Ocultar,
revelar, assumir: antropólogos e suas fontes
“(...)
parecia-me interessante interrogar, como faz o fenomenólogo, a relação
familiar com o mundo social, mas de maneira quase experimental, ao tomar
como objeto de uma análise objetiva, até objetivista, um
mundo que me era familiar, onde eu conhecia todos os agentes pelo nome,
onde as maneiras de falar, de pensar e de agir me pareciam de todo naturais,
e objetivar, num relance, minha relação de familiaridade
com tal objeto, e a diferença que o separa da relação
erudita à qual se pode chegar, como eu fazia na Cabília,
por meio de um trabalho munido de instrumentos de objetivação,
como a genealogia e a estatística”. (Bourdieu,
2005, p. 88)
A partir
das experiências etnográficas das autoras e da percepção
das emoções no campo analisa-se a relevância da proximidade
– em seus distintos graus - do antropólogo na interação
com os sujeitos observados. A tradição etnográfica,
marcada pela relação com os outros, distantes tanto no sentido
cultural quanto espacial, foi vastamente exercida e criticada. A autoridade
etnográfica é objeto de constante reflexão na história
da construção da identidade do antropólogo, seja para
enfatizar o lugar e o papel da objetividade científica do saber
antropológico ou para qualificar a presença dos distintos
atores envolvidos na etnografia (Geertz,
1983; Clifford, 2002).
A explicitação
ou não da experiência do antropólogo em campo no texto
etnográfico é ponto de divergência no que tange à
validade metodológica
dos resultados. Estar inserido no campo, distante do cotidiano do pesquisador,
seria condição de acesso ao conhecimento científico
e de produção. Tratar o objeto de estudo como coisa durkheimiana
é o pano de fundo. A tensão entre objetividade e subjetividade
sempre foi relevante na pesquisa etnográfica. A separação
entre Razão e Emoção pode ser traduzida da mesma forma
- e talvez nas etnografias em sociedades complexas tal tensão seja
ainda mais evidente. Para Rosaldo
(1989, p. 21), termos como objetividade, neutralidade e imparcialidade
são, necessariamente, referidos a posições subjetivas
na análise empreendida pelas ciências sociais. Para Crapanzano
(1994, p. 110), a reflexão antropológica sobre as emoções
reflete uma atitude ambivalente face aos afetos.
A inserção
do antropólogo em um campo já conhecido, mas, sobretudo,
vivenciado previamente à incorporação do ethos antropológico,
levanta suspeita sobre a autenticidade, verdade ou capacidade de aplicação
do método. Indagações podem surgir: em que medida
o antropólogo é capaz de elaborar analiticamente a aproximação
e o afastamento em relação ao que é pesquisado quando
está inserido no mesmo contexto? Quais os limites do que se pode
ou não investigar? A quem é atribuída a tarefa de
delimitar a fronteira da diferença com o outro? Qual a importância
da demarcação deste limite?
A publicação
do diário de campo de Malinowski
(1997) e as reações a ele, recheado de antipatia pelas pessoas,
pelo lugar e agruras da inserção no campo, refletem questões
metodológicas inerentes à disciplina. Favret-Saada
(2005, p. 158), ao distinguir sua metodologia do estilo inaugurado por
Malinowski e sua linhagem, assinala que “o diário de campo era para
eles um espaço íntimo onde podiam enfim se deixar livres,
reencontrar-se fora das horas de trabalho, durante as quais eram obrigados
a representar diante dos nativos”. Para a autora, o diário não
representa “um espaço de recreação”, mas um instrumento
que fundamenta uma “operação de conhecimento”, que está
dissociada da noção de “empatia”
.
Descrever o
outro com presumida neutralidade, sem emitir valores pessoais nem esclarecer
o processo de intercâmbio de experiências entre pesquisador
e nativos é assumir a crença na objetividade do cientista.
No entanto, para apreender o universo nativo é preciso contar com
a sensibilidade e subjetividade do antropólogo. O motor da investigação
é a vontade da verdade; uma vontade que comporta, intrinsecamente,
a esfera das emoções. Indo além, o que está
em jogo é tanto a contenção e o controle da expressão
dos sentimentos do pesquisador no campo, quanto o uso de suas emoções
na elaboração do texto. Neste caso, ao universo emocional
do investigador é atribuída a dimensão de instrumento
de pesquisa.
A partir desta
consideração, indaga-se se são possíveis discursos
que não sejam emocionais. Para Crapanzano
(1994, p. 112) é evidente que toda enunciação contém
uma dimensão afetiva, expressa no estilo do texto. Ela pode ser
sublinhada, ignorada, mascarada ou negada no conjunto das convenções
do discurso. Para ele, a idéia de um discurso emocional deve ser
constitutiva da teoria (ou da ideologia) das emoções, em
um dado contexto. Os afetos – nomeados, atribuídos ou representados
– e a própria concepção de uma esfera emocional integram
a organização conceitual das paixões de uma sociedade.
As abordagens em torno do discurso emocional podem ser divididas em duas
vertentes: a primeira tende a isolar a emoção de seu contexto
social, posicionando-a no indivíduo. A segunda localiza o sentimento
na relação entre os interlocutores, postura que enfatiza
a dimensão política de todo discurso emocional, inclusive
daquele que indica uma resistência a esta esfera. Para Crapanzano,
localizar o afeto no indivíduo mascara o papel teórico da
expressão e atribuição das emoções.
Seria um sintoma do nosso individualismo (Crapanzano,
1994, p. 116).
A desconfiança
em torno da metodologia adotada é a pauta das críticas às
pesquisas que rompem com a distância e desafiam a relação
pesquisador-objeto. Por mais que as reflexões sejam significativas
e levantem discussões relevantes, às vezes a menção
à proximidade pessoal do antropólogo com o campo dificulta
ou impede a validação de seus resultados pelos pares. Estes
tendem a demandar e exigir a exposição da razão científica,
aventando a possibilidade de contaminação nas reflexões,
pelo envolvimento emocional pesquisador. Por um lado, estar próximo
aparenta certa familiaridade, portadora quase inequívoca de um conhecimento.
Na mesma medida, este conhecimento é tido como contaminado e impreciso,
condição que invalidaria a inserção e o status
acadêmico. Esquece-se que o antropólogo apreende instrumentos
de pesquisa durante anos. Até o que seria uma familiaridade familiar,
como classifica Bourdieu (2005),
passa por um processo de reflexividade, que não exclui o que foi
incorporado. Não é o mesmo olhar que está em jogo
quando o pesquisador se dirige para pesquisar em campos com os quais mantém
envolvimento afetivo. Segundo Bourdieu (p. 89), pesquisar “um mundo social
que conheço sem conhecer, como sucede em quaisquer universos familiares”
requer uma “verdadeira conversão epistemológica”.
A estratégia
de contato com informantes também passa por este crivo. Apesar do
reconhecimento de facilidades de acesso a grupos sociais por informantes-chave
capazes de estabelecer redes de contato, quanto mais próximos à
rede social do pesquisador, usualmente dedica-se menor espaço a
esta questão. A etnografia, como qualquer produção
reflexiva, requer uma seleção do que pode e deve ser divulgado.
Há uma escolha, a partir da hipótese elaborada, e um compromisso
com os interlocutores. A ocultação está sempre presente
na mudança de nomes, locais e na exclusão de certos fatos.
Quando se trata de pesquisar a “familiaridade familiar”, revelar ou não
situações torna-se um nódulo reflexivo crucial, pois
pode produzir uma sensação de traição.
É novamente Bourdieu que colabora em nossa discussão, quando
assume a emergência deste tipo de sentimento, pelo fato de ter utilizado
dados de sua própria experiência em Béarn. Em suas
palavras:
“E
a compunção objetivista de meu propósito prende-se
decerto por um lado ao fato de que experimento o sentimento de cometer
algo análogo a uma traição – o que me levou a recusar
por muito tempo a reedição de textos que a publicação
em revistas eruditas de difusão restrita protegia contra as leituras
mal-intencionadas ou voyeuristas”. (Bourdieu,
2005, p. 91)
Clifford
(2002), ao transformar os antropólogos em “nativos”, aponta quatro
modos de autoridade etnográfica presentes na antropologia do século
XX, dominada pela observação participante: experiencial,
interpretativo, dialógico e polifônico. O autor argumenta
que embora eles sejam discordantes, em todos, “a apresentação
coerente pressupõe um modo controlador de autoridade”. Ainda de
acordo com este autor, “esta imposição de coerência
a um processo textual sem controle é agora inevitavelmente uma questão
de escolha estratégica” (Clifford,
2002, p. 58). Cabe frisar que “ser nativo” não constitui novidade
nas abordagens sobre os limites e possibilidades do método etnográfico.
Peirano (1999, p. 246) destaca
que a “alteridade de dentro” é uma característica da antropologia
brasileira, orientada por quatro tipos de alteridade: radical; contato
com a alteridade; alteridade próxima; alteridade mínima
.
Este último tem se configurado como um viés expressivo da
produção das ciências sociais, que se propõe
a problematizar “o próprio trabalho intelectual dos cientistas sociais”
no país.
Neste artigo,
a estratégia textual adotada pelas autoras parte de suas próprias
trajetórias, que estão longe de serem lineares ou signatárias
de um único modelo de etnografia. A emergência destas percepções
específicas e significativas, no contexto de pesquisas etnográficas,
as conduziu a refletir sobre “estar” e “ser” de dentro, ao mesmo tempo
em que exerciam o ofício antropológico
.
Dentre as várias etnografias empreendidas em suas carreiras, duas
despertaram o desejo de tomá-las como foco de análise, por
representarem desafios teórico-metodológicos para as autoras:
na rede familiar e em situação de enfermidade de um parente
internado, no mesmo hospital em que já havia realizado trabalho
de campo. Diversos sentimentos emergiram, devido à proximidade com
o objeto pesquisado. Investigar na – e sobre a – família ou no próprio
universo profissional de pertencimento implica reflexividade contínua.
Não nos escapa a idéia de que este processo ocorre em qualquer
tipo de investigação antropológica. No primeiro caso,
o objetivo era analisar como o pluralismo religioso se apresenta e impulsiona
– considerando combinações e conflitos – mudanças
nas relações familiares e na configuração da
família extensa. Já no segundo havia uma familiaridade com
o habitus e ethos médico, pela formação profissional
e dupla identidade: médica/antropóloga. Após a conclusão
da pesquisa foi acrescentada uma terceira identidade, pelos imponderáveis
da vida: de familiar de paciente internado no hospital já observado.
À época outra pesquisa estava em curso, com profissionais
de saúde desta mesma área. A aparente facilidade de acesso
ao campo pode se converter em dificuldade. As posições ocupadas
pelas pesquisadoras tanto podem ser objeto de auto-questionamento, pelas
expectativas de (re)aproximação, quanto de dúvida
e desconfiança dos pares. Indaga-se: seria diferente se pesquisássemos
em universo mais distante? O processo reflexivo não deve sempre
integrar a análise antropológica?
O recorte do
material supõe ocultar dados por vezes esquecidos, propositadamente,
em gavetas. É o antropólogo que, em suas etnografias, mesmo
dialógicas, tem o controle final sobre a palavra. Ele decide selecionar,
editar, publicar, fornecer o contexto apropriado e a orientação
teórica, o que não é exceção na investigação
antropológica, pois, por mais distante que seja o objeto de pesquisa
– da inserção social, das referências culturais e da
própria cosmologia do pesquisador – há, em algum plano, certo
nível de identificação com o tema e com a questão
(Crapanzano, 1991, p.
76). A investigação em campo próximo ao universo de
inserção e pertencimento do antropólogo requer um
escrutínio sobre seu posicionamento e identidade.
O fazer antropológico
é composto pelo duplo movimento, de estranhamento e identificação.
Para compreender o que é apreendido é preciso entrar em contato
com as próprias emoções. Abordamos e analisamos aqui
o tema da dupla pertença: em nosso caso, antropóloga/membro
da rede familiar e antropóloga/médica/familiar de paciente.
Mais que
familiar: a própria família
Autores como
Bourdieu (2005) e Abu-Lughod
(1986) assumiram que seus familiares participaram de algum modo em
suas pesquisas de campo. Em duas situações os pais de Bourdieu
são citados como fontes significativas em sua análise sobre
“estratégias matrimoniais no sistema de reprodução”.
Um comentário banal de sua mãe sobre uma família vizinha
provocou, em sua pesquisa sobre o celibato, uma mudança na formulação
do modelo de regra de parentesco para o modelo de estratégia (Bourdieu,
2005, p. 92). Na mesma investigação sobre “não casáveis”
o autor comenta que, em entrevistas com “velhos solteiros” da geração
de seu pai, este o acompanhava e até mesmo o ajudava, “com sua presença
e discretas intervenções” (Bourdieu, 2005, p. 91). Abu-Lughod
descreve a importância e o significado da participação
de seu pai no trabalho de campo que empreendeu entre os beduínos.
Ao tomar conhecimento dos objetivos da pesquisa da filha, ele prontamente
se organizou para acompanhá-la. Após grande insistência
a autora aceitou a companhia, embora com certo constrangimento. Foi somente
depois de viver entre os beduínos por longo tempo, que ela pôde
compreender a postura de seu pai. Ele era árabe e conhecia as tradições
locais, nas quais o papel e o lugar da mulher são muito distintos
do ocidente: “As an Arab, although by no means a Bedouin, he knew his own
culture and society well enough to know that a young, unmarried woman traveling
alone on uncertain business was an anomaly” (Abu-Lughod, 1986, p.11).
Não
chega a ser uma novidade a ativação de contatos pessoais
para abertura de redes que possibilitem a entrada em campo. A família
é o reduto do privado, da proteção, do segredo em
relação ao que rege o mundo externo. Assim, investigar a
própria rede familiar é um desafio, pois poderia colocar
em risco esses pressupostos. No entanto, esta não foi a primeira
impressão de E. Gomes, quando das primeiras conversas com L. Duarte
sobre os direcionamentos da pesquisa “Família, Reprodução
e Ethos Religioso”. O tema foi considerado de extrema relevância
para a compreensão do campo religioso brasileiro atual. A inserção
em uma ampla rede familiar de origem popular da Baixada Fluminense, com
características expressivas acerca das mudanças ocorridas
nas últimas décadas no panorama religioso, pareceu um caminho
profícuo e digno de análise. Somando-se a esta condição,
a própria trajetória intelectual da antropóloga, direcionada
ao estudo da religião, fundamentava a realização da
investigação. Desafio múltiplo, por acionar mecanismos
de defesa, que partem dos distintos posicionamentos na própria rede
social e familiar, e na academia, em níveis diferenciados de acordo
com o lugar do pesquisador nestes espaços.
Em outras ocasiões
seus familiares, vizinhos e amigos já haviam sido informantes. A
então assistente de pesquisa funcionou como contato entre pesquisadores
sênior e seus objetos de pesquisa, por ser quem era: originária
da Baixada Fluminense e das camadas populares – por associação,
pois integra um ramo ascendente do grupo familiar. Esta região,
lugar de efervescência religiosa – do mesmo modo que favelas e áreas
suburbanas consideradas como periferia – e, ao mesmo tempo, distante das
áreas de prestígio social e acadêmico do Rio de Janeiro,
sempre recebeu atenção das ciências sociais. O acesso
foi facilitado, a partir da metade dos anos 1980, pelo crescente número
de alunos de ciências sociais provenientes de áreas periféricas
desta cidade, impulsionado particularmente pela experiência nos movimentos
sociais que então proliferavam. Inicialmente, eles eram percebidos
como “informantes privilegiados”, pois supostamente teriam experiências
anteriores que os habilitavam a compreender e dar mais agilidade ao campo.
Estudar o próprio território ou seu grupo social ordenava
as primeiras experiências de pesquisa de muitos dos estudantes das
ciências sociais da geração de E. Gomes, e das seguintes.
O status conferido era de auxiliar, importante para a realização
de investigações acadêmicas – à época,
subalternas na autoria.
Uma das mais
significativas experiências foi a primeira pesquisa da qual participou
,
sobre o processo de conversão ao pentecostalismo em programas de
televisão e rádio. Buscava-se verificar a eficácia
das mensagens transmitidas e o tipo de vínculo estabelecido entre
ouvintes/telespectadores e suas respectivas denominações.
Tratava-se de estudo exploratório e inovador, que propiciou
contato com os primeiros fundamentos teórico-metodológicos
da Sociologia. As conversões a este ramo do cristianismo eram -
e em grande medida ainda são - vistas como indissociáveis
da condição econômica desprivilegiada da população.
Portanto, ser da Baixada Fluminense possibilitaria um conhecimento prévio
sobre suas características e um acesso mais direto a seus habitantes.
Primeira pesquisa e primeira associação entre investigadora
e seu local de origem. Neste e em outros estudos, nos quais atuou como
auxiliar, determinadas pessoas de sua relação mais íntima
foram acionadas (parentes, vizinhos, amigos), seja como informantes seja
como contato para abertura da rede.
Portanto,
para E. Gomes não constituiu novidade investigar no próprio
meio social. A diferença reside na condição de pesquisadora
no empreendimento atual, quando passou de auxiliar e informante-meio a
pesquisadora-autora. O processo reflexivo ocorreu durante toda a pesquisa,
desde o primeiro aceno de L. Duarte sobre a possibilidade de investigar
a própria família, já que em seu grupo de discussão
sobre o campo religioso brasileiro conexões e exemplos da vivência
pessoal e familiar da antropóloga eram recorrentes. A proposta foi
aceita, esclarecendo que, desde o início do projeto, não
foi aventada a hipótese de elaboração de uma autobiografia
– partindo de ego, como na produção de árvore genealógica
moderna – ou de um inventário e/ou (re)construção
da história da família auto-referenciada. O foco centrou-se
na receptividade ou rejeição às mudanças de
religião dos integrantes da rede, e nas maneiras como a convivência
pluri-religiosa afetava a organização e as relações
cotidianas da família.
Nos anos da
pesquisa a questão da dupla pertença não constituía
preocupação essencial de E. Gomes. A investigação
na própria rede familiar somente passou a se configurar como um
problema central, a partir das primeiras apresentações públicas
do material. Nestes encontros surgiram reações contundentes,
referentes à validade da etnografia empreendida. A decisão
de explicitar o duplo pertencimento do pesquisador, conjugando trajetória
familiar e acadêmica, provocou tensões, tentativas de esclarecimento
externo – no caso dos interlocutores – e interno, principalmente a partir
da retomada do contato com a rede familiar mais ampla. Em seu grupo familiar,
assumir a posição de pesquisadora dedicada a analisar sua
própria família, também propiciou discussões
intensas, prioritariamente no núcleo mais íntimo, por ser
mais intelectualizado e, portanto, próximo o suficiente para colaborar
ou questionar os procedimentos da pesquisa. A leitura dos textos produzidos
e publicados também fez e ainda faz parte dessa interação.
No universo
da antropologia ser “nativo” assumia dimensões não prestigiosas
e tornava-se relevante fator para o não reconhecimento da cientificidade
da análise empreendida. Debates metodológicos surgiram
em diferentes momentos e níveis de aceitação, quando
certas questões se apresentaram, como relação sujeito-objeto,
“experiência próxima versus experiência distante" (Geertz,
1983), “observar o familiar” (Velho,
1978), transformar o “exótico em familiar” e o “familiar em exótico”
(Da Matta, 1978) e, ainda, o “de perto” e “de dentro” (Magnani,
2002) – nódulos em permanente discussão na antropologia.
Vale ressaltar que grande parte do debate ocorreu à revelia dos
fóruns oficiais, após apresentações em grupos
de trabalho, em situações de sociabilidade, nas quais as
animosidades e os enfrentamentos teóricos são norteados pela
cortesia. O tratamento cortês se manifestava principalmente quando
havia algum tipo de reconhecimento – afetivo – entre os pares. Pelo menos
duas posições emergiram: uma provocativa, que indicava descontentamento
metodológico, e outra que evidenciava certa angústia de pesquisadores
que, de alguma maneira, realizavam etnografias baseadas em redes de pertencimento
ou de conhecimento pessoais, sem que suas fontes fossem reveladas. A tônica
girava em torno de uma “certa coragem” em assumir publicamente a pertença
e enfrentar o debate.
O primeiro
artigo publicado com resultados da pesquisa (Gomes,
2006a; Duarte et al., 2006)
provocou grande interesse nos familiares mais íntimos
.
Na noite do lançamento E. Gomes estava hospedada na casa de um irmão
que residia próximo ao evento. Ao ver o livro, sua primeira atitude
foi verificar se informações secretas sobre os parentes eram
ali veiculadas. Determinados trechos foram então lidos em voz alta,
diante de alguns parentes e da pesquisadora. O desejo era reconhecê-los
nas situações e nas falas citadas no artigo. No texto não
constavam nomes nem descrições muito precisas, já
que se tratava da análise de temas vinculados à sexualidade
e reprodução. E. Gomes foi submetida a um “inquérito”,
com vários questionamentos: uns ligados à fofoca e outros
em torno da vergonha. O comentário de uma tia é ilustrativo:
“Mas você disse essas coisas aí? Que vergonha!!” Ela havia
declarado, em entrevista, que nunca conversara sobre sexo com suas filhas,
pois elas “aprenderam na escola, na televisão e com as amigas”.
A vergonha de falar de sexo manteve-se como sentimento quando o tema se
transformou em palavras escritas (impressas e expostas). Apesar de, à
época da entrevista, estar ciente do uso das informações,
além do fato desta questão ter sido apenas mencionada, ela
se sentiu constrangida – e a pesquisadora também. Apelando para
a racionalidade, E. Gomes explicitou os objetivos da análise: não
se tratava de expor as pessoas a fofocas, mas de analisar como/se a religião
modela o comportamento sexual e reprodutivo das mulheres.
Apesar do
esclarecimento, a dinâmica fofoca-vergonha prosseguiu. Informações
foram reveladas, outras escondidas. Aquelas consideradas mais dramáticas,
vinculadas em especial à segurança de membros do grupo, não
foram liberadas para exposição. A própria ‘proibição’
consiste em um importante dado para a análise, pois integra a dinâmica
segredo-fofoca, tão cara às relações sociais.
Ressalta-se
que a trajetória de E. Gomes – e de seus irmãos – apresenta
um caráter diferencial em relação à rede familiar
de origem, marcadamente de camada popular. O ramo a que a pesquisadora
está associada se estruturou em torno do investimento na educação
formal, se distinguindo sobremaneira dos outros nove núcleos familiares
que compõem a rede mais extensa. O acesso, a permanência e
a conclusão dos estudos constituíam ponto de honra para os
pais da antropóloga. Eram percebidos como processo obrigatório
e incontestável. Caçula e única filha entre cinco
irmãos recebeu atenção especial: foi matriculada na
instituição de ensino mais prestigiosa da cidade em que residiam.
Seus dias eram tomados pelas atividades no colégio, espacialmente
distante do bairro e da rede familiar. A rigidez de sua educação
era enfatizada pelo controle de suas ações, inclusive quanto
à sua ‘circulação’ pelas casas de parentes e pelo
bairro, sem a companhia dos pais ou irmãos. O afastamento em relação
à família extensa e ao bairro era a tônica. O acesso
à universidade acentuara essa característica. De certo modo,
sempre esteve distante – embora não alheia - da lógica que
estrutura o universo familiar da rede estudada. O caráter individualizante
de sua formação pautou a imersão no campo. “Olhar
de fora” a própria família, por mais complexa que seja tal
relação, não lhe pareceu dissonante do exercício
do ofício antropológico.
O estranhamento
(empatia ou antipatia), a aproximação e o afastamento analítico
constituíram o processo da pesquisa. Como em qualquer trabalho de
campo, estratégias de inserção e de negociação
entre antropólogos e “nativos” são acionadas. A afetação
é mútua, nos termos de Favret-Saada (2005), seja qual for
o método envolvido. Esta relação entre pesquisador-pesquisado
foi enfatizada por Orlandella (2005), ao ressaltar a importância
para sua vida do trabalho desenvolvido por William Foote Whyte. No artigo
“O impacto Whyte sobre um Underdog”, Orlandella (2005) explicita que sua
vida não foi afetada apenas enquanto exercia seu papel de informante
e ajudante do pesquisador, mas foi integralmente transformada.
A maior relevância
da família em relação à pesquisadora-nativa
ocorreu na retomada de laços de proximidade, acompanhados por uma
série de prestações e contra-prestações.
A (re)inserção na família, promovida pela investigação,
se refletiu substancialmente na pesquisadora e na construção
do projeto de estudo. De certa maneira, houve um encontro – longe de ser
sem tensão – entre o indivíduo-projeto (Velho,
1994) e a pessoa relacional que, em contexto de família extensa
de camada popular, apesar dos atravessamentos do modelo de família
moderna, ainda possui um valor primordial. Este movimento, orientado pelos
instrumentos da antropologia, conduziu E. Gomes a perceber dinâmicas
e transformações nas relações familiares. Exemplo
paradigmático é a centralidade das festividades organizadas
pelos diferentes ramos da rede. A reciprocidade é esperada e se
relaciona ao convite e à presença nos eventos. A importância
deste circuito de trocas fez emergir lembranças, anteriores à
pesquisa, sobre os convites recebidos para casamentos, festas de aniversário
e outras comemorações, que foram simplesmente desconsiderados,
por motivos diversos. A proximidade/afetividade restringia-se ao próprio
ramo familiar e às relações de amizade estabelecidas,
em sua maior parte, fora das fronteiras do bairro e da família.
Neta mais velha e membro de um núcleo socialmente ascendente, E.
Gomes constatou “seu lugar” quando, finalmente, depois de anos realizando
a pesquisa, participou de um aniversário da filha de um de seus
primos. Sua presença foi amplamente notada e comentada. Lembrou-se
que anos antes havia promovido uma festa para sua filha, para a qual convidou
todos os parentes. À ocasião recebeu convites para aniversários
das crianças da família mais extensa. Não compareceu.
Quando passou a analisar as relações de prestação
e contra-prestação dentro da rede e a reciprocidade nos vínculos
familiares, percebeu o quanto estava distante desse universo. De alguma
forma este foi um momento crítico no andamento da pesquisa. A presença
nas festividades gerava expectativas que não se relacionavam com
a investigação, mas com o contato mais próximo de
um familiar que esteve distante e que, finalmente, apareceu para partilhar
momentos festivo-afetivos.
Em uma passagem
do “Esboço de auto-análise” (2005) Bourdieu
revela que, com freqüência, puxava assuntos sobre problemas
que lhe interessavam investigar. Em alguns momentos tinha dúvidas
se “gostava mesmo das pessoas, como cheguei a acreditar um tempão,
ou se não acabara lhes dirigindo apenas um interesse profissional,
que também pode implicar uma forma de afeição” (Bourdieu,
2005: 94). E. Gomes também teve esta sensação, ao
se dar conta de que não estava apenas pesquisando. Tratava-se, concomitantemente,
de uma re-inserção na família. Seus atributos
– a mais velha entre onze netas, com nível superior, independente,
individualizada – não haviam sido objetivados em qualquer outro
momento. Este processo de “dar-se conta” de seu papel no arranjo
familiar conduziu a uma complexificação da reflexão
em torno dos dados. Uma sensação boa surgiu, referente à
aproximação, ao rever pessoas ou conhecer as novas gerações.
No entanto, a aproximação ocorreu no âmbito de uma
pesquisa. E. Gomes é tanto integrante da família – ainda
que distante da rede mais ampla – como antropóloga. Os anos de ‘treinamento
antropológico’ não são postos de lado em qualquer
situação. Como aponta Bourdieu, mesmo nas ocasiões
mais cotidianas, o olhar está moldado pela antropologia.
As reações
da família foram as mais díspares em torno dos sentidos da
pesquisa: do desconhecimento total, em sua maioria, sobre o que é
etnografia, até a discussão sobre os procedimentos e a leitura
crítica dos textos produzidos. De fato, ninguém, inclusive
no próprio núcleo da pesquisadora, compreendia o que significa
ser cientista social: “afinal de contas, para quê serve?”. O prestígio
era atribuído à formação universitária,
e não ao reconhecimento ou esclarecimento da função
profissional. Algumas situações são exemplares e explicitam
diferentes interações entre sujeito e objeto neste tipo de
campo. Uma prima em primeiro grau apresentou a pesquisadora a seu companheiro,
como “aquela prima que faz árvore genealógica. É só
dizer seu nome que ela vai descobrir de onde você veio”. Longe de
pensar em desqualificação da parentela em relação
à figura do investigador, pelo desconhecimento do ofício
do antropólogo, a situação evidenciou que as definições
a respeito do status profissional prescindiam de precisão. O mesmo
pode ser dito quanto ao esclarecimento acerca do tema da pesquisa: mudanças
(tensões e acomodações) provenientes do pluralismo
religioso na esfera familiar em camadas populares. Neste caso, não
se tratava de subestimar a qualidade das impressões que o “antropólogo”
gerava na relação estabelecida com os “próximos”.
Ao contrário, tratava-se de admitir que o fenômeno abordado
não era classificado com o mesmo grau de importância analítica
para a vida daquelas pessoas. Na verdade, era pouco relevante. Não
constituía uma questão. Sabiam que primos, tias e sogras
não mais compartilhavam da mesma religião, fato menos crítico
para as gerações mais novas. Narravam os incômodos
gerados, com a adoção de práticas religiosas “fechadas”,
“chatas” ou exclusivistas, no jargão dos antropólogos da
religião. A nova vida – o renascimento – promovida pela conversão
também era ressaltada, seja pelos convertidos, seja pelos parentes
que não professam a mesma religião, reconhecendo o papel
positivo da mudança de religião, inclusive entre aqueles
que se opunham mais fortemente à entrada do pluralismo na família.
A convivência mais ou menos pacífica, as antipatias e simpatias
se mostravam no cotidiano das relações familiares. A constatação
era que a religião – em seu sentido amplo – dava sentido à
trama familiar, era expressa em conflitos, quase sempre não explícitos,
e acomodações.
Na relação
com os mais chegados passou a ser difícil perceber se a religião
surgia nas conversas por se tratar de um tema latente e central, ou se
era citada em virtude da presença da parente-pesquisadora. Era só
E. Gomes chegar, para receber alguma notícia relacionada à
investigação. Não havia receio de falar mal
dos “parentes-crentes” quando se tratava dos católicos. A intimidade
e proximidade, de familiar e pesquisadora, servia quase como motor para
a insurgência dos posicionamentos religiosos. A investigação
passou a ocupar espaços significativos na convivência familiar
da pesquisadora. A antipatia para com os “crentes” era creditada como um
sentimento compartilhado por todos ou, pelo menos, provocando uma reação
emocional semelhante.
Durante muito
tempo o ramo católico da família de E. Gomes – seu núcleo
familiar – temeu que seu trabalho junto aos pentecostais se transformasse
em adesão religiosa. De fato, as duas dimensões se confundiam
para aqueles que não compreendiam o ofício do antropólogo.
A imersão no campo, com idas freqüentes às igrejas e
contatos constantes com integrantes dessas confissões sempre foi
percebida como um risco, especialmente pela liderança do núcleo
familiar da pesquisadora, originalmente católica. Em diversas oportunidades
a antipatia pelos evangélicos em geral, e pelos pentecostais em
particular –expressa abertamente, pela líder da família –
foi enfatizada como meio de demonstrar a insatisfação ou
a quase impossibilidade de aceitação de uma possível
conversão de sua prole. Quando se tratava de entrevistas ou conversas
em torno dos objetivos da pesquisa, havia relativizações
acerca da positividade das conversões que, afinal, teriam surtido
efeito regulador sobre os “crentes” que, reconhecidamente, teriam transformado
suas trajetórias, antes desviantes. Casos de alcoolismo e transgressões
sexuais serviam de exemplo.
A permanência
em constante “estado etnográfico”, hábito adquirido nos anos
de pesquisa em religião, funcionou como termômetro da conexão
estabelecida externamente entre o tema, a pesquisadora e a família.
O pluralismo estava lá, rejeitado por uns e comemorado por outros.
A emergência das novas opções religiosas estava presente
nas conversas, intrigas e fofocas, mesmo antes de a pesquisadora tentar
objetivá-las.
De observadora
a familiar de paciente: o retorno ao campo de investigação
Em março
de 2004 R. Menezes defendeu a tese de doutorado intitulada “Em busca da
‘boa morte’: uma investigação sócio-antropológica
sobre Cuidados Paliativos
.
A observação de congressos e cursos sobre a recente modalidade
de assistência em saúde denominada Cuidados Paliativos
,
direcionada a portadores de doença crônica degenerativa –
câncer e AIDS, entre outras – diagnosticados como “fora de possibilidades
de cura” (ou, em terminologia mais corrente, terminais), possibilitou o
embasamento para esta pesquisa. Paralelamente, realizou-se observação
etnográfica durante cerca de um ano – complementada por vinte e
duas entrevistas semi-estruturadas com profissionais de saúde –
no primeiro hospital público brasileiro construído especificamente
com esta finalidade: o Hospital do Câncer IV, do Instituto Nacional
do Câncer, na cidade do Rio de Janeiro.
Alguns esclarecimentos
se fazem necessários, no que diz respeito à inserção
da pesquisadora no campo de investigação. Além de
antropóloga, tem como primeira identidade profissional a formação
em medicina, com especialização em psiquiatria e psicanálise.
Desde o início da pesquisa no Hospital do Câncer IV surgiram
dilemas éticos, a partir da dupla identidade assumida. O Comitê
de Ética do Hospital do Câncer somente autorizou a observação
etnográfica e a realização de entrevistas com profissionais
mediante a apresentação do registro no Conselho Regional
de Medicina. Foi então explicitada verbalmente a impossibilidade
de pesquisa, na instituição, de investigadores de outras
áreas que não as da saúde, como sociólogos
e antropólogos. Assim, ingressou no campo de observação
como médica visitante, exercendo, no entanto, o ofício de
antropóloga. Para a equipe de saúde observada tratava-se
de uma “colega”.
Durante todo
o período em que freqüentou o hospital usou compulsoriamente,
a exemplo dos médicos da instituição, um jaleco branco
comprido e crachá com foto, nome e número de CRM, identificando-a
como médica visitante. Este fato acarretou inúmeras situações
ambíguas e complexas, tanto com membros da equipe de saúde
quanto com doentes e seus acompanhantes. Em diversas ocasiões, técnicos
de enfermagem ou enfermeiros solicitaram que assinasse e carimbasse receitas
de medicamentos controlados, o que não era possível, pela
condição de observadora. Até que ficasse claro o motivo
da presença no hospital, a recusa suscitou reações,
como: “mas você não é médica? Então qual
o problema?”. Em outros momentos, explicações teóricas
acerca de questões médicas, como efeitos colaterais da terapêutica,
interações medicamentosas ou, ainda, acerca de resultados
de exames, constituíram objeto de demandas. Face ao desconhecimento
sobre estes temas, recebeu respostas como: “mas você não está
fazendo um doutorado em Cuidados Paliativos? Então deve saber muito
para explicar! Deve estar por dentro das últimas novidades farmacológicas
para controle da dor!”.
A visita domiciliar
a um rapaz de vinte anos, com um tumor na coluna e impossibilitado de se
locomover, é ilustrativa. Inicialmente, a enfermeira conversou com
a mãe do paciente, na sala. Enquanto observava esta conversa, o
pai do doente chegou e, ao ler o crachá usado por R. Menezes, perguntou
se poderia aferir a pressão de sua mãe (avó do rapaz),
uma senhora de idade, deitada em um sofá. Antes de conseguir esboçar
qualquer reação, a enfermeira passou o aparelho de pressão
e o estetoscópio, dizendo: “enquanto verifico a medicação
você vai tirando a pressão dela, está bem?”. Não
havia alternativa: ali, a antropóloga/pesquisadora era uma médica.
Dirigindo-se aos familiares, explicou: “ela está me acompanhando
como médica visitante, não faz parte da equipe da visita
domiciliar”. Pouco depois ela dirigiu-se ao quarto para examinar o doente
e fazer o curativo, quando solicitou a ajuda de R. Menezes, tanto na avaliação
do grau de edema quanto para executar tarefas simples, como abrir
pacotes de gaze e cortar esparadrapo.
Empreender
uma pesquisa qualitativa em um hospital, a partir de perspectiva antropológica,
causa estranheza na equipe. Entretanto, o objeto da investigação
foi o que produziu, recorrentemente, surpresa entre os profissionais de
saúde. Para eles, uma médica – com especialização
em psiquiatria e formação psicanalítica – deveria
se interessar por outros temas, como o processo de luto de pacientes e
de seus familiares, as perturbações mentais no último
período de vida e, sobretudo, a depressão.
Investigar
o ideário dos Cuidados Paliativos, as práticas e as representações
a elas associadas, produzidas pela equipe paliativista, em torno da construção
da “boa morte”, não integrava o universo de reflexão dos
profissionais. Sem dúvida, durante o período de observação,
este dado produziu diversas e variadas reações, como no atendimento
domiciliar referido. Apesar de informada sobre os objetivos de sua presença,
ao final da visita, a enfermeira disse-lhe: “agora você está
sentindo o que é o trabalho em assistência domiciliar. Se
escolher este tipo de atendimento já tem uma idéia do tipo
de caso”. Em seguida, discorreu sobre os distintos processos do morrer.
Para ela, o caso do rapaz era típico de uma morte extremamente lenta
e com grande sofrimento para todos os envolvidos – “é daqueles que
não gostaria de acompanhar até o final, é terrível,
sofro muito” – em comparação com a visita domiciliar anterior,
à residência de um casal idoso – “ela vai morrer como um passarinho”.
Estes comentários indicam que, apesar de, explicitamente, a enfermeira
considerar a possibilidade de inserir a pesquisadora como médica
na equipe paliativista, de algum modo havia compreendido os objetivos da
investigação.
O universo
de paliativistas brasileiros ainda é restrito, de forma que, ao
observar congressos nacionais, R. Menezes pôde conhecer, à
época, a maior parte dos profissionais de saúde envolvidos
com esta modalidade assistencial. Em todo o período em que freqüentou
o Hospital do Câncer IV e manteve contato com sua equipe, uma pergunta
foi recorrente: quando iria defender a tese e divulgar os resultados da
investigação. Quando a data da defesa foi marcada, esta informação
foi veiculada à equipe e à direção do hospital.
Diversos profissionais de saúde confirmaram sua presença.
No entanto, apenas uma médica assistiu à defesa. Pouco depois
um exemplar da tese foi doado à equipe do hospital observado, mas
não houve interesse em discuti-la. Este dado não constituiu
surpresa para a antropóloga, pois repetiu uma situação
que ocorreu durante a pesquisa desenvolvida no mestrado
.
Desta feita foi realizada etnografia de um centro de tratamento intensivo
de um hospital público universitário. Pouco após a
defesa da dissertação, R. Menezes foi convidada pelo centro
de estudos de outro hospital para apresentar a pesquisa e houve convites
para eventos e conferências em congressos na área da saúde,
o que lhe possibilitou levantar a hipótese de que a análise
de uma determinada instituição acarretava interesse em outras
equipes, mas não na observada
.
A observação
de cursos, congressos, consultas médicas e discussão clínica
de casos possibilitou um acesso ao ideário dos Cuidados Paliativos
e a suas formas de implementação na prática. Nas entrevistas
foi possível apreender as representações dos profissionais
dedicados à causa da “boa morte”. A investigação produziu,
ainda, outra conseqüência não prevista na elaboração
do projeto: o aprendizado de recursos técnicos referentes ao controle
da dor, ao uso de opióides, às dosagens dos medicamentos,
aos