Cena
cotidiana no agitado centro de Porto Alegre é a de mulheres indígenas,
sentadas sobre alguns panos colocados nas calçadas das ruas centrais
da cidade, com os filhos pequenos no colo. Ou então,
os maiores brincando em seu arredor. Expostas ao lado da mulher, encontramos
algumas peças de artesanato: “bichinhos
”
(pequenos zoomorfos
)
esculpidos em madeira. Em outro lado, um cestinho vazio para receber o
troquinho dos brancos que querem fazer caridade.
Em algumas
situações só há o cestinho vazio. Essas mulheres
e seus filhos apresentam-se ao olhar do branco vestindo roupas velhas e
sujas, imagem que as tornam dignas da piedade de alguns, da indiferença
de vários e da indignação de outros que identificam
a situação das mães guaranis como de marginalidade
e de exclusão social.
Devido
à postura dessas mulheres e também à aparência
com que elas e suas crianças se apresentam neste cenário,
sua prática vem sendo denominada pelos não-índios
de mendicância. Classificar o fenômeno dessa forma gera uma
série de outros problemas como, por exemplo, denúncias feitas
por não-índios aos órgãos governamentais responsáveis
por atender as questões relativas aos povos indígenas (Conselho
Tutelar, Brigada Militar, CEPI, FUNAI/ RS). Geralmente, tais denúncias
expressam a preocupação dos brancos com a possível
sujeição das crianças Mbyá a determinadas condições
insalubres e de ‘maus-tratos’, devido ao descuido das suas mães,
já que as mesmas permanecem, aparentemente, soltas pelo centro da
cidade.
Tendo
em vista que os não-índios consideram a prática das
mulheres Mbyá no centro de Porto Alegre como mendicância,
este trabalho pretendeu analisar as especificidades sócio-culturais
do grupo étnico Mbyá-Guarani, num esforço sistemático
de compreender a prática. Buscou-se demonstrar que havia muito mais
aspectos envolvidos na questão do que a simples prática de
mendicância.
Esta
prática vem sendo chamada pelos Mbyá de poraró
(pô = mão,
aró = tempo, espera) e o processo
de entender o significado de poraró foi justamente o que delineou
o caminho deste trabalho. A tradução literal do Guarani para
a língua portuguesa seria “esperar com a mão”; porém
entender esta “espera” foi um trabalho árduo, só possível
por meio do entendimento de como eles viviam antes da chegada do branco
e como isto se relaciona com sua vivência atual.
Assim,
o presente trabalho teve como objeto a ressignificação
da prática tradicional do poraró, saída de seu contexto
tradicional para uma forma de ocupação indígena no
espaço urbano de Porto Alegre. Procurou-se entender como a prática
do poraró alterou-se de relação de troca e
reciprocidade intra-étnica para uma relação de troca
interétnica, por vezes monetarizada, e como foi possível
realizar essa transição mantendo o sistema de vida guarani
(nhanderecó), e analisando as implicações desse
contato interétnico.
O trabalho
buscou a compreensão do fenômeno do deslocamento das mulheres
da etnia Mbyá guarani para o perímetro urbano bem como o
choque cultural entre os sistemas Juruá e Mbyá, utilizando
as ferramentas antropológicas e não só o olhar institucional,
de onde se origina a maioria dos discursos correntes sobre o tema.
O objetivo foi contextualizar a prática do “esperar troquinho” no
interior da atual condição de vida enfrentada pelos Mbyá-Guarani
no RS, ao identificar alguns fatores que agravam a situação
econômica das famílias Mbyá, contribuindo para o incremento
do número de mulheres praticantes do poraró no perímetro
urbano de Porto Alegre na primavera de 2004 e no verão de
2005.
Para
isso, pretende-se descrever e analisar a problemática relativa à
prática do “esperar troquinho” nas ruas centrais da cidade, analisando
a reformulação contemporânea de saberes tradicionais
da etnia Mbyá à luz das dimensões da vida social presente
propiciada pelo crescente contato interétnico. Ainda, foi objetivo
dessa pesquisa obter dados etnográficos e bibliográficos
tendo em vista o aprofundamento da informação sobre suas
ressignificações de territorialidade e organização
social, contato interétnico, e, desta forma, informar os formuladores
de políticas públicas para essa população sobre
as peculiaridades do grupo. De um ponto de vista normativo, a pesquisa
é um esforço para evitar que a visão discriminatória
- que a maior parte da população branca tem da prática
do poraró tal qual ela se apresenta hoje - não implique numa
ação excludente ou mesmo higienista por parte do estado ou
da sociedade civil organizada.
Para
entender a dinâmica sócio-espacial da ocupação
urbana do espaço central da cidade de Porto Alegre pelas índias
da etnia Mbyá-Guarani, torna-se necessário fazer, antes de
tudo, uma relativização através de breve contextualização
histórica deste mesmo espaço ocupado por elas hoje em dia.
O
“esperar troquinho” no centro
Além
de proporcionar atividade e sustento, as mulheres utilizam-se do espaço
urbano do centro de Porto Alegre também como lugar de sociabilidade,
como antes da chegada do homem branco à região. No artigo
“Presença Indígena em Porto Alegre”, Alberto Tavares Duarte
de Oliveira estuda a história de Porto Alegre diante da ocupação
dos grupos indígenas anteriormente à formação
urbana, utilizando-se de crônicas e histórias da cidade dos
séculos XIX e XX, que narram, entre outros, episódios envolvendo
os guaranis no espaço hoje considerado urbano. A chegada e
estadia do elemento civilizador branco fizeram uma parte da população
silvícola mudar a localização de suas tabas; porém,
achados arqueológicos explicam o passado indígena e
sua ocupação ancestral em diversas áreas, sendo que
o último sítio de ocupação indígena
localizado até o momento encontra-se na Praça da Alfândega,
na área central da cidade.
Desta
forma, remetendo à idéia de um passado na ocupação
do espaço central da cidade, atualmente as ruas de Porto Alegre
também se constituem em um espaço de encontros de parentes
Mbyá-Guarani que por ali transitam, tanto dos que esperam o troquinho,
quanto dos que estão de passagem para outros lugares. Nesse espaço,
encontram-se parentes e amigos de outras aldeias próximas à
capital; sendo assim, a cidade se apresenta como um lugar onde se conversa
e se atualizam as notícias sobre os familiares que moram em comunidades
diferentes.
O poraró
é uma forma de ocupar o espaço urbano e se instaura a partir
da matriz sociocultural tradicional Mbyá-Guarani, pautada por uma
alta mobilidade espacial que contribui para a manutenção
e atualização das relações de sociabilidade
estabelecidas entre os parentes Mbyá e que possibilita o filtro
através do qual se interpreta o mundo do outro – o mundo dos brancos
- e os seus diferentes caracteres – espaço urbano, bens de consumo
e dinheiro – a partir de uma lógica simbólica própria.
É importante ressaltar que tal sociabilidade também é
parte do poraró, sendo considerada uma relação
de troca espiritual dentro da cosmologia guarani e que, dentro desta lógica,
a presença de crianças justifica-se na perspectiva guarani
pelo fato destas alimentarem-se espiritualmente da mãe. Nessa perspectiva
cosmológica, nota-se também que os espaços ocupados
pelas mulheres Mbyá são circundados por praças arborizadas
que, além de servirem de abrigo do sol nos dias quentes, servem
de referência na ligação do Mbyá-Guarani com
a natureza e na troca espiritual entre indivíduo e ambiente. Estes
“espaços verdes” no centro da Capital correspondem, também,
a referências geográficas para a localização
das mulheres Guarani no espaço urbano, pois elas não conhecem
os nomes das ruas ou avenidas. Num mesmo espaço onde Juruá
se localizam por fachadas de prédios, direções de
ruas, mulheres indígenas se situam pelo “cheiro das árvores,
canto dos pássaros”.
Alguns
fatores que agravam a situação econômica das famílias
Mbyá
É
importante ressaltar o poraró como fenômeno complexo,
porque é causado e determinado por múltiplos fatores - históricos,
econômicos, sociais e culturais - que contribuem para a sua atual
e especifica configuração. O processo histórico de
contato interétnico levou a transformações na organização
social, na cultura, nos saberes tradicionais e na forma de vida Mbyá-Guarani.
As TI atualmente garantidas para os Mbyá-Guarani neste Estado,
em sua grande maioria são áreas pequenas
e não possuem terra e ambiente natural suficientes e/ou adequados
para a reprodução do modo de ser/estar tradicional.
A falta
de recursos naturais nas áreas indígenas, as precárias
condições para a caça, a coleta e o plantio tradicional
de espécies de uso alimentar, artesanal e medicinal e a dificuldade
enfrentada na confecção e venda do artesanato contribuem
para o surgimento de relações de interdependência não
sustentáveis com a sociedade regional, como por exemplo, o trabalho
de peonato
,
onde se estabelece uma relação interétnica de troca
de serviços no que concerne à lida com a terra e com os animais
em uma propriedade rural, prestados em fazendas localizadas no entorno.
Este serviço por vezes pode ser pago com dinheiro, mas também
servir de troca por alimentos ou bebida alcoólica. Neste caso, agravam
a situação de saúde destes povos indígenas.
As atividades
e estratégias empregadas no sustento econômico das famílias
Mbyá-Guarani no Estado são: a roça tradicional; a
venda de artesanato na beira das estradas ou nos centros urbanos; os benefícios
sociais disponibilizados pelo Estado para as famílias carentes (bolsa-família)
e as doações de alimentos (cesta básica) feitas por
organismos governamentais ou não; a aposentadoria dos mais velhos;
a prática de prestação de serviço (peonato)
nas lavouras existentes no entorno de algumas aldeias indígenas;
o extrativismo da samambaia-preta (TI de Varzinha, Caraá) e o recurso
proveniente da prática de esperar troquinho (“mendicância”)
realizada nas ruas centrais das grandes cidades, por mulheres com
crianças pequenas, residentes em aldeias indígenas próximas
dos grandes centros urbanos.
Podemos
antever que a prática do “esperar troquinho” nas ruas centrais do
centro de Porto Alegre está inscrita em um contexto que envolve
questões macroestruturais determinantes da qualidade de vida que
os Mbyá-Guarani hoje possuem no RS. As causas que levaram as mulheres
a fazerem o poraró no Centro são múltiplas, sendo
que a principal é a falta de terra ambientalmente adequada e demarcada
para os Mbyá viverem, trazendo conseqüentemente precárias
condições de sustentabilidade socioeconômica e cultural
para esse povo.
A
perspectiva das lideranças Mbyá
Para
as lideranças Mbyá-Guarani o poraró pode ser
visto como uma alternativa econômica. O poraró é uma
prática exclusivamente feminina e constitui-se numa atividade que
busca suprir as necessidades de consumo da família identificadas
pelas mulheres Mbyá-Guarani durante o seu cotidiano. Nesse sentido,
o poraró apresenta-se principalmente como uma forma da mulher ter
acesso ao dinheiro que lhe permitirá comprar aquilo que ela
e sua família anseia ou necessita.
Mesmo
assim, a principal preocupação familiar levantada pelas mulheres
é a da falta de alimentos nas aldeias. Também existem outras
necessidades de consumo, por exemplo: material de higiene (sabão,
xampu, sabonete, creme dental, desodorante, fraldas descartáveis),
de uso pessoal (roupas, sapatos), fumo de corda, passagens para viajar.
Afinal de contas, “hoje em dia Guarani usa tudo”.
Nas
reuniões realizadas junto com as comunidades indígenas
da Lomba do Pinheiro, Coxilha da Cruz, Itapuã e Canta
Galo, as lideranças Mbyá deixaram claro que não têm
como proibir as mulheres de irem fazer poraró no centro,
a não ser que haja outra forma de gerar renda para as mulheres dentro
da própria aldeia. Mesmo assim, a intenção não
é parar com a prática do poraró, mas melhorar
as condições em que hoje ela é realizada.Entretanto,
algumas vezes essas mulheres vão ao centro não apenas para
conseguir recurso para comprar alimentos, mas sim para comer, pois ali
elas, juntamente com suas crianças, ganham comida – bolachas recheadas,
balas, cachorro-quente, pastéis, refrigerantes, frutas - dos brancos
que passam e se compadecem. Logo, além de ser uma fonte de renda,
a prática do esperar troquinho constitui-se numa forma imediata
de resolver o problema do sentir fome.
Por outro lado, essa prática
também pode constituir-se em uma forma de ocupação
para as mulheres Mbyá que não têm o que fazer nas pequenas
aldeias em que vivem. Algumas mulheres inclusive afirmam que vão
ao Centro fazer poraró porque gostam.
A falta
de renda para suprir as necessidades identificadas pelas mulheres aumenta
quando as mesmas são separadas ou quando seus esposos não
conseguem produzir artesanato por falta de matéria-prima nas aldeias
ou quando não existe a possibilidade de prestação
de serviço como peão em propriedades existentes em torno
das comunidades. Como as comunidades-alvo deste diagnóstico
estão localizadas próximo ao espaço urbano de Porto
Alegre, essa alternativa para a produção de renda é
escassa. Por outro lado, os Guaranis também enfrentam grandes dificuldades
para a venda do seu artesanato.
As necessidades de alimentação
aumentam quando as atividades tradicionais da plantação e
do artesanato que contribuem para o sustento das famílias Mbyá
são comprometidas, por causa das atuais condições
das terras indígenas. Nem sempre os Guaranis obtêm resultado
daquilo que plantam (milho, mandioca, feijão, melancia, amendoim,
batata doce etc.), ou porque a terra não é fértil,
ou porque a invasão de animais vizinhos destrói a plantação,
como ocorreu em meados de novembro de 2004 na aldeia Anhentegüá,
na Lomba do Pinheiro. Além disso, no final do ano de 2004 e início
de 2005, o Estado do Rio Grande do Sul enfrentou uma grande seca que comprometeu
as lavouras dos Guaranis, assim como secou a taquara utilizada no artesanato.
Segundo as lideranças, essa contingência elevou o número
de mulheres que recorreram à prática do “esperar troquinho”
no centro de Porto Alegre, buscando alimentar sua família.
Para
os Mbyá-Guarani, a prática do poraró não
se confunde com mendicância, na medida em que as mulheres que “esperam
troquinho” não pedem nada, gesto que seria característico
do ato de mendigar; elas apenas esperam que algum branco de “bom coração”
possa ajudá-las, dando dinheiro, comida, roupa ou qualquer
outra coisa. Na leitura feita pelas lideranças Mbyá-Guarani
do Rio Grande do Sul sobre o poraró (esperar troquinho) desenvolvido
pelas mulheres Mbyá no centro de Porto Alegre esta prática
não se constitui em um problema, pois, em certa medida, faz
parte do seu sistema tradicional de vida, e é uma forma de dar continuidade
ao seu modo de ser/estar e de habitar o mundo, inclusive no meio urbano.
A prática
do poraró constitui-se numa forma cotidiana das famílias
se relacionarem comunitariamente. Ela é uma atividade orientada
pelos princípios da reciprocidade e o da partilha de bens, fortalecendo
os laços existentes entre os parentes, sejam eles afins e/ou consangüíneos.
As lideranças Mbyá comentam que antigamente quando uma família
encontrava uma árvore com frutas no mato, ela se apropriava da mesma
e depois chamava as demais famílias para comerem com elas. A mesma
coisa acontecia com a caça: quando alguma família tinha carne
de caça para fazer a sua refeição, as mulheres de
outras famílias poderiam pegar seus filhos e fazer uma visita à
casa daqueles que tinham capturado a caça. Sem nada pedir, respeitando
as normas de etiqueta e da boa educação segundo os padrões
Mbyá-Guarani, os visitantes esperam que os anfitriões lhe
ofereçam um pedaço da carne da caça para comerem todos
juntos. “Esse é o sistema comunitário”. Fazer poraró
é partilhar e compartilhar aquilo que se usa: seja a partilha da
comida, seja do chimarrão ou do cachimbo.
O poraró
enquanto presença constitui-se no contexto do estar junto compartilhando
as palavras, a comida, o chimarrão, o cachimbo, a companhia. De
acordo com esse ponto de vista, as lideranças Mbyá não
consideram que as mulheres Mbyá estejam ocupando um lugar errado,
mas sim que elas estão agindo conforme seu sistema tradicional.
Além do mais, este é um espaço exclusivamente feminino
e os homens têm vergonha de fazer o poraró. Atualmente
não existe mais a floresta onde eles possam buscar alimentos;
por este motivo, as mulheres vão fazer poraró no centro.
Diante desse quadro, as lideranças indígenas avaliam que
o branco, ao considerar que os Mbyá estão fora de lugar quando
fazem poraró no centro de Porto Alegre, estão sendo
preconceituosos e esclarecem: “Os brancos não podem achar ruim o
poraró, as mulheres não vão roubar, nem assaltar”
(Inácio Lopez).
Os
perigos e conflitos associados à prática do poraró
no meio urbano
Apesar
do poraró não ser considerado um problema em si, já
que é uma prática tradicional do viver dos Mbyá, as
lideranças reconhecem que o “esperar troquinho” no centro de Porto
Alegre pode trazer alguns transtornos para as famílias Mbyá
e representar alguns perigos para mulheres e crianças adeptas dessa
prática. De acordo com este ponto de vista, a visão do branco
que lê a prática do “esperar troquinho” realizada pelas mulheres
Mbyá como mendicância é negativa e preconceituosa,
ao mesmo tempo em que demonstra desconhecimento sobre o modo de ser/estar
Mbyá-Guarani. Em função desse desconhecimento muitos
brancos vão fazer reclamações e denúncias ao
Ministério Público Federal, ao Conselho Tutelar, a Fundação
Nacional do Índio e a outros órgãos governamentais
ligados aos povos indígenas, sobre uma possível situação
de maus-tratos vivida pelas crianças Mbyá.
Ora,
na perspectiva Mbyá, a criança precisa estar sempre acompanhando
a sua mãe porque não é só de comida que ela
se alimenta, mas é na presença mesmo da mãe que ela
se alimenta espiritualmente garantindo assim sua saúde. Nesse sentido,
enquanto o não-índio pensa que as mulheres Mbyá usam
as suas crianças para conseguirem mais dinheiro, sem tomar os devidos
cuidados com as mesmas e por isso expondo-as a situações
de maus-tratos, os Mbyá consideram que maus-tratos aconteceriam
se a mulher deixasse seus filhos em casa privando-os de sua presença.
Por fim, cabe ressaltar que as lideranças Mbyá entendem que
o centro de Porto Alegre também é o lugar do Guarani e que
os brancos precisam disso saber.
O
ponto de vista não-índio sobre as mulheres Mbyá no
meio urbano
No ponto
de vista do não-índio, as mulheres e crianças Guarani
ao ocuparem os espaços urbanos para “esperarem troquinho” estão
fora do seu lugar “natural”, na medida em que o lugar do índio seria
na aldeia e não no centro de Porto Alegre. Segundo esta visão
o que as mulheres Mbyá estão fazendo é mendicância
e ao se sentarem nas calçadas dessas ruas centrais esperando que
alguém lhe dê alguma “coisa”, encontram-se em uma situação
marginal e de exclusão social. Nesse sentido, o lugar ocupado pelas
mulheres Mbyá-Guarani que “esperam troquinho” no centro de Porto
Alegre não é adequado ao que se esperaria do “verdadeiro”
indígena, na medida em que o lugar do mesmo seria a aldeia.
Por
outro lado, muitas das pessoas que transitam pelas ruas centrais de Porto
Alegre, nem mesmo percebem que existem indígenas ocupando ali o
espaço. Podemos identificar três tipos de postura adotadas
pelos transeuntes das ruas centrais de Porto Alegre e que convivem com
a cena diária das mulheres Mbyá, sentadas no chão
junto a suas crianças, esperando uma “ajuda” do branco: as pessoas
que não dão importância, não olham e não
percebem a existência das mulheres indígenas; as pessoas que
dão troquinho, mas que demonstram reprovação àquela
situação; e, como dizem as mulheres, os brancos que dão
“de coração”.
Na visão
do indigenista Elomar Gerhardt, da FUNAI, o não-índio considera
a situação em que vive a mulher Guarani hoje como “desumana
e humilhante”, mas que os indígenas não vêem da mesma
forma. Segundo ele, a mulher guarani está perdendo a função
social dentro das aldeias, porque hoje não existem mais as atividades
tradicionais. Em visita à FUNAI, CEPI e Conselho Tutelar, não
foi constatada nenhuma denúncia de maus-tratos às crianças
indígenas causados pelo descuido de suas mães. Nesse sentido,
não podemos saber quantas destas denúncias se sustentam sobre
uma base empírica concreta e quantas são motivadas pelo preconceito
dos não-índios com relação às mulheres
Mbyá-Guarani que “esperam troquinho” nas ruas centrais de Porto
Alegre.
Se do
ponto de vista do guarani o centro de Porto Alegre é um lugar adequado
para se estar, e se também ali é um espaço para a
reprodução de suas instituições sócio-culturais
tradicionais, para o branco este lugar ocupado pelas mulheres e crianças
Mbyá que fazem poraró é um espaço marginal
e não-cidadão. Diante dessa constatação,
faz-se necessário transformar esse local habitado pelo Guarani em
um lugar oficial e legitimo, que acolhe e convive com a diversidade. A
partir daí poderemos pensar na construção de políticas
públicas adequadas para lidar com essa situação, sem
buscarmos a retirada dos Guaranis do centro, no estilo de limpeza étnica
de Porto Alegre; e sem empreendermos um processo de domesticação
destas mulheres indígenas que, na visão do não-índio,
só poderiam habitar o meio urbano de Porto Alegre segundo a sua
forma de ser, de estar e de agir, conforme um modo padronizado, disciplinado,
homogêneo, limpo e correto. Afinal, como dizem as lideranças
Mbyá: “O guarani tem direito de estar no Centro de Porto Alegre.
E tem direito de estar como ele está. Porto Alegre tem que ter orgulho
de ter o guarani Mbyá!”
Considerações
finais: Esperar troquinho, problema social branco?
Quando
o Brasil foi descoberto, 5 milhões de índios viviam onde
hoje sobrevivem 329 mil, numa área que representa menos de 12 %
do território nacional, segundo números oficiais. A expectativa
de vida destes povos não é nada boa. Nos últimos três
anos, caiu em 11%. Os motivos: as péssimas condições
de vida, sobretudo o acesso aos serviços de saúde e o contato
com doenças urbanas. Diante desse contexto indígena histórico
e o exposto neste trabalho desde sua introdução, nas considerações
finais refletimos sobre a atual situação dos indígenas
Mbyá. A sociedade, não levando em conta seu passado e suas
especificidades sócio-culturais, os estigmatiza e segrega por sua
condição étnica e econômica. Introjetando o
preconceito, surge o sentimento de vergonha pela prática tradicional
do poraró, criando situações de constrangimento para
a população de mulheres que freqüentam o centro da cidade
de Porto Alegre.
Cabe
pontuar que pela noção de pessoa, vigente no Estatuto
da Criança e do Adolescente tanto a criança quanto o adolescente
enquanto pessoa em desenvolvimento, assim como a noção de
família natural ali presente, não condiz nem com as bases
empíricas da organização social e do sistema de parentesco
Mbyá-Guarani
- que está baseada na família extensa - e nem com a compreensão
e com os mecanismos de fabricação de corpos e de produção
de pessoas presentes nesta sociedade indígena
. Sendo assim, para que este Estatuto possa ser aplicado aos povos indígenas,
ele deve ser pautado pelo conhecimento profundo sobre a organização
e a estrutura social destes povos, bem como deve ser discutido de forma
participativa com as lideranças indígenas.
O desconhecimento
sobre estes contextos apresentados é refletido na falta de capacidade
das instituições de apoio ao índio em lidar
com situações de diferenças interétnicas e
ainda, no caso do poraró, inter-gênero. Devemos evitar a visão
romanceada do índio, que vem freqüentemente à tona nas
análises sociais, quando as culturas tradicionais são comparadas
às modernas.
Foi
apontada a marcante diferença cultural para com os indígenas,
resultando na concepção de um espaço na cidade bem
demarcado: fora do espaço urbano, apontando para o espaço
central da cidade, como um local que não lhes pertencesse. Na concepção
Juruá, quando o índio sai da aldeia, causa confusão
e passa a constituir um problema para a sociedade, transparecendo que a
presença destes na cidade é impossível. Dentro desta
concepção, o meio urbano é o local da civilização,
oposto à “selva”, local do índio. Entretanto, considerando
as especificidades sócio-culturais do grupo étnico Mbyá-Guarani
no contexto do poraró, podemos afirmar que, apesar dos não-índios
considerarem a prática das mulheres Mbyá no Centro de Porto
Alegre como mendicância, os Mbyá-Guarani não interpretam
tal prática da mesma forma.
Consideramos
que um dos aspectos por trás dessa falta de identificação
do índio com o espaço urbano é uma lógica de
mercado. Nesta lógica, tanto as crianças e adolescentes que
vivem nas ruas, os mendigos, assim como os índios, não obtendo
poder de compra, devem ser segregados, e,portanto, não possuem o
direito de circular nestes espaços. Para a sociedade não-índia,
índios são disfuncionais, sua cosmologia, sistema de viver,
sua cultura, são vazios de significado: inúteis, fora do
campo da história e da arte. O atual sistema ocidental processa
a disfuncionalidade como imoralidade, onde disfuncionalidade é loucura
e portanto patológica. Ou seja, se o indivíduo não
funciona direito ou não consome, está fora do mercado
- e por isso deve ser retirado do sistema.
Cabe
dizer que a própria metodologia participativa desta pesquisa constituiu
um método privilegiado para o entendimento do universo Mbyá.
Por meio desta metodologia, foi possível conceber uma pesquisa que
não apenas informa a comunidade científica, como expõe
aos tomadores de decisões políticas alguns dos caminhos possíveis
para uma política pública compreensiva e respeitadora da
cultura guarani. Dentro dessa visão, algumas ações
podem ser desenvolvidas no sentido de reduzir a reprodução
de preconceitos e estigmas por parte da população não-índia,
assim como legitimar as diferentes formas de ocupação de
espaços e expressão de cultura tradicional indígena
dentro de um contexto de constante fricção interétnica.
Nesse
sentido, como foi apontado pela própria comunidade Mbyá,
torna-se necessário “educar o branco” para entender a cultura indígena,
e assim respeitar as diferenças na forma de compreender o homem
e o universo.
Notas
Utilizar-me-ei
neste trabalho da categoria êmica Mbyá-Guarani “bichinho”
para definir as esculturas de animais em madeira entalhada e pirografada.
Vixú
rangá, literalmente “imagem de animal” em madeira esculpida
e pirografada, são esculturas figurativas zoomorfas representando
animais (mamíferos, répteis, peixes, aves etc.) relacionados
diretamente a um horizonte ecológico-cultural de florestas tropicais
e subtropicais, tradicionalmente ocupado e vivenciado pelos (proto) guarani,
veiculando imagens de uma ecologia simbólica.
TI
da Lomba do Pinheiro: 10 ha; TI de Capivari do Sul: 47 ha; TI de Canta
Galo: 48ha; TI da Coxilha da Cruz: 230 ha.
Em
uma apresentação esquemática da organização
social que veio a prevalecer na América Latina, como resultado da
colonização hispânica, cabe destacar dois traços
predominantes: a) existência de um setor urbano, através do
qual se exerce o poder, o qual, o qual, na fase colonial, tinha seus centros
de decisão superiores nas respectivas metrópoles eu européias;
e b) adjudicação dos fatores de produção –
terra e mão de obra indígena, onde esta existia – a uma classe
de senhores ligados ao poder central por vínculos de lealdade pessoal”
(FURTADO, 1973: 92).
Sobre
o sistema de parentesco Mbyá-Guarani, Ver Soares, A.R.S. 1997; Schaden,
E. 1974.
Sobre
a importância do processo de fabricação de corpos e
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