Esta
pesquisa foi realizada entre agosto de 2005 e agosto de 2006, financiada
pelo CNPq e pela UFJF - com uma bolsa de Iniciação Científica
-,utilizando como metodologias a observação participante
e entrevistas de profundidade para conhecer melhor a comunidade muçulmana
em Juiz de Fora. Para fins de formação teórica, foram
consultados vários livros de Sociologia e Antropologia das Religiões,
enfatizando o Islamismo. Desde o fim da pesquisa de campo e até
o presente momento, foram feitas reflexões acerca das conclusões
desse trabalho, aqui contidas
A Sociedade
Beneficente Muçulmana de Juiz de Fora localiza-se no Centro
Comercial da cidade, ponto de grande circulação de pessoas,
em sua maioria comerciantes, estudantes e moradores da região. A
SBM está instalada em uma loja comercial dentro duma galeria, onde
ocorrem as tradicionais reuniões - às sextas-feiras em horário
de almoço- além de outros eventos ao longo do calendário
muçulmano. O islamismo em Juiz de Fora, constitui, assim como no
restante do Brasil, uma religião“quase étnica” (PEREZ;
2003), por ter chegado ao Brasil com a vinda dos libaneses, instituindo-se
como uma religião restrita ao cunho pessoal e familiar e abrindo-se,
mais recentemente, para a conversão de fiéis.
De fato,
isso é um reflexo
da busca por espaço em um “mercado religioso”.
Na maioria das entrevistas que fizemos ficou claro que a divulgação
da religião para a comunidade juizforana é feita na forma
mais passiva de proselitismo. Há uma transparência muito grande
ao fazer a divulgação da loja por meio de cartazes e mensagens
afixados nos vidros da própria loja, com os muçulmanos encarregando-se
de divulgar as características do Islã para aqueles que entram
na “mesquita”
em busca de informação.A comunidade atualmente possui 70
membros, entre ativos e não-ativos, que serão descritos posteriormente.
A maioria, mas não a totalidade, é de brasileiros convertidos
ao Islã. A “mesquita” conta com um Sheik que comanda as preces da
reunião de sexta-feira e ministra aulas de árabe e
teologia muçulmana em outros dias da semana. Ele é de origem
moçambicana e parece estar na cidade há pouco tempo. O Sheik
também costuma receber as pessoas novas que se interessam pela religião,
normalmente convidando-as para entrar e conhecer a “mesquita” e assistir
às orações.
A SBM
em estudo mantém contatos com outras mesquitas - principalmente
a de Belo Horizonte, Minas Gerais, por sua proximidade - além de
outras comunidades, mesmo as que não têm ainda um espaço
devidamente reservado para a reunião dos muçulmanos, a exemplo
da comunidade de Varginha, para que sejam angariados recursos para a construção
ou aquisição do mesmo.
O
Processo de Conversão
Devido
à sua localização privilegiada, como descrito acima,
e pelo horário das orações, a “mesquita” é
bem visível aos olhos dos cidadãos que passam pela galeria
onde se localiza. Os cartazes chamam a atenção para a identificação
do local como um lugar onde as pessoas podem conhecer a religião
islâmica e perder os preconceitos com relação a essa
crença.
Apesar
do processo de conversão ter se iniciado bem antes, foi possível
perceber com as entrevistas e os documentos a nós mostrados, que
muitos dos convertidos conheceram a “mesquita” ao procurar saber sobre
a religião após os últimos acontecimentos nas relações
internacionais, como o “11 de Setembro” e a Guerra no Iraque.
Presenciamos
o processo de conversão de três pessoas à religião.
Primeiramente, há de se fazer menção a uma categoria
nativa, pois ao invés da expressão conversão, os muçulmanos
utilizam o termo “regressão” . Isso se deve a um argumento dos próprios
fiéis ao dizerem que, partindo do pressuposto que todos nascemos
submissos a Deus e que Islã significa “submissão” (a Deus
– ou Al-Lah), háveria, de fato, uma “regressão às
origens” do homem. Notamos uma diferença fundamental entre
a primeira e a segunda conversão presenciadas. Enquanto na primeira
o converso - um senhor de quase 70 anos - demorou a participar das orações
(cerca de um mês e meio), fazer as prostrações e outros
rituais que cercam a religião, na segunda, de um jovem artista plástico
de 20 e poucos anos, já na semana seguinte à pronunciação
da Shehadah (uma declaração da fé no Deus único
e no Profeta Maomé, conceito explicado no capítulo sobre
o Islã do livro Em Nome de Deus, de Karen Armstrong
(2001), participava das orações. Isso talvez se deva a um
maior conhecimento da religião que o segundo teria a priori,
como o próprio converso afirmou numa conversa informal: que já
buscara saber da religião antes de vir procurar a “mesquita”. O
terceiro caso foi semelhante ao segundo: a conversão de uma jovem
mulher de 25 anos, com quem não tivemos oportunidade de fazer a
entrevista de profundidade.
A estratégia
básica da SBM é atrair potenciais fiéis com os cartazes
mencionados acima. Quando é notado o interesse em entrar na “mesquita”
J., o brasileiro convertido, e o próprio Sheik são os primeiros
a receber a pessoa. Foi como aconteceu no primeiro dia em que fomos à
“mesquita”, sendo muito bem recebidos pelo Sheik ao explicar–lhe que estávamos
lá para fazer uma pesquisa para a Universidade Federal de Juiz de
Fora e que queríamos conhecer a religião e o templo. Assim
que demonstra interesse pela religião, a pessoa é prontamente
convidada a entrar e assentar-se para assistir às orações.
Durante nossa pesquisa, Luciano e eu observamos várias pessoas que
visitaram a “mesquita” para assistir a uma prédica : professores,
estudantes de jornalismo. Para minha surpresa, muitas mulheres. O processo
continua com o convite à pessoa para que volte a fim de assistir
mais prédicas ou, ainda, para assistir às aulas de árabe
ou de teologia ministradas pelo Sheik. Isso cria uma sensação
de familiaridade necessária para que a pessoa se sinta à
vontade para escolher o momento certo de recitar a Shehadah, sendo, parece-nos,
indispensável, a participação de outros convertidos
anteriormente na concepção dessa atmosfera familiar. A partir
da conversão, inicia-se um processo de aprendizado sobre a
teologia muçulmana, além do suporte para o aprendizado de
árabe, língua em que o Alcorão foi escrito e também
em que uma parte da prédica e todas as orações são
pronunciadas.
Os
convertidos “ativos”
Convertidos
“ativos” são os que participam da maioria das reuniões de
sexta-feira, além das outras atividades promovidas pela SBM. Ou,
ainda, os próprios membros da comunidade. É necessário
fazer essa distinção, pois apesar de contar atualmente com
70 membros aproximadamente, a maioria convertidos, a “mesquita” registra
nas reuniões às sextas-feiras, uma freqüência
de 15 a 20 membros, lembrando que essas reuniões são obrigatórias
para homens e facultativas para mulheres e crianças. Portanto,
se contarmos aqueles que têm sua presença garantida em quase
todas as reuniões, chegaremos a um número de 12 a 15 membros
convertidos . Estes são aqui denominados “ativos”.
Os
convertidos “ativos” que fazem o “proselitismo”
Como
visto acima, a atuação daquele que se converteu anteriormente,
além de se dedicar à religião é também
facilitar a integração dos interessados na comunidade
muçulmana. Ao transmitir sua experiência de conversão,
o “brasileiro” (aqui entre aspas por também ser uma categoria nativa)
também transmite sua experiência religiosa: um testemunho
sobre o que mudou em sua vida e como ele se sente agora que descobriu sua
religião. São esses “brasileiros” que também ressaltam
as maiores qualidades da religião e se mostram muito felizes quando
alguém demonstra interesse ou o desejo de se converter ao Islã.
Normalmente, quatro desses “brasileiros” ficam encarregados de mostrar
ao interessado os livros islâmicos, as formas de prostração,
as vantagens de se tornar muçulmano e o restante da comunidade.
Não importando se esses convertidos participam ou não do
processo de conversões de algum modo, eles ficam felizes com a entrada
de novos membros na comunidade, pois, para eles, é excelente que
a religião cresça e espalhe sua mensagem com mais facilidade.
Os
demais convertidos “ativos”
Nem
todos os convertidos ativos participam do processo de abordagem para novas
conversões. Nessa categoria se incluem as mulheres, os convertidos
mais recentes e outros que por alguma razão deixam essa parte para
os quatro “brasileiros” mencionados anteriormente. Todos participam das
preces e dos outros eventos, e alguns chegaram até a conversar conosco,
uns de maneira mais tímida, outros mais desinibidos, querendo saber
o que fazíamos ali e por quê não orávamos também.
Como há uma estrutura organizacional na SBM, pode ser que este seja
o motivo de eles não participarem do proselitismo ou,as funções
deles sejam outras, e prefiram deixar a parte da conversão
com os incumbidos dessa tarefa.
Os
convertidos “não-ativos”
Os convertidos
“não-ativos” são aqueles que por alguma razão não
são assíduos às reuniões e/ou nas atividades
promovidas para a comunidade. Nesse caso, J., que cuida da parte de documentação
e estruturação da “mesquita”, nos explicou, por observarmos
apenas uma freqüência de 20 pessoas/reunião, que há
membros da comunidade que trabalham ou moram distantes de Juiz de Fora,
dificultando a presença em todas as reuniões. Existe um outro
grupo, de convertidos em Juiz de Fora, cujos membros mudaram-se para outra
cidade, mas que ainda permanecem registrados ali por ser este seu local
da conversão. E, por último, J. admite que alguns indivíduos
se convertem e depois abandonam a prática, ou aparecem esporadicamente,
mantendo pouquíssimas relações com a comunidade.
Estratégias
de Visibilidade Pública
Com
a divulgação dos acontecimentos internacionais, a presença
marcante de um “mercado religioso” e o aumento da busca por uma identidade
cultural, o muçulmano passou a ser mais observado e também
a querer ser observado na sociedade juizforana. As meninas e as mulheres
muçulmanas costumam usar o véu quando saem à rua,
inclusive ao irem trabalhar ou estudar. Não deixa de ser uma estratégia
de visibilidade por diferenciação cultural, ao provocar o
estranhamento do outro. Entre os homens, alguns costumam usar nas orações
um turbante e um chapéu tipicamente muçulmanos durante as
orações, mas somente o Sheik e poucos adeptos andam
assim trajados na rua .
Devido
aos acontecimentos no Líbano, muitos muçulmanos, sírios
e pacifistas saíram em passeata em 5 de agosto de 2006 para pedir
a paz no Oriente Médio. Alguns membros da “mesquita”, como a muçulmana
K., ainda possuem família nos locais dos ataques e temem pela segurança
de seus familiares, ou no caso específico de K., da filha.
Outra
estratégia de visibilidade envolve a imprensa local, com a divulgação
da “mesquita” em matérias e reportagens. Esses caso, são
vistos mais como oportunidade do que como iniciativa, pois a idéia
da reportagem parte da própria imprensa.E, como já mencionado,
a estratégia mais usada é mesmo surpreender as pessoas
que passam pela galeria onde está instalada a “mesquita”,
com cartazes anunciando sua localização e informando os transeuntes
sobre a religião e a Sociedade Beneficente Muçulmana ,ali
presente.
Conclusão
Como
visto, a comunidade muçulmana em Juiz de Fora era de cunho “quase
étnico” e agora começa a crescer devido à presença
marcante da religião na mídia. A SBM de Juiz de Fora parece
estar buscando seu espaço em meio a um “mercado religioso” com táticas
mais passivas de proselitismo e estimulando a curiosidade do ser humano
em desvendar aquilo que lhe parece estranho. Ao que nos parece até
o momento, esse espaço vem sendo conquistado com formas de
expressão que a comunidade utiliza para poder demonstrar que está
ali, e por isso continuamente recebe visitas de olhares surpresos e ao
mesmo tempo curiosos para conhecer aquela religião. Em âmbito
nacional, a SBM de Juiz de Fora sempre é representada por alguns
de seus membros em congressos, viagens e eventos como a DAWA (em português,
divulgação) -,uma reunião de muçulmanos de
várias partes do país e do mundo para se discutir estratégias
de divulgação da religião - e também estabelecendo
contatos com outras mesquitas pelo país. Enquanto estivemos observando
as relações na “mesquita”, presenciamos a visita de africanos,
de um árabe e de um francês.É notória
a hospitalidade dos membros dessa religião para com seus semelhantes,
além da importância da língua árabe para essa
religião, assim como a língua inglesa serve atualmente
para encurtar distâncias e trespassar barreiras para a convivência
nas diferentes esferas .A língua árabe serve para tentar
melhorar a comunicação desses muçulmanos de várias
partes do globo. Pudemos observar também que o Islamismo transforma
o corpo do convertido a partir do momento que este ingressa na religião,
de uma forma semelhante à formação do habitus de Pierre
Bourdieu, já que transcende a característica entre o sujeito
e o objeto. O convertido, que antes se via como um brasileiro, agora passa
a se considerar um brasileiro muçulmano, tomando para si a responsabilidade
de divulgar a religião para outras pessoas, como visto acima. A
questão que se coloca aqui é : até onde a relação
entre convertidos e “imigrantes” pode ser conflituosa ou não, já
que muitas vezes a experiência que o convertido traz de outras religiões
e de outros fatos que ocorreram em sua vida, pode dar novas perspectivas
para a prática do Islamismo? E a mesquita aqui funciona como uma
espécie de Instituição fundamental de educação
para a moralidade, nos moldes durkheimianos de instituição
polissêmica e complexa de uma sociedade com uma solidariedade do
tipo orgânica. É importante realçar também que
as relações que a comunidade muçulmana tem com aqueles
que estão mais próximos da mesquita, mas que não fazem
parte da religião, fazem parte de uma dinâmica sócio-cultural
urbana, no sentido de que a propaganda com fins de proselitismo visa principalmente
esse público que passa pela mesquita todos os dias. Além
disso, há o fato de que a religião muçulmana ganhou
muito destaque na mídia nos últimos anos, devido às
notícias de ataques terroristas que afetam várias partes
do mundo. No entanto, o que a mesquita em Juiz de Fora quer sustentar como
mensagem é: não se busca ali nenhum tipo de violência,
mas sim uma mensagem de renovação espiritual. Cabe aos convertidos
essa tarefa de ligar a mesquita à sociedade juizforana, visto que
os “imigrantes” procuram estar mais ligados aos rituais religiosos.
Aluno
do Curso de Graduação de Ciências Sociais da Universidade
Federal de Juiz de Fora
A
partir de agora, no texto, utilizarei a palavra “mesquita” entre aspas,
por ser um termo que os próprios membros utilizam para denominar
o local de sua reunião. Como já visto, a “mesquita” é
uma loja comercial no centro da cidade, e não uma construção
tipicamente árabe.
Bibliografia
ARMSTRONG,
Karen. 2001. Em Nome de Deus: O Fundamentalismo no Judaísmo,
no Cristianismo e no Islamismo. São Paulo, Companhia das
Letras.
BERGER, Peter.
1985. O Dossel Sagrado: Elementos para uma teoria sociológica
da religião. São Paulo, Paulus.
BOURDIEU,
Pierre. 1991. “La creencia e el cuerpo”. I: Pierre Bourdieu. El sentido
Prático. Madrid, Taurus.
BOURDIEU,
Pierre. 2006. “O Camponês e seu corpo”. Revista de Sociologia
e Política, 26. Curitiba.
FRÚGOLI
Jr., Heitor; ANDRADE, Luciana Teixeira de; PEIXOTO, Fernanda Arêas
(orgs). 2006. As cidades e seus agentes: práticas e representações.
Belo Horizonte, Editora PUCMinas e Edusp.
GEERTZ,
Clifford. 2004. Observando o Islã. Rio de Janeiro,
Jorge Zahar.
MAUSS, Marcel.
2003. Sociologia e Antropologia. São Paulo, Cosac
Naify.
PACE, Enzo. 2005.
Sociologia
do Islã: Fenômenos Religiosos e Lógicas Sociais.
Petrópolis, Vozes.
PEREZ, Vitória;
MARIZ, Cecília. 2003. Muçulmanos no Brasil Contemporâneo:
um estudo preliminar. Aprovado e aguardando publicação
na revista Tempo Social.
WACQUANT,
Loïc. 2002. Corpo e Alma. Notas etnográficas de um aprendiz
de boxe. Rio de Janeiro, Relume Dumará.