção de situação é imprescindível
para compreender a cidade relacional e permite, ainda, re-pensar, de forma
criativa e interactiva, a relação, sempre difícil
para a antropologia, entre o território, a cultura e suas fronteiras.
Mas este livro convida-nos a ir mais além destas trajectórias
cruzadas e vai aprofundar o “aspecto relacional e situacional que os arranjos
interaccionais possuem na própria criação e dissolução
dos vínculos sociais” (p. 52). Mais do que uma tensão entre
alguns conceitos - sociedade, socialidade, sociabilidade; indivíduo
vs pessoa – que parece resultar, em grande medida, de olhares disciplinares
diferentes (sociologia e antropologia), Heitor Frúgoli valoriza
certas noções bem mais concretas e próximas da realidade
como, por exemplo, o de sociabilidades alargadas (Michel Agier) que ajuda
a compreender como se criam dinâmicas de redes cuja ampliação
produz uma espécie de “esferas de continuidade entre espaços
próximos dos habitantes e quadros públicos de criação
e representação de identidades colectivas” (p. 50) que, finalmente,
nos leva a uma idéia de cidade, metaforicamente entendida como ‘rede
de redes’, para usar a conhecida expressão de Ulf Hannerz. Visão
alargada esta que completa e abarca a ideia-base simeliana de que o indivíduo
moderno deve ser olhado como “um ponto privilegiado de cruzamento de vários
círculos sociais, um pólo de relações e tensões”
(p. 54).
Estimulado pelas leituras e
discussões realizadas no Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade,
que o autor coordena na Universidade de São Paulo, este livro responde
pela positiva e de forma concisa e inteligente a um desafio sério:
conjugar tradições sociológicas e antropológicas
na focalização da cidade e do citadino, perspectivando as
dinâmicas sócio-culturais urbanas de uma forma relacional
e situacional. O resultado, obviamente feliz, relembra-nos que, no âmbito
dos estudos urbanos, as obras mais inspiradoras têm rompido barreiras
disciplinares clássicas estritas ao partirem na busca de novos modos
de ler estas realidades complexas, permanentemente em mutação,
que não cabem em olhares monodisciplinares. Como é o caso,
em certa medida, dessas duas obras de referência devidamente apresentadas
neste pequeno livrinho – Exploring the City (Ulf Hannerz, 1980)
e L’invention de la ville (Michel Agier, 1999), infelizmente (incompreensivelmente)
nenhuma delas traduzida, ainda, para o idioma português.
Ficamos, pois, à espera,
de novas publicações de Heitor Frúgoli que dêem
continuidade à exploração destes caminhos múltiplos
de que a antropologia urbana é feita. Esperando que num futuro próximo
possa haver uma circulação mais generosa em Portugal das
excelentes publicações que, nesta temática, têm
surgido nos últimos anos no Brasil…