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ANTÔNIO AUGUSTO ARANTES
Por Lilian
de Lucca Torres
Antropóloga, docente
da FAAP e Pesquisadora Associada do Núcleo de Antropologia Urbana
da USP
Apresentação
A
trajetória de Antonio Augusto Arantes Neto percorre os caminhos
de uma carreira docente de quatro décadas em duas universidades
paulistas – a USP e a Unicamp – e inclui atuações diversificadas
no campo das discussões sobre cultura popular, patrimônio,
patrimônio imaterial, espaço urbano e poder.
Foi orientado pelo Prof. Edmund Leach,
no King’s College, em Cambridge, e o primeiro orientando de mestrado da
Profa. Eunice Ribeiro Durham, no Brasil, na Cadeira de Antropologia da
FFLCH da USP, no início de 1970. Sua pesquisa teve como tema a visão
de mundo do sertanejo, as relações de parentesco e o regime
de propriedade e posse da terra. Suas reflexões continham o sabor
da inovação que estava ocorrendo, então, na Cadeira
de Antropologia: uma perspectiva mais politizada, um diálogo mais
aberto e direto tanto com as questões sociais que se colocavam na
época quanto com outras disciplinas, como a Filosofia, a Sociologia
e a Ciência Política. Também em 1970, participou do
projeto de criação da Unicamp, ocupando-se, juntamente com
outros professores, da estruturação da área de Antropologia
do IFCH desta universidade.
Nos anos de 1980, no início
do processo de redemocratização, houve um movimento crítico
em direção à conceituação do que é
patrimônio e, em 1983, Antonio Arantes assumia a Presidência
do CONDEPHAAT. Na década seguinte, o tema das relações
entre espaço, poder e cultura nas megacidades contemporâneas
torna-se central no seu trabalho. Também esteve à frente
do IPHAN, de 2004 a 2006, como seu presidente, tendo implementado
o Departamento de Patrimônio Imaterial e o Programa Nacional
do Patrimônio Imaterial deste órgão.
:
No início de sua trajetória acadêmica, seus interesses
estavam voltados para o Brasil rural: seu mestrado foi sobre relações
de compadrio e seu doutorado, sobre literatura de cordel no nordeste. Comente
essa sua opção inicial pela Antropologia Rural - se é
que podemos falar em Antropologia Rural; quais foram os referentes
teóricos utilizados em seu trabalho?
Antônio
Augusto Arantes: Minha inserção na Antropologia sempre
se deu mais em função de temas do que de tipologias, ou seja,
o fato de ser “rural” ou “urbano” o ambiente em que tenho pesquisado é
um dado do problema, mas as questões derivam de um quadro mais amplo.
Formei-me em 66 e saí da Maria Antônia forçado, como
todo mundo. Naquela época estávamos muito envolvidos com
os caminhos que se abriam para a sociedade brasileira. Éramos estudantes
engajados, queríamos mudar o mundo. O discurso transformador da
sociedade brasileira passava pela “questão popular” e pelo imaginário
do sertanejo, do nordestino. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” [filme de
Glauber Rocha] era uma referência absolutamente importante para os
jovens intelectuais da época. Pelo menos para mim foi. Comecei a
especialização freqüentando o curso “O cangaço
na cultura e na realidade brasileiras”, realizado pelo Instituto
de Estudos Brasileiros e coordenado por Cavalcanti de Proença,
com a participação de professores de vários departamentos
da USP. Foi um curso dado na Maria Antônia. Focalizava-se o nordeste
e, no nordeste, o cangaço no quadro geral da história regional
e dos movimentos camponeses, que incluíam o messianismo. Ao mesmo
tempo, havia uma discussão, liderada pelo CPC da UNE, em torno do
papel dos intelectuais frente à cultura popular. Foi por aí
que comecei... A questão não era entender de que forma se
organizava a vida no campo, ou os modos de vida do sertanejo. Quer dizer,
era também tudo isso, mas como pano de fundo para compreender o
processo de transformação do Brasil, em particular no nordeste.
Coincidentemente, nessa época, Eunice [Eunice Ribeiro Durham] e
Lia Fukui [Lia Freitas Garcia Fukui] tinham um projeto de pesquisa em Santa
Brígida, sertão da Bahia, na região de Canudos, onde
se criou um centro de peregrinação em torno do beato Pedro
Batista. Fui como assistente de pesquisa da Eunice. Além de
Eunice e Lia, participaram José Francisco Quirino dos Santos, Sérgio
Muniz - cineasta que participara da expedição de documentaristas
organizada por Thomas Farkas - e eu. Não me lembro se havia mais
alguém. Os trabalhos foram coordenados por Eunice e Lia Fukui. Foi
minha segunda experiência de pesquisa de campo. A primeira tinha
sido em um projeto da Gioconda [Gioconda Mussolini], em Pouca Farinha,
com Hunaldo Beiker. Eu e Hunaldo fomos colegas de classe e começamos
nossa especialização em Antropologia com a Gioconda. Fomos,
então, em 1965-66, entrevistar os migrantes do litoral norte de
São Paulo que viviam nesse bairro da Ilha de Santo Amaro e em Santa
Rosa, no Guarujá. Nesse momento, já estava ingressando na
USP como docente. A pós-graduação se fazia mais a
longo prazo, um processo que não era tão escolarizado como
hoje. Havia tempo para se definir um objeto de estudo e procurar as pessoas
que pudessem, de fato, contribuir para o direcionamento do projeto. Era
um processo muito rico. A qualidade do ensino na USP era comparável
aos melhores centros de ensino e pesquisa da Europa e dos Estados Unidos.
Era um sistema tutorial sem ser assim chamado. Como era um grupo relativamente
pequeno e as pessoas tinham uma convivência muito estreita, a informação
transitava recheada de experiências, de relações pessoais,
de afeto. Então, fiquei um pouco com a Gioconda, fui com Eunice
para Santa Brígida... Nessa época, veio ao Brasil um pesquisador
da Universidade de Colúmbia, um doutorando, Daniel Gross, que precisava
de um assistente de pesquisa para fazer o primeiro survey do seu
projeto no sertão da Bahia. Era uma tese sobre os trabalhadores
nas plantações e industrialização de sisal.
Ele era formado na Colúmbia. Acho que Marvin Harrys foi seu orientador.
Daniel, então, precisava de um acompanhante e assistente. Com a
convergência de todas essas questões, eu estava me encaminhando
para fazer uma pesquisa sobre ideologia e cultura entre os camponeses nordestinos:
até que ponto os sertanejos, os camponeses brasileiros, seriam conservadores
ou não, como participariam dos processos de mudança por que
passava a sociedade brasileira. Eram essas as questões da época,
a agenda da época. Voltei da viagem com Eunice e me envolvi com
aulas e seminários na USP. Retornei depois para essa mesma região
da Bahia como assistente de pesquisa do Daniel, como disse. Ficamos juntos
por um mês, mais ou menos. Foi aí que me defini pelo estudo
da visão de mundo do sertanejo, e me propuz a desenvolver o projeto
com as famílias que viviam no alto sertão da Bahia: entender
seu modo de vida, relações de parentesco, o regime de propriedade
e posse da terra, a posse comum das áreas de pastagem, o imaginário
do vaqueiro, das vaquejadas... Esse projeto teve o apoio da FAPESP durante
certo tempo e, então, houve 68. Evidentemente, a vida acadêmica
já estava agitada e muito tensa. A ruptura que houve com a invasão
do prédio da [rua] Maria Antônia, a mudança para a
Cidade Universitária, a prisão de vários professores
e colegas, o exílio de outros, tudo isso colocou em cheque minha
recém iniciada trajetória .
Foi nesse momento que recebi o convite para participar do projeto de criação
da UNICAMP. Era um projeto patrocinado pela FAPESP, que tinha a participação
dos professores Antonio Cândido [Antonio Candido de Mello e Souza],
Marcelo Damy [Marcelo Damy de Souza Santos], Fausto Castilho e talvez outros
que não me lembro. Bento Prado Júnior foi quem fez
o contato comigo e transmitiu o convite. Vários colegas e contemporâneos
de faculdade foram convidados nessa época para participarem da criação
da futura universidade. Meu convite incluía dar continuidade à
especialização e me ocupar da criação da área
de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Éramos
todos muito jovens; eu tinha 25 anos. Deixar a Faculdade [USP] nesse momento
foi para mim uma decisão muito difícil.
:
O senhor já estava lecionando na USP?
Antônio Augusto Arantes:
Estava lecionando na USP; era instrutor. Fui contratado em 1966, logo que
me formei, e saí no final de 1968. Naquela época começava-se
como instrutor, quer dizer MS1. Depois MS2 e assim sucessivamente. Trabalhava
em sala de aula sob orientação de Eunice e Gioconda, principalmente.
Dei seminários no curso de Antropologia Social da Eunice (era uma
novidade trazer os ingleses para a sala de aula nos cursos básicos!).
Fiz seminários sobre Malinowski, Evans-Pritchard, Firth entre outros,
e também dei aulas no curso de introdução, em 1967
e em 1968. Havia uma questão ao mesmo tempo política e acadêmica
fundamental nessa época: como apresentar a antropologia a esses
jovens que queriam mudar o mundo? A Antropologia tinha uma posição
desvantajosa na Faculdade, principalmente em relação à
Ciência Política e à Sociologia. A questão que
nos colocavam [e que nós próprios nos colocávamos]
era: qual é o envolvimento da Antropologia e dos antropólogos
com o processo “revolucionário”, como se dizia, ou com a mudança
social no Brasil. Além disso, a antropologia social britânica
e o estuturalismo Levi-straussiano abriam novas perspectivas para a teoria
social, inclusive, no caso dos ingleses, permitindo compreender melhor
os processos de mudança social e a própria migração
que era um tema importante das pesquisas que se faziam na Cadeira [de Antropologia].
O curso de Eunice sobre Antropologia Social respondia melhor a essas questões
do que a bibliografia culturalista até então predominante.
Assumi, então, também o encargo de trabalhar no curso de
introdução onde se pretendia implantar uma perspectiva teórica
mais condizente com o panorama intelectual da época. Entre os anos
1967 e 68, a perspectiva levi-straussiana pouco a pouco se “infiltrava”
nos programas de introdução, tendo como pontos de partida
a ênfase na distinção entre natureza e cultura e na
importância da comunicação, da troca e do simbolismo
na constituição da vida social. Embora muitos cursos da Cadeira
fossem bastante influenciados pela concepção da antropologia
como uma ciência “de quatro campos” [cultural, física, arqueologia
e lingüística], não se incluía a arqueologia
nem o estudo de línguas indígenas ou da linguagem na formação
geral dos antropólogos. Essas áreas apareciam nas disciplinas
de formação em etnologia, que eram um domínio específico
na Cadeira. Para ler Lévi-Strauss fiz um curso de introdução
à lingüística com um professor da área de letras
da USP.
:
A Profa. Eunice, nessa época, estava na Antropologia?
Antônio Augusto Arantes:
Eunice estava na cadeira de Antropologia. Entre outras atividades, deu
um memorável curso sobre “Sociedade e Cultura”, depois reestruturado
como “Antropologia Social”, de orientação britânica.
Estudávamos as contribuições de Malinowski, autor
ao qual ela dedicou sua pesquisa para a tese de livre docência. Seu
doutorado foi sobre migrantes nordestinos em São Paulo, pesquisa
da qual Hunaldo participou e cujos resultados foram publicados no livro
“A Caminho da Cidade”. Havia uma tradição de estudos de migração
na Cadeira de Antropologia: Eunice estava envolvida com o tema; Ruth e
Gioconda também. Enfim, nesses cursos Eunice trabalhava basicamente
com a bibliografia britânica. Ela ministrava aulas expositivas e
eu fazia os seminários, no diurno e no noturno. Além disso,
trabalhei – como disse - no curso de introdução. Enfim, decidi
pedir meu desligamento da USP no final de 1968. Foi tudo muito rápido:
desliguei-me da USP em outubro, depois da invasão da Maria Antônia,
e em novembro fui para Besançon estudar lingüística.
:
Por que Lingüística?
Antônio Augusto Arantes:
Porque a lingüística era uma referência teórica
importante para o desenvolvimento da Antropologia. Lévi-Strauss,
evidentemente, era o principal antropólogo na época e ler
Lévi-Strauss era uma tarefa difícil para quem não
tivesse alguma formação em lingüística. Além
disso - simplificando um pouco - a proposta da UNICAMP propunha a integração
das Ciências Humanas em torno do estruturalismo. Assim, começamos
juntos - Ciências Sociais, Estudos da Linguagem, Filosofia, História,
Economia - em um só Instituto e trabalhando de forma convergente
ou, pelo menos, procurando estabelecer diálogos interdisciplinares,
tomando a lingüística e a linguagem como referência,
principalmente no caso da antropologia. Aceitei passar um ano letivo em
Besançon estudando lingüística; foi bom sair um pouco
do ambiente tão “carregado” da época. Logo depois aconteceu
o AI5. Meu objetivo era fazer pós-graduação, avançar
em meus conhecimentos em antropologia. A influência da Eunice foi
muito importante para mim porque era quem melhor fazia a ponte entre as
questões relevantes para a situação brasileira e os
antropólogos ingleses, inclusive nos estudos sobre migração
e urbanização feitos na África. Refletíamos
nos seminários sobre uma antropologia que não tratava de
padrões culturais, da aculturação, da assimilação
dos imigrantes, aquela que tinha sido o modelo dominante na geração
de Ruth e Eunice... Houve um fato importante nesse contexto: a tese de
doutoramento de Roberto Cardoso de Oliveira. Inspirado nos africanistas,
Balandier principalmente, Roberto fazia a crítica dos conceitos
de aculturação e assimilação a partir do conceito
de situação colonial. Colocava a necessidade de se entender
os processos de mudança a partir de seu contexto mais abrangente,
considerando seus determinantes situacionais, estruturais. Roberto focalizava
um tema convencional da antropologia praticada na USP, mas de outra perspectiva;
e embora tratasse de sociedades indígenas, sua obra não deixava
de ser relevante para antropólogos de outras “linhagens”. Sua defesa
de tese foi um acontecimento importante. Mas foi uma tese desenvolvida
na [Cadeira de] Sociologia, porque na Antropologia não havia muito
espaço para esse tipo de abordagem. Essas reflexões tinham
um sabor de inovação dentro da Cadeira de Antropologia. Era
uma perspectiva mais progressista, engajada, politizada; um diálogo
mais aberto e direto tanto com as questões sociais que se colocavam
na época quanto com outras disciplinas, como a Filosofia, a Sociologia,
a Ciência Política. Tanto que Eunice e Ruth, num momento de
crise mais aguda, acabaram se transferindo para a Cadeira de Ciência
Política. Então, voltando à sua pergunta inicial,
o meu “rural” não era rural por oposição ao urbano,
e assim tem sido a minha vida inteira. E ainda hoje vejo-me interessado
por uma área de trabalho interdisciplinar o que, aliás,
é muito próprio da UNICAMP. Nos cursos e pesquisas na UNICAMP
têm sido estimulados recortes temáticos, inter ou transdisciplinares.
Inicialmente, esse princípio estruturou a proposta de graduação
integrada, seguida de mestrados disciplinares. Essa concepção
de formação integrada no bacharelado não deu muito
certo por causa das exigências de currículo mínimo
do MEC e das dificuldades de manejo das diferenças cristalizadas
entre as áreas. Mas influenciou a formação de muita
gente. Essa perspectiva se fortaleceu no Programa de Doutorado em Ciências
Sociais, um doutorado temático, que até hoje se encontra
em atividade. Formaram-se grupos de docentes e pesquisadores em torno de
áreas temáticas; isso marcou muito minha formação
e trajetória. Mas, voltando, estava começando a dar os primeiros
passos. Tinha saído do Brasil muito impressionado com a obra de
[Edmund] Leach, que tinha lido nas aulas da Eunice, principalmente o livro
“Repensando a Antropologia”, em que ele apresenta um enfoque estrutural
bastante inovador para a época, fazendo a crítica aos “colecionadores
de borboletas” radcliff-brownianos. A proposta da Unicamp implicava passar
dois anos fora. Não tinha intenção de ficar na França;
depois de um ano em Besançon fui para a Inglaterra. Primeiro fiz
uma sondagem: fui a Oxford, à London School of Economics e a Cambridge.
Quanto a Cambridge, tinha um objetivo específico, pois Leach estava
lá. O contato com ele definiu por onde começaria essa nova
fase. A formação que se tinha como aluno da Faculdade de
Filosofia era cosmopolita, sólida, de fato mais aberta do que o
que encontrei entre muitos dos meus colegas franceses e ingleses. A Faculdade
de Filosofia da Universidade de São Paulo, não sendo um centro
produtor de antropologia em termos mundiais, com paradigmas próprios,
era um lugar onde se lia de tudo e se desenvolvia um pensamento crítico.
Como bem mostrou Thomas Kuhn, os grupos departamentais desenvolvem determinados
paradigmas e os implementam institucionalmente. É claro que
há – e cada vez mais - matizes, diferenças, mas as pessoas
de cada departamento tendem a estar engalfinhadas em seus debates internos.
Quando cheguei a Cambridge, por exemplo, o frisson era o enfrentamento
entre Edmund Leach e Meyer Fortes. No Brasil, tínhamos nossos desentendimentos
internos, mas líamos e deglutíamos franceses e ingleses...
Naquela época não havia muitas traduções. Toda
nossa formação era feita através da leitura em língua
estrangeira: inglês, francês e, se tanto, espanhol. O Fundo
de Cultura Econômica tinha algumas boas traduções
de Marx e Weber, a Siglo Veinteuno, editoras mexicanas ou argentinas, mas
o movimento de traduções no Brasil era praticamente
nulo. Tínhamos, então, essa habilidade. Meus colegas na França
praticamente não liam inglês; meus colegas em Cambridge não
liam francês. Quero dizer, o foco das bibliografias não era
o debate internacional. A USP tinha essa abertura e transmitia um ethos
crítico, que a gente exercitava regularmente nos seminários.
Era dificílimo fazer seminários, porque a idéia não
era reproduzir textos, mas avançar a reflexão sobre determinadas
questões. [José Artur] Giannoti às vezes participava
de seminários de antropologia. Foucault esteve aqui. Quando Bento
Prado dava aula, todos iam assistir. Havia na USP essa abertura para o
pensamento crítico, interdisciplinar, teoricamente bem fundamentado.
Bem, voltando, com o Leach poderia passar um ano, porque eu tinha que começar
o curso de graduação na UNICAMP em 1970. Daquele material
já produzido em campo – as pesquisas feitas com Eunice, com Daniel,
e depois sozinho – o que tinha de mais consistente eram notas sobre compadrio;
e ninguém melhor para lidar com parentesco ritual do que, evidentemente,
Leach. Era uma porta para as questões de ideologia que me interessavam.
Veja: cheguei ao compadrio pela análise estrutural do mito. Steve
Goodman, pesquisador americano que havia estado em Cambridge, apresentou
em um concurso de ensaios, um artigo com um argumento muito parecido com
o que eu estava desenvolvendo com Leach. Quando li o ensaio dele, me ocorreu
que estivesse me plagiando, porque ele tinha conhecimento do meu trabalho
e o seu argumento era muito semelhante ao meu. Fiquei indignado! Mandei
uma carta para meu orientador [Leach] e ele respondeu, isso em 1972, referindo-se
de maneira muito criteriosa a datas e passagens dos trabalhos, tanto o
meu como o de Goodman. E sua carta finalizava: “realmente, o argumento
que você desenvolve na página tal é parecido com o
argumento que aparece na página tal, da versão do ano tal,
do trabalho do Goodman, mas de fato observei que você e o Goodman,
a respeito desse assunto, referem-se, ambos, ao meu ‘Virgin Birth’!
[risos]. Esse episódio ilustra que para mim a questão era,
por um lado, a teoria sobre incorporação e influência
mística desenvolvida no “Repensando a Antropologia” e, por outro,
a interpretação da dimensão simbólica do parentesco
através da análise de relatos bíblicos sobre a Gênese
e o nascimento virgem, que Leach tinha publicado pouco tempo antes e ao
qual se referia em sala de aula. [Neste momento da entrevista, o Prof.
Antonio Arantes vai buscar uma pasta em que guarda os trabalhos apresentados
na época ao seu orientador e mostra-me os originais corrigidos e
comentados. São várias páginas datilografadas, com
trechos escritos a caneta, colagens, papéis grampeados, gráficos
feitos à mão por Leach.] Veja o artesanato da escrita, o
uso do grampeador, da tesoura, enfim... Então, voltando, o compadrio
não era uma questão do mundo rural; era, na verdade, um tema
que me permitiu conversar com Leach, ter minha iniciação
na antropologia feita por ele, que mais tarde retomei em minha tese de
doutorado, sobre literatura de cordel .
:
Poderíamos tornar mais precisos os anos em que se deram todas essas
passagens? Outro dado significativo é que o senhor foi o primeiro
orientando de mestrado da Profa. Eunice R. Durham, na USP. À época
do início de seu mestrado, ela já estava locada na
Ciência Política. Seu mestrado saiu pela Ciência Política?
Antônio Augusto Arantes:
Estive em 68/69 em Besançon; 69/70 em Cambridge; voltei em
Julho de 70 e, aqui, Eunice orientou a reelaboração do ensaio
sobre compadrio que eu tinha escrito com a orientação de
Leach e que apresentei à USP como um trabalho de mestrado, porque
eu já tinha créditos feitos antes de 1968. Para consolidar
minha posição na UNICAMP precisaria, no mínimo, do
título de Mestre. Gostariam que eu tivesse feito fora, naqueles
dois anos; mas era impossível, a menos que fosse em lingüística,
que não era o meu assunto, meu objetivo. Aí Eunice me aceitou
como orientando e me candidatei ao mestrado em antropologia na USP. Ela
estava, acho, na Antropologia.
:
Vamos situar melhor o trabalho com o Leach em relação à
orientação da Profa. Eunice...
Antônio Augusto Arantes:
Essa primeira etapa do trabalho feito com Leach ocorreu no intervalo entre
a pesquisa que comecei na USP, com Gioconda, com Eunice, e o início
das atividades na Unicamp. Em 1968 o trabalho de campo não estava
completo, pois saí no meio; fui embora com o que já tinha
feito, às pressas, como disse. A parte mais consistente desse material
era um conjunto de informações sobre parentesco, incluindo
o compadrio: comecei levantando genealogias, fazendo o mapeamento das relações
sociais, do território. Apresentei a Leach o que tinha. Ele sabia
das circunstâncias da minha saída daqui e que se tratava de
um recorte que fazia parte de um projeto mais amplo gestado na USP. Quando
voltei, Eunice fez a revisão crítica dessa parte, que finalizei
e apresentei para o mestrado .
Acho que, nessa época, a Eunice ainda estava na Antropologia, não
tenho certeza. A defesa foi na USP, na Cidade Universitária, inclusive.
Daí, segui com Leach para o doutorado.
:
Nesse momento o senhor foi para a Unicamp.
Antônio Augusto Arantes:
Quando voltei para o Brasil fui para a Unicamp; ia e voltava para
concluir o doutorado, mas mantendo sempre relações profissionais,
diálogos, com Eunice e Ruth [Correia Leite Cardoso].
:
E os “Seminários das segundas-feiras”, coordenados pelas professoras
Ruth Cardoso e Eunice Durham, já existiam?
Antônio Augusto Arantes:
Acho que eles vêm bem depois. Acho, até, que eu estava em
vias de concluir o doutorado quando eles ocorreram. Concluí o doutorado
em 78. Foi um processo longo, porque tinha que dar aulas aqui, viajar.
Fui a alguns seminários; eram uma referência importante. Lembro-me
da Guita [Grin Debert], da Tereza Caldeira, do José Guilherme Magnani...
:
Durante sua estada no King’s College da Universidade de Cambridge,
havia outros brasileiros nas Ciências Humanas? A Profa. Maria
Lúcia Aparecida Montes estava em Essex, na Sociologia, trabalhando
com movimentos messiânicos e banditismo social. Portanto, tínhamos
o senhor trabalhando com parentesco e compadrio, na área da Antropologia,
e a Profa. Maria Lucia, na Sociologia, ambos na Inglaterra.
Antônio Augusto Arantes:
Fernando Henrique Cardoso tinha estado em Cambridge um pouco antes, não
como aluno, é claro, mas como professor; Celso Furtado também
tinha estado no King’s College; Roberto DaMatta também. Aliás,
Roberto DaMatta estava em Cambridge quando defendi minha tese e participou
da minha banca. Esteve lá, também, nesse período,
Lourdes Sola, da Ciência Política e Economia. Soube que Maria
Lúcia estava em Essex através de Peter Burke, que também
era amigo dela e me foi apresentado por Leach. Passava parte do tempo lá,
parte do tempo aqui, na Unicamp e fazendo pesquisa de campo. Brincava que
vivia entre os três cês: Cambridge, Campinas e Caruaru! Mas
havia uma conexão entre Essex e a USP através do Prof. Anglade,
cientista político. Penso que [Francisco] Weffort também
esteve em Essex...
:
Bem, então o senhor começou a dar aulas em 1968 na Unicamp
e foi um dos criadores do Departamento de Ciências Sociais do IFCH,
mais especificamente da área de Antropologia e do Programa de Mestrado
em Antropologia Social, juntamente com os professores Peter Fry e Verena
Stolcke...
Antônio Augusto Arantes:
A Unicamp era uma universidade de pesquisa, de tempo integral. Não
tinha muitas vagas, não incluía ciências aplicadas.
Fui esse emissário em busca de colegas antropólogos doutores
para planejarmos e implantarmos as atividades da área de antropologia
na graduação e na pós-graduação, que
começaram quase simultaneamente. Naquela época, já
tinham ocorrido mudanças estruturais aqui na pós-graduação
e era necessário um número de doutores para dar início
ao programa. Precisávamos de bons antropólogos, que estivessem
dispostos a morar em Campinas, arregaçar as mangas e criar uma área
de conhecimento em uma universidade nova. Foi através de contatos
de Leach, e contatos de contatos dele, que entrevistei várias pessoas
na Inglaterra. Peter [Fry] tinha feito trabalho de campo na África,
no Zimbabwe (na época, Rodésia do Sul), tinha recém
defendido sua tese de doutorado no University College com orientação
de Mary Douglas, dedicava-se ao estudo de religião, que é
um tema altamente relevante no Brasil, falava português e tinha interesse
em se estabelecer aqui. Verena estava terminando sua tese de doutorado,
em Oxford, sobre relações de gênero e trabalho em Cuba,
orientada por Peter Rivière. Seu interesse por trabalho, gênero
e raça correspondia a temas prioritários para o nosso contexto
e ela, também, como Peter, estava interessada em viver e pesquisar
aqui. A Unicamp aceitou as indicações e viemos, os três,
por volta de julho de 1970 .
:
No final da década de 1970, o senhor estava desenvolvendo uma pesquisa
sobre cultura popular, mais especificamente sobre produção
artística e participação política entre trabalhadores
da Zona Leste da cidade de São Paulo. Na década de 1980,
o senhor estava trabalhando com ferroviários de Campinas. Poderia
comentar?
Antônio Augusto Arantes:
Cruzei novamente com Maria Lúcia. O primeiro trabalho que publiquei
sobre o cordel foi um artigo no “Arte em Revista”
sobre a questão da ideologia do campesinato, o seu suposto conservadorismo .
A questão passava pelo papel dos intelectuais, que iriam “conscientizar
as pessoas”, em um momento em que a sociedade estava se organizando de
formas próprias e inesperadas. Foi o período de emergência
dos movimentos sociais, em meados da década de 70. Interessado por
questões relativas à produção cultural, e não
especificamente pelo tema do patrimônio, recebi um convite para elaborar
um programa de revitalização para a Capela de São
Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo .
Esse programa, desenvolvido com a participação de músicos,
poetas, atores e artistas plásticos locais, propunha que se usasse
a Capela de São Miguel Paulista como elemento catalizador da produção
artística popular local. Fiz uma pesquisa para identificar os possíveis
usuários desse espaço e compreender os processos pelos quais
as formas de expressão praticadas localmente seriam elementos estruturantes
da sociabilidade e da participação social. Nesse processo,
desencadeou-se o Movimento Popular de Arte. Fui um facilitador desse processo
conduzido pelas lideranças locais. Celso Frateschi, o atual presidente
da FUNARTE, participou, também, dessas atividades. Em uma das reuniões
da SBPC realizadas nessa época Marlyse Meyer organizou a mesa redonda
“A questão da Cultura Popular” (ou “A cultura popular posta em questão”),
que levantava o tema novamente no meio acadêmico. Publiquei nessa
época “O que é Cultura Popular”, que até hoje se imprime
e se vende .
Não fui, evidentemente, o único, nem o primeiro; muitos antropólogos
estavam nessa época mostrando que os movimentos sociais eram suficientemente
fortes para estruturar o ambiente a partir do qual ou no qual se formavam
entidades, associações, ou seja, espaços políticos
de participação, que depois foram a base da formação
de novos partidos. Mas no âmbito da “questão popular” tratava-se
ainda de um aspecto difuso da vida social. Interessei-me por problemas
que diziam respeito à poesia, música, literatura, pintura,
artes plásticas, ou seja, com o que estou até hoje envolvido
– cultura popular e patrimônio. Naquela época, novamente,
Eunice estabelece um marco importante, que foi a discussão em torno
dos conceitos de cultura e ideologia. Seu artigo sobre esse tema, também
apresentado em uma mesa-redonda da SBPC, faz parte desse ambiente e foi
um marco nessa discussão tanto sobre movimentos populares como,
particularmente, sobre questões de política cultural.
:
A partir dos anos 1980, após a redemocratização, houve
um movimento crítico em direção à conceituação
do que é patrimônio. Em 1983 o senhor assumiu a Presidência
do CONDEPHAAT. Fale-nos sobre sua atuação nesse órgão.
Comente, também, a seguinte situação: coube a Gilberto
Velho, em 1984, ser o relator do processo de tombamento do terreiro de
candomblé Casa Branca, em Salvador, Bahia. O próprio Gilberto
Velho referia-se ao debate como um “drama social” nos termos de Victor
Turner: estariam em jogo as relações entre o Estado e a sociedade
civil, bem como a própria identidade brasileira. A pergunta era:
o que deveria ser objeto da política nacional de tombamento? Alguns
argumentavam que era necessário proteger o terreiro, mas que não
era possível tombar uma religião. Nessa época não
havia um programa nacional de patrimônio imaterial.
Antônio Augusto Arantes:
No governo Montoro, no início do processo de redemocratização,
fui convidado a presidir o CONDEPHAAT. Não havia no CONDEPHAAT espaço
para levar essas questões adiante, mas eu era conhecido como o antropólogo
que tinha feito aquele trabalho em São Miguel Paulista e tinha contestado
alguns princípios já estabelecidos na preservação
do patrimônio como assunto que apenas interessava às elites.
O trabalho em São Miguel mostrava que a população
é sensível, sim, às questões de patrimônio,
ao ambiente em que vive, à qualidade desse ambiente e foi assim
que sucedi o Prof. Aziz Ab’Saber, que tinha dado ênfase, em sua gestão,
a questões ambientais. Coube a mim fortalecer os movimentos sociais
associados à preservação e a integração
da preservação à gestão urbana, através
dos conselhos municipais de patrimônio.
:
Nessa época já estava sendo discutida a questão do
Patrimônio Imaterial?
Antônio Augusto Arantes:
Não. A discussão era sobre cultura popular, quer dizer folclore
e cultura popular. Era outra vertente dos meus interesses; questões
que nunca abandonei. O patrimônio era pensado exclusivamente em termos
dos bens tangíveis, passíveis de tombamento. A democratização
possível era chamar a atenção para as conseqüências
da preservação sobre a vida local e ampliar o universo de
bens preservados valorizando, por exemplo, aqueles associados a populações
imigrantes ou às classes populares, como vilas operárias,
o casarão do chá de Mogi das Cruzes... José Guilherme
Magnani participou desse trabalho comigo. Ele e Silvana Barbosa Rubino.
Exatamente nesse momento, no CONDEPHAAT, havia outras pessoas – técnicos
e conselheiros - com esse tipo de olhar, de interesse ...
Pudemos atuar em relação ao espaço da educação,
aos projetos arquitetônicos que incluíam áreas de residência
de trabalhadores de grandes indústrias, de ferrovias – as vilas
ferroviárias; e também fortalecer a presença da moderna
arquitetura paulista no universo dos bens preservados. Foi, por um lado,
uma tentativa de diversificar as bases sociais da preservação,
e, por outro, estabelecer canais de comunicação com as demais
instituições de preservação municipais que
surgiam. E também com outros estados, pois nessa época (1983-84)
criou-se o Fórum Nacional de Secretários de Cultura, embrião
do atual Ministério. Atuei, em Campinas, por exemplo, onde fui Secretário
Municipal da Cultura. O trabalho em Campinas foi muito importante na medida
em que permitiu por em prática algumas dessas idéias gerais
que desenvolvi no CONDEPHAAT. No nível estadual, tem-se uma possibilidade
muito restrita de interferência nas cidades. Em Campinas fui Secretário
com a condição de poder criar o Conselho... poder enfrentar
a luta pela formação do conselho municipal dentro do governo.
O Prefeito “topou”. A oposição foi violenta, como se sabia
que seria, pelos interesses imobiliários envolvidos.
:
Que áreas foram objeto de intervenção?
Antônio Augusto Arantes:
O que fizemos foi bastante ambicioso, mas realista: ao criarmos o Conselho,
delimitamos o centro histórico da cidade, ou seja, colocamos em
discussão a gestão do centro da cidade, levando em consideração
a existência de edificações e monumentos de interesse
público, assim como suas áreas envoltórias. Esforçamo-nos
para colocar essas questões de interesse público na esfera
da cultura pelo menos no mesmo patamar que os interesses imobiliários
privados. Foi isso que fizemos: só deu tempo de aprovar a lei que
instituía o conselho, instalar esse colegiado, regulamentar sua
atuação e abrir os processos de tombamento necessários
para a delimitação do centro histórico da cidade.
Aí terminou o ano, e a minha gestão com a posse do novo Prefeito.
Na gestão seguinte, Marco Aurélio Garcia deu continuidade
a esse trabalho, ampliando outra dimensão, a dos acervos documentais.
:
É nesse período que o senhor passa a integrar um projeto
de cooperação internacional juntamente com Mike Featherstone
e vários especialistas nas áreas de patrimônio cultural,
gestão urbana e turismo, não é?
Antônio Augusto Arantes:
Tudo sempre acaba passando pela cultura popular... No começo da
década de 80, não me lembro o ano precisamente, a partir
do Centro de Estudos Porto-riquenhos da CUNY – City University of New
York - dirigido por Frank Bonilla, pesquisadores interessadas em discutir
questões de cultura popular e ideologia política formaram
um grupo de trabalho sobre estudos culturais. Faziam parte desse grupo
Renato Rosaldo, antropólogo, e Mary Louise Pratt, de literatura
e crítica, então professores da Stanford University e hoje
na New York University; Juan Flores, professor de literatura hispano-americana
e crítica na CUNY, hoje também na NYU; Rina Benmayor, que
se encontrava no Centro e hoje leciona na University of California
em Monterrey, além de Evelina Dagnino, professora do Departamento
de Ciência Política da Unicamp, eu, e mais uma dezena de pesquisadores.
Reunimo-nos por cerca de 20 dias e começamos a escrever um ensaio
sobre esse tema, que nunca foi concluído. Mas a partir dessas discussões,
cujos marcos teóricos eram dados por obras de Antonio Gramsci, Edward
P. Thompson, Raymond Williams e Eunice Durham (“Cultura e ideologia”) desenvolvemos
várias outras atividades. Mais tarde, esse grupo incorporou também
Néstor Garcia Canclini e alguns de seus colegas da Universidade
Autónoma Metropolitana, na cidade do México. Todos tinham,
de uma forma ou de outra, ligação com Jean Franco, que foi
uma das fundadoras dos estudos culturais na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Realizamos encontros regionais no México e no Brasil, publicamos
vários trabalhos e mantemos contato até hoje. Convidamos
alguns deles para atividades na UNICAMP, através do projeto intitulado
“Construindo a democracia: cidadania, nação e a experiência
social contemporânea”, que foi concebido e coordenado por Evelina
Dagnino, Guita Debert, Bela Feldman-Bianco e eu. Esse projeto foi
financiado pela Rockefeller Foundation no quadro de um programa
para estimular a formação de centros de excelência
e intercâmbio internacional. Em seguida, através do Centro
de Estudos de Migrações Internacionais, dirigido por Bela
Bianco, obtivemos o apoio do programa PRONEX, Programa de Apoio a Grupos
de Excelência, através do projeto Identidades: reconfigurações
de cultura e política. Este projeto foi desenvolvido no Centro de
Estudos de Migrações Internacionais da Unicamp. Além
de vários colegas já mencionados, recebemos em atividades
de intercâmbio diversos pesquisadores brasileiros, norte-americanos
e europeus. Nesse contexto, conheci duas pessoas que se tornariam parceiros
importantes dos trabalhos da linha de pesquisa sobre “espaço e poder”,
da área de Cultura e Política do Programa de Doutorado em
Ciências Sociais, por mim coordenada. Um foi Paulo Gasparini, fotógrafo,
e outro Mike Featherstone, que conheci através de Guita Debert.
Com o Mike pensamos em criar uma rede Brasil-Europa, inspirada naquela
interamericana a que me referi anteriormente. Naquela época já
tinha ocorrido o Primeiro Congresso Luso-afro-brasileiro, em Coimbra, em
1991, quando foi conferido o título de doutor honoris causa
a Florestan Fernandes. Foi a primeira vez que estive naquela universidade
portuguesa. Participei do encontro e da homenagem a Florestan .
Naquele encontro conheci o sociólogo Carlos Fortuna. Ele, Mike e
eu propusemos um projeto para o Programa Alfa, da União Européia,
visando à promoção de intercâmbio de pesquisadores
e à realização de encontros para trocas de experiências
sobre patrimônio, cidades e turismo no contexto da globalização.
O projeto foi realizado e concluído, mas a rede então criada
persiste até hoje. Estivemos, José Guilherme e eu, em uma
reunião em Coimbra no mês de junho último promovida
por nossos “sucessores” nessa rede.
:
Nos anos 1990, o tema das relações entre cultura e poder
nas megacidades contemporâneas torna-se central no seu trabalho.
Reflexões sobre a constituição do espaço público
em cidades como Nova York, Londres, São Paulo e Rio de Janeiro vêm
acompanhadas da discussão crítica das tradicionais dicotomias
centro/periferia, tradicional/moderno e, inclusive, público/privado.
Um desses processos é o denominado “gentrification” (“enobrecimento”),
caracterizado pela substituição, nos velhos centros, dos
antigos ocupantes por novos personagens e atividades culturalmente mais
valorizados. Como o senhor vê o caso da cidade de São Paulo
e da Associação Viva o Centro (temos, também, os casos
do Pelourinho, em Salvador, e da Praça XV, no Rio de Janeiro).
Antônio Augusto Arantes:
Espaço e poder. Foi um processo longo como já disse. Ao todo,
foram aproximadamente dez anos de trabalho dedicado, na linha de pesquisa
dirigida por mim, a questões relacionadas à construção
social da nação e do espaço público, com ênfase
no mercado de bens culturais e nas políticas de patrimônio.
Em relação ao espaço urbano, especificamente, foram
oferecidas disciplinas, realizados simpósios, produzidas publicações
e teses de doutorado e mestrado sobre a construção e apropriação
de marcos culturais na paisagem urbana, assim como processos políticos
e culturais associados ao enobrecimento e à formação
de sentidos de poder no espaço público, principalmente em
São Paulo e em Recife; sobre práticas sócio-espaciais
de moradores de rua em São Paulo e em Campinas; sobre o uso de marcadores
raciais e do patrimônio edificado na construção de
paisagens de história para consumo turístico e/ou entretenimento
em Salvador e na Costa do Descobrimento. Promovemos reuniões para
discutir resultados de pesquisas realizadas principalmente no Brasil, em
Portugal, no México e nos Estados Unidos. Organizamos encontros
internacionais, em particular o simpósio Cityscapes do qual
participaram, além dos integrantes da linha de pesquisa, participantes
das duas redes mencionadas anteriormente, convidados como Sharon Zukin,
autora do conhecido Landscapes of Power, e diversos intelectuais
brasileiros das áreas do urbanismo, crítica de arte e literatura,
antropologia etc. Nesse contexto situo meu estudo “Guerra dos lugares ”,
que trata da construção do “lugar” no espaço urbano:
o lugar que não é, necessariamente, contido por estruturas
físico-arquitetônicas, embora possa o ser eventualmente, que
compõe palimpsestos e camadas cronológicas, sendo resultante
de processos fluidos e efêmeros de apropriação, como
no caso dos moradores de rua. Minhas próprias pesquisas nesse período
tinham grande afinidade com as de Tereza Caldeira, que também propõe
olhares para o público e o privado, para fronteiras sociais que
assimilam os múltiplos referenciais que estruturam a experiência
social no meio urbano, não se limitando ao espaço edificado
da cidade e descentrando espaços centrais. São práticas
e experiências que se referem à exclusão social, à
pobreza urbana, mas também aos sistemas de segurança privada
e às relações mediadas pela tecnologia de comunicação
e de informação, estas últimas focalizadas por Mike
Feathersone e Manuel Castells, de diferentes pontos de vista. No meu entender,
para interpretar adequadamente o uso de espaços urbanos é
preciso flexibilizar a noção de território: fronteiras
implicam em umbrais, limiares, zonas de transição, áreas
de conflito. Nem sequer nos condomínios fechados há muros
totalmente eficientes. Nestor Canclini tem uma frase muito sugestiva
a esse respeito. Em seu livro Culturas Híbridas afirma algo como
“onde há cercas, há arames caídos”... Através
do cinema, pela televisão, pelos jornais, a construção
narrativa da experiência urbana expressa a matéria social
de que são formadas essas zonas intersticiais. Todos esses
temas mostram que a visualidade é uma dimensão essencial
do “urbano”. As fotos reunidas em Paisagens paulistanas
falam por si.
:
Em seu livro “Paisagens paulistanas: transformações do espaço
público”, o senhor mostra que, mesmo em cidades globais, onde parece
imperar uma “desterritorialização das práticas sociais”,
a dimensão espaço-tempo ainda é uma referência
importante, só que é preciso estar atento àquilo que
é “efêmero” e “híbrido”, às “superposições”,
“transitividades”, “porosidades”, daí o nome do capítulo
“A guerra dos lugares”. Quais os referentes teóricos de suas análises?
Antônio Augusto Arantes:
A idéia central do livro é exatamente essa. Entendo que os
sentidos acumulados historicamente na paisagem compõem uma linha
de tempo não-linear e marcos estruturantes da experiência
de habitar a cidade. O uso coletivo produz acumulação de
sentidos compartilhados; esses sentidos comuns acumulados historicamente
singularizam elementos da paisagem, tornando-os visual e afetivamente marcantes.
Assim, eles são cruciais para a continuidade da experiência
no espaço urbano, seja de um morador de rua seja de um indivíduo
de classe média. Os marcos a que me refiro não são
necessariamente monumentais: podem ser espaços que a população
elege como locais de lazer, contemplação, encontros amorosos,
manifestações políticas ou de festa. Outro ponto que
enfatizo são as fronteiras e os umbrais, portas e pontes, na linguagem
de Simmel, os arames rompidos a que se refere Canclini. Eles são
fundamentais para entender a natureza porosa das fronteiras sócio-espaciais.
Meus referenciais teóricos encontram-se nos autores citados anteriormente,
assim como nas reflexões de Arjun Appadurai sobre a disjunção
como elemento constitutivo das paisagens contemporâneas; nos estudos
sobre memória, espaço e práticas sociais realizados
por De Certeau, Ecléa Bosi, “temperados” por Guattari no que diz
respeito à compreensão da posição do sujeito
observador/narrador/agente nesse universo. O livro “O espaço da
diferença” ,
que resultou, também, das atividades de nossa linha de pesquisa,
assim como as teses de Osmundo Araujo Pinho, Rogério Proença
Leite, Silvana Rubino, Simone Frangella e Marcelo Nahuz refletem nosso
trabalho em sala de aula, em campo e em gabinete, explicitando as bases
teóricas de nossas reflexões. Esse livro é um contraponto
mais acadêmico a “Paisagens paulistanas”, trabalho onde reúno
cinco ensaios bastante diversos entre si, pretendendo equilibrar rigor
disciplinar com liberdade de criação, onde exploro algumas
facetas dessa complexa realidade a que denominamos “cidade”, e que abre
com uma frase de duplo sentido: Primeiro olhar, que é o título
do capítulo de abertura, sugere tanto a exposição
de um conhecimento intuitivo, à primeira vista, quanto a advertência
“Antes de mais nada, olhar!”
:
Quanto à questão da construção do “lugar” poderíamos
pensar a apropriação do espaço da estação
São Bento do Metrô, nos anos 1980, pelos break boys,
pelos rappers e, mais recentemente, do espaço da estação
Conceição pelos praticantes de street dance da colônia
japonesa juntamente com os break boys, só que em horários
diferentes. O metrô é um sistema de rede, as estações
recriam centralidades. As estações que estão, de fato,
no centro da cidade têm uma visibilidade e, ao mesmo tempo, conferem
visibilidade aos grupos que para ali convergem. A escolha da estação
São Bento não deve ter sido algo racional, mas é um
espaço que permitiu uma apropriação do tipo “teatro”:
um espaço afastado do movimento da rua, onde há vários
níveis, patamares, separados por pequenos lances de escadas; o piso
é de granito, bem liso, permitindo evoluções de dança;
há nichos que funcionam como bastidores para ensaios. A partir de
um determinado momento, o poder público resolveu interferir e oferecer
opções culturais “oficiais”: colocou ali um palco e trouxe
grupos de dança, música, teatro.
<>
>
<>Antônio Augusto Arantes:
A leitura do espaço feita por esses grupos também é
uma leitura cenográfica. Está em jogo o uso do espaço
urbano para a expressão coreográfica e musical. Quando se
coloca um palco, seja de arena ou italiano, na verdade, está se
colocando uma camisa-de-força nessa interpretação
cultural de potencialidades, virtualidades do espaço. Foi o que
aconteceu em São Miguel Paulista: não se pregou um prego
sequer na parede, mas o altar da capela virou palco, a sacristia virou
camarim... Quer dizer, o espaço oferece várias possibilidades,
é polissêmico; os usos exploram essa polissemia e, socialmente,
pode-se criar o ambiente necessário a uma atividade não necessariamente
prevista no projeto arquitetônico. Uma política cultural com
liberdade deve oferecer cada vez mais espaços polissêmicos,
com múltiplas possibilidades de uso, que as pessoas possam explorar
ou agenciar a seu modo, para as várias atividades que vierem a desenvolver,
sem limitar possíveis usos futuros.
>
<>>
<>
>
:
Vamos falar um pouco sobre sua atuação como Presidente do
IPHAN.
Antônio Augusto Arantes:
O IPHAN é o retorno da cultura popular.
:
Aí entra a questão do patrimônio imaterial. O Samba
de Roda do Recôncavo Baiano tornou-se obra-prima do Patrimônio
Oral e Imaterial da Humanidade reconhecida pela UNESCO. Esta foi uma das
realizações do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial
durante sua presidência. Aliás, o próprio programa
foi lançado durante sua gestão. Houve outros processos encaminhados
pelo senhor? E quanto aos demais bens do patrimônio imaterial do
Brasil?
<>
>
<>Antônio Augusto Arantes:
Fui convidado, em grande parte, para isso; para implementar o Departamento
de Patrimônio Imaterial e o Programa Nacional do Patrimônio
Imaterial. Foi um processo que se deu no Brasil ao mesmo tempo em que em
outras partes do mundo. Desde os anos 70, 80, vem sendo discutido se -
e em que medida - a indústria cultural e a globalização
afetam a diversidade cultural. Nos últimos anos, no plano das organizações
multilaterais, foram estabelecidas duas vertentes: a das indústrias
criativas, que se tornou objeto de uma convenção específica
da UNESCO, a de 2005, que trata da Promoção e Proteção
da Diversidade de Expressões Culturais; e a dos conhecimentos e
formas de expressão tradicionais, que são o objeto específico
da Convenção de 2003, para a Salvaguarda do Patrimônio
Cultural Intangível. A instituição do Registro
do Patrimônio Cultural Imaterial e do Programa Nacional do Patrimônio
Imaterial no Brasil são anteriores a essas convenções,
mas sua efetiva implementação deveu muito ao encaminhamento
da questão na esfera internacional. E também contribuiu bastante
para esse processo mais amplo. O decreto que reestruturou o IPHAN, em 2004,
criou o Departamento responsável por essa nova linha de trabalho.
Era necessário dar carne e osso a essa idéia enquanto prática
institucional. Além disso, a implantação de uma nova
linha de trabalho institucional implica a revisão de práticas
e conceitos, ou seja, na produção de conhecimento e de procedimentos
específicos de ação que, além do mais, sejam
adequados às novas relações que se estabelecem entre
a instituição e a sociedade. Isso foi boa parte do que fiz
lá em dois anos; ou, pelo menos, desencadeei. Samba de Roda é
um exemplo entre outros. O primeiro registro foi o do Ofício das
Paneleiras de Goiabeiras e dos conhecimentos associados a essa produção
que ocorre em Goiabeiras Velha, Espírito Santo. São as panelas
em que se faz e se serve a moqueca capixaba. Isso foi em 2000. Houve também
o registro da arte Kusiwa, dos Wajãpi do Amapá, que tanto
tornou-se Patrimônio Cultural Brasileiro quanto foi apresentada ao
programa da UNESCO de Proclamação das Obras-primas do
Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Isso ocorreu antes de
minha entrada no IPHAN. Foram ações desenvolvidas durante
a gestão do Ministro Weffort, logo depois da assinatura do decreto
de 2000. Só em 2004 foi criado um departamento para implementar
uma política e programas nessa área. Foi aí que entrei,
aliás inicialmente por poucos meses, como Diretor do Departamento
do Patrimônio Imaterial. Foi nesse contexto que resolvemos enfrentar
a “questão do samba”. Se a expressão cultural brasileira
mais reconhecida internacionalmente é o samba, nosso trabalho foi
identificar - nesse fenômeno multifacetado, complexo, diversificado,
que foi quase totalmente apropriado pela indústria cultural - o
que seria passível de reconhecimento e salvaguarda enquanto patrimônio.
Chegamos, através de pesquisas, ao Samba de Roda do Recôncavo
Baiano. É o que foi apresentado à UNESCO. No IPHAN já
se está trabalhando com vistas a criar instrumentos de avaliação
do Programa Nacional de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial. Além
de se desenvolverem esses instrumentos, é preciso, também,
acumular experiência prática para que se possa identificar
seus impactos e conseqüências. Estou atualmente envolvido em
uma pesquisa patrocinada pela Organização Mundial da Propriedade
Intelectual para entender as questões de direito intelectual associadas
à produção e disseminação de registros
sonoros e visuais de expressões culturais e de conhecimentos tradicionais.
A questão não é propriamente uma discussão
sobre direitos de propriedade intelectual sobre os conhecimentos tradicionais,
mas sobre os registros documentais. Talvez, no fundo, dê quase na
mesma, porque registros veiculam informações sobre o que
é registrado e a pirataria pode ser feita a partir desses registros...
Fiz um survey e estou tentando obter recursos para trabalho de campo
junto a populações produtoras de expressões culturais
tradicionais. Estou pensando em contatar os Wajãpi, pelo menos,
e outros povos indígenas e populações tradicionais,
se possível. >
<>
>
<>
>
<> :
Alguma coisa ligada à cultura nordestina?
>
<>
Antônio Augusto Arantes:
O projeto que estou desenvolvendo é de âmbito muito restrito,
pois visa conhecer as normas que estão sendo adotadas por museus
e arquivos. O quadro é muito incompleto, ainda. É preciso
compreender a questão também – ou sobretudo - da perspectiva
dos produtores. Se o projeto continuar, pretendo ampliar as observações.>
<>
>
<>
>
<> :
Para finalizar, como o senhor avalia o campo da antropologia urbana no
Brasil, atualmente?
>
<>
Antônio Augusto Arantes:
Estamos em um momento em que os centros de produção se multiplicaram
nas diferentes regiões do Brasil. Os objetos “cidade”, “vida urbana”,
essas realidades ocorrem, se configuram, de maneira muito diversa nas diferentes
regiões. É preciso estar atento para a agenda que vai se
formando a partir dos estudos urbanos nessas diversas situações,
tentar identificar - na diagonal - que temas estão se configurando,
se há uma nova agenda em formação. Por exemplo, o
que se observa nas cidades onde a população indígena
é praticamente majoritária? Como se configura a experiência
urbana nesses casos? Quais serão as novas questões
para esses grupos étnicos em relação às culturas
tradicionais e à situação vivida nas aldeias? Na cidade,
no espaço urbano, a intersecção com a gestão
pública é inevitável, os espaços são
regulados institucionalmente. Então, de que forma a regulação
desses espaços afetam as formas tradicionais de organização
da vida social. Por outro lado, situações como o Bom Retiro
me interessam bastante também. Até estimulei o IPHAN a fazer
uma pesquisa exploratória sobre essa região. É realmente
o que se pode chamar de palimpsesto. A multiculturalidade, aí, se
coloca de forma também particular, com sua própria história,
sua própria geografia, seus condicionantes sócio-ambientais.
São projetos, são temas que me interessariam. Continuo achando
que é preciso também olhar além do “urbano”, do “rural”,
do “indígena”, do “afro-brasileiro” porque os entrecruzamentos,
as zonas de turbulência, são muito relevantes e as questões
a serem pesquisadas são propostas por teorias e hipóteses
gerais. Por isso é preciso ficar “dentro” e “fora” dos tipos consagrados
pelas taxonomias utilizadas por nós, pesquisadores acadêmicos.
>
Notas
O depoimento de Antonio Augusto Arantes sobre esse episódio está
publicado como “Depoimento 1” In: Mathias, S. et al. Os acontecimentos
da rua Maria Antonia: 2 e 3 de outubro de 1968. São Paulo:
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP, 1988, p.
29-31.
O
trabalho e a fala: estudo antropológico sobre os folhetos de cordel.
São Paulo: Kairós/ FUNCAMP, 1982. 191 p.
Os resultados desses trabalhos foram publicados como A sagrada família:
uma análise estrutural do compadrio. Cadernos do Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de
Campinas, Campinas, caderno 5, p. 7-35, 1975. E no artigo Pais, padrinhos
e o Espírito Santo: um reestudo do compadrio. In: ARANTES,A. A.
et. al. Colcha de retalhos: estudos sobre a família
no Brasil. 2. ed. Campinas: UNICAMP, 1993. p. 195-204.
ISBN 85-268-0265-8. 1 ed. 1982.
Origens do Departamento de Antropologia da Unicamp. In: ECKERT, C.; GODOI,
E. P. (Org.). Homenagens: Associação Brasileira
de Antropologia: 50 anos. Florianópolis: Nova Letra, 2006.
p. 37-50. ISBN 85-7682-104-4
Pelo estudo dos folhetos no contexto de sua produção. Arte
em Revista: questão popular São Paulo, ano 2, n.
3, p. 45-49, mar.1980.
Cultura popular: conservadora? Revista de Ciências Sociais,
Fortaleza, v. 8, n. 1-2, p. 163-169, 1 e 2 sem. 1977. ISSN 0041-8862.
ARANTES, A.A. e ANDRADE, M. A demanda da Igreja Velha: análise de
um conflito entre artistas populares e órgãos do Estado.
Revista
de Antropologia: revista da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 24, p.
97-121, 1981.
O
que é cultura popular. 5ª reimp. 14.ed. São
Paulo: Brasiliense, 2006. p.83 . ISBN 85-11-01036- X. (Coleção
primeiros passos, 36). 1 ed. 1981.
Aspectos conceituais do trabalho desenvolvido nesse período estão
registrados em ARANTES, A. A. (Org.). Produzindo o passado:
estratégias de construção do patrimônio cultural.
São Paulo: Brasiliense; Secretaria do Estado da Cultura de São
Paulo, 1984. 255 p.
As tramas da memória: antigas estruturas e processos sociais contemporâneos.
Revista
Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n.32, p.233-244,
Jun. 1991. ISSN 0254-1106.
The war of places: symbolic boundaries and liminalities in urban space.
Theory
Culture & Society: explorations in critical social science,
London, v.13, n.4, p. 81- 92, Nov. 1996. ISSN 0263-2764. Também
publicado como A guerra dos lugares: fronteiras simbólicas e liminaridades
no espaço urbano de São Paulo. In: FORTUNA, C. (Org). Cidade,
Cultura e Globalização: ensaios de sociologia. Portugal:
Celta, 1997. p. 259-269. ISBN 972-8027-78-8
Paisagens
paulistanas: transformações do espaço público.
Campinas: Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000.
ARANTES, A.A. (Org).O espaço da diferença.
Campinas: Papiros, 2000. 304 p. ISBN 85-308-0598-4.

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