As árvores têm
linhas rizomáticas, mas o rizoma tem pontos de arborecência.
Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Transformações no “pedaço”.
Cartografia 1: “Dos pedaços
para a mancha”.

Cartografia 2: “De quebrada
para quebrada”.

Afirmam Gilles Deleuze e Félix
Guattari:
[...] sempre que possível
o Estado empreende um processo de captura sobre fluxos de toda a sorte,
de populações, de mercadorias ou de comércio, de dinheiro
ou de capitais etc... Mas são necessários trajetos fixos
com direções bem determinadas, que limitem a velocidade,
que regulem as circulações, que relativizem o movimento,
que mensurem nos detalhes os movimentos relativos dos sujeitos e dos objetos
[Deleuze & Guattari, 1997b: p. 59].
A implementação de
políticas públicas voltadas à construção
de pistas de skate em diferentes pontos da cidade de São
Paulo vem produzindo transformações tanto na forma pela qual
os skatistas se apropriam do espaço urbano, como nas relações
de sociabilidade formadas no “pedaço”. Isto porque o processo
de sedentarização destes jovens em seus bairros de origem
tem sido rompido por meio da construção dos skateparks,
fazendo com que os “trajetos” construídos por eles - no movimento
de se “fazer cidade” -, passem a ter uma nova dinâmica, na medida
em que a presença de pontos “arborificados” [Deleuze
& Guattari, 1995] em sua rede produzem uma nova cartografia
urbana.
Neste sentido, as pistas passam a
cumprir um papel que tende a determinar a circulação dos
skatistas no meio urbano, como uma espécie de centro gravitacional
que leva à formação de uma cartografia onde os pontos
passam a compreender as linhas. Logo, isto tem feito com que os skatistas
desenvolvam uma nova dinâmica na metrópole, em que a ocupação
e a re-significação da arquitetura urbana vêm sendo
preteridas por caminhos que levam os skatistas a territórios
fixos e determinados para a prática do skate, localizados de forma
dispersa pelos bairros mais afastados de São Paulo. Este novo movimento
tem feito com que os skatistas passem a construir “circuitos” ao atravessar
os diferentes bairros da cidade. A categoria de “circuito” é assim
definida por José Guilherme Magnani:
Trata-se de uma categoria
que descreve o exercício de uma prática ou a oferta de um
determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e
espaços que não mantêm entre si uma relação
de contigüidade espacial, sendo reconhecido em seu conjunto pelos
usuários habituais [...] A noção de circuito também
designa um uso do espaço e de equipamentos urbanos – possibilitando,
por conseguinte, o exercício de sociabilidade por meio de encontros,
comunicação, manejo de códigos -, porém, de
forma mais independente com relação ao espaço, sem
se ater à contigüidade, como ocorre na ‘mancha’ e no ‘pedaço’.
Mas tem, igualmente, existência objetiva e observável: pode
ser levantado, descrito e localizado [Magnani,
2002: p.23 – 24].
Este novo “circuito” tem possibilitado
que o universo da “mancha” venha a se projetar na dimensão do “pedaço”,
na medida em que a pista passa a atrair skatistas de “fora da vizinhança”
para dentro do bairro. Há de se destacar que pelo fato de estes
equipamentos, em sua maioria, estarem localizados em bairros periféricos
da capital (nas "quebradas"), permite – assim como acontece com o
funk
no Rio de Janeiro [Herschmann, 2000: p. 237]
– que muitos jovens tenham acesso a periferia na busca por pontos para
a prática do skate; mas, para isto ocorrer, é importante
que os skatistas estabeleçam alianças fora de seus respectivos
“pedaços”, mesmo que estas ligações sejam circunstanciais
e se esgotem no instante do encontro [Toledo, 1996:
p. 111].
Isto porque, ao contrário
da “mancha”, que tende a se instalar em territórios mais centrais
da cidade – caracterizado por ser um espaço não definido
e não delimitado, do qual ninguém é propriamente dono
- a esfera do bairro (mesmo com o skatepark), por sua vez,
é um espaço marcado por relações mais familiares,
próximas, homogêneas e de conhecimento, cuja presença
do “estrangeiro” (aquele que é de fora da quebrada) é
vista, muitas vezes, com desconfiança por seus moradores.
Nesta perspectiva, os “pedaços”
se transformam em pontos de referência, tanto para os locais como
para os de fora, onde a pista passa a representar uma espécie de
ágora – “a tekatawa dos Parakanã Orientais” [Fausto,
2001] -, isto é, um espaço de pertencimento e reconhecimento
dos skatistas residentes do bairro frente aos outros grupos que passam
a adentrar seu território, de modo a criar um “sentimento de localidade”
caracterizado por uma “porção de terra a que os ‘moradores’
têm consciência de pertencer, formando uma certa unidade diferente
das outras” [Candido, 2001: p. 84].
Com isso, os “pedaços” tendem
a perder sua “transitoriedade de ocupação” [Magnani,
2002], na medida em que as redes de sociabilidade passam a ser construídas
por meio de uma maior sedentarização, ou seja: o skatista
passa, agora, a ser identificado em sua dimensão espacial (o skatepark).
Desta forma, o “pedaço”, ao se incorporar a um “circuito” mais amplo,
torna-se mais físico, visível, público e fluido
em decorrência da constante presença de skatistas de fora
do bairro no espaço da pista.
No entanto, este processo não
implica na diluição da categoria de “pedaço”, mas
aponta para as transformações que ela vem sofrendo ao ser
inclusa no “circuito” do fluxo do corpo-skatista na cidade em busca de
pontos para a prática do skate. Assim, esta categoria continua,
ainda, válida para sistematizar segmentos e adensamentos locais
do universo de skatistas, pois, mesmo com as transformações
ocorridas em detrimento da instalação de uma pista de skate
no bairro, o “pedaço” continua mantendo um componente simbólico
de identificação e classificação daqueles que
são os locais da pista, fazendo com que seja conservada uma previsibilidade
e uma unidade do segmento: sabe-se quem anda na pista regularmente, quem
são o locais e, como já citado, a existência e o reconhecimento
destes locais tornam-se importante para que os skatistas “estrangeiros”
possam utilizar a pista com maior segurança. No caso de pistas localizadas
em espaços privados, conhecer os locais destes espaços significa
também ter acesso a espaços de circulação restrita.
Logo, este movimento, que tende a
levar a um estriamento da sociabilidade do território–corpo para
o território–pista, tem feito com que o “pedaço” passe a
coexistir dentro de uma espécie de “mundo social” [Velho,
1999], ou seja, o skatista, dentro do seu bairro, ao mesmo tempo em que
mantém relações mais estáveis e familiares
com seus pares da quebrada, passa também a estar em contato (sem
sair do bairro) com o universo mais amplo, heterogêneo e diferenciado
do skate.
Recortes do circuito
Segundo José
Guilherme Magnani [2002: p. 24], a categoria de “circuito” pode alcançar
vários níveis de abrangência, o que faz com que dependa
do pesquisador delimitar o seu contorno. No caso desta nova cartografia
que vem sendo traçada pelos skatistas, em decorrência do grande
número de pistas que vem sendo construídas, acaba por fazer
com que este “circuito” contemple uma dimensão espacial muito ampla,
cuja principal característica de sua ocupação é
dada pelo localismo (pista como território) e pela alternância
(busca por conhecer novos espaços).
Neste sentido, no decorrer do trabalho
de campo, um “circuito” que me chamou a atenção para um possível
recorte, e que tem no Centro Educacional Unificado (CEU) do Butantã
um dos seus pontos gravitacionais, consiste no trajeto construído
por skatistas cuja preferência é o de andar de skate em pistas
que tenham entre seus obstáculos o banks
.
Assim, pude observar que dentro de
um “circuito” mais amplo de pistas de skate que abrangem pontos
que extrapolam o limite da região metropolitana de São Paulo
– já que muitos skatistas viajam para o interior e para o litoral
em busca de conhecer novas pistas (questão da alternância)
-, existe a formação de uma espécie de “sub circuito”
específico daqueles skatistas que se dirigem à pista para
o uso, em especial, do banks.
Este obstáculo foi criado
no final dos anos de 1970, nos Estados Unidos - inspirado nos formatos
de piscinas que passaram a ser apropriadas pelos skatistas na busca por
uma inovação na forma de se andar de skate –, e que
durante os anos de 1980 tornou-se popular e requisitado pelos skatistas,
inclusive aqui do Brasil. Entretanto, com o crescimento do street skate
e com o fechamento de diversos skateparks, o banks acabou
caindo no ostracismo no decorrer dos anos 1990; mas, atualmente, com a
abertura de diversas pistas (a ênfase dada a estas construções
visa contemplar uma arquitetura “híbrida” que misture o street
com o vertical
),
o banks vem sendo “resgatado” por ser um obstáculo que além
de possuir diferentes formatos e muitas curvas, também é
caracterizado por ser uma espécie de meio termo entre o street
e o vertical, possibilitando que praticantes destas duas modalidades
possam utilizá-lo.
Todavia, não são todas
as pistas que possuem este tipo de obstáculo, além de
sua localização não ocorrer de forma contígua.
Assim, este “circuito - banks” é reconhecido em sua totalidade apenas
pelos skatistas que o usam de forma mais sistemática. Isto porque
uma diferenciação precisa ser feita entre os skatistas que
se dirigem para a pista no intuito de usar o banks e aqueles que
o utilizam quando estão na pista de uma forma mais esporádica,
ou seja, não é exclusivamente este obstáculo que o
motiva para ir a determinada pista. É apenas mais um.
Desta forma, existe um público
específico que vai para o skatepark para o uso do banks.
Ao pesquisador com um olhar “de perto e de dentro” [Magnani,
2002] frente aos diferentes skatistas que atravessam este espaço,
alguns traços indicam quem são os bankeiros (skatistas que
andam em banks): o primeiro é a presença de equipamentos
(capacetes e joelheiras que, embora não se configurem como uma regra
entre seus praticantes, pois muitos skatistas não usam este tipo
de equipamento exceto nas pistas onde o seu uso é obrigatório
(como é o caso dos skateparks de Barueri e de São
Bernardo do Campo)-, uma distinção (não absoluta)
com relação aos streeteiros que, salvo raras
exceções, não utilizam nenhum tipo de equipamento
de proteção.
Um segundo traço que os diferencia
é o formato do skate visto que, ao contrário do street
que possui rodas pequenas, trucks
estreitos e shapes
mais finos – para deixar o skate mais leve para a execução
das manobras de “borda e de giro” -, os bankeiros, de modo geral, possuem
skates
com rodas maiores, além de trucks e shapes mais largos,
visando não tanto a execução de manobras “técnicas”,
mas que o skate possa ganhar mais velocidade e ter maior estabilidade.
É comum, ainda, neste universo de praticantes a crescente presença
dos longboarders, que são aqueles que possuem skates
com dimensões maiores (acima de 40 polegadas), cujo formato lembra
uma prancha de surfe; sua presença é constante, também,
nas ladeiras da cidade, já que muitos
longboarders são
praticantes da modalidade downnhill
.
Outro elemento importante, que caracteriza
os bankeiros, são as técnicas corporais empregadas em sua
prática, visto que as linhas
no banks consistem em movimentos de alta velocidade valendo-se das
curvas do obstáculo, manobra esta conhecida como carving,
em que o skatista executa um movimento que componha um trajeto
no obstáculo em forma de “oito”. Esta técnica, assim como
no downhill – e ao contrário do street -, possui um
movimento que se assemelha às manobras executadas pelos surfistas
na onda, onde os corpos buscam se mover com o máximo de agilidade,
velocidade e elasticidade, de modo a eliminar ao máximo o impacto
e o atrito.
Esta característica acaba
fazendo com que muitos surfistas passem a andar de skate, na busca por
reproduzir os movimentos executados na onda, mas só que agora no
concreto e no asfalto. Por esse motivo, é mais comum encontrar surfistas
que estejam na pista para utilizar a área do banks do que para praticar
o street – já que esta modalidade possui movimentos e manobras (por
exemplo os flips
)
diferenciadas do surfe.
O atributo do banks de produzir
um menor impacto no corpo do skatista proporciona aos de idade mais avançada,
ou seja, os old schools, usar este obstáculo como forma
de praticar uma “economia dos movimentos”, que tem como objetivo evitar
os impactos e os tombos que ocorrem de forma mais sistemática na
prática do street skate.
Portanto, entre os skatistas que
se locomovem (em grupo ou sozinhos) na cidade – ou para além dela
- em busca de pistas que possuam um banks para a prática
do skate, destacam-se os skatistas praticantes do surf e–
que, valendo-se das características do banks, desenvolvem
uma técnica corporal específica de andar de skate – diferente,
por exemplo, dos movimentos executados na mini-rampa que, dentre os diferentes
obstáculos, é o que mais se assemelha ao banks. Desta
forma, embora cada skatista com o qual conversei tenha seu banks
de preferência, seja por sua localização, seja por
seu formato – o que faz com que sua presença seja mais assídua
em determinada pista – de modo geral o “circuito - banks” possui
a seguinte geografia, como aponta o quadro abaixo:
Fonte: pesquisa de campo
Nesta perspectiva, portanto, tomando
como referência a pista do CEU Butantã, os bankeiros que andam
ali tendem a freqüentar mais as pistas de Barueri, CEU Campo Limpo,
Imigrantes e, caso tenham acesso, as pistas particulares da Zona
Oeste. Isto se deve a dois motivos: o primeiro é a localização
das pistas que permite uma locomoção mais fácil, sem
ter que atravessar toda a cidade para andar de skate. Com isso, exceto
em semanas que antecedem os campeonatos, não é tão
comum, por exemplo, ver um skatista local do CEU Veredas (Itaim Paulista
- Zona Leste) fazendo uma session
no CEU Butantã ou em Barueri.
Já o segundo motivo deve-se
ao fato do tipo (formato) de banks que cada pista apresenta, visto
que - como no CEU Butantã existe um banks “fechado” - o skatista
que é local deste espaço, irá buscar se locomover
pela cidade (e além dela) em busca de pistas que tenham banks com
características diferenciadas; como é o caso, por exemplo,
do CEU Campo Limpo e da pista da Imigrantes (possuem banks “abertos”).
É importante ressaltar que
durante a idealização do projeto da construção
das pistas de skate nos Centros Educacionais Unificados, uma das
reivindicações do arquiteto e skatista George Rotatori –
responsável pela elaboração do projeto – foi o de
não haver uma padronização no formato das pistas,
como era a vontade da prefeitura. Segundo Rotatori, esta uniformização
poderia se transformar em uma barreira à evolução
técnica dos skatistas, já que não lhes possibilitaria
o contato com obstáculos e formatos novos de pista.
Uma outra leitura que se pode fazer
é a de que este projeto de padronização – caso implementado
– provavelmente levaria os skatistas a se fecharem mais em seus bairros,
haja vista que não valeria a pena circular pela cidade em busca
de equipamentos iguais àqueles presentes em suas quebradas.
O desejo de andar de skate em uma pista diferente é um dos
principais motivos que fazem os skatistas circularem por espaços
mais abrangentes da cidade, fazendo com que eles excedam os limites espaciais
do bairro.
Esta busca por novos tipos de pista
é o que faz, também, que, de forma mais esporádica
(devida à distância), os skatistas se desloquem por espaços
mais amplos e que extrapolam o limite da cidade; como é o caso das
incursões às pistas de São Bernardo (região
metropolitana) e de São Sebastião (litoral) as quais, que
pelo fato de possuírem um “tri-banks”, se tornam alvo do
desejo dos bankeiros, de maneira que, mesmo com a distância a ser
percorrida, a ida até estes locais seja recompensadoras para os
praticantes.

Novas formas de transbordamento;
ou como verter pelo ponto.
"Os Aché Gatu viveram
desde então meio nômades meio sedentários: eles continuavam
a percorrer os bosques, caçando ou coletando suas provisões,
mas acabavam sempre por voltar [...] ao acampamento fixo que o destino
lhes havia assinalado em Arroyo Moroti".(Pierre Clastres).
Como visto, a construção
de skateparks em diferentes bairros da cidade de São Paulo
tem feito com que os diversos “pedaços” dos skatistas passem por
uma maior sedentarização e ganhem uma maior dimensão
espacial. No entanto, é importante observar dois aspectos que fazem
com que o skatista possa, a qualquer momento, se desterritorializar e deslizar
novamente por um “espaço liso” [Deleuze
& Guattari, 1997b]. O primeiro deles consiste no fato de que a
sociabilidade entre os skatistas não se fundamenta primordialmente
na defesa do território, como acontece com os estudos clássicos
sobre gangues feitas pela “Escola de Chicago” [Pereira,
2005] (embora a questão espacial, dada pela perspectiva do localismo,
tenha se tornado um elemento de maior importância com a construção
de pistas nas quebradas). Isto faz com que seja importante para
os skatistas - assim como acontece com os pichadores [Pereira,
2005: p. 64] - sair do bairro e se locomover por diferentes espaços
da cidade.
Um outro fator relevante é
que mesmo que os “aparelhos de captura” [Deleuze
& Guattari, 1997b] estriem os skatistas em locais pré-determinados
para sua prática, o desejo de evasão e de apropriação
da arquitetura urbana – que levam à produção de possíveis
conflitos - não são eliminados, mas apenas controlados [Ranciére,
1996], de modo que, a qualquer instante, na medida em que o skatista busque
“tornar-se livre”, isto é, romper a fronteira espacial da pista,
ele poderá, se assim o desejar, verter pelo ponto.
Logo, o processo que leva ao fechamento
do skatista em espaços exclusivos para sua prática, não
implica de modo algum em um movimento “fatalista” (sem volta) de domesticação.
Isto porque, mesmo quando o skatista encontra-se estriado na pista, “sem
se movimentar”, ele pode manter sua trajetória sem sair do lugar,
praticar um nomadismo sem se mover, na medida em que se recusa a abandonar
o “espaço liso” (em sua dimensão individual), ao buscar superar-se
a si mesmo. Nesta perspectiva, a captura do skatista pode produzir resultados
inesperados, pois como apontam Gilles Deleuze e Félix Guattari:
[...] eis que esse empreendimento
(a construção de skateparks pelo poder público)
desemboca no resultado mais inesperado: a multiplicação dos
movimentos relativos, a intensificação das velocidades relativas
no espaço estriado, acaba reconstruindo um espaço liso ou
um movimento absoluto [...] o Estado não só relativiza o
movimento, mas torna a produzir movimento absoluto [...] torna a produzir
o liso ao final do estriado [Deleuze & Guattari,
1997b: p. 61].
Com isso, a pista de skate apresenta
uma certa ambigüidade, na medida em que permite ao skatista aumentar
sua potência enquanto performance em cima do “carrinho”, haja vista
que “todo progresso se faz por e no espaço estriado” [Deleuze
& Guattari, 1997b: p. 195]. Mas, por outro lado, a segurança
e a comodidade que a pista produz podem levar a uma certa impotência
do skatista, no sentido de deslizar por um “espaço liso” que produza
diferentes formas de ocupação do espaço urbano. No
entanto, o skatista sente a necessidade de transbordar o “espaço
estriado”, sente um desassossego para que possa criar e produzir novas
intensidades, riscos e desafios (aprender novas manobras), além
de que ele busca compartilhar seus excessos, isto é, mostrar suas
manobras, sua técnica e habilidade para um universo maior de skatistas
que não só aqueles do seu “pedaço”. Isto faz com que,
se as políticas públicas constroem o ponto, o skatista produza
a linha; onde ele irá tomar o “espaço urbano como um sonho
de pedra que liberta o homem do fechamento” [Maffesoli,
2001: p.99].
Desta forma, o skatista tem um desejo
de evasão que se configura como a procura pelo ‘eldorado’, símbolo
da busca sem fim, da prática de um ‘Corpo sem Órgãos’
“[...] que faz com que a fronteira seja sempre adiada, a fim de que essa
aventura possa prosseguir” [Maffesoli, 2001: p.
41].
Logo, uma nova cartografia é
traçada a partir de um “enraizamento dinâmico” que possui
um duplo movimento, indicando tanto o seu lugar ‘original’, como o seu
além; a pista, sob este prisma, aparece como o refúgio onde
se idealiza a projeção para fora de suas fronteiras [Maffesoli,
2001: p. 2001]. Contudo, é importante ressaltar que com a existência
de diferentes skateparks nas regiões mais afastadas da capital
exercendo a função de atração e gravitação,
em muitos casos o movimento do skatista - ao praticar trajetos nômades
- será mais estratégico, ligando um ponto ao outro, embora
estes pontos se configurem mais como uma alternativa do que como uma determinação,
pois como afirmam Gilles Deleuze e Félix Guattari:
O nômade tem um território,
segue trajetos costumeiros, vai de um ponto ao outro, não ignora
os pontos [...] ainda que os pontos determinem os trajetos, estão
estritamente subordinados aos trajetos que eles determinam, ao contrário
do que acontece com o sedentário [...] todo ponto é uma alternância
e só existe como alternância [Deleuze
& Guattari, 1997b: p. 50 – 51].
Neste sentido, os “circuitos” traçados
pelos skatistas, embora partam de um “ponto -árvore”, os movimentos
executados não buscam a raiz, mas, acima de tudo, seguir o canal,
ou seja, experimentar novos picos; seu objetivo - mais do que permanecer
na pista - é o de atravessar, provar uma multiplicidade de espaços
sem se prender a uma geometria rígida que vise subordinar a trajetória
nômade de superar-se a si mesmo e de produzir agenciamentos frente
à determinação espacial da pista. Com isso, o skatista,
neste movimento, executa uma implosão do ponto de modo a produzir
uma multiplicidade de linhas; movimento este que fará com que:
Os caules de rizoma não
parem de surgir das árvores; as massas e os fluxos escapam constantemente,
inventam conexões que saltam de árvores em árvores
e que desenraizam (mesmo que por instantes): Todo um alisamento do espaço,
que por sua vez reage sobre o espaço estriado. Mesmo e, sobretudo,
os territórios (‘pedaços’) são agitados por esses
profundos movimentos [Deleuze & Guattari,
1997b: p. 221].
Portanto, esta nova cartografia faz
com o skatista se desloque pela cidade "de quebrada para quebrada",
ora se arborificando como um modo de afirmar sua filiação
(um localismo) a um determinado “pedaço”, ora realizando um movimento
rizomático como uma forma de estabelecer alianças e construir
agenciamentos para que possa escoar seus excessos; para que isto ocorra,
bastará ao skatista “ajustar a vestimenta e a própria casa
ao espaço exterior, ao espaço liso aberto onde o corpo se
move” [Deleuze & Guattari, 1997b: p. 181].
Notas
O Banks é um obstáculo presente exclusivamente em
skateparks,
cujo formato básico assemelha-se a uma banheira.
Street
é a modalidade praticada, em especial, nas ruas.
Vertical é a modalidade praticada em half-pipes (obstáculo
em formato de um “U”).
Truck
é o eixo metálico preso ao shape.
Shape
é a tábua onde o skatista coloca os pés; conhecida,
também, como deck.
Downhill
é a modalidade praticada em ladeiras.
Linha é o conjunto de manobras executado em seqüência
pelo skatista.
Flip
é a manobra em que o skate gira 360º em torno do seu
próprio eixo.
Session
(ou sessão) é como os skatistas chamam o ato de andar de
skate.
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