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Maria Lúcia
Montes
Nesse
meio tempo, fui dar aulas durante um semestre nos Estados Unidos, no Tennessee.
No East Tennessee. Há uma grande universidade no oeste do
Tennessee, a Vanderbilt, mas eu estava no leste do Estado, entre a Carolina
do Norte e West Virgínia. O lugar era tão perdido no mundo,
que só se chegava lá por um aeroporto que se chamava Three
Cities, porque servia a três cidades: Johnson City, Kingsport
e Bristol, no Tennessee e na Virginia. Foi por lá, na Virginia,
que vi o lugar onde nasceu a música country, num galpão com
gente dançando aquela dança de “quadrilha”, aqueles sujeitos
de macacão de brim com peitoril e camisa xadrez, que a gente vê
nos filmes. Por outro lado, no Tennessee, tinha o pessoal daquelas montanhas
dos Apalaches. Eu estava num lugar, Johnson City, que fazia parte do Bible
Belt, o cinturão da Bíblia: o “cinturão da Bíblia”:
são as cidades mais conservadoras do Sul, que deram, depois, sustentação
para o [o presidente George] Bush. Naquela época, aquilo era uma
coisa, digamos, mais de ordem religiosa, como uma cosmologia, ou
uma visão de mundo meio peculiar, mas não era assim tão
politicamente reacionária como acabou se mostrando depois. Apesar
de que isso a gente diz "em termos", não é? Por exemplo:
tinha o problema de como você vai ensinar a Teoria da Evolução.
Darwin não podia entrar na escola: a regra era a teoria criacionista.
O pessoal das montanhas era todo tão religioso que havia, como parte
da etnografia ou do folclore da região, os snake handlers,
manipuladores de serpentes, gente que segurava cascavel na mão para
mostrar como não tinha medo dos falsos profetas que, segundo a Bíblia,
eram como aquelas cobras. [...] Do lado da Carolina do Norte, tinha
uma reserva Cherokee, que eu gostava de visitar nos fins de semana. Tudo
isso para mostrar em que lugar dos Estados Unidos eu tinha ido parar. E,
naquela época, eu estava lá para dar um curso de pós-graduação
que era a coisa mais louca do mundo, porque era para dois departamentos
da Universidade Estadual do East Tennessee, Ciência Política
e História. Em suma, o curso era Deus e sua obra, porque tentava
explicar o Brasil – sua história, cultura e política – num
lugar onde, obviamente, ninguém tinha a menor idéia
do que fosse Brasil, nem nenhuma noção portuguesa.
Tinha que inventar, que achar tradução para tentar montar
uma bibliografia para os alunos. Como era tudo muito impossível,
"produzi" um mini-festival de cinema, com a exibição de uma
série de filmes brasileiros. Peguei o que achei em Nova Iorque e
montei um curso em cima de filmes. Tinha de tudo, desde Iracema
(a problemática amazônica da prostituição),
aquele do Glauber [Rocha] do político populista, Terra em transe,
um documentário da Beija-Flor que mostrava como era a preparação
do Carnaval (o enredo era sobre religiões afro), com os figurantes
da escola indo aos lugares sagrados da natureza que caracterizam os Orixás;
até um outro documentário propriamente dito sobre Candomblé,
que tinha a feitura e todo o resto dos ritos de uma “saída de iaô”.
Passava ainda por outro documentário, do Fernando Henrique Cardoso,
numa palestra daqueles ciclos do CLACSO,
discutindo o modelo econômico) para chegar enfim em Chica
da Silva... Chica da Silva foi o escândalo dos escândalos:
quase parei a cidade moralista, que não parava de comentar o filme...
Organizei todo o programa ordenando a exibição desses filmes
para mostrar diferentes aspectos da sociedade, do poder e da cultura no
Brasil. Acabei o curso, na avaliação final, pedindo aos alunos
que comentassem um texto de Os donos do poder, do [Raymundo]
Faoro, mostrando como é que a história cria estruturas
socioeconômicas, políticas e culturais que vão determinar
certo perfil da problemática política de um país.
E a minha outra questão, que dizia respeito à cultura, era
uma paráfrase do Lévi-Strauss dizendo que você, confrontado
com outra cultura, vai fazer um esforço para conhecê-la, mas,
sobretudo, você vai perder sua inocência, nunca mais
vai poder pensar sua própria cultura como se ela fosse a única.
Então, acabei o curso com essas duas questões. Por um lado,
o Estado patrimonial-burocrático, que respondia à problemática
da política e da história e, por outro, com relação
à problemática da cultura, a pergunta final colocada para
os alunos: “o que vocês aprenderam neste curso, não sobre
o Brasil, mas sobre vocês mesmos?”
A atuação no Departamento
de Antropologia e a pesquisa de campo na Escola de Samba Beija-Flor, de
Nilópolis
:
Como você foi para o Departamento de Antropologia?
Maria
Lúcia Montes: Aí voltei e era a época em que estavam
dividindo o departamento de Ciências Sociais. Nessa época,
a Eunice tinha sido chamada de volta para a Antropologia porque era decana
do departamento. Se ela não voltasse, teria só o João
Batista [Borges de Oliveira]. [...] Enfim, a Eunice ficou na chefia do
departamento com a tarefa de fazer a divisão. O curso era de Ciências
Sociais. Você tinha as áreas, que tinham autonomia para decidir
o que fazer. A Ciência política era, inclusive, a mais aberta
de todas, porque era a que justamente fazia esse diálogo com a História,
a Filosofia, a Antropologia etc. Depois, na medida em que a Eunice
e a Ruth voltaram lá para as suas áreas respectivas, ainda
o departamento continuou durante um bom tempo sendo um foco importante
de discussão; até porque, na fundação do PT,
algumas das pessoas cruciais que estavam na fundação do PT,
tipo Weffort, davam aula lá. [...] O Luis Augusto que era outro
que também estava lá nas fundações do PT; o
José Álvaro Moisés. [...]. Mas, enfim, no meio dessa
história dividiram-se os departamentos, que viraram departamentos
mesmo, autônomos, e eu continuei lá na Ciência Política.
Teve uma época lá em que começamos a recompor os departamentos,
precisamos contratar gente, e tinha um racha interno na Antropologia. A
gente vai chamar gente de etnologia, vai chamar gente de área urbana...
A proposta é: vamos chamar alguém que seja aceito unanimemente
e que não onere o departamento em termos de vaga. Vamos chamar a
Maria Lucia para vir para a Antropologia. [...] O que eu conhecia realmente
bem era a problemática urbana. A etnologia sempre foi aquela coisa
fascinante, mas não era pra mim. Tinha outra coisa: no fundo, o
fato de você só perceber o que você sabe quando você
precisa explicar para alguém. Dar aulas, para mim, era o desafio
de organizar o que eu sabia. A única coisa que me ensinaram direito
na vida foi Filosofia. O resto, tive que aprender para ensinar. O foco
antropológico, que estava desde o tempo da Filosofia, é a
única área em que não tenho um só diploma para
dizer que estudei isto. Que é o mais perene. Quando me “ameaçaram”
que tinha que fazer uma livre-docência no departamento em que estava,
aí não deu. Até posso ser chamada de “walking interdisciplinarity”,
mas ter um bacharelado em Filosofia, um mestrado em Sociologia, um doutorado
em Ciência Política e uma livre-docência em Antropologia,
não dá! (...) Então, deixe eu me aposentar antes que
vocês me obriguem a fazer uma livre-docência.
O [curriculum] Lattes sempre foi
o meu terror, porque era impreenchível. A vida inteira trabalhei
feito um cão, mas nunca nada do que fazia cabia no Lattes. Era inteiramente
inadequada. Depois, pensando bem, não podia nem reclamar da universidade.
Se alguém tinha que reclamar era a universidade de mim. Nunca fiz
nada do jeito que devia na universidade. Não era nem que não
quisesse, mas tinha outras coisas, mais importantes, para fazer. Vou participar
de um congresso em prol da minha carreira científica? Não.
Vou para Rondônia fazer um seminário sobre educação.
Isso pra mim sempre foi dez vezes mais importante do que participar do
seminário que vai contar ponto na carreira. Então, a universidade
tinha direito de reclamar de mim, mas eu não tinha direito de reclamar
da universidade. A única coisa que me salvou na universidade o tempo
inteiro, é que eu era boa professora e gostava de dar aulas. Se
estou lá é para abrir caminhos para meus alunos. (...) A
quantidade de gente que foi meu aluno no curso de graduação
e depois foi fazer pós-graduação nas mais diferentes
áreas, e todo mundo acabava vindo para a minha sala para discutir
teses, trabalhos, etc. A brincadeira da Sylvia [Cayubi Novaes] era: “hoje
pode parar; ela já acabou de distribuir senha!” A vida inteira tive
esse compromisso com os alunos, de deixar claro pra eles qual era a pergunta
deles.
A hora em que estava conscientemente
fazendo uma pesquisa com uma perspectiva antropológica foram os
cinco anos em que trabalhei sobre a Beija-Flor, o Joãozinho Trinta.
O resultado deste trabalho com a Beija-Flor foi meu primeiro "passeio"
por um museu na vida: quando fiz a mega exposição no MAC
da USP. (...) Por que o João Trinta, especificamente? 1989: “Ratos
e urubus, larguem minha fantasia”. Inclusive escrevi sobre isso.
Sim, um artigo na Revista da USP .
Maria
Lúcia Montes: Exatamente. Nesse artigo conto essa história
fundamental. De repente me dou conta de que, pela televisão, num
espetáculo de massa, esse homem era capaz de falar sobre o Brasil
de um jeito que nenhum de nós, cientistas sociais, seria capaz de
fazer. Humildemente compreendi a lição e voltei para os meus
velhos mestres, todos estes que já tinha encontrado a vida inteira,
ao longo de todos os caminhos por onde tinha andado. Tinha uma coisa que
também fazia sistematicamente enquanto era professora e dava aula:
nunca dei aula de teoria sem as pessoas saberem para o que servia a teoria.
O aluno tinha que ter experiência de campo, antes de tudo. A gente
programava, qualquer que fosse o curso de teoria que a gente estivesse
dando, na introdução, nas teorias clássicas ou na
teoria moderna, em algum lugar, tínhamos que preparar os grupos
para irem a campo. A teoria era um instrumento para responder as perguntas
(que o campo produzia).
[...]
Tive que voltar para isso tudo, refletindo com mais profundidade sobre
a significação desses processos culturais, por causa do choque
do João. [...] Como trabalhava basicamente no barracão, o
que via sem parar lá dentro era disputa de poder. Acabei tendo uma
espécie de “curso selvagem” de antropologia política por
conta de um homem que virou meu amigo para o resto da vida, que é
um grande fotógrafo, o aderecista da Beija-Flor, Valtemir Vale.
Era a coisa mais profundamente antropológica e contemporânea.
Antes de se falar da “rebelião do objeto” - tema de um seminário
feito posteriormente - já estava vivendo isso como experiência.
Enquanto eu trabalhava lá dentro do barracão, registrando
essa disputa de poder e o resto, o Valtemir, à sua maneira, também
estava fazendo a sua antropologia como fotógrafo, registrando
todo mundo. Então, eu era personagem da história dele e ele
era personagem da minha história. Quando vi o material fotográfico,
enlouqueci. Aí fui trabalhar ordenando imagens. Fui reconstituindo
a lógica dos processos de trabalho internos do barracão.
É o pedaço que você nunca vê; você só
vê o desfile. Daí você vê o que é o outro
lado, que é a lógica do trabalho, e em cima disso os conflitos
e as disputas. Então, por causa do Valtemir, acabei fazendo essa
exposição que era, assim, inteiramente antropológica,
por um lado, e inteiramente não antropológica por outro,
porque se eu tivesse que pensar em termos de antropologia visual tinha
que estar mexendo com outras questões, como a especificidade do
suporte - a fotografia. Fiz questão de passar por cima disso e não
tratar essa exposição como uma exposição de
fotografia, segundo a idéia da imagem sintética que diz tudo.
Eu disse: ou eu mostro os processos ou não mostro nada. Ficou a
exposição do “over do over” e, obviamente, nem sempre com
a qualidade técnica da fotografia que se esperaria. (...) Nós
trabalhamos seis meses juntos. Num certo sentido, minha ordenação
era um momento de reflexão para ele. Era tratar esta vastíssima
documentação visual exatamente como documentação.
(...) Se tivesse que pegar a boa fotografia, como mandam os cânones
da fotografia, por um lado, e até mesmo da antropologia visual,
estaria falhando (...). Se pegasse uma série de dez fotos mostrando
um processo de trabalho, poderia haver quatro que estivessem ruins como
qualidade, ou até oito que estivessem ruins como qualidade; agora,
aquelas duas que estavam esplendorosas tinham um contexto, portanto as
outras tinham que entrar. Essa decisão foi minha e contra a academia.
(...) Depois, o arquiteto do MAC, o Gabriel Borba, teve a intuição
genial de organizar aquele material de um jeito lindíssimo, porque
ele fez uma catedral: (...) a nave central com os nichos nas laterais,
que seriam as capelas, representando cada uma das áreas do processo
de trabalho. Lá no fundo, o João dormindo dentro de uma alegoria.
E era um navio, né? A própria nave dos loucos! Daí
a epígrafe da exposição: “Um homem sonha e mãos
que trabalham recriam o universo”. Porque era disso que se tratava: o doido
fica inventando aquelas loucuras e daí você precisa daquele
exército de “gentes” para concretizar. (...) Se bem que, no barracão,
hoje, está tudo terceirizado. O trabalho da confecção
das fantasias, bordados, às vezes tem até gente da própria
comunidade que faz, mas dificilmente está no barracão. No
barracão é o trabalho pesado de construção
das alegorias. Quando o João saiu da Beija-Flor, no ano seguinte
foi a Maria Augusta. Cheguei lá para ver o que era a Beija-Flor
sem o João. O João já tinha passado para a categoria
do mito. Ele dava uma liberdade de criação para o pessoal
que trabalhava em cada setor... e você tinha que reunir tudo isso.
A unidade de produção era o carro. Mas, aí você
tem os ferreiros, você tem a carpintaria... Na verdade, a criação
acabava tendo uma característica coletiva. Tinha um comando, uma
hierarquia. Por exemplo: Alice no país das maravilhas. O João
dizia: “Quero um carro inteirinho revestido de espelhos”. Aí ia
lá para o cara do vidro. O cara dizia: “João, desse jeito
que você está falando, com esses painéis grandes não
vai dar”. “Não, mas quero assim!” “Tá, vou te mostrar.” Aí
ele fazia quatro maquetes e mostrava para o João: “Tá vendo
como isto aqui não funciona?” “É verdade, faz.” Tinha um
menino, que era novinho de tudo, e o Abre-Ala era sempre dele. Tinha o
tema, mas como aquilo virava escultura, adereço? Era o João
Sorriso que fazia. Tinha um cara que era um santeiro tradicional nordestino,
que fazia as esculturas de isopor. Aí chego eu lá, no tempo
da Maria Augusta, no ano seguinte, e pergunto como estava o trabalho no
barracão. Todo mundo revoltado: “Ela fica lá em cima [....]
e manda esses caras com o metro medirem o serviço da gente, aqui;
no tempo de João Trinta não era assim”. No “tempo” de João
Trinta era o ano anterior, mas já tinha passado para o tempo do
mito. (...) E os comentários todos que eram feitos nesse meio tempo
(enquanto eu e o Valtemir estávamos organizando a exposição).
Aprendi muitas coisas sobre o Rio de Janeiro, por exemplo, o envolvimento
do tráfico nas escolas de samba, ou em que momento o tráfico
ganha uma autonomia para tomar conta deste mundo da escola de samba, que
está ligado diretamente ao fim do período militar. (...)
Na verdade, não era só entender a escola de samba e o processo
de produção, mas entender como a lógica da cidade
se processa no interior da escola de samba. O resultado disso não
foi uma tese de livre-docência, mas foi uma exposição.
A
atuação nas Secretarias da Cultura e da Educação
:
Qual a relação entre a Antropologia e seu trabalho mais contemporâneo
nas Secretarias estaduais e municipais da Cultura e da Educação?
Comente sua atuação nos “CEUs”, por exemplo.
Maria
Lúcia Montes Essa exposição estava acontecendo
ainda e, ao mesmo tempo, na Pinacoteca, o Emanuel [Araújo] estava
fazendo uma exposição sobre o carnaval. Lá fui eu
na Pinacoteca ver a exposição do carnaval do Emanuel. A Ana
Mae [Barbosa], então, sugeriu que a gente fizesse um debate em torno
da produção do carnaval e chamasse o Emanuel. Aí o
Emanuel me chamou para dar uma olhada em um projeto lá na Pinacoteca.
Isso foi no meio da exposição do Rodin, no momento em que
a Pinacoteca estava começando a se reerguer; e o projeto chamava-se
“Negro de corpo e alma”, que a gente demorou sete anos para fazer. Eram
três olhares: olhar o corpo, olhar a si mesmo e sentir a alma. Bom,
mas com que acervo a gente vai trabalhar? O Emanuel disse, “tenho muita
coisa na minha casa”. Ia levando as coisas dele para a Pinacoteca. A gente
ia pegando aquele material, classificando e organizando a reflexão.
No meio disso tudo, veio a tal estória
da aposentadoria. Ia mudar a lei da aposentadoria. (...) Fui pedir a contagem
de tempo e disseram que eu tinha trabalhado 9800 e tantos dias na universidade.
Quase dez mil dias da minha vida fiz a mesma coisa! Isso dava 33 anos de
trabalho na universidade. Já tinha três anos a mais para me
aposentar. (...) A coisa maravilhosa do Emanuel é que esse homem
nunca pensou pequeno. Olhava aquele museu que não era nada e viu
o que poderia ser. Isso foi em 95. Acabei o curso que estava dando na pós,
saiu a bendita aposentadoria e fui para a Pinacoteca. Fiquei dez anos lá.
:
Você elaborou o documento base e também o relatório
final sobre a discussão para a implantação do Museu
Nacional da Cultura Afro-Brasileira. Como um Museu Nacional, com sede na
cidade de Salvador, pode evitar o risco da “regionalização”
e refletir de maneira equilibrada a diversidade da experiência africana
em todo o território brasileiro?
Maria
Lúcia Montes: O [Francisco] Weffort pediu especialmente para
o Emanuel que fizesse o projeto do museu. (...) “Quem faz isso é
professor da USP”, ele disse. O Weffort ligou para mim. (...) Eu e a Maria
Ignez [Mantovani Franco] ficamos três meses conversando com o
Emanuel todos os dias. Pegamos a idéia do que deveria ser este museu:
uma parte dele é museu de História, uma parte é museu
de Etnologia e outra parte é museu de Arte. Escrevi isso para o
Weffort, a pedido do ministério. Daí a gente organizou um
seminário. A idéia era chamar gente de museu que tivesse
acervo, gente de universidade que tivesse pesquisa, algumas áreas
importantes de liderança política (mas menos nesse momento,
porque senão não daria para discutir conceitos), submeter
o “paper” à apreciação das pessoas, registrar essa
discussão, sistematizar os resultados, ver os pontos fechados, os
que ainda eram controversos, os que exigiam desenvolvimento maior. Escrevi,
assim, cento e tantas páginas de análise disso tudo, além
de ter feito o paper. A idéia era devolver isso tudo para essas
pessoas e, num segundo seminário, ampliar. Você chamaria,
ao mesmo tempo, gente de fora do Brasil, que já tem experiência
de estar montando esse tipo de museu, e as lideranças políticas
locais significativas. Isso tudo para escapar da baianidade, porque a gente
sabia que se deixássemos aquilo ficar entre baianos - “o meu negro
é mais negro que o seu”. Dentro da Bahia, “o meu enfoque do negro
é mais importante do que o seu”. (...) Toda essa estratégia
foi pensada com o Emanuel. A Maria Ignez foi quem organizou o seminário.
Havia a proposta de se fazer o segundo, mas aí mudou o governo e
se perdeu a verba. O museu foi engolfado pela situação baiana
e está lá para ser produzido até hoje.
:
Você coordenou o núcleo de pesquisas do Museu Afro Brasil,
criado em novembro de 2004 e localizado no Parque do Ibirapuera. Houve
participação da comunidade afro-brasileira na definição
das linhas de pesquisa do Museu? E na definição das ações
educativas?
Maria Lúcia Montes:
O problema é que quando começou o projeto do museu Afro,
a gente nem sabia se ia sair. Quem negociou esse museu com a Prefeitura,
esse espaço, esse conceito de museu, foi a Maria Ignez Mantovani.
Ao mesmo tempo, precisava-se de gente para estar discutindo o que poderia
ser esse museu. Claro que eu tinha que estar lá no meio, porque
desde o começo estava nessa brincadeira, e falei para o Emanuel
que se ele quisesse gente eu tinha um bando para levar. (...) A Ana [Lucia
Lopes] ficou cuidando do núcleo de educação, eu fiquei
com o núcleo de pesquisa, o Vagner [Gonçalves da Silva] estava
lá, o marido da Ana estava lá, que é professor de
escola secundária, tinha uma historiadora da PUC, a Maria Antonieta
Antonasi, muita gente pensando junto o que seria um programa de implantação
de um museu. Logo em seguida à inauguração do museu,
o Emanuel foi para a Secretaria. (...)

Maria Lúcia Montes:
Nesse meio tempo, o Emanuel saiu da Pinacoteca e tinha o DOPS para ser
transformado em museu:o Museu do Imaginário. [...] Precisava ter
um antropólogo. Sugeri que chamassem o José Guilherme, porque
era fundamental que tivesse alguém pensando a cidade. Foi a primeira
vez que o Zé Guilherme foi trabalhar nessa área de museus:
trabalhou com a Maria Ignez e o Emanuel. Depois, quando foi a organização
da Expedição, ele era absolutamente imprescindível
porque tinha a experiência da outra expedição. Quem
pensou na idéia da expedição foi a Maria Ignez, que
fez um levantamento do que havia sido feito na Secretaria Municipal de
Cultura. A coisa que mais deu certo foi a idéia da expedição.
E da primeira, o Zé Guilherme participou e ajudou a organizar. Então,
também ajudou a Maria Ignez a organizar o projeto da (segunda) expedição
e, depois, foi um dos coordenadores de um dos núcleos, junto com
ela. E no outro núcleo ficaram a Cristina Bruno e o Julio Abe, que
era onde eu estava.
:
As exposições nos CEU’s permitiram pensar a cidade de São
Paulo através de uma perspectiva interdisciplinar, não?
Maria
Lúcia Montes: A gente também ajudou a organizar a Expedição,
na medida em que a gente incorporou no roteiro tudo o que a tinha aprendido
sobre essa cidade fazendo o trabalho dos CEUs. Foi um ano e meio de intenso
trabalho e aí escrevi as 21 exposições dos CEUs. Havia
uma ordem de inauguração dessas exposições
que, de repente, mudava. Você tinha acabado de fazer os 20 painéis
para a exposição de Sapopemba e, de repente, ia inaugurar
a de Perus! Mas não estava pronto, né? No máximo,
o pessoal estava acabando o campo. Daí tinha que analisar o campo,
pegar o material, processar o material, produzir os painéis, produzir
a exposição, de vez em quando com um mês de antecedência.
Mas foi dos trabalhos mais interessantes e importantes que fiz.
[...] Havia dois vetores orientando
o olhar geral da gente. A coisa fundamental é a cidade. Como esses
bairros dialogam com a cidade, a relação entre centro e periferia,
com um evento catalisador que era o aniversário da cidade. A idéia
era: “Meu bairro, minha cidade; você também faz parte dessa
história”. Esse era o compromisso que a gente tinha em termos de
educação, além do compromisso político de tentar
localizar formas e expressões locais sobre como as pessoas se sentiam
na cidade, como viam a cidade. O foco era sempre local e fazia parte do
trabalho da gente mostrar o vínculo dessa história local
com a história mais ampla. Tudo começava com o título
da exposição. A perspectiva da inclusão e do pertencimento
era uma diretriz educacional e política. Tinha que localizar quem
eram eles, a identidade deles, mas basicamente mostrar que, o que quer
que fosse a experiência local, essa experiência fazia parte
de uma coisa mais ampla que era a cidade. Cidade e cidadania.
A lógica geral é que
ficou bonita. Quando foi preciso fazer a pesquisa, chamei gente ótima,
meus ex-alunos, que já tinham feito pesquisa comigo para outras
coisas. Incluiu, por exemplo, o Renato Sztutman, etnólogo puro,
estudioso de xamanismo e poder lá na amazônia. Tinha muita
gente que não tinha essa experiência que vocês no NAU
têm, assim, de sobra. Mas era esse pessoal que estava acostumado
a trabalhar em pesquisa comigo. Sentamos eu e a Ana Lucia Lopes, que é
antropóloga e pedagoga, e a Betania. Essa moça, a Ana Lucia,
hoje coordena o trabalho de educação do Museu Afro. Foi pedagoga
a vida inteira, fez o mestrado de antropologia comigo, estudando a escola,
e fez um doutorado com a Eunice, estudando o negro e a universidade. Nesse
caso, era para a gente pensar a interface entre identidade, pertencimento,
cidade, lógica do urbano e como isso podia ser trabalhado pela escola,
porque essa coisa tinha uma continuidade política. A gente sentou
e pensou longamente, traçamos um conjunto de questões que
imaginamos fossem aparecer. (...) Precisávamos pensar uma outra
história mais ampla e mais longa, que faz parte da cidade.
Você não pode pensar nada da Zona Leste, por exemplo, sem
se referir a São Miguel. São referências mais antigas,
que localizam. Não dá para pensar a Zona Sul sem estar pensando
a história de Santo Amaro. Tinha essas “retrancas” que ancoravam
esses bairros mais novos da periferia numa história mais ampla.
Então, localizávamos onde começa a história
do lugar onde ele mora. Agora, sobre o bairro, você ia conversar
com os mais velhos. Aí você tinha uma memória. Todos
contaram para nós, com variações, a mesma história
épica: a apropriação da natureza e sua transformação
em cultura. Chegam a um lugar que é nada: barro puro, loteamento
clandestino. Mesmo quando é loteamento planejado, como Cidade Dutra,
está no fim do mundo, não tem água, esgoto, ônibus.
A primeira grande conquista é a linha de ônibus, porque é
o que lhes permite morar lá e ir trabalhar. O primeiro armazém
que abriu... Então, você vai pegando aquele conjunto de referências
dessa história heróica dos primeiros tempos na lembrança
dos velhos. E vem o acervo junto, porque tinham fotografias. Já
tinha com que montar meu material. Então, precisávamos mostrar
a passagem entre essa história heróica e o que é o
bairro hoje: aproveitamos a idéia do “pedaço”. Era para mostrar
que tinham referências patrimoniais tão importantes quanto
as referências da cidade: o primeiro Bradesco que foi para lá,
por exemplo, a igreja que todo mundo conhece. Se fosse Santo Amaro, todo
mundo sabe onde fica o Borba Gato, onde fica tal igreja. Quem é
do “pedaço”, sabe. Então, tinha um painel que se chamava
quem é de fora e quem é do “pedaço”. Era uma maneira
de estar mostrando as referências patrimoniais deles como sendo tão
importantes quanto o Teatro Municipal, o MASP, etc. E a história
começou a se repetir.
Tinha
o tom em que os problemas eram contados: era sempre um desafio. Eu brincava:
agora que eles ensinaram que é assim que tem que ser, a gente tem
que procurar a problemática e a “solucionática”, porque eles
nunca falam da problemática sem contar ao mesmo tempo, heroicamente,
como foi a organização, a luta, pela qual a “solucionática”
foi encontrada. Eles nos deram a base: desafios são para serem vencidos.
Aprendi a amar essa cidade. Você conversava com esse pessoal mais
antigo, o presidente da associação de moradores, os que lideraram
a luta para transformar isso em cidade, e eles contando por onde passavam
os problemas. As diferentes formas de participação, de organização,
pelas quais eles eram incorporados à cidade. Em todos os bairros,
sem exceção, os dois principais problemas mais assustadores
do momento: o desemprego e a violência. A droga. Entre a “solucionática”,
espantosamente, a cultura como um valor: qualquer organização
que seja capaz de criar algum tipo de atividade para tirar os meninos da
rua. Deixou na rua é certeza que vai para a droga e para o crime.
Daí, descobri uma coisa muito interessante, que é a multifuncionalidade
das instituições: participar de programas de governo, tipo
distribuição de cesta básica, leite, centralizar o
repasse dessas funções do governo, até a produção
de atividades específicas voltadas para tirar as crianças
da rua. E aí, a cultura é um bem absolutamente crucial, sob
qualquer forma que seja, por exemplo, o samba de raiz, que tem lá
em São Mateus. (...) A gente descobriu (...) em Perus uma escola
de samba que não apenas era escola de samba, mas fazia distribuição
de leite, de cesta básica, tinha programas especiais para os idosos
e uma escolinha para cuidar de crianças deficientes, com Síndrome
de Down. Sem recurso nenhum, mas não dava para deixar essas crianças.
(...) Uma capacidade de iniciativa dessa sociedade civil para resolver
os seus problemas. Você tem ONGs organizadas de longa data ou mesmo
instituições educacionais que têm um trabalho imenso
na área. Tipo uma escola, liderada pelos padres, que era uma escola
normal e que, de repente, virou multiprofissionalizante. Ensinam desde
cultivar uma horta até oficina de marchetaria. (...)
Voltando
à produção dos painéis, com o primeiro piloto
que a gente fez ficou claro que havia essa lógica de problemáticas
urbanas que vinham acompanhadas da “solucionática”. Havia algumas
pessoas que eles destacavam, que eram referências ou de luta ou de
memória, enfim, de trabalho comunitário. Eles nos deram isso.
Eu brincava que era meu painel Bamerindus, “gente que faz”, “gente que
faz a diferença”, porque não fazem apenas coisas para si,
mas para a comunidade. Todas essas lideranças comunitárias
foram parar na exposição, nos painéis, com um efeito
maravilhoso porque, quando se viam no painel, ou quando os filhos, os netos
os viam, é como se você os trouxesse de um limbo de uma ação
cotidiana e desse dignidade de história para eles, porque tem letra
de forma e a cara deles lá. A gente já sabia disso por uma
experiência anterior, minha e da Ana, de fazer um livro sobre quilombo.
Você pega o registro da história contada e põe isso
em letra de forma, vira história na cabeça deles.
E
a gente queria, além do mais, registrar o ethos desses bairros.
Os problemas - esse é o olhar que a cidade tem dos bairros. Eu já
mostrava que não era só problema, porque tinha a problemática
e a “solucionática”. Mas e o “olhar de dentro” deles, de fato? Tinha
uma única pergunta que a gente fazia para eles: o que vale a pena?
Tinha um espectro absolutamente maravilhoso de coisas que diziam que valiam
a pena e, em geral, substantivos abstratos: solidariedade, o espírito
da luta, o partilhar da cultura. Em áreas predominantemente nordestinas,
achavam uma maravilha a vizinhança poder se reunir para festejar
São João. Isso em Heliópolis, com aquela barra pesada
da favela, em Cidade Tiradentes. A imagem de Cidade Tiradentes é
uma das coisas mais trágicas que existem. Um moleque não
pode pedir emprego dizendo que mora em Cidade Tiradentes. Esses meninos
resolveram refazer por conta própria a imagem de seu bairro: foram
aprender cinema. Tem uns moleques que são premiados. Deixe-me mostrar
com meu olhar o que é isso. Mostravam o que eles achavam que valia
a pena. (...) Em alguns lugares, por exemplo, o valor ambiental, lá
perto de Guarapiranga. A denúncia do descaso ambiental e a importância
da região como um patrimônio deles, patrimônio natural.
(...) Aí era o olhar deles (voltando à exposição):
não era mais o nosso olhar, o olhar da cidade para a periferia,
mas a periferia olhando para si mesma. Aí tinha esse conjunto variadíssimo
de painéis, com especificidades locais, como na Cantareira ou em
Guarapiranga a idéia da valorização do patrimônio
natural.
Em
Sapopemba, por exemplo, uma tragédia aquele bairro, as únicas
coisas que funcionam são a igreja e aquele órgão de
governo que cuida dos direitos da criança e do adolescente. Lá
é quase uma luta física para tirar os meninos que estão
em liberdade assistida da mão do traficante.
Uma
das histórias desse tipo, mais trágicas, que a gente viu
foi lá no Itaim Paulista. Um professor do SESI criou uma orquestra
de tambores, tambores de lata. A pobreza era tanta que não dava
para comprar tambor, mas você tem sempre lata de tinta. Criou essa
orquestra de tambores chamada “Toque do gueto”. Olhe o quanto os caras
sabem o que é estar confinado, e o Toque do gueto te abre.
O grupo recebeu esse nome por causa de um garoto que tinham incorporado,
que era um desses que estavam lutando para sair do tráfico e fez
um RAP que dizia “toque do gueto/na rua me encontrou/da rua me tirou/hoje
não sou mais viciado/vivo muito mais sossegado”. Contava na letra
o que era o cotidiano da periferia, que não dava nem para ir para
um baile porque ou tem tiroteio ou tem um cara querendo te pegar para te
botar de novo no tráfico. Mas o menino foi morto. Desde então,
a banda ficou com o nome de “Toque do gueto”. Na inauguração
do Museu Afro a gente levou esses meninos para tocar o hino nacional nas
latas. Foi o Stelio [Marras] que fez essa parte do campo; o Stelio e a
Paulinha [Paula Pinto e Silva] . Voltaram absolutamente em pânico,
porque o lugar onde ensaiavam era dentro de uma escola. A escola é
tão absolutamente dominada (como eles dizem, “tá tudo dominado”),
que tinha uma sala onde o responsável pela banda e os meninos iam
encontrar com os pesquisadores. Mas para deixá-los lá, enquanto
ia procurar os meninos, eles ficaram trancados na sala e foi tirado o trinco.
Não tinha chave, mas você tirava o trinco pra ninguém
poder abrir e pra poder proteger o Stelio e a Paulinha. (...)
A gente gera uma relação
ambígua com a cidade. A gente sabe do horror que é morar
aqui – o trânsito, a violência, o tamanho gigantesco da cidade
– mas, por outro lado, a gente também não quer ir embora
daqui. Se você vai parar em alguma cidadezinha do interior, seja
daqui seja de qualquer outro lugar do mundo, como foi a minha experiência
nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, você fica enlouquecido
e quer a metrópole de volta. Em geral, a gente tem essa relação
ambivalente. A partir dos C.E.U., passei a ter uma relação
integralmente positiva com essa cidade. Tenho um respeito e uma admiração
por essa gente que faz essa cidade. Você vai nesses bairros da periferia,
onde você tem migrante, migrante, migrante. Essa cidade de todos
os brasileiros e de todos os estrangeiros que a fizeram. Agora lá
na periferia, é migrante mesmo, interno. São os pobres dos
pobres, que vêm de lugares “ferrados”. Daí todo o nosso propósito
pedagógico com essa exposição. A Ana e a Betania fizeram
um material didático maravilhoso, que é quase dar para os
meninos um roteiro para refazer o caminho da pesquisa que a gente fez,
com propostas de questões e atividades. Restituir para eles o senso
de dignidade dos próprios pais. Restituir a dignidade desses migrantes
– o painel Bamerindus era um pouco para isso - porque o normal é
que essa segunda geração veja o pai como um fracassado. Primeiro,
porque é nordestino ignorante e não conhece as modernidades
das cidades. Depois, o máximo que conseguiu dar para a gente é
essa casinha nesse lugar horroroso. O que a gente tentava mostrar era o
contrário. Tinha dois vetores no trabalho pedagógico: o trabalho
e o sonho. O sonho de uma vida melhor, que trouxe os pais desses meninos
para cá. Gente que, com um trabalho gigantesco, conseguiu fazer
não só um bairro, mas a cidade. E a perspectiva do que eles
podem pensar como mundo do trabalho, porque não tem trabalho para
a maioria; então, o que se sonha. Como você pensa estratégias
para viabilizar o seu sonho. O que a gente propôs para os meninos:
sonhe e, depois, você pensa como vai fazer a estratégia para
alcançar a seu sonho. O final do livro didático era um moleque
com aquele balãozinho: escreva aqui seu sonho. Só que o balãozinho
não cabia dentro do livro. A gente só fez uma parte do balãozinho
para mostrar para eles que o sonho, primeiro, é maior e, segundo,
está na vida não está no livro. Até esse cuidado
pedagógico a gente teve, além de propor para esses meninos
refazerem o caminho da pesquisa, começarem a se interessar pelos
moradores mais antigos. “Você conhece alguém que não
nasceu aqui no seu bairro?” “Se alguém viesse visitar o seu bairro,
um parente que vem visitá-lo, o que você mostraria?” O que
é importante como referência para ele? No livro tinha figurinhas
para escolher. Era a idéia de álbum de figurinhas. Pequenas
fotografias de lugares do bairro, um conjunto de figurinhas para ele poder
recortar, destacar e colar onde quisesse. Ou, então, podia desenhar
e escrever. Tinha as figurinhas, o desenho e a escrita, quer dizer, várias
linguagens para estar se expressando. Você conhece gente que veio
de fora? Claro, meu pai e minha mãe. De onde vêm essas pessoas?
O que faziam quando eram crianças? Recuperar a memória. Fomos
pegando um conjunto de elementos cruciais para pensar essa idéia
de identidade, identificação, pertencimento, e isso foi transposto
para o caderno de atividades desses meninos. Na verdade, era uma reflexão
e um aprofundamento do conteúdo das exposições. Como
isso surgiu, de onde veio, como foi feito? A Secretaria da Cultura passou
à frente dos “pedagagos” (e não pedagogos) e propôs
que a gente tivesse alguma atividade cultural. A gente sabia que os “pedagagos”
não iam alcançar a dimensão que têm os CEUS.
A proposta da exposição é a de um museu de rua, com
os painéis móveis e com depoimentos locais. Isso podia virar
uma coisa de história oral, puro registro de memória e espaço,
e estaria bom. Mas aí não foi só isso. Juntaram-se
a Ana e a Betania da pedagogia, e eu com o meu olhar de pensar a cidade
e a educação, e daí a gente inventou o material didático .
A
entrevista contou com a presença de Ana
Luiza Borges.
Dossiê
Sociedade de Massa e Identidade, Revista USP, Dez/Jan/Fev 1996-97, número
32 (N.E.).
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