|
Reflexões sobre raça e eugenia
no Brasil a partir do documentário "Homo sapiens 1900" de
Peter Cohen
Lilian de Lucca Torres
FAAP/FIAM
|
"Dizem-nos
os dicionários que 'tolerância' e 'intolerância' são
conceitos extremos e incompatíveis entre si, e, por este modo os
definindo, concitam-nos a situar-nos, com exclusão de outras alternativas,
em um daqueles dois pólos, como se, além deles, não
pudesse existir outro espaço, o espaço do encontro e da solidariedade.
(...) Ponderadas as situações, observados os comportamentos,
que é a tolerância senão uma intolerância ainda
capaz de vigiar-se a si mesma, mas temerosa de ver-se denunciada aos seus
próprios olhos, sob a ameaça do momento em que as novas circunstâncias
lhe arranquem a máscara que outras circunstâncias, de sinal
contrário, lhe haviam colado à pele, como se aparentemente
fosse já a sua própria? Quantas pessoas, hoje intolerantes,
eram tolerantes ainda ontem?" (José Saramago, “Os escritores perante
o racismo”, 1996, p. 79).
"Para os americanos, branco é
branco, preto é preto
(E a mulata não é
a tal)
Bicha é bicha, macho é
macho
Mulher é mulher e dinheiro
é
dinheiro
E assim ganham-se, barganham-se,
perdem-se
Concedem-se, conquistam-se direitos
Enquanto aqui embaixo a indefinição
é o regime
E dançamos com uma graça
cujo segredo nem eu mesmo sei
Entre a delícia e a desgraça,
entre o monstruoso e o sublime"
(Caetano Veloso, Americanos)
Eugenia:
um projeto biológico para o homem

A
palavra eugenia (do grego eu-, ‘bem’, ‘bom’, e -genéia,
‘evolução’, ‘origem’, ‘raça’) significa “boa
linhagem”. A ciência da eugenia, conhecida como “ciência da
boa geração”, foi desenvolvida por Francis Galton
(1822-1911), na Inglaterra, sob influência da leitura do livro A
origem das espécies (1859) de autoria de seu primo, Charles
Darwin. Acreditando serem as capacidades humanas resultantes muito
mais da hereditariedade do que da educação, Galton propôs
a procriação consciente através da união entre
indivíduos “bem dotados biologicamente” como forma de aperfeiçoamento
social. A idéia de que a família e a sociedade podiam ser
cultivadas como um jardim, do qual “ervas daninhas” deviam ser eliminadas
em benefício de “plantas úteis”, era uma metáfora
de suas proposições. A eugenia pretendia oferecer uma seleção
eficiente e rápida: o que a natureza levava gerações
para realizar, a ciência poderia obter criteriosamente através
do planejamento. O termo, no sentido empregado por Galton, apareceu pela primeira vez em seu livro Human Faculty (1883) .
As concepções e os métodos dos adeptos da eugenia
durante a primeira metade do século XX são o tema central
do documentário de Peter Cohen, Homo sapiens 1900 (1998),
que está completando 10 anos .

Segundo
Cohen, a crença em que o desenvolvimento biológico do homem
não tinha acompanhado seu progresso civilizacional ofereceu as bases
para a elaboração da teoria eugênica. Em um contexto
de adensamento populacional e aumento da pobreza, atribuía-se à
“decadência hereditária” o que era conseqüência
de causas sociais e econômicas: problemas como a propagação
de doenças, dificuldades de aprendizagem, condições
de vida insalubres, entre outros, eram vistos como sinais de “degeneração”,
porém representavam a face da exclusão gerada pelo capitalismo.
Planos de reestruturação das grandes cidades aliados a políticas
de higiene pública não raro “realocavam”, em zonas mais periféricas,
as populações pobres e desassistidas, abrindo as áreas
centrais para atividades de comércio e fluxo de pessoas e veículos,
beneficiando diretamente as elites burguesas.
Embora
os princípios da eugenia tenham sido elaborados por um cientista
inglês, foi nos Estados Unidos e na Alemanha, a partir do início
do século XX, que começaram a ser colocados em prática.
Sob a designação de “eugenia positiva”, adotavam-se medidas
de incentivo financeiro a casamentos considerados favoráveis, implantavam-se
programas educacionais para reprodução planejada e eram realizados
concursos para a descoberta de famílias e indivíduos
talentosos. Por outro lado, faziam parte da “eugenia negativa” ações
de esterilização, eutanásia, segregação
e de restrição à imigração. A primeira
lei de esterilização americana foi aprovada em 1907, no estado
de Indiana.
Outra
prática eugênica adotada nos Estados Unidos e na Alemanha
foi a eliminação de bebês que nasciam fracos ou com
algum tipo de deficiência. O médico alemão Alfred Ploetz,
que, em 1895, propôs a teoria da “higiene racial”, indicava a aplicação
de pequenas doses de morfina para matar bebês que apresentassem problemas
hereditários. No documentário de Peter Cohen, pode-se ver
um filme americano, de 1916, produzido pelo médico Harry Haiselden
com o intuito de estimular os pais a entregarem estas crianças aos
cuidados de profissionais que as sacrificariam logo após o nascimento.
O título do filme: “The black stork” - “A cegonha negra”. No cartaz
de promoção, uma cegonha negra está voando em meio
a nuvens carregadas de chuva. No filme, o papel do médico é
encenado pelo próprio Haiselden e são mostrados artigos de
jornal que ressaltam os benefícios desta prática para o fortalecimento
do povo americano.

Os
defensores da eugenia encontraram suporte nas teorias raciais de meados
do século XIX: para o racismo científico, os brancos europeus
representavam a superioridade biológica, negros e amarelos eram
considerados inferiores e a miscigenação era criticada por
causar supostos danos irreversíveis na descendência. O movimento
eugênico rapidamente se transforma em campanha nacionalista agressiva
contra negros e imigrantes.
Com
a propagação das teses eugênicas, surgem na Europa
e nos Estados Unidos institutos cujo objetivo é, por meio de extensa
pesquisa de campo, detectar traços hereditários inferiores
na população. Profissionais treinados coletam dados nas áreas
rurais e urbanas, em asilos, prisões e hospitais psiquiátricos,
utilizando instrumentos de medição e documentando tudo com
fotografias. O filme de Cohen aborda a ligação do movimento
nudista alemão com as proposições da eugenia: a rejeição
do vestuário significava uma forma de liberação da
“decadência da sociedade moderna” bem como uma demonstração
de “consciência racial”. Segundo Richard Ungewitter, um dos ideólogos
do movimento, a saúde do corpo individual refletia a força
do corpo social e as roupas escondiam imperfeições físicas
que deviam ser eliminadas.
O documentário
mostra que, enquanto na Alemanha o corpo é o alvo das reflexões
eugênicas, na União Soviética a atenção
dos cientistas concentra-se no funcionamento do cérebro. Quando,
em 1924, Lênin morre, o neurologista alemão Oskar Vogt é
chamado para ir a Moscou estudar o cérebro do líder revolucionário,
dando início a um projeto que visava estabelecer as bases biológicas
da inteligência. Após a Revolução Russa, o mendelismo
e as pesquisas genéticas tinham sido condenados pelo Kremlin e o
lamarckismo ganhou visibilidade. De acordo com os mendelistas, fatores
externos não influenciavam a constituição genética
e somente os caracteres possuídos pelos pais podiam ser herdados
pelos descendentes. Os lamarckistas, ao contrário, defendiam que
a herança genética era moldada pelo meio e que habilidades
desenvolvidas também podiam ser transmitidas. Para a ideologia bolchevista,
que abrigou as teses lamarckistas, o homem não era escravo da genética
e, através de ações de educação das
massas, capacidades desejáveis poderiam ser desenvolvidas e passadas
às gerações futuras. O documentário mostra
que a eugenia, defendida pelos mendelistas, não encontrou abrigo
na União Soviética.
Em geral
associadas à ascensão de Hitler ao poder, as práticas
eugênicas já tinham sido amplamente difundidas por vários
países no início da década de 30. Entretanto, o nazismo
levou ao extremo o argumento da pureza e perfeição raciais:
morreram nos campos de concentração mais de 6 milhões
de judeus e o Tribunal
de Nuremberg estimou a eliminação de cerca de 270 mil
alemães, sendo 70 mil idosos e 200 mil doentes.
Em Homo
sapiens 1900, Peter Cohen reuniu um extenso material de pesquisa,
entre fotografias, filmes de época e documentos escritos, sobre
os contextos europeu, norte-americano e soviético. Embora o diretor
não cite países latino-americanos, a eugenia também
encontrou repercussão nessa região, tal como havia ocorrido
com o determinismo racial.
No Brasil
dos anos pós-Primeira Guerra, República jovem na qual o crescimento
urbano convivia com surtos de doenças tropicais, fervilhavam discussões
sobre as formas de se agilizar as mudanças sociais reclamadas pelo
desejo de vir a ser uma nação moderna. Para alguns cientistas
e intelectuais da época, o obstáculo no caminho do desenvolvimento
social seria superado com o branqueamento da população; para
outros, somente condições sanitárias eficazes, extensivas
às áreas rurais, poderiam aumentar a produtividade e a riqueza.
Em 1917, o médico paulista Renato Kehl iniciou uma grande campanha
de divulgação das idéias eugênicas no meio científico,
que culminou, em janeiro de 1918, com a fundação da Sociedade
Eugênica de São Paulo, a primeira do gênero na América
Latina. O movimento eugenista brasileiro não era homogêneo
em suas proposições e esteve desde cedo associado às
áreas da saúde pública e psiquiatria, bem como aos
ideais do sanitarismo.
(...) nas cidades, a atuação
dos eugenistas se caracteriza pelo disciplinamento das massas trabalhadoras
através da noção de higiene mental. (...) Ganhou força
aqui a crença de que fatores externos como doenças e alcoolismo
contribuíam para a degeneração da raça. Sob
os preceitos da higiene mental, Antonio Carlos Pacheco e Silva criou o
Sanatório Pinel de Pirituba, para suprir a demanda proveniente do
processo de urbanização (...) (Silva,
2004).
Renato Kehl

Já
na virada do século XX, o sanitarismo tinha adquirido expressão
no Brasil. No fim do século XIX, um surto de peste bubônica
na cidade de Santos foi o responsável direto pela criação
dos institutos Manguinhos (hoje Fiocruz), no Rio de Janeiro, e Butantan,
em São Paulo, onde irão se desenvolver as principais pesquisas
sobre doenças endêmicas no país (Camargo, 2002). Estas
duas instituições, desenvolvidas segundo o modelo de seus
similares estrangeiros, os institutos Pasteur e Rockefeller, expressavam
o ideário das políticas sanitaristas brasileiras e o entusiasmo
das elites pela atividade científica, tornando-se símbolos
de nossa modernidade cultural. De acordo com o médico Belisário
Penna, que trabalhou, nas duas primeiras décadas do século
XX, em estreita colaboração com Oswaldo Cruz no combate à
varíola, doença de Chagas, malária e febre amarela,
os alicerces da eugenia estavam constituídos pelo saneamento e pela
medicina social, devido às influências que o meio exercia
sobre a saúde e a raça nacional. As proposições
de Penna remetiam-se muito mais aos cuidados com a higiene do que às
questões de mestiçagem. Neste sentido, realizou um extenso
trabalho educativo fazendo conferências e palestras como diretor
do Departamento de Saneamento e Profilaxia Rural do DNSP (Departamento
Nacional de Saúde Pública) .
Belisário Penna
Dizem que sou caixeiro-viajante!
Sou! Sou o caixeiro-viajante da higiene! Caixeiro-viajante da saúde!
Orando a analfabetos e homens cultos; ao povo e aos políticos; a
governados e governantes; nas fazendas, nas cidades; no norte e no sul
– ensinado seu evangelho: “Botina, necatorina e latrina!” (apudThielen
& Santos, 2002).
Belisário
Penna referia-se à ancilostomíase ou “amarelão”, verminose
largamente presente entre a população brasileira e cuja profilaxia
baseava-se em três ações: no uso de calçados,
como proteção contra a contaminação por vermes
através de ferimentos nos pés, na administração
de remédios e na construção de latrinas, medida de
higiene que evitaria a disseminação de doenças pelo
contato com as fezes. Penna tornou-se membro da Comissão Central
Brasileira de Eugenia (CCBE), organizada pelo seu genro, Renato Kehl .
Com a vitória de Getúlio Vargas, foi nomeado diretor do Departamento
Nacional de Saúde Pública e, em 1931, assumiu interinamente
o Ministério da Educação e Saúde Pública,
substituindo Francisco Campos por três meses. Após sua aposentadoria,
Penna filiou-se à Ação Integralista Brasileira (AIB),
fundada por Plínio Salgado, tornando-se membro da Câmara dos
40, órgão supremo do movimento.

O
médico Renato Kehl, por meio da CCBE, aproximou-se de Oliveira Vianna,
então consultor jurídico do governo provisório de
Getúlio Vargas, e passou a integrar um grupo designado pelo recém-fundado
Ministério do Trabalho para refletir, durante a Constituinte de
1934, sobre os problemas da imigração no Brasil. Os resultados
dos trabalhos da Comissão de Imigração contribuíram
para a formulação da Lei de Restrição à
Imigração, que limitava a corrente imigratória de
cada país, anualmente, a 2% do número total de nacionais
que tivessem chegado nos últimos 50 anos. Na prática, após
1937, o Ministério das Relações Exteriores passou
a emitir circulares secretas que proibiam a entrada no Brasil de judeus,
caracterizados por alguns eugenistas como não-assimiláveis
(Carneiro, 1990). Os japoneses também
sofreriam ações semelhantes.
Após
o término da Segunda Guerra Mundial, a eugenia foi desacreditada
como ciência e condenada como postura política. Entretanto,
a última lei de esterilização americana foi revogada
apenas na década de 70. É necessário manter-se atento
a novas tentativas de oferecer soluções ideológicas
a problemas cujas causas são econômicas e sociais, reconhecendo,
em relação aos estudos urbanos, que a reflexão sobre
o espaço e a interação entre grupos não pode
ser reduzida a uma questão de “competição” e “seleção”
biológicas.
Cena do Documentário Homo
Sapiens 1900
Raça:
construção cultural ou realidade genética?
No livro
“Teoria cultural de A a Z”, Andrew Edgar e Peter Sedgwick apresentam uma
definição de raça como “um modo de classificação
dos seres humanos que os distingue com base nas propriedades físicas
(por exemplo, cor da pele, características faciais) que propositadamente
derivam de herança genética” (2003,
p. 273). Neste enunciado, raça remete-se a uma forma de apreensão
que parte de caracteres físicos naturais, escolhidos para “recortar”
o real (“os seres humanos”) e criar categorias ordenadoras. Segundo os
comentários subseqüentes dos autores, não se trata simplesmente
de uma base física, mas de uma elaboração valorativa,
um artifício ideológico. Para Edgar e Sedgwick, raça
aparece travestida com uma roupagem objetiva e naturalizada, que mascara
sua dimensão social, dificultando a percepção de que
todo sistema classificatório é uma construção,
envolve avaliação e seleção, e, como tal, remete-se
a formas culturalmente determinadas de representação e poder
(2003, p. 273). Afinal, quem decide que
as “diferenças” devem ser definidas através da raça?
Durante
boa parte do século XIX, as ciências positivistas e deterministas
pregavam que era possível estudar e interpretar quase tudo a partir
de uma base “natural”: as “leis” da matéria podiam ser verificadas
não só no mundo inorgânico mas, também, para
os seres vivos e os fenômenos sociais; a “objetividade” dos fenômenos
sensíveis era pressuposto igualmente aplicável aos fatos
humanos e históricos. Neste contexto, a idéia de raça
é, simultaneamente, produtora e produto de uma visão ordenadora
e hierarquizante de mundo, a qual se pretende científica: os homens
estariam divididos em grupos raciais, que possuiriam o estatuto de espécies
biológicas distintas e poderiam ser relacionados entre si - segundo
graus de importância - como superiores e inferiores.
Para
o pensamento determinista, o significado de raça comportava, ainda,
outra dimensão: a crença em que diferenças físicas
não eram apenas marcas externas, mas, para além de si próprias,
remetiam à existência de um determinado conjunto de habilidades,
propensões ou formas de comportamento, indicando identidade e valor
intrínseco (os negros seriam traiçoeiros, os judeus seriam
avarentos etc.). Os modelos raciais colocavam o indivíduo como um
resultado final de seu grupo rácio-cultural, negando sua originalidade
e livre-arbítrio. Tal pressuposição conduziu a atitudes
discriminatórias.
O racismo (...) traça
uma distinção hierárquica entre raças, abrindo
um abismo entre elas e definindo um grupo racialmente designado como estando
sobre e acima do outro, numa escala de valor moral, inteligência
ou importância. (...) Do ponto de vista de tais ideologias, a raça
é tida como uma base mais fundamental para a diferenciação
social entre indivíduos e grupos do que, por exemplo, a classe (Edgar
& Sedgwick, 2003, p. 274).
Até
recentemente afirmou-se a “realidade biológica” das raças,
porém sem associá-las à idéia de pureza nem
graduá-las numa escala de importância: raças seriam
“populações que diferem significativamente nas freqüências
de seus genes” (Frota-Pessoa, 1996,
p. 29). Tais diferenciações, em grande parte externas e visíveis,
eram remetidas às adaptações resultantes dos processos
de migração e fixação dos grupos humanos ao
longo de sua existência no planeta.
A seleção
natural diversificou as populações humanas isoladas, adaptando-as
aos ambientes em que viviam. Disso resultaram diferenças genéticas,
reconhecidas à primeira vista, como as que existem entre os índios
do Brasil e os colonizadores europeus. Foram casos como esses que criaram
a idéia, perfeitamente correta, de que nossa espécie está
dividida em raças geneticamente diferentes umas das outras (Frota-Pessoa,
1996, p. 29).
No final da década de
90, firmou-se a posição de que “raças humanas não
existem do ponto de vista genético ou biológico” (Pena
& Bortolini, 2004).
Apenas 5% da variação
genômica humana ocorre entre as chamadas "raças". Ademais,
somente 0,01% do genoma humano varia entre dois indivíduos. Em outras
palavras, toda a discussão racial gravita em torno de 0,0005% do
genoma humano. Por outro lado, mesmo não tendo o conceito de raças
pertinência biológica alguma, ele continua a ser utilizado,
qua
construção social e cultural, como um instrumento de exclusão
e opressão. Independentemente dos clamores da genética moderna
de que a cor do indivíduo é estabelecida por apenas um punhado
de genes totalmente desprovidos de influência sobre a inteligência,
talento artístico ou habilidades sociais, a pigmentação
da pele ainda parece ser um elemento predominante da avaliação
social de um indivíduo e talvez a principal fonte de preconceito
(Pena & Bortolini, 2004).
Na sua "Declaração
sobre Raça" (1998), a Associação Norte-Americana de
Antropologia afirma:
Dado o nosso conhecimento
a respeito da capacidade de seres humanos normais serem bem-sucedidos e
funcionarem dentro de qualquer cultura, concluímos que as desigualdades
atuais entre os chamados grupos raciais não são conseqüências
de sua herança biológica, mas produtos de circunstâncias
sociais históricas e contemporâneas e de conjunturas econômicas,
educacionais e políticas (apud Pena
& Bortolini, 2004).
Pesquisas
recentes mostram que os percentuais de herança genética européia,
africana e ameríndia variam muito entre indivíduos de uma
população com alto índice de miscigenação
– como a brasileira, por exemplo - tornando enganadoras as diferenças
“reconhecidas à primeira vista”. Isto quer dizer que a cor da pele
não necessariamente corresponde à “divisão em raças”:
uma pessoa com a pele escura pode ter, proporcionalmente, mais genes europeus
do que africanos .
Adotar
- e passar a empregar - o conceito de etnia não eliminaria, para
algumas situações, estereótipos reducionistas e até
mesmo formas dissimuladas de racismo:
(...) a questão se
vira para quem ativamente designa um grupo social específico como
“étnico”: pois, definir como “étnico” e afirmar a própria
“etnia” são duas coisas muito diferentes. Em ambos os casos, o que
está em risco pode ser uma questão de poder, uma vez que
a afirmação de etnia pode ser lida como uma afirmação
de identidade em face do status quo social, já que definir
os outros dessa maneira pela “opinião da maioria” pode ser uma manifestação
opressiva do poder das forças e interesses mais dominantes na sociedade
(Edgar & Sedgwick, 2003, p. 117).

Assim
sendo, a auto-afirmação de identidade étnica é
vivenciada como experiência unificadora, expressão da partilha
de práticas culturais, normas e sistemas de crenças; por
outro lado, a atribuição feita “de fora” pode atuar – mas
não necessariamente - como fator de segregação ou
divisão, num contexto em que ser visto como “minoria” significa
possuir atitudes e tradições diferentes das praticadas e
valorizadas pela sociedade envolvente.
As
teorias raciais e o Brasil
Nas
últimas décadas do século XIX, a imagem do Brasil
como um grande laboratório para estudos raciais foi amplamente
divulgada
por viajantes e pesquisadores estrangeiros que por aqui passaram.
Segundo
estes cientistas naturalistas, em nosso país, a
miscigenação
atingia proporções maiores do que em qualquer outro lugar
no mundo, além de apresentar particularidades advindas do fato
de
três raças se misturarem entre si – brancos, índios
e negros – diferentemente do que ocorria em contextos onde dois grupos
raciais entravam mais frequentemente em contato, como nas
colônias européias da Ásia e África.
Para Lilia Moritz Schwarcz, o que resumia a singularidade local
“não
era mais a flora, a fauna ou a pujança da terra, e sim (...) um
certo espetáculo da miscigenação” (1994).
Fenômeno
que, com estas características e nesta magnitude, era desconhecido
no mundo, a mestiçagem brasileira colocava-se como um tema polêmico,
sendo discutido, também, internamente, em instituições
de ensino e pesquisa como as faculdades de direito e medicina, os institutos
históricos e geográficos e os museus etnográficos .
Visto como causa de diversos males, o cruzamento extremado de
raças
era associado, principalmente, ao atraso econômico e social. Em
uma época em que as teorias deterministas classificavam e
hierarquizavam as sociedades segundo critérios
tecnológicos, climáticos ou raciais, o hibridismo era
condenado como um erro cujas conseqüências se manifestariam
não só nos membros da população
considerados individualmente, mas em toda a coletividade: a
mestiçagem
causaria degeneração física, moral, intelectual
e...
civilizacional.
O determinismo
racial, também denominado poligenismo ou darwinismo social, partia
da premissa de que havia uma diferença ontológica entre as
raças humanas, consideradas espécies biológicas distintas
e imutáveis, existindo entre elas a mesma distância que, na
natureza, existia entre o jumento e o cavalo. Para estes teóricos,
tal como a mula
era híbrida e estéril, posto que resultante de um cruzamento
entre animais de espécies diferentes (jumento e égua), os
mestiços humanos também sofreriam um processo de degeneração,
perdendo sua capacidade de reprodução e estando fadados ao
desaparecimento. Daí a palavra “mulato”, “que vem de mulo, aquele
que é incapaz de reproduzir-se enquanto tal” (DaMatta,
1991, p. 39).
As teorias
deterministas do século XIX preconizavam, como foi visto, uma ordem
natural que graduava e hierarquizava as “raças humanas”. No topo
da escala situava-se o homem branco, com o europeu assumindo indiscutível
liderança em termos sociais, tecnológicos, econômicos
e políticos; negros e amarelos - incluindo-se o índio nesta
segunda categoria - eram inferiorizados, porém vistos como donos
de algumas capacidades positivas enquanto raça. O problema, segundo
teóricos como Louis
Agassiz (1807-1873), pesquisador suíço, era que a miscigenação
apagava “as melhores qualidades do branco, do negro e do índio,
deixando um tipo indefinido, híbrido, deficiente em energia física
e mental” (apud DaMatta, 1991,
p. 40). Em seu livro Viagem ao Brasil (1868), Agassiz concluía:
“Quem quiser ter um exemplo do que é a degeneração
e a mistura racial extremada venha ao Brasil e terá a prova da degeneração
local” (apud Schwarcz,
1996, p. 171). O conde de Gobineau, cônsul da França no Brasil
e amigo de Dom Pedro II, chegou a estimar que nós levaríamos
menos de 200 anos para nos extinguirmos enquanto povo, tão elevado
era o grau de mestiçagem aqui verificado. Autores como Agassiz,
Gobineau e Buckle eram terminantemente contrários à idéia
do cruzamento de raças porque, na verdade, este tipo de situação
“importa contato (e contato íntimo, posto que sexual) entre pessoas
que, na teoria racista, são vistas e classificadas como pertencentes
a espécies diferentes” (DaMatta, 1991,
p. 39).
Diante
de um quadro de miscigenação irremediável, era no
mínimo incômoda a posição dos intelectuais brasileiros,
que oscilavam entre a adoção dos modelos deterministas vindos
de fora e a constatação de que, se pensado segundo a rigidez
das premissas poligenistas, o futuro do Brasil enquanto nação
seria inviável. Para Lilia M. Schwarcz, “era interessante referendar
as posições dos cientistas europeus e americanos, porque
significava transformar hierarquias sociais, políticas e econômicas
em hierarquias naturalizadas” (1996,
p. 172). Por outro lado, tornava-se um problema aplicar o que diziam estas
teorias com relação à mistura de raças, já
que o prognóstico seria a degeneração. Em 1911, João
Batista Lacerda, então diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro,
convidado a participar, em Paris, do I Congresso Internacional das Raças,
defendeu a tese de que a solução para o nosso país
estava no branqueamento de sua população em um século.
Aceitava-se o pressuposto das diferenças ontológicas entre
as raças sem, contudo, condenar a mestiçagem, que, entre
nós, poderia ser conduzida para o pólo branco – uma contradição,
quando se pensa que estas teorias pregavam que traços positivos
não seriam transmitidos aos descendentes. De acordo com Lilia M.
Schwarcz
(...) os intelectuais brasileiros
eram obrigados a lidar com uma parte da teoria e obliterar outra. Assim,
não basta entender esses teóricos (...) como importadores
de idéias. Muito mais interessante é perceber que a questão
racial era absorvida com pavor e que, por isso mesmo, gerava (...)
debates arraigados (1996, p. 172).
Não
faltaram, da parte de teóricos brasileiros, proposições
que combatessem a aproximação entre as raças. Na introdução
deste artigo, foram vistas as idéias de Renato Kehl, que chegou
a propor a esterilização dos mestiços no Brasil (Schwarcz,
1996, p. 176). Em nome de um modelo eugênico de melhoramento da raça,
deputados paulistas, já em 1881, incentivavam a imigração
de trabalhadores europeus e barravam, através de projetos de lei,
a entrada de negros e asiáticos no Estado (Schwarcz,
1994). Outro exemplo conhecido é o de Raimundo Nina Rodrigues, médico
da escola tropicalista baiana que defendia o papel fundamental da medicina
legal na elaboração do Código Civil brasileiro. Para
este cientista era absurda a idéia de que os homens nasciam iguais,
possuíam livre-arbítrio e devessem ser tratados com paridade
perante a lei (Schwarcz, 1996,
p. 175). A posição assumida por Nina Rodrigues desqualificava
a igualdade jurídica recém-conquistada com a Abolição.
Cena do Documentário Homo
Sapiens 1900
Euclides
da Cunha: exemplo de pensamento contraditório
Um
dos melhores exemplos de autor nacional dividido entre as conclusões
das ciências de sua época e o caso específico do Brasil
foi Euclides da
Cunha (1866-1909). Em Os sertões (1902) ,
aplicou as teorias deterministas para, através dos vetores “meio”,
“raça” e “história”, interpretar os conflitos entre o que
considerava área “civilizada”, ou seja, o litoral, e o interior
do país, resguardado por um isolamento geográfico e histórico,
que o teria mantido vinculado ao passado. Segundo Euclides da Cunha, a
civilização avançaria sobre os sertões impelida
pela implacável “força motriz da História”, as raças
fortes esmagando as raças fracas (Cunha,
2003, p. 9). Percebe-se, em sua análise, a confluência de
fatores culturais e raciais: civilização e história,
mas também competição darwiniana, sobrevivendo o mais
apto e mais forte em todos os terrenos.
Intentamos esboçar,
palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços
atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E fazemo-lo
porque a sua instabilidade de complexos de fatores múltiplos e diversamente
combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável
situação mental em que jazem, as tornam talvez efêmeras,
destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes
da civilização e a concorrência material intensiva
das correntes migratórias que começam a invadir profundamente
a nossa terra” (Cunha, 2003, p. 9).
Enviado
ao cenário da
guerra
de Canudos (que durou de novembro de 1896 a outubro de 1897) como correspondente
do jornal “O Estado de São Paulo”, Euclides da Cunha, por também
ser militar e, ademais, comungar com a visão oficial que tratava
os sertanejos como revoltosos anti-republicanos, silenciou sobre as atrocidades
do massacre. Revê sua posição durante os cinco anos
que leva escrevendo Os sertões, reconhecendo um elemento de messianismo
na reação dos sertanejos e condenando o exército pelos
excessos cometidos. Ao longo das páginas do livro, alterna a visão
do sertanejo como uma sub-raça “instável”, “efêmera”,
“retardatária” e “próxima da extinção” para
“a rocha viva da nação”. Se o sertanejo corria o risco de
desaparecer diante da competição com os imigrantes estrangeiros,
era, de maneira contraditória, “antes de tudo um forte”. Neto de
bandeirante paulista (Cunha, 2003, p.
104), trazendo em si a bravura do índio e a autonomia do branco
português, quase sem mescla de sangue africano (p. 105), vencendo
o meio inóspito marcado pela seca e pela caatinga, e, principalmente,
sendo aquele que teve tempo de se fortalecer fisicamente enquanto aguardava
o desenvolvimento moral e civilizacional posterior da região (p.
117), o sertanejo era “retrógrado”, mas não “degenerado”
(p. 117). Euclides da Cunha esforça-se para compreender como o sertanejo,
um mestiço e, desta forma, teoricamente portador de desequilíbrios
típicos do cruzamento de raças, resistiu a tantas investidas
do exército republicano (quatro batalhas), só sendo derrotado
diante do poderio das armas de fogo empregadas pela última expedição.
Os combatentes de Canudos pareciam rebelar-se até mesmo como
objetos de estudo, para contradizer, em relação ao pensamento
de Euclides, as teses do determinismo racial. Por outro lado, os soldados,
em grande proporção mulatos vindos principalmente do Rio
de Janeiro e da Bahia, que, ao final da luta, degolaram barbaramente todos
os prisioneiros, mesmo vivendo em contato com a “civilização”,
na opinião de Euclides não seriam seus legítimos representantes.
Ao contrário, assemelhavam-se a seres incapazes de fazer frente
à complexidade da vida urbana em termos de suas exigências
intelectuais e morais (“o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos
do litoral”) .

Euclides
da Cunha faz parte da geração de autores considerados precursores
das Ciências Sociais no Brasil, sendo outros nomes expressivos os
de Silvio
Romero e Nina
Rodrigues ,
ambos seus contemporâneos e produzindo a partir das últimas
décadas do século XIX.
Gilberto
Freyre e o elogio da mestiçagem
Em um
período ainda anterior à institucionalização
destas ciências no contexto brasileiro, Gilberto Freyre publica seu
primeiro livro de expressão,
Casa-grande & senzala (1933),
adotando uma perspectiva interdisciplinar e elevando a mestiçagem
ao patamar de característica positiva da brasilidade. Nas palavras
de Gilberto Velho:
Gilberto
Freyre fazia questão de declarar que era, antes de tudo, um escritor.
(...) Sua obra, de dimensão ensaística, possui enorme riqueza
literária em que se destacam a elegância, a simplicidade e
a clareza. Dito isso, trata-se também de um dos maiores cientistas
sociais do século XX (...). Creio que uma de suas principais características
é não ter ficado preso a especializações, escapando
às nem sempre estimulantes compartimentações disciplinares.
(...) Por ocasião de seus estudos nos Estados Unidos, nas universidades
de Baylor (Texas) e Columbia (Nova York), Gilberto Freyre esteve em contato
direto com os grupos mais destacados das ciências sociais daquele
país. Numa época em que as fronteiras disciplinares e departamentais
eram mais fluidas, teve acesso não só à antropologia
e à história de Columbia, como também à sociologia
de Chicago, que até o final dos anos 1920 esteve associada à
antropologia num mesmo departamento (Velho,
2008, p. 39).
Em
estreito contato com os trabalhos desenvolvidos pelos antropólogos
do grupo de Colúmbia, Freyre adotará a questão das
relações entre cultura e personalidade individual como um
dos eixos fundamentais da constituição de seu pensamento.
Os antropólogos daquele grupo, até os anos 30, privilegiaram
o estudo de sociedades tribais, como ilustram as pesquisas de Margaret
Mead, na Nova Guiné, e de Ruth Benedict, com os índios norte-americanos .
Freyre, desde muito cedo interessou-se pela heterogeneidade sócio-cultural
brasileira, sendo, inclusive, ávido estudioso da história
do Brasil e de Portugal, como o comprova sua tese de mestrado intitulada
Social
Life in Brazil in the Middle of the Nineteenth Century, defendida em
22 de junho de 1922, base do livro Casa-grande & senzala.
|
|