Esta
pesquisa, de Iniciação Científica
,
está sendo desenvolvida na área de Antropologia da Saúde
e tem como campo de estudo a Casa de Apoio Lucilla Ballalai para
pacientes em tratamento oncológico do Hospital do Câncer
de Londrina, local onde trabalho há dez anos como Auxiliar de Enfermagem.
O objetivo do estudo é analisar de que modo familiares e pacientes
se expressam em relação ao câncer, bem como as implicações
oriundas do fato de se tratar de uma doença permeada de significados
negativos. A escolha da Casa, e não do próprio hospital,
para a efetivação da pesquisa de campo deve-se a uma série
de questões, que exporei a seguir. O texto apresenta o desenvolvimento
da pesquisa de campo, trazendo elementos de minha experiência etnográfica
como a definição do objeto, a entrada no grupo estudado e
minhas dificuldades iniciais.
Devido
às dificuldades encontradas ao longo da pesquisa etnográfica
no que diz respeito à nomeação dessa doença,
freqüentemente relacionada à dor, à morte e/ou
à mutilação do corpo, centrei-me nas expressões
- categorias nativas - utilizadas pelos pacientes para se referirem ao
câncer. Defini como abordagem teórica a que tem como base
a análise das configurações representacionais
que pressupõem o indivíduo movendo-se através
de uma rede de significações e de uma estrutura representacional
já existente. Esta linha parte da análise durkheimiana das
categorias do pensamento humano e, na atualidade, do trabalho de Luiz Fernando
Dias Duarte, que retoma esta tradição da Escola Sociológica
Francesa, articulando com ela as contribuições do estruturalismo
de Louis Dumont.
A
experiência de campo
Quando
iniciei o Curso de Ciências Sociais, já trabalhava no Hospital
do Câncer de Londrina (HCL). E algo que me chamava muito a atenção
era a intensa busca de itinerários terapêuticos, pelos pacientes,
para enfrentar a doença. A busca por agências diversas
me impressionava, assim como o leque de opções e itinerários
existentes. Pacientes e acompanhantes referiam-se a igrejas, a médiuns
que faziam operações invisíveis,
a "garrafadas", a simpatias, a benzedeiras e a remédios caseiros.
A crença na cura mágica ou religiosa era um assunto muito
freqüente entre eles, o que eu percebia com facilidade por trabalhar
nas enfermarias do hospital.
No segundo
ano do curso escrevi um pré-projeto sobre os itinerários
terapêuticos, mas a bibliografia sobre Antropologia da Saúde
com a qual entrei em contato chamava minha atenção
para o fato de os pacientes apontarem sempre outras doenças,
e não o câncer, para se referirem à sua internação
ou presença no Hospital do Câncer. Ficava claro que eles utilizavam
metáforas para não nominar, abertamente, o câncer.
Ao discutir meu pré-projeto com uma médica do corpo clínico
do hospital, ela me apresentou a seguinte questão: "como abordar
esta busca em torno da cura do câncer, se muitos deles não
sabem que têm câncer?".
A leitura
do livro A doença como metáfora, escrito pela filósofa
Susan Sontag (1984) me possibilitou perceber que
o câncer é uma doença carregada de representações
negativas que aumentavam o sofrimento do paciente e dos familiares e, certamente,
levava muitos deles a não nomearem a doença. Era difícil
afirmar se os pacientes não sabiam ou não queriam saber que
doença tinham. Mas se omitiam a doença para si próprios
isso se dava, ao que tudo indicava, em decorrência dos valores negativos
associados ao câncer e aqueles relacionados à morte.
Nesta
época eu já trabalhava na Unidade de Terapia Intensiva e,
antes de escrever novo projeto de pesquisa, passei a observar, em minha
rotina de trabalho, como, de fato, pacientes e familiares se referiam à
doença. Em seguida passei a anotar estas considerações,
sistematicamente, em um diário de campo logo após o fim do
expediente. Porém, não obtive muitos avanços na pesquisa
enquanto estive limitado a esta unidade do hospital. As visitas eram muito
restritas, o que me impossibilitava maior aproximação com
os familiares. Além disso, os pacientes em cuidados intensivos não
podiam interagir com o pesquisador. Isto inviabilizava qualquer tentativa
de estudo e, juntamente com o fato de que não poderia limitar a
pesquisa apenas a este setor, passei a fazer as observações
também no Ambulatório do hospital. Estava certo de que ali
poderia desenvolver a pesquisa com mais facilidade. Além disso,
como queria estar diretamente envolvido com os pacientes e seus acompanhantes
para o desenvolvimento do estudo, ou seja, como desejava estar mais próximo
a eles, imaginei que o Ambulatório pudesse ser um local mais apropriado
para o trabalho.
Durante
alguns dias não me apresentei como funcionário do hospital,
mas como pesquisador. Temia que o fato de trabalhar no hospital pudesse
influenciar de alguma forma a pesquisa que estava iniciando. Acreditava
que ao me apresentar como um profissional do hospital, poderia inibir os
entrevistados ou fazer com que projetassem uma visão não
condizente com suas realidades. Apresentava-me como estudante de Ciências
Sociais que estava desenvolvendo um trabalho na área de Antropologia
da Saúde. Mas logo percebi que isto não seria ético,
uma vez que eu desejava estabelecer uma relação de confiança
com eles. Compareci ao ambulatório durante várias semanas,
apresentando-me como estudante e profissional do hospital, mas, diferentemente
do que imaginava, não obtive muitos sucessos. Primeiro, porque havia
um certo constrangimento de minha parte em apontar que o estudo era sobre
os pacientes em tratamento de câncer. Não sabia se os pacientes
tinham consciência de seus diagnósticos ou se a família
preferia ocultar isto deles. Assim, tentava um diálogo que pudesse
sinalizar para o paciente a sua história e sua experiência
junto à doença, esperando a confirmação ou
não de meus pressupostos, ou seja, esperando a confirmação
ou não de que, de fato, o câncer era uma doença inominável
para muitos. E, principalmente, esperando obter respostas que me levassem
ao motivo de não se nominar a doença. As respostas eram extremamente
vagas. E, de certa forma, isto evidenciava que o câncer era uma doença
indizível. Cheguei a comentar com uma amiga do grupo de pesquisa
sobre a dificuldade de obter respostas. Mas, como ela me disse, isto apenas
comprovava minhas hipóteses. Mesmo assim, isto era insuficiente
para dar continuidade ao trabalho. Como o câncer ainda é uma
doença que suscita medos, cheia de significados negativos e metáforas
que dificultam sua nomeação, os pacientes e acompanhantes
não eram muito receptivos à pesquisa.
Como
apontei acima, além de obter respostas vagas, os acompanhantes demonstravam
que não queriam ser pesquisados e que não gostariam que eu
realizasse o estudo com os pacientes. Eles diziam: "Vai lá dentro.
Lá você consegue estudar melhor"; "Agora não dá,
a gente já vai ser chamado pra consulta". Vários acompanhantes
ainda me diziam: "Não, ele não sabe de nada e é melhor
a gente não falar agora, que ele pode ouvir". É claro que
obtive muitas informações importantes que me deram uma série
de inspirações e orientações para a pesquisa.
Mas, de maneira geral, seria muito difícil o estudo naquelas condições.
E acho que não poderia ser diferente. Muitos pacientes estavam à
espera de seus diagnósticos, outros haviam acabado de recebê-los,
outros ainda estavam com medo, ansiosos por iniciar um tratamento desconhecido
ou mesmo dar continuidade a ele. Nada mais natural do que estarem apreensivos,
assustados, estranhando aquela situação e, principalmente,
não querendo falar. Os acompanhantes também sentiam a necessidade
de "proteger" seus entes ou amigos e eu não insistia na conversa,
sentindo-me incomodado por incomoda-los. Achava que deveria ser recebido
sem insistências e sabia que deveria respeitar as suas limitações.
Sempre imaginei que talvez as pessoas não quisessem falar no intuito
de evitarem a materialização e a proximidade da doença,
fato que era evidenciado por muitos estudiosos da Antropologia da Saúde.
Diante destas dificuldades eu pensava: "parece que ainda não tenho
campo para a pesquisa".
É
importante ressaltar a necessidade de se ter uma boa "entrada" no grupo
a ser pesquisado. Acredito que o ideal seria que o pesquisador, quando
possível, fosse apresentado ao grupo. Entendo o grupo como um conjunto
de pessoas que possuem ou partilham certas categorias referentes a uma
realidade comum e que apresentem ainda, como características o fato
de ser delimitado e existir enquanto tal. No meu caso, enquanto estive
no ambulatório do hospital não percebia a existência
de um grupo que pudesse partilhar uma experiência comum e com a qual
eu pudesse interagir. Embora esta realidade fosse apenas uma, não
percebia a concretude de um grupo, mas a existência de pessoas móveis,
que não se conheciam e dificilmente voltariam a se ver. Não
percebia a existência de um grupo em si. Diferentemente de Rial
(2003) que em um estudo sobre os fast-foods defendia a idéia de
um campo mais fluído, preferi optar pelo estabelecimento de um campo
mais tradicional. Daí a minha escolha por realizar a pesquisa na
Casa de Apoio Lucilla Ballalai, pertencente ao hospital, localizada
em suas imediações e disponível para pacientes que
fazem tratamento de radio ou quimioterapia que não necessitam de
internação. A Casa de Apoio atende aos pacientes que moram
em localidades distantes, os quais utilizam-na pelo tempo que for necessário
para a realização do tratamento ambulatorial.
Embora
a permanência dos pesquisados na Casa de Apoio- descrita mais abaixo-
não fosse continua, havia a delimitação de um grupo
com algumas experiências em comum - no caso, relacionadas ao tratamento
de câncer - que se encontram temporariamente em diferentes momentos
e que compartilham esse local, ou seja: há a delimitação
de um grupo mesmo que em movimento ou "transitório"- este último
termo tomo emprestado de Silva, em estudo realizado entre os índios
Xetá (SILVA, 1998).
A Casa está aberta de segunda
a sexta-feira e, em cada um destes dias existe determinado grupo de voluntários
que se reúne e conduz determinadas atividades, como momentos de
oração e de reflexão. Alguns exercem o voluntariado
há mais de 20 anos, outros possuem um menor tempo de atuação.
Embora haja vários grupos, todos trabalham de acordo com os mesmos
critérios, estabelecidos "desde os tempos de Dona Lucilla Ballalai",
fundadora do hospital. Entre os critérios, escritos à mão
em um livro-ata, destaca-se não falar sobre a morte, sobre a doença
e sobre religião. Eu mesmo fui advertido sobre estes critérios
por uma voluntária (de maneira muito delicada), em minha primeira
visita à Casa de Apoio, no dia em que uma paciente falava sobre
o medo de morrer e deixar os filhos e o marido.
Muito
diferentemente do ambulatório, onde as pessoas não queriam
falar, percebi que na Casa de Apoio elas sentiam necessidade de falar sobre
sua doença, mesmo contrariando as normas da Casa, citadas acima.
Até temas como a morte, que eu não imaginava como abordar,
fluíam, espontaneamente, sem que eu precisasse fazer menção
a eles. Enquanto o hospital, que abriga o ambulatório, é
o local do desconhecido, do estranho, a Casa é o local do conhecido,
da segurança e da proteção e, talvez por isso, as
pessoas quisessem falar, contar um pouco sobre suas histórias. Talvez
no Ambulatório elas também sentissem a necessidade de falar,
de questionar sobre sua doença, mas a sua própria localização,
no ambiente hospitalar, a situação de estranhamento em relação
à doença, o medo de enfrentá-la, os impedia de falar
com um estranho, com uma pessoa que nunca viram e que não voltariam
a ver. Como muitos pacientes apontaram na Casa: "Aqui é como a casa
da gente"; "a gente tem toda a liberdade que tem em casa, com a família".
Muitas vezes conversava primeiramente com os acompanhantes e estes me pediam
para eu conversar com seus familiares, agradecendo-me quando dizia que
havia conversado com eles. Alguns pacientes ou mesmo acompanhantes
ainda diziam para outras pessoas da Casa: "Conversa com ele; é bom
pra gente".
Porém,
embora os pacientes sentissem a necessidade de falar sobre a doença
e sobre suas histórias, o câncer ainda se apresentava como
uma doença de difícil nomeação, quase indizível,
eu afirmava na época. Com o desenvolvimento da pesquisa, percebi
que o câncer era nominável de muitas outras formas,
e este sistema de nominações tornou-se o objeto de minha
pesquisa. Para tanto, precisava mapear alguns pacientes e estabelecer
uma conversa dia após dia, o que me possibilitasse estabelecer uma
maior relação de confiança para perceber o sentido
de suas falas. Percebia que a pesquisa etnográfica deveria ser construída
com uma certa insistência e sem pressa, devendo ser contínua.
Além disso, eu não poderia ficar muitos dias sem ir ao campo.
Assim, pude acompanhar pacientes durante várias semanas e durante
todo o tratamento. Com isto ficava claro que muitos sabiam, sim, os seus
diagnósticos, embora insistissem em apontar uma série de
outras doenças para justificar sua permanência na casa.
Juntas,
observação participante e diário de campo foram as
duas primeiras técnicas utilizadas na pesquisa no intuito de exercitar
o estranhamento em relação ao objeto de estudo, ou seja,
eu precisava transformar o familiar em exótico. Por estar inserido
a quase dez anos no local que agora havia se transformado em meu campo
de estudo, precisava fazer este exercício para poder dar forma à
pesquisa. De acordo com Peirano (1995), o estranhamento
possibilita o confronto entre teorias, entre teoria e pesquisa e favorece
a auto-reflexão. Da Matta (1978) nos chama
a atenção para o fato de que as transformações
(seja a do exótico em familiar, ou a do familiar em exótico),
não são totais, mas continuam se dando com a presença
de "resíduos" entre um e o outro e, no meu caso, este exercício
de estranhamento era o ponto de partida. Segundo o autor, "é necessário
um desligamento emocional, já que a familiaridade do costume não
foi obtida via intelecto, mas via coerção socializadora"
(p.30). A princípio, percebia que me deparava com um problema de
difícil solução: como obter este estranhamento? Mas
percebi que, além de poder utilizar o referencial teórico
oferecido pela Antropologia da Saúde, os pesquisados e eu nos encontrávamos
em diferentes posições. De fato, eu estou inserido no local
há dez anos, tive contato com pacientes e familiares durante todo
este tempo, mas nunca passei por alguma situação parecida,
nunca vivi o que eles viviam, ou seja, não compartilhava suas experiências
em relação ao câncer . Também não alcançava
a dimensão de seus sofrimentos, medos e sentimentos. Além
disso, muitos deles eram pessoas absolutamente leigas em relação
ao tratamento e à doença. Assim, já havia um certo
distanciamento em nossas relações, uma vez que eu estava
"do outro lado" e o objeto, em si, era algo novo, algo que eu só
vim a perceber, de fato, agora. E, mais importante do que isso, eu nunca
havia olhado para o hospital e para os pacientes com um olhar informado
por questões e problemas de pesquisa e, sobretudo, por teorias que
orientam essas questões e problemas. Mas a questão do distanciamento
é contraditória. Se, por um lado, eu o via como algo positivo,
por outro deveria atenuá-lo, diminuir estas diferenças. Uma
das maneiras encontradas foi tomar parte dos Evangelhos e do café
da manhã ou da tarde com eles. Victora (2000,
p.55), por exemplo, nos diz que embora este distanciamento seja um pressuposto
da pesquisa científica, é necessário estar atento
para a dualidade entre aproximação e distanciamento. Ela
nos chama a atenção para o fato de que o antropólogo
"precisa estar ao mesmo tempo próximo e distante do grupo
estudado (...). Ele precisa estar próximo do grupo pesquisado e,
ao mesmo tempo, dele distanciar-se para não ser excessivamente impregnado
pela problemática e pelo ponto de vista do grupo pesquisado". Segundo
Evans-Pritchard
(2005, p. 246) "o antropólogo vive simultaneamente em dois mundos
mentais diferentes, construídos segundo categorias e valores muitas
vezes de difícil conciliação".
Assim,
ao mesmo tempo em que eu precisava me afastar daquilo que me era familiar,
utilizando técnicas de pesquisa oferecidas pelo arsenal antropológico
e que favoreciam o estranhamento em relação ao objeto de
estudo, precisava, também, me aproximar dos pesquisados, quando
em campo, e me distanciar destes no momento de proceder as interpretações
de suas falas. Embora o antropólogo não tenha como meta o
trabalho de campo (PEIRANO, 1995; WOORTMANN,
1997), existe uma série de questões que não podem
ser obtidas de outra forma e, para o estudo que me propunha desenvolver,
a pesquisa etnográfica era indispensável. Interessado em
analisar os significados atribuídos ao câncer, não
poderia, de forma alguma, abrir mão da pesquisa etnográfica.
O método
etnográfico pressupõe a observação participante.
Para a antropologia, a importância deste método
de pesquisa reside no fato de que, para se entender
o comportamento humano, bem como suas crenças, é necessário
que estes sejam analisados in locu, devendo o observador estar atento
para o ponto de vista do pesquisado. Este método favorece a pesquisa
e se apresenta como indispensável, sendo por meio da observação
participante que o pesquisador pode analisar posturas, gestos, perceber
contradições, valorizações feitas pelo
próprio grupo estudado, rede de relações existentes,
postura corporal e o próprio ambiente (MALINOWSKI,
1978). Foi este método que me propiciou perceber uma série
de classificações, significados, metáforas atribuídos
pelos pacientes para o tratamento e para a doença.
Dentro
de meus limites, procurava ir à Casa com uma certa freqüência.
Havia dias que chegava um pouco mais cedo ao hospital para trabalhar
e ia até lá, outras vezes realizava as visitas no período
da manhã ou da tarde e com o passar dos dias comecei a aceitar os
convites que me faziam e tomava o café com eles, bem como também
participava dos momentos de reflexões, promovidos pelos voluntários.
Em certas ocasiões, nem falávamos sobre a doença ou
sobre o tratamento. Falávamos de diversos assuntos e, assim, a relação
de amizade e de confiança entre pesquisador e pesquisado foi se
fortalecendo cada vez mais. É importante mencionar que eram em muitas
dessas conversas que não tinham como foco o objeto de pesquisa,
que eu percebia muitos detalhes em relação a ele, trazidos
espontaneamente pelos pesquisados em meio a uma conversa bastante informal.
Ter
delimitado a Casa de Apoio como local para o campo de minha pesquisa ainda
me possibilitou contrapor as falas dos pacientes e de seus acompanhantes,
bem como suas divergências. Assim, procurava, quando possível,
conversar com os dois em momentos distintos. Muitas vezes era preciso apenas
iniciar a conversa com um paciente para que outros se aproximassem e participassem
conosco, contando suas histórias. Como na maioria das vezes estavam
sempre juntos na sala ou na copa, nem sempre era muito fácil estabelecer
a conversa com apenas um paciente. Por um lado isto era muito bom, pois
os pacientes, e também os acompanhantes, se sentiam até mais
seguros em falar e isto acabava motivando os demais. Em algumas ocasiões
estavam todos animados em falar sobre suas histórias envolvendo
a doença. Em outras, nossas conversas acabavam tomando outros rumos
e eu não fazia muitos esforços para retomá-la. Sabia
que poderia continuá-la em outro dia. Também procurei estabelecer
conversas um pouco mais privadas, na intenção de receber
informações mais íntimas sobre a experiência
da doença. As conversas mais profundas, somente foram conduzidas
depois de terem acontecidos vários encontros, o que possibilitava
uma maior aproximação com o entrevistado e fazia com que
eles se "acostumassem" com a presença do pesquisador na Casa.
Aliás, esta era uma questão que me incomodava um pouco no
início, mas que, com o passar dos dias, foi se diluindo. Tinha muitas
dúvidas em relação ao fato de estar sendo realmente
aceito por eles. Sabia que não havia outros estudantes na Casa,
mas tinha muito medo de estar forçando alguma situação
e mesmo de estar sendo inconveniente. Talvez este medo tenha partido do
fato de ter, como objeto de pesquisa, um assunto tão difícil
de ser abordado, que trazia recordações tristes para muitos
pacientes e que eu, de certa forma, os fazia viver. Mas como já
mencionei, eles também sentiam a necessidade de falar, e isto me
confortava. Em pouco tempo eu era o "funcionário do hospital
que estuda a Casa" e sempre era apresentado pelos "novos moradores", pelos
próprios pacientes e acompanhantes que já estavam lá.
Ao longo
do trabalho procurei estabelecer um diálogo com o grupo estudado
e, embora precisasse selecionar o material coletado, espero ter a
sensibilidade para resgatar os aspectos que traduzem melhor a realidade
e o ponto de vista do grupo através das análises de suas
falas Como Malinowski (1978, p. 24) aponta, os
significados das práticas dos seres humanos não podem ser
aprendidos com facilidade, uma vez que estes significados "encontram-se
incorporados no mais evasivo de todos os materiais: o ser humano". Disto
decorre a dificuldade em transformar o material bruto em um quadro analítico.
Para que esta apreensão possa traduzir "a carne e o sangue"
do grupo, estou certo de que a interação social entre
pesquisado e pesquisador foi fundamental processo, em que levei em
consideração o respeito, a ética e a confiança,
bem como o tempo, o desejo e as possibilidades dos interlocutores. Procurei
não realizar perguntas diretas, mas estabelecer diálogos
que sinalizassem para aquilo que eu desejava obter. Também realizei
um trabalho de campo contínuo, o que me possibilitou a percepção
de regularidades e o conhecimento dos fatos etnográficos.
Falei
da importância de ter sensibilidade em relação ao grupo
pesquisado Com isto, não estou querendo dizer que o pesquisador
possa sentir como o nativo. O antropólogo é ele mesmo o tempo
todo (EVANS-PRITCHARD, 2005; GOLDMAN,
2003; PEIRANO, 1995;). O que quero dizer é
que é necessário que o pesquisador tenha a sensibilidade
que permita a ele aproximar-se do grupo; realizar o trabalho de campo,
mantendo, o tempo todo, o respeito e a ética; captando o ponto de
vista do nativo; aproximando-se e se distanciando do grupo nos momentos
exatos, sem deixar que suas crenças e práticas (do pesquisador)
influenciem o resultado, mesmo que parcial, da pesquisa. Ou seja, o pesquisador
observa, "sem jamais atingir nenhum tipo de totalização ou
síntese completa". Sei que apenas comecei a desenvolver esta sensibilidade
e acredito que as experiências de campo vão tornando o pesquisador
mais sensível, mas isto é algo que se constrói ao
longo do seus trabalhos.
Além
de escolher a observação participante e o diário
de campo como técnicas de pesquisa, também foram utilizadas
conversas informais. Com relação ao diário de campo,
reservava as folhas da esquerda do caderno para anotar fragmentos das falas
e suas sínteses e as folhas da direita para anotar minhas
impressões em relação ao campo. Procurava anotar o
máximo de informações, o que em algumas ocasiões
nem sempre era possível e talvez tenha sido traído pela minha
memória, sobretudo nas conversas mais prolongadas, uma vez que evitava
fazer anotações na frente dos pacientes e dos acompanhantes.
Dito isto, fica evidente que não foram utilizadas entrevistas formais
durante toda a pesquisa, uma vez que este tipo de entrevista poderia não
desfazer o desconforto de se falar de uma doença que remete à
morte e por se tratar de um assunto tabu, ao menos de início. Além
disto, não precisei submeter o pesquisado ao Termo de Consentimento,
exigência do CONEP- Comissão de Ética em Pesquisa -,
órgão do Ministério da Saúde. Este Termo de
Consentimento, necessário aos estudos da Biomedicina, não
apresenta relevância para os estudos antropológicos. Pelo
contrário, conforme evidencia
Cardoso de
Oliveira (2004), ele se apresenta pouco produtivo para a Antropologia.
Não foi necessária
a utilização de um Termo formal para
o consentimento da pesquisa. Antes, ela foi consentida, legitimada
e negociada por meio da confiança estabelecida em campo. Enquanto
o pesquisado da biomedicina se encontra na posição de "cobaia",
onde são testadas drogas e técnicas médicas, o pesquisado
da área das ciências humanas está na posição
de ator social, negociando sua entrada na pesquisa junto ao pesquisador.
A necessidade de falar partia, muitas vezes, dos próprios pacientes
e talvez o uso de um gravador ou mesmo a anotação sistemática
no caderno, poderia deixá-los pouco à vontade. E isto poderia
ser muito ruim para a pesquisa que acabou se tornando intenso convívio
e diálogo. Os elementos constantes dos Termos de Consentimento,
como informações sobre o projeto, a voluntariedade e o direito
de não participarem do estudo, a garantia da privacidade e do anonimato,
foram expostas oralmente e mantidas ao longo de todo o nosso estudo. Tenho
a absoluta clareza de que embora não utilizasse o Termo de Consentimento,
em momento algum a questão ética foi violada ou colocada
em segundo plano. Embora utilize, o tempo todo, o termo "pesquisado", acredito
que são mais do que isto. São pessoas que estão
me ajudando a escrever este trabalho e, principalmente, consentiram
que eu o escrevesse.
Classificações
e significados da doença e do tratamento
Os resultados
obtidos até o momento me permitem afirmar que o câncer, inominável
em um primeiro momento, é, na realidade, nomeado de muitas outras
formas por meio de metáforas. Centrando-me nas falas dos pacientes,
pude perceber que eles se referem ao câncer como sendo "aquele que
é parado"/ "o que caminha"; o "manso"/ "bravo"; o "fraco"/ "forte";
"o que não volta mais"/ "aquele que brota"; o "novo"/ "avançado";
o "bom"/ "ruim".
Em relação
ao tratamento, no que diz respeito às quimioterapias, os pacientes
estabelecem uma classificação própria de sua agressividade
e indicação, de acordo com suas cores. Assim, dizem que a
medicação de cor branca é para pacientes cuja doença
está controlada e que não oferece maiores riscos de vida.
A de cor vermelha, seria para pacientes em estado avançado da doença,
indicada para "quando não há mais nada pra fazer" e
quando já se "pode até parar o tratamento". A classificação
branco como sinônimo de pureza e vermelho como sinônimo de
perigo é encontrada em muitas culturas, sendo outro exemplo
da oposição binária.
As categorias
classificatórias da doença e do tratamento encontradas são
passíveis de serem pensadas por serem construídas pelo social
e utilizadas pelos indivíduos para expressarem suas visões
sobre a doença. Portanto, seus estudos oferecem um instrumento para
o conhecimento de uma dada realidade. Embora o indivíduo utilize
estas categorias, elas não são construções
individuais, já que são categorias existentes a partir da
multiplicidade de associações de idéias. Esta abordagem
teórica é seguida por Luiz Fernando Dias Duarte, partindo
de Durkheim, Mauss e Lévi-Strauss. Este autor centra-se, ainda,
nas teorias de Dumont sobre a ideologia do individualismo e sobre a hierarquia
como princípio estrutural, para compreender as formas de perturbação
no que diz respeito às representações sobre as doenças
dos nervos na classe operária brasileira, tomando as configurações
representacionais como forma de conhecer os fenômenos sociais. Esta
abordagem propiciou a este autor o estudo das perturbações
físico-morais, perturbações estas provocadas por irregularidades
(como as doenças, dadas suas implicações físicas
e morais), e que afetam não apenas a corporalidade do sujeito social,
mas sua vida moral. A compreensão das dinâmicas das significações
e a teoria dumontiana, também possibilitam ao autor contrapor a
lógica da racionalização e do "cientificismo" e a
pretensa universalização do modelo biomédico, que
desconsidera as representações em torno das doenças
como categorias de significação holística referente
à sua cosmologia. O estudo das representações sociais,
enquanto meio de se perceber os significados construídos sobre aquilo
que afeta a sociedade, permite ultrapassar a imediaticidade e o nível
de observações decorrentes das narrativas, favorecendo a
emergência de matrizes de significados.
Orientadora: Profa. Dra Leila Sollberguer Jeolás
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