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Os Tambores do Antropólogo: Antropologia
Pós-Social e Etnografia
Marcio Goldman
Museu Nacional, Universidade Federal
do Rio de Janeiro
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“At Los Alamos things were
pretty tense from all the work, and there wasn’t any way to amuse yourself
(…). But I discovered some drums that the boys’ school, which had been
there previously, had collected: Los Alamos was in the middle of New Mexico,
where there are lots of Indian villages. So I amused myself (…) just making
noise, playing on these drums. I didn’t know any particular rhythm, but
the rhythms of the Indians were rather simple, the drums were good, and
I had fun (…). When the war was over, and we were going back to “civilization,”
the people there at Los Alamos teased me that I wouldn’t be able to play
drums any more because they made too much noise. And since I was trying
to become a dignified professor in Ithaca, I sold the drum that I had bought
sometime during my stay at Los Alamos” (Richard Feynman — Prêmio
Nobel de Física, 1965, que trabalhou no Projeto Manhattan).
O convite para publicar o texto que
se segue na Ponto.Urbe, a revista eletrônica do Núcleo de
Antropologia Urbana, renova a gentileza que fez com que, há cinco
anos, um artigo de minha autoria tivesse sido publicado na edição
comemorativa dos 50 anos da Revista de Antropologia. A “Apresentação”
do número explicava a publicação do texto sustentando
que se tratava de “ressaltar, não apenas a presença e importância
da etnografia ao longo das páginas da Revista, desde os primeiros
números (…), como o papel central e específico que ocupa
na prática e na análise antropológica” (Magnani
2003: 314). E, de fato, este era um dos pontos centrais de “Os Tambores
dos Mortos e os Tambores dos Vivos. Etnografia, Antropologia e Política
em Ilhéus, Bahia” (Goldman 2003).
No convite feito agora, o editor
daquele número especial, José Guilherme Magnani, me sugeriu
retomar a questão da etnografia (“considerações, dilemas,
desafios contemporâneos…”) e me perguntou se “dá ainda para
tirar algum som” daqueles tambores. Creio que estes, na verdade, não
pararam de tocar nesses últimos anos. Primeiro, em mim mesmo — e
não foi por acaso que utilizei o texto como prólogo de meu
livro sobre a política em Ilhéus tal qual pensada pelos ativistas
do movimento negro local (Goldman 2006). Segundo, na simpatia com que foi
recebido por muitos, em especial por estudantes que começam a se
envolver com o trabalho de campo. Finalmente, mas não menos importante,
em algumas observações menos simpáticas que sempre
acompanharam as diversas apresentações que fiz do texto.
Assim, ao apresentar uma de suas
primeiras versões em um encontro de antropologia, soube que alguém
comentou que etnógrafos devem escutar seus informantes, não
tambores — ainda mais quando tocados pelos mortos. Reação
que não é difícil de compreender quando alguém
se atreve a utilizar como instrumentos metodológicos uma experiência
mística e um sonho! Mas, justamente, um outro ponto do artigo era
tentar ilustrar e pensar os limites da nossa capacidade de levar os nativos
efetivamente a sério, seja quando pesquisamos candomblé,
seja quando estudamos política.
Por outro lado, não foram
poucos os que observaram, direta ou indiretamente, o estranho uso que o
texto faz de muitas idéias e uns poucos conceitos extraídos
do pensamento de Deleuze e Guattari. Aqui, o autor pode ser preso tanto
porque tem um cachorro como porque não o tem. Assim, do ponto de
vista de antropólogos menos simpáticos às relações
de sua disciplina com a filosofia — ou, em todo caso, com a filosofia deleuzeguattariana
—, parece difícil compreender como noções aparentemente
tão abstratas ou estranhas como “devir” ou como “minoritário”
poderiam servir para pensar uma atividade tão concreta e tão
terra-a-terra quanto o trabalho de campo ou mesmo a etnografia. Por outro
lado, cientistas sociais mais simpáticos a Deleuze e Guattari —
para não falar em filósofos mais ou menos devotos — não
deixaram de assinalar criticamente essa tentativa paradoxal de tentar salvar
uma antropologia “tradicional” utilizando uma filosofia revolucionária.
O problema aqui é que, ao
menos do meu ponto de vista, dois dos pontos mais interessantes da filosofia
de Deleuze e Guattari consistem justamente, primeiro, no fato de seus conceitos
só poderem ser criados e utilizados a partir de experiências
muito concretas; e segundo — pragmatismo “oblige” — de, conseqüentemente,
só existirem em sua capacidade de utilização e transformação
de acordo com as variadas experiências de diferentes usuários
dedicados a propósitos muito heterogêneos.
É nessa direção
que a antropologia pode reencontrar os passos da esquizoanálise
de Deleuze e Guattari, permitindo vislumbrar uma espécie de esquizoetnologia,
onde a potencialidade, em geral reprimida, do par paciente-analista explorada
pela primeira se desloca para aquela do par nativo-etnógrafo. Redefinição
da antropologia que, por sua vez, deveria afetar e contaminar produtivamente
práticas e pensamentos inspirados nesses mesmos filósofos.
Se as tentativas coletivas de reapropriação da vida por meio
de processos de singularização exigem, como escreveu Guattari
(1986: 118), uma “nova teoria dos arcaísmos”, e se estes consistem
não em regressões, mas na “utilização diferente
de elementos preexistentes, de comportamento ou de representação,
para construir uma outra superfície de vida ou um outro espaço
afetivo, para dispor de um outro território existencial”, a antropologia
poderia ser parte desse processo. Ela seria, assim, uma espécie
de cartografia de territórios existenciais reais e/ou em vias de
existir — desde que entendamos por território o “conjunto dos projetos
ou das representações sobre as quais vão se desenvolver
pragmaticamente uma série de comportamentos, de investimentos, no
tempo e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos”.
Gostaria, pois, de aproveitar o convite
e tentar não apenas refletir sobre questões levantadas no
texto de 2003, como, principalmente, tentar articulá-lo com o que
vim fazendo desde então. Ou, como escrevi a ele, para “tirar algum
som” daqueles tambores é preciso trocar seus couros, dar-lhes um
banho de dendê e afiná-los. Começo, contudo, com uma
lembrança mais antiga.
Há mais de dez anos, em um
encontro que serviria de base para a constituição do Núcleo
de Antropologia da Política (NuAP), Moacir Palmeira propôs
que uma das questões que todos os membros do núcleo deveriam
contemplar era a dos efeitos produzidos pelo fato de se pesquisar política
em contexto etnográficos onde o mesmo pesquisador, em outro momento,
havia pesquisado outro tema qualquer. Nunca levamos efetivamente a sério,
de forma coletiva, a sugestão, mas, pessoalmente, devo dizer que
ela nunca saiu da minha cabeça. Sem dúvida, porque, a partir
de 1996, fui estudar política no mesmo lugar em que, anos antes,
eu havia estudado candomblé.
O texto sobre os tambores refletia,
assim, esse movimento de passagem de um estudo sobre candomblé para
um estudo sobre política no mesmo contexto etnográfico. Ora,
há cerca de dois anos, estou tentando retornar aos estudos sobre
o candomblé — sempre no Matamba Tombenci Neto, terreiro de nação
angola, situado no bairro da Conquista, em Ilhéus, no sul da Bahia.
O que tornaria possível completar a reflexão do texto anterior
a partir desse segundo movimento, desta vez da política ao candomblé.
Esse retorno ao candomblé,
entretanto, foi muito influenciado e, até certo ponto, determinado,
por uma experiência teórico-pedagógica que eu e Eduardo
Viveiros de Castro (meu antigo orientador e atual colega) tentamos conduzir
já há cerca de três anos no PPGAS do Museu Nacional.
Experiência que envolveu, entre outras coisas, a criação
de dois sites de tipo “wiki” na Internet (o Amazone e o Abaeté —
atualmente em fase de migração para outra plataforma), de
uma “rede”, que batizamos de “Rede de Antropologia Simétrica Abaeté”,
da realização ininterrupta de seminários todas as
sextas-feiras à tarde (!) e de dois cursos realizados em 2006, um
no Museu Nacional e um na USP. O curso do Museu foi por nós batizado
de “Introdução a uma Antropologia Pós-Social: Redes,
Multiplicidades e Simetrizações”; o da USP se chamou “Simetria,
Reversibilidade e Reflexividade na Antropologia Contemporânea”.
Como
escreveu Guimarães Rosa (em Tutaméia), “tudo se finge
primeiro; germina autêntico é depois”. Foi apenas ao longo
desses cursos que começamos a levar a sério a expressão
“pós-social”. Fomos compreendendo, creio, que só faz sentido
empregar o prefixo “pós” quando ele é sinônimo de “pré”.
Ou seja, só vale a pena falar em “pós-social” quando já
se está pensando em algo ainda por vir, mas que não sabemos
e não podemos saber o que é. Este ponto é crucial
porque só assim podemos nos livrar dos fantasmas evolucionistas
que espreitam expressões como essas: apostamos em um futuro, mas
não sabemos e não podemos saber que futuro é esse.
E se o chamado “pós-modernismo” (dentro e fora da antropologia)
nunca foi capaz de sugerir respostas tão interessantes quanto as
questões que levantava, isso se deve, exatamente, à sua insistência
em se apresentar como um “estágio” posterior (e superior) à
modernidade, em lugar de se pensar como pura transição.
O primeiro passo na direção
desse futuro que não podemos saber qual é consiste em esboçar
linguagens conceituais alternativas, capazes de substituir noções
tidas por adquiridas. Por quê? Porque já faz algum tempo que
noções como sociedade, identidade e história (entre
outras) começaram a se assemelhar a esses remédios que perderam
seu prazo de validade (Latour 2005: 160) e que,
em um primeiro momento, se tornam inócuos para, mais tarde, passarem
a produzir efeitos essencialmente negativos. Em outros termos, essas noções
parecem ter perdido seu poder de nos fazer pensar. Para readquirir esse
poder, não basta, é claro, se contentar com os “outros” que
cada noção dessas contém como seu reverso: indivíduo,
cultura, natureza, pluralismo, relativismo etc. Mais, ou menos, que “criticá-las”,
trata-se de abandoná-las de forma radical em benefício de
novas construções conceituais. Ocorre, apenas, que no caso
da antropologia — ciência empírica e ciência do observado,
como já lembrava, há muito tempo, Lévi-Strauss — essas
construções conceituais estão necessariamente submetidas
à pesquisa etnográfica e a um ponto de vista que não
é o nosso.
Claro que a elaboração
de linguagens alternativas nunca foi coisa fácil, nem consensual
— e nem haveria porque sê-lo. Apesar disso, no caso brasileiro, onde
dificilmente discordâncias intelectuais são aceitas como motores
potenciais para a produção de novas idéias, a tarefa
parece particularmente complicada. Como sabemos, aqui adoramos os debates
intelectuais e mandamos nossos alunos estudar, por exemplo, as famosas
disputas entre Leach e Fortes ou entre Sahlins e Obeysekere. Mas nós
os adoramos desde que sejam travados bem longe, em Cambridge, em Chicago
ou em algum outro lugar do primeiro mundo antropológico. Quando
os debates acontecem aqui mesmo, entre nós, costumamos imediatamente
procurar as (más) intenções pessoais subjacentes e
imputar a pelo menos um dos lados em oposição propósitos
divisionistas destrutivos, concluindo que o melhor é evitar o assunto.
Tudo se passa, como observou judiciosamente Ordep Serra
(1995: 8-9), como se entre nós tendesse a vigorar “uma curiosa regra
da etiqueta (…): a praxe de só discutir com os mortos” — quando
qualquer pessoa de bom senso sabe que, bem ao contrário, que com
os mortos não se deve discutir!
No nosso caso, a dificuldade talvez
derive de dois pontos sobre os quais, não obstante, não é
possível deixar de insistir. Primeiro, uma recusa — metodológica,
eu diria — de aceitar como dados ou como definitivos autores e conceitos
consagrados. O fato de ter criado um conceito de sociedade, não
concede, por exemplo, nenhuma eternidade a Durkheim; reciprocamente, o
fato de ter sido criado por Durkheim, não faz com que o conceito
de sociedade tenha que ser aceito como definitivo. Segundo, a necessidade
absoluta de (re)aproximar a “etnologia indígena” da “antropologia
das sociedades complexas”, reaproximação que, curiosamente,
parece particularmente irritante. Provavelmente porque — além, é
claro, de não respeitar os feudos institucionalmente estabelecidos
— leva às últimas conseqüências a recusa do evolucionismo
e do progresso cujas virtudes os antropólogos cantam, mas praticam
cada vez mais raramente nessa época de sucesso de certas modalidades
contemporâneas de antropologia aplicada, obrigadas, por definição,
a conceder universalidade a valores, princípio e modos de pensar
sempre particulares e, mais grave, dominantes.
Não há nenhum romantismo,
nem nenhum democratismo, aqui. É evidente que consideramos o que
fazemos mais interessante do que o que não queremos fazer. Apenas
não é necessário conceder a essas preferências
nenhum fundamento transcendente ou absoluto. A criação ou
ativação de novas idéias e conceitos pode ser efetuada
por meio de um procedimento que eu denominaria “arrebatamento” (idéias,
conceitos, ou mesmo teorias, podem ser desterritorializados de seu solo
original e enxertados em novos contextos, onde se articularão com
distintos problemas, levantarão novas questões e apontarão
outras respostas) ou por “confrontação” (quando buscamos
opor a idéias, conceitos e teorias bem consagrados outras formas
de pensar). Nesse último caso, o efeito de desterritorialização
é obtido pela desestruturação de um território
aparentemente seguro e bem protegido:
“Um
sistema pontual será tão mais interessante à medida
que um músico, um pintor, um escritor, um filósofo se oponha
a ele, e até o fabrique para opor-se a ele, como um trampolim para
saltar. A história só é feita por aqueles que se opõem
à história (e não por aqueles que se inserem nela,
ou mesmo a remanejam). Não é por provocação,
mas porque o sistema pontual que encontraram pronto ou que eles próprios
inventaram permitia essa operação” (Deleuze
e Guattari 1980: 362-363).
* * *
Parecemos longe da etnografia, mas
tentarei tornar tudo isso um pouco mais palpável.
Quando fui estudar a política
em Ilhéus já tendo estudado o candomblé lá
mesmo, foi quase inevitável levantar a seguinte questão:
serei capaz de levar a sério o que meus amigos têm a dizer
não apenas sobre os orixás, mas também sobre a democracia?
Porque, na verdade, tudo se passa como se fosse mais fácil ouvir
o que os “informantes” têm a dizer sobre os orixás do que
sobre os políticos. Por quê? Provavelmente porque como temos
“certeza” que os primeiros não existem, nada do que os “crentes”
dizem sobre ele pode confrontar nosso saber. Ao contrário, certos
de que a democracia existe, ou ao menos pode existir, o que eles dizem
tem a perigosa capacidade de nos chocar.
Assim, quando comecei a estudar política
onde estudara candomblé, descobri rapidamente que agora o crédulo
era eu e os céticos meus amigos. E passei a me perguntar quais poderiam
ser os efeitos dessa inversão para o estudo de instituições,
valores ou processos que a sociedade à qual pertence o antropólogo
parece considerar centrais. Ou, em outros termos, minha questão
passou a ser a possibilidade de conduzir um experimento antropológico
onde tudo se passa como se os “nativos” estivessem plenamente qualificados
a falar sobre a democracia. Onde, enfim, eu teria algo a aprender com eles
sobre o modo de funcionamento desse sistema, assim como aprendera sobre
o candomblé. No final, é claro, fiquei plenamente convencido
de que meus amigos de Ilhéus são capazes de revelar aspectos
do funcionamento da democracia que nós geralmente não enxergamos
justamente porque com eles temos um comprometimento excessivo. O que significa,
talvez, que acabei tratando meus amigos como antropólogos capazes
de análises melhores, ou mais perspicazes, do que as minhas.
De novo, contudo, não há
nenhum romantismo ou ingenuidade aqui. Sei perfeitamente que a condição
para que aquilo que meus amigos dizem possa eventualmente receber um mínimo
de atenção na academia é que eu seja capaz de “traduzir”
o que dizem e fazem para uma forma aceitável — ou, pelo menos, difícil
de recusar com muita rapidez — por parte de intelectuais e acadêmicos.
Ou, em outras palavras, que eu seja capaz de “simetrizar” seus saberes
com aqueles dominantes. Em outros termos, e a posteriori, creio ser possível
dizer, hoje, que o que tentei fazer se situa — se me permitem uma imagem
tentadora para quem estuda candomblé — em uma espécie de
encruzilhada de quatro caminhos: a antropologia simétrica, de Bruno
Latour (1991); a antropologia reversa, de Roy Wagner
(1981); a antropologia reflexiva, de Marilyn Strathern
(1987);
a filosofia da diferença de Gilles Deleuze e
Félix Guattari (1980).
Aqui, é crucial ter muito
cuidado com o sentido em que cada um desses termos é empregado.
Primeiro, simetria não significa nem justiça, nem igualdade,
nem eqüidade, nem nenhum desses nobres ideais aos quais não
há nada a opor, a não ser o fato de que não é
disso que se trata aqui. A simetria não é sequer um princípio
geral funcionando da mesma forma em todas as partes. Basta observar, por
exemplo, como os “não-humanos” que Bruno Latour pretendeu colocar
em rede com os “humanos” a fim de evitar os dilemas suscitados pela oposição
entre natureza e cultura tendem a ser coisas ou objetos em suas famosas
“redes sociotécnicas”, mas precisam ser substituídos por
animais, vegetais, minerais e espíritos quando estudamos sociedades
indígenas ou religiões afro-brasileiras. É bem possível
mesmo que a verdadeira medida da nossa capacidade de simetrização
sejam as transformações simétricas que essa operação
suscita ou não, ou seja, o fato de que nossos conceitos e nosso
pensamento devem se transformar simetricamente aos conceitos e pensamentos
que transformam quando a eles se aplicam. Donde uma certa vantagem do termo
“simetrização” sobre “simetria”. Pois o segundo pode, por
vezes, sugerir a idéia de um cancelamento teórico e progressivo
das diferenças, enquanto simetrização indica inequivocamente
uma prática destinada a enfatizar as diferenças em seu sentido
intensivo.
É curioso observar,
aliás, que a posição de Latour em relação
à antropologia parece vir se modificando ao longo do tempo. Assim,
se em
1991, ele anunciava sua “antropologia simétrica”,
em 2005, parece mais interessado em uma nova sociologia. É verdade
que mesmo aí
Latour (2005: 41) escreve
que para que “a sociologia possa enfim se tornar tão boa quanto
a antropologia”, é necessário “conceder aos membros das sociedades
contemporâneas tanta flexibilidade para definir a si mesmos quanto
aquela oferecida pelos etnógrafos”. Mas esta é, sobretudo,
uma derradeira e aparente homenagem, que logo se converte em crítica
aberta. Pois tudo indica que o que o autor deseja provar não é
que sociologia seja apenas “tão boa” quanto a antropologia, mas
sim melhor do que ela: “para o melhor e para o pior, e ao contrário
de sua irmã a antropologia, a sociologia não se satisfez
jamais com a pluralidade das metafísicas: ela tem também
necessidade de abordar a questão ontológica da unidade desse
mundo comum” (Latour 2005: 259). Prisioneira
do que Latour denomina “culturalismo” e “exotismo”, a antropologia não
seria capaz, portanto, de cruzar “esse outro Rubicão, o que conduz
da metafísica à ontologia”, na medida em que reduz as metafísicas
que descobre a representações, apelando para o relativismo
cultural, que, no final das contas, acaba por pressupor a unidade de um
mundo explicável pela ciência.
Creio que é o pequeno, mas
fundamental, livro que dedicou ao tema do fetichismo, que marca bem essa
espécie de transição na obre de Latour. A argumentação
do livro é complexa e sofisticada e dela não reterei aqui
mais do que um ponto, aquele em que o autor deixa claro que seus interesses
dizem exclusivamente respeito à sua (nossa) própria sociedade:
“foi somente por mim, é claro, que me interessei, ou antes, por
esses infelizes brancos, os quais se quer privar de sua antropologia, encerrando-os
em seu destino moderno de anti-fetichistas” (Latour
1996: 96). Latour pretende, assim, demonstrar que, como todo mundo, também
o europeu “é ligeiramente superado por aquilo que construiu” (idem);
que entre Pasteur e os fetichistas a diferença é apenas de
grau, não de natureza, uma vez que um e outros não são
nem inteiramente realistas, nem inteiramente construtivistas; que é
possível afirmar tanto do ácido lático do primeiro
quanto dos fetiches dos segundos que são, ao mesmo tempo, descobertos
e produzidos. O único problema, do ponto de vista de um antropólogo,
é que a realização desse projeto exige que Latour
deixe explicitamente de lado o que os “fetichistas” têm a dizer a
respeito do que fazem, concentrando-se exclusivamente em suas “práticas”.
Não é tão
difícil compreender que, ao estudar cientistas, Latour tenha adotado
como método uma atenção, se não exclusiva,
ao menos privilegiada em suas práticas. Na medida em que tendemos
a conceder à ciência o direito de definir nossa realidade,
o discurso dos cientistas teria, sem dúvida, o poder de impor como
pontos de vista os recortes e categorias que, ao contrário, trata-se
de estudar. No entanto, não é assim que as coisas se passam
quando escutamos, por exemplo, um adepto do candomblé. Seu discurso,
ao contrário daquele do cientista, tende a ser considerados falso
ou, em todo caso, como enunciando uma verdade que não é a
nossa; nesse sentido, possui um potencial de desestabilização
de nossos modos de pensar e definir o real que, creio, é dever dos
antropólogos explorar. O que significa que a simetria entre a análise
das práticas científicas e outras só pode ser obtida
mediante a introdução de uma assimetria compensatória,
destinada a corrigir uma situação assimétrica inicial.
Mais, ou menos, que uma “antropologia simétrica”, trata-se, penso,
de elaborar simetrizações antropológicas.
De fato, em suas conceptualizações
acerca do fetiche e do fetichismo, Latour evita a análise cuidadosa
das teorias nativas. Conseqüência, creio, de sua hipótese
de que apenas “a unidade de um mundo comum” pode garantir a possibilidade
-ou estar na base - do interesse por outras sociedades e por outros pensamentos.
Assim, como o próprio Latour, não creio que as diferenças
“existam para serem respeitadas, ignoradas ou subsumidas” (Latour
1996: 105-106); mas, ao contrário dele, tampouco acredito que basta
defini-las como “chamariz para os sentimentos, alimento para o pensamento”.
Os discursos e práticas nativos devem servir, fundamentalmente,
para desestabilizar nosso pensamento (e, eventualmente, também nossos
sentimentos). Desestabilização que incide sobre nossas formas
dominantes de pensar, permitindo, ao mesmo tempo, novas conexões
com as forças minoritárias que pululam em nós mesmos.
É essa espécie de “comunicação
involuntária” e esse diferencialismo intensivo (voltarei a esses
pontos no final) que tornam possível aquilo que creio constituir
a característica fundamental da antropologia: o estudo das experiências
humanas a partir de uma experiência pessoal (a do etnógrafo).
E é por isso, também, que a alteridade constitui a noção
ou a questão central da disciplina, o princípio que orienta
e inflete, mas também limita, nossa prática. Parte da nossa
tarefa consiste em descobrir por que aquilo que as pessoas que estudamos
fazem e dizem parece-lhes, eu não diria evidente, mas coerente,
conveniente, razoável. Mas a outra parte consiste em estar sempre
se interrogando sobre até onde somos capazes de seguir o que elas
dizem e fazem, até onde somos capazes de suportar a palavra nativa,
as práticas e os saberes daqueles com quem escolhemos viver por
um tempo. E, por via de conseqüência, até onde somos
capazes de promover nossa própria transformação a
partir dessas experiências. Em outros termos, o problema é
até onde somos capazes de realmente escutar o que um “nativo”, tem
a dizer, de levá-lo a sério — o que não significa,
evidentemente, nem concordar com ele, nem constatar que ele concorda conosco,
nem, muito menos, forçá-lo a concordar conosco (Viveiros
de Castro 2002).
A única resposta, como observou
o próprio Latour (2005: 48), é:
“o máximo possível”; quer dizer, até sermos “postos
em movimento pelos informantes”. Estes, aliás, nunca são
“informantes” (termo detestável que a antropologia compartilha com
a polícia), mas atores dotados de reflexividade própria,
ou seja, teóricos com os quais podemos e devemos tentar dialogar
e aprender. A capacidade de suportar a palavra nativa, levá-la efetivamente
a sério e permitir que conduza a reflexão antropológica
até seu limite, me parecem os únicos critérios de
qualidade disponíveis em nossa disciplina — qualidade, é
evidente, infinita e interminavelmente aperfeiçoável.
Se as dificuldades sentidas por pelo
menos alguns antropólogos frente a Latour parecem derivar dessa
sua “solidariedade com o ponto de vista do observador”, por meio da qual,
há muito tempo, Lévi-Strauss
(1954: 397) definia a sociologia em oposição à antropologia,
noções como as de reversão, reflexividade e diferença
intensiva podem, talvez, nos recolocar no caminho de uma verdadeira antropologia.
Ou seja, daquela que acredita que o valor do diálogo com outras
formas de pensar e viver deve se apoiar justamente naquilo que estas têm
de diferente, não na hipótese, implícita ou explícita,
de que apenas “a unidade de um mundo comum” pode garantir a possibilidade
ou estar na base do interesse por outras sociedades e por outros pensamentos.
Creio que é apenas a exploração sistemática
e infinita dessas diferenças que pode alimentar a esperança
de compreender melhor os fenômenos que estudamos e, simultaneamente,
tornar mais interessante sua utilização “iluminadora” sobre
nós mesmos, estabelecendo conexões mais ricas do que aquelas
a que nos limitamos quando apelamos para a necessidade de um “mundo em
comum”. Mas não se trata, é claro, de simplesmente trocar
a frigideira das visões ocidentais pelo fogo da perspectiva nativa.
Trata-se, ao contrário, e se é que a entendo bem, de seguir
uma proposta lançada por Marilyn Strathern
(1996: 521):
“ao
antropologizar alguns desses temas (…) não estou apelando para outras
realidades culturais simplesmente porque quero negar o poder dos conceitos
euro-americanos (…). O ponto é estendê-los com imaginação
social. O que implica perceber como são postos para funcionar em
seu contexto indígena e, ao mesmo tempo, como poderiam funcionar
em um contexto exógeno”.
É nesse sentido que na noção
de “reversão”, tal qual proposta por Roy Wagner, não devemos
buscar simplesmente o fato absolutamente banal de que os nativos podem
fazer a antropologia de nós mesmos. Devemos perseguir a idéia
de que essa inversão — evidentemente imaginada por nós —
pode nos tornar capazes de desmontar e remontar os mecanismos essenciais
de nossa antropologia por meio do que os nativos dizem de nós. Em
outros termos, a “reversão” wagneriana deve ser compreendida, também
e principalmente, no sentido em que é empregada na chamada “engenharia
reversa”.
“Reflexividade”, por sua vez,
não significa nem “recursividade” (do tipo “antropologia da antropologia”),
nem modo de objetivação (à la Lévi-Strauss
ou Bourdieu), nem meio de subjetivação (como no pós-modernismo).
Essa modalidade de “reflexividade” está ligada a um dialogismo radical,
nem platônico nem dialético, antevisto por Pierre
Clastres (1968) e elaborado por Marilyn Strathern na seqüência
de Roy Wagner. Ela é, sobretudo, de ordem etnográfica e depende
de uma abertura para a palavra nativa, do reconhecimento da resistência
que esta nos impõe — e não da resistência que a ela
impomos. Trata-se de explorar o sentido acústico de reflexividade
— “um som se reflete de corpo que vibra a corpo que vibra” (Pignarre
e Stengers 2005: 178) —, não seu sentido óptico. Ou,
nesse caso, reconhecer que, como escreveu Jean Cocteau, “os espelhos deveriam
refletir um pouco, antes de devolver as imagens”.
É por isso que o antropólogo
não pode ser nem o cientista cujas teorias transcendem a experiência
que decidiu partilhar, nem apenas mais um narrador a acrescentar seu relato
a todos os demais. “Teorias etnográficas”, como as batizou, de modo
algo paradoxal, Malinowski (1935), eis o que fazemos. Em termos mais contemporâneos,
talvez fosse possível dizer que tudo a que o etnógrafo pode
aspirar — mas isso não é pouca coisa — é estabelecer
com os nativos uma dessas “conexões parciais” de que nos fala Strathern
(2005): “mais do que um e menos do que dois”, eles passam a constituir
um ciborgue, no sentido que Donna Haraway (1991)
deu ao termo. Seremos capazes de dizer algo diferente dos nativos sem nos
metermos a dizer algo a mais que eles? Não se trata, então,
nem de apenas repetir os conceitos nativos, nem de suprimi-los em benefício
dos nossos, nem de projetar os nossos sobre os deles. O único problema
verdadeiro é o alinhamento conceitual entre diferentes modos de
pensar, o que permite, por um lado, clarear as questões (sem pretender
“esclarecer” nada nem, sobretudo, ninguém) e, por outro, as transformações
de nosso próprio pensamento. Trata-se de usar os conceitos de forma
propriamente conceitual, ou seja, não tipológica. Não
como categorias dentro das quais algumas coisas entrariam e outras não,
mas como modos de organização e formas de criação.
A única particularidade do antropólogo diante do filósofo
é que ele escolheu começar com os conceitos dos outros e,
só depois, articulá-los ou alinhá-los de algum modo
com os seus — mas isso, claro, faz toda a diferença do mundo
Se há algo a afastar, é
a fantasia intelectual da “crença”. Como escreveu Wagner
(1981: 30), “uma antropologia que se recusa a aceitar a universalidade
da mediação, que reduz o significado a crenças, dogma
e certezas, será empurrada para a armadilha de ter de acreditar
ou nos significados nativos, ou nos nossos próprios”. Não
é de crença que se trata, mas de experiência, conceitos
e teorias. A particularidade do antropólogo, como sustentou Jeanne
Favret-Saada (1990), é sua disposição e capacidade
de “ser afetado” por outras experiências. O que não significa,
claro, que os afetos envolvidos sejam os mesmos no antropólogo e
nos nativos, mas apenas que, por estarem todos “afetados”, cria-se uma
situação de “comunicação involuntária”
entre eles, o que constitui a condição de possibilidade do
trabalho de campo e da etnografia.
Chegamos aqui ao quarto caminho que
compõe a encruzilhada da antropologia pós-social — a filosofia
de Deleuze e Guattari. Porque não se trata de sustentar nenhum tipo
de posição “relativista”, enaltecendo as virtudes das chamadas
diferenças culturais. O relativismo, hoje, é mais um desses
remédios que perderam seu prazo de validade, funcionando como obstáculo
para a elaboração de uma antropologia efetivamente alternativa.
Dele poder-se-ia dizer o que Lévi-Strauss
(1973: 385) escreveu do evolucionismo: “trata-se de uma tentativa de suprimir
a diversidade das culturas fingindo reconhecê-las plenamente”.
Uma perspectiva apoiada na
noção de multiplicidade intensiva — aquela que não
é nem o múltiplo do uno, nem o oposto da unidade, mas rizoma
e singularidade — deve começar reconhecendo a dificuldade em estabelecer
o ponto exato onde passam as “fronteiras” entre as “culturas” que “diferem”.
Fronteiras certamente existem, mas são sinuosas e incertas. Assim,
e por exemplo, o perspectivismo de Nietzsche pode estar mais próximo
do perspectivismo ameríndio do que do kantiano. As diferenças
cortam os coletivos por dentro tanto quanto por fora e é isso, penso,
que faz com que o relativismo ocidental, com o pluralismo que o acompanha,
seja sempre acompanhado de uma certeza, desejo ou insinuação
de que existe, para falar como Paul Veyne (1978: 23),
um “geometral” que sintetizaria todas as perspectivas parciais; um “julgamento
de Deus”, que superaria e deteria todos os juízos particulares.Deleuze
e Guattari
(1980: 536-537), escreveram que “a história somente
traduz em sucessão uma coexistência de devires” e que “tudo
coexiste, em perpétua interação”. Se reconhecermos
a validade desse princípio também para o eixo espacial, seremos
capazes talvez de passar do “ou” do culturalismo” básico da antropologia
para o “e” dos devires; de passar, como sugeriu Guattari
(1990: 27-28) das teorias sobre o que é para as etnografias do “em
vias de”.
NOTAS
Trechos deste texto foram apresentados em conferências
no CEBRAP (SP), Universidade Federal de Pelotas (RS), Universidade Federal
de Juiz de Fora (MG) e Universidade Estadual de Santa Cruz (BA).
Marcio Goldman é Professor Associado do Programa de Pós-Graduação
em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de
Janeiro; pesquisador do CNPq e bolsista da FAPERJ. É autor de Razão
e Diferença. Afetividade, Racionalidade e Relativismo no Pensamento
de Lévy-Bruhl (1994), Alguma Antropologia (1999) e Como Funciona
a Democracia. Uma Teoria Etnográfica da Política (2006),
além de organizador, em colaboração com Moacir Palmeira,
de Antropologia, Voto e Representação Política (1996).
Agradeço aAmir Geiger por essas memórias de Richard Feynman
acerca dos seus tambores.Referências
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