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Língua, Identidade
e Educação de Surdos
Embora as pesquisas nessa área
da surdez ainda sejam reduzidas, os poucos resultados disponíveis
têm se mostrado favoráveis aos defensores de um ensino bilíngüe
para surdos. Destaco aqui duas pesquisas, a título de ilustração.
Na Dinamarca, um experimento com ensino bilíngüe por meio do
qual uma classe de surdos foi acompanhada durante todo o seu período
de formação escolar mostrou que, ao final da graduação,
todos os estudantes foram capazes de atingir notas de nível elevado
(Jokinen, 1999). Detalhe interessante foi que o
teste aplicado nessa avaliação fora o mesmo que, décadas
antes, já se usara, sem qualquer sucesso, com estudantes surdos
submetidos a um ensino oralista nesse mesmo país. Na Suécia,
quando se formou o primeiro grupo de alunos surdos a serem educados sob
um programa realmente bilíngüe, um estudo focado na capacidade
de leitura e escrita desses alunos foi realizado com fim de compará-los
com alunos ouvintes da mesma faixa etária. Os resultados mostraram
que a capacidade de leitura dos 19 alunos surdos era totalmente semelhante
à capacidade dos alunos ouvintes que concluíam a graduação
naquele mesmo ano (Svartholm, 1999). O padrão
de escrita, embora não houvesse atingido um nível tão
elevado quanto o de leitura, mostrou no entanto que a produção
dos alunos era plenamente compreensível.
Esses poucos resultados devem ser
lidos num contexto em que, sob a abordagem oralista de ensino, nunca pudemos
assistir – a não ser em alguns raros e isolados casos – a grandes
avanços dos alunos surdos em qualquer parte do mundo para além
dos níveis intermediários do ensino fundamental. No que se
refere à proficiência de leitura/escrita da língua
oral, em particular, ainda hoje o padrão tem se mantido por volta
desse nível .
Isso somado ao fato de que, num contexto mais amplo das minorias em geral,
as evidências teóricas e empíricas trazidas pelos pesquisadores
sobre os benefícios de um ensino bilíngüe têm
se colocado de maneira bastante consistente e persuasiva. É em face
desses fatos que palavras como as de Crawford (2000:
3) se revelam tão verdadeiras: “Cada vez mais é a política,
e não a pedagogia, que determina como as crianças são
ensinadas”. Admitir um ensino bilíngüe implica estabelecer
uma ruptura com a ideologia homogeneizante e excludente que tem fundamentado
as propostas pedagógicas na modernidade ocidental – propostas colonialistas
que continuam a estabelecer padrões de normalidade social em relação
aos quais a diferença se coloca como uma deficiência, ora
a ser deliberadamente erradicada, ora a ser paternalisticamente tratada
(Skliar, 1999c).
A convicção de que
os argumentos éticos e científicos convergem para um ensino
bilíngüe de surdos não significa assumir que a implantação
de um programa dessa natureza seja simples de ser levada a cabo .
O planejamento de qualquer política lingüística envolve
uma série de questões que precisam ser cuidadosamente consideradas
de acordo com o contexto de cada país; e, no caso dos surdos, em
especial, ele envolve desafios adicionais que exigem nossa reflexão.
Questões
e desafios num programa de ensino bilíngüe para surdos
São
diversas as variáveis que devem ser analisadas na elaboração
de um programa bilíngüe de ensino. Entre as questões
fundamentais estão: a ordenação das línguas
(i.e. qual língua será ensinada primeiro e por quanto tempo?);
o tempo de instrução (i.e. quanto tempo será devotado
ao ensino de cada língua?); ênfase na cultura do aluno (i.e.
como será trabalhada a diferença cultural dos alunos?); etnicidade,
competência e status dos profissionais (i.e. a qual grupo étnico
pertencerão os profissionais da escola e qual deve ser a sua formação
exigida?); meio de instrução (i.e. qual língua será
usada como meio de instrução e por qual período de
tempo?); e objetivo da escolarização (i.e. quais habilidades
acadêmicas devem ser desenvolvidas em cada uma das línguas?).
Sem a pretensão de que a complexa discussão sobre ensino
bilíngüe se encerre nessas variáveis, a presente seção
pretende oferecer uma consideração inicial para essas questões,
à luz da situação sociolingüística e cultural
da comunidade surda brasileira.
Como já foi apontado anteriormente,
apenas cerca de cinco em cada cem surdos pertencem a famílias de
surdos. Em geral, a interação dos pais ouvintes com a criança
surda não permite a eles descobrirem a surdez de seus filhos antes
de dois ou três anos de idade. Nesse período inicial, em que
as crianças ainda não são capazes de desenvolver a
fala, as respostas visuais do filho são suficientes para que os
pais não percebam qualquer problema de audição. Quando
chega o momento em que as primeiras falas devem emergir, a hipótese
inicial dos pais tende a ser a de que a criança apresente um pequeno
atraso lingüístico, o que, até certo ponto, é
comum de ocorrer. Somente quando esse atraso se estende demais, passando
a causar algum incômodo, é que esses pais buscam algum tipo
de auxílio médico, momento em que a falta de audição
é então identificada.
Predominantemente, a descoberta
da surdez é recebida pelos pais como um terrível golpe. Quando
enxergam a surdez como uma deficiência, uma limitação,
essa descoberta acarreta uma frustração profunda das expectativas
em relação ao futuro da criança, fazendo com que as
interações dos pais com o filho surdo se tornem significativamente
empobrecidas (Ahlgren, 1994). A partir de então,
sem um programa governamental que busque desestigmatizar essa visão
da surdez e que oriente os pais sobre a importância de começarem
a aprender a libras, bem como de colocarem a criança em contato
com crianças e adultos surdos fluentes em libras, a comunicação
dentro de casa mantém-se num nível bastante superficial,
dizendo respeito meramente à satisfação das necessidades
básicas da criança: expressar vontade de comer, de brincar,
de dormir etc. Para atender a esses propósitos práticos e
imediatos, freqüentemente emerge, entre pais e filhos, um conjunto
de sinais “caseiros” inventados, mas nada que se assemelhe a uma língua.
O corolário dessa situação
é que as crianças surdas atingem a idade escolar por volta
de seis anos de idade sem nenhuma língua de fato constituída,
a não ser esse parco vocabulário de sinais caseiros. Somente
quando é encaminhada para uma escola de surdos é que a criança
entra em contato com a libras pela primeira vez. Lá, seus colegas
surdos mais velhos e já fluentes na libras servem como ponto de
partida para o seu aprendizado, que em geral – ao contrário do que
ocorre com o português para esses alunos – se dá de maneira
natural e rápida, com a criança atingindo habilidades comunicativas
em questão de meses de convívio.
É
nessas condições que a grande maioria das crianças
surdas iniciam a sua escolarização no Brasil: em um processo
bastante atrasado de aquisição da libras, e sem qualquer
noção do português escrito ou oral. Sob a ótica
das pesquisas sobre bilingüismo acima apresentadas, essa situação
aponta para a necessidade de conferir-se um status privilegiado à
libras nos primeiros anos escolares .
Através do ensino da libras para os alunos recém-ingressados,
em aulas que desenvolvam atividades com narrativas, teatralizações,
jogos lúdicos, entre outras, os alunos podem recuperar o tempo perdido
no desenvolvimento de sua língua natural – possivelmente a mais
poderosa ferramenta cognitiva que nós humanos possuímos –
abrindo as portas, assim, para o seu potencial de aprendizagem não
só lingüística mas também acadêmica.
Colocar
a libras como prioridade nos primeiros anos de escolarização
implica, em primeiro lugar, estabelecer uma ordenação
das línguas que favoreça sempre a libras, seja essa ordenação
simultânea ou seqüencial. Em experiências de ensino bilíngüe
com línguas orais, a opção pela seqüência
L1 à L2 tem se mostrado vantajosa, principalmente quando a criança
pode ser alfabetizada em ambas as línguas. Isso porque ser alfabetizado
na L1 é sempre um processo bem mais simples e rápido quando
comparado à alfabetização em uma L2, ainda por aprender.
Além disso, tendo em vista o conceito de proficiência subjacente
comum, de Cummins, as habilidades intrínsecas à alfabetização
na L1 se mostram transferíveis para a alfabetização
na L2 – de modo que o tempo devotado à aprendizagem da L1 equipa
o aluno com ferramentas fundamentais para a aprendizagem da L2.
O caso
dos surdos, porém, é peculiar nesse aspecto e exige um tratamento
distinto. As línguas de sinais ainda não possuem um sistema
consolidado de escrita que permita a alfabetização do surdo
na sua L1, de modo que todo desenvolvimento escolar dos alunos surdos que
estiver relacionado a processos de leitura/escrita será efetuado
diretamente na L2. Uma melhor alternativa para o caso dos surdos, então,
talvez fosse a introdução do português já nos
anos iniciais, simultaneamente à instrução da L1,
desde que essa introdução se dê de uma forma mais indireta
através de atividades que envolvam leituras “descompromissadas”
(e.g. utilização de livros infantis em aulas de contação
de histórias). Atividades de alfabetização propriamente
dita na L2 talvez sejam melhor introduzidas somente em um período
posterior, quando a base cognitiva e lingüística dos alunos
na L1 já estiver mais consolidada.
Além
da questão da alfabetização, uma segunda peculiaridade
relativa aos surdos deve também ser considerada. A L2, no caso o
português, se apresenta aos surdos de maneira distinta da que qualquer
L2, oral ou sinalizada, se apresenta aos ouvintes. Os surdos não
têm acesso à L2 em sua modalidade oral, apenas em sua modalidade
escrita. Por isso, embora não exista qualquer dissenso sobre a necessidade
de o ensino de leitura/escrita do português ser introduzido na escolarização
da criança surda tão logo ela se mostre apta, a questão
sobre o ensino do português oral – se ele deve ser introduzido desde
o início, se tardiamente, ou mesmo se não deve ser incluído
como parte compulsória do currículo do aluno surdo – é
fruto de muita polêmica.
Hoje
se sabe que a assim-chamada técnica da leitura labial, com que os
surdos oralizados tentam acompanhar a fala na língua oral, viabiliza
a comunicação apenas de modo muito parco. Mesmo nos casos
mais bem sucedidos de oralização, verifica-se a impossibilidade
de os surdos participarem plenamente da interação no âmbito
do português falado. Nas melhores circunstâncias, a leitura
orofacial só permite acesso a algo entre 25% e 40% da língua
falada, o acesso ótimo dependendo crucialmente de quem fala, quantos
falam, como falam, da facilidade de o surdo enxergar o rosto de cada falante,
da familiaridade do surdo com a maneira de falar de cada pessoa, e do conhecimento
prévio que o surdo tem a respeito do tópico da conversa.
Por todas essas razões, hoje se tem considerado razoável
entre a maioria das pessoas que promovem um ensino bilíngüe
para surdos manter o ensino do português oral como uma opção
extra-curricular sobre a qual somente os alunos surdos – e, antes que eles
próprios estejam habilitados, seus pais – devem decidir. Além
disso, caso a oralização seja de fato incluída no
currículo adotado, o elevado tempo que ela demanda do aluno exige
que sua prática seja conduzida fora do horário escolar, para
que os conteúdos escolares não sejam prejudicados na formação
do aluno (Quadros, 1997: 33).
Colocar
a libras como prioridade nos primeiros anos de escolarização
implica, em segundo lugar, devotar um tempo de instrução
maior à libras do que à língua portuguesa. É
importante lembrar que o déficit lingüístico que o aluno
surdo geralmente traz à escola pode se estender durante todo o período
do ensino fundamental. Até o início da adolescência,
a criança surda (filha de pais ouvintes) ainda não se vê
na possibilidade de sair sozinha para encontrar seus amigos surdos, de
modo que a escola acaba por se constituir praticamente no único
local em que ela terá contato com a língua de sinais. Isso
destaca ainda mais o papel da escola no sentido de devotar uma parte considerável
do tempo da criança à instrução da L1.
A preocupação
com a cultura nativa do aluno deve ser constante em qualquer programa
bilíngüe para surdos. Em parte, o fracasso escolar atribuído
a programas educacionais de imersão para alunos de minorias refere-se
ao fato de a escola não se apresentar a esses alunos como uma fonte
de fortalecimento de sua auto-estima, por não valorizar a sua identidade
e o grupo cultural a que eles pertencem (Cummins, 1981;
1998).
Ao ignorar a identidade e a herança cultural do aluno, tais programas
acabam realizando exatamente o trabalho inverso, diminuindo a sua auto-estima
e a sua crença de que pessoas como eles também sejam capazes
de ter sucesso na vida escolar e profissional. No caso dos surdos, essa
inferiorização é ainda mais patente, dado o senso
comum que circula, tanto dentro quanto fora do meio escolar, de que a surdez
seja uma deficiência física responsável pelas dificuldades
dos alunos.
Além
disso, entre o grupo cultural minoritário e o majoritário,
há uma série de padrões culturais diferenciados que
o aluno precisa aprender a distinguir, a fim de ter uma boa integração
na sociedade. Pesquisas têm demonstrado alguns desses padrões
diferenciados de comportamento relacionados à apreensão predominantemente
visual do mundo pelos surdos, bem como com a experiência social advinda
da surdez (Wilcox, 1989). A abertura da escola
a essas questões tem uma importância dupla para o sucesso
de programas bilíngües: de um lado, os alunos surdos podem
aprender a diferenciar certos modos apropriados de falar e agir diante
de ouvintes e de surdos, evitando a possibilidade de choques culturais
dentro e fora da escola; de outro lado, os próprios profissionais
ouvintes que atuam na escola de surdos serão capazes de compreender
melhor, e conseqüentemente reagir de maneira mais adequada, aos comportamentos
de seus alunos na escola.
Essa
necessidade de aprendizagem cultural, assim como a necessidade de instrução
da língua de sinais, pode ser trabalhada dando-se devida atenção
ao aspecto da etnicidade dos profissionais da escola bilíngüe.
Isso porque o aprendizado de padrões culturais e da língua
de sinais pode ser melhor realizado através da incorporação
de profissionais surdos na escola (Erting, 1988).
Alem disso, é importante que os profissionais surdos empregados
ocupem cargos de prestígio – como o de professores, por exemplo
– e não apenas funções com menor status, de modo que
a criança possa ter nesses profissionais um modelo para o seu próprio
desenvolvimento escolar e profissional.
A dificuldade
óbvia de se implementar tal política de contratação
é o atual status e competência dos profissionais
surdos. Primeiramente, a sociedade majoritária ainda não
acredita na capacidade de os surdos desempenharem um papel profissional
em pé de igualdade com ouvintes; além disso, somente nos
últimos anos os surdos estão começando a ter acesso
a cursos universitários que os capacitem para a docência.
Isso não significa que não existam surdos formados e capacitados
para ministrar aulas em diversas disciplinas, razão pela qual a
escola pode (e deve) procurar incluir esses profissionais em seu corpo
docente. Isso não significa, também, que a escola não
possa empregar, com o devido acompanhamento pedagógico, surdos não-formados
que sejam habilidosos no uso da libras para as aulas voltadas exclusivamente
ao cultivo da língua de sinais e da cultura surda – especialmente
se considerarmos que, nesse caso, são os ouvintes, e não
os surdos, que em geral se mostram despreparados para exercer a função
de professor.
Quanto ao meio de instrução
durante a escolarização dos surdos, não há
dúvida de que deva ser a libras. Por todas as razões expostas
acima sobre a parca viabilidade da leitura orofacial, sabe-se que um surdo
não tem meios para participar plenamente de uma interação
em língua portuguesa oral. O contexto escolar da sala de aula, em
especial, serve apenas para agravar a situação. Apesar disso,
com o desenvolvimento da tecnologia, hoje é possível e interessante
se pensar em aulas – especialmente aquelas voltadas para o aprendizado
do português como L2 – conduzidas exclusivamente em português
escrito, por meio do uso de atividades mediadas por computador (e.g. Bruce
et al., 1993; Peyton e French, 1996).
Surgindo como uma das principais
barreiras para que o meio de instrução adotado seja a libras,
contudo, está o próprio quadro educacional brasileiro – herança
de décadas e décadas sob os ditames do oralismo. Atualmente,
são poucos os professores ouvintes que trabalham com a educação
de surdos e que são altamente proficientes em libras. Aqueles que
se esforçam em utilizar sinais para auxiliar na comunicação
com seus alunos acabam empregando uma mescla de sinais com o português
falado – uma língua de contato, ou pidgin. Cresce entre esses
professores a consciência de que um domínio maior da libras
é imprescindível, mas o aprendizado de uma língua
tão distinta do português, agravado pela diferença
de modalidade, demanda um investimento de tempo e esforço relativamente
grande por parte dos professsores-aprendizes.
Tal fato não indica que a
opção pela libras como meio de instrução deva
ser abandonada; apenas que, para a sua implementação, um
programa de ensino bilíngüe eficiente deve dedicar atenção
especial à habilitação de professores ouvintes em
libras, oferecendo cursos com surdos fluentes e tornando a língua
de sinais, na medida do possível, o veículo principal de
comunicação dentro do ambiente escolar. De maneira mais indireta,
porém não menos importante, trabalhos cooperativos entre
academia e instituições de ensino de libras deveriam ser
buscados com o intuito de aprimorar a qualidade do ensino de libras como
L2 para esse público ouvinte.
No que concerne à última
questão pedagógica a ser discutida, o objetivo da escolarização,
um programa de ensino bilíngüe para surdos deve levar em consideração
o fato de que a comunidade surda se caracteriza não apenas pela
necessidade de utilizar uma L2 (a língua nacional) além da
sua L1 (a libras), mas também pela contingência de utilizar
ambas as línguas num contexto em certa medida diglóssico:
a primeira bastante voltada para contextos formais de escrita, e a segunda
bastante voltada para contextos informais da oralidade .
Tal situação vem destacar o fato de que o aluno surdo deve
ter a oportunidade de desenvolver os conteúdos acadêmicos,
independentemente de quais sejam, em ambas as línguas: na libras,
nas atividades que envolvam habilidades orais (i.e. seminários,
discussões em aula, entre outras), e no português, nas atividades
que envolvam habilidades escritas (i.e. redações, avaliações,
entre outras).
Por fim, além de todas as
questões acima consideradas, para que um modelo bilíngüe
de manutenção possa ser planejado na educação
de surdos, alguns desafios adicionais devem ser avaliados. Um dos principais
é a já referida inexistência de um sistema eficiente
de escrita de sinais. Na verdade, a grande lacuna que separa os surdos
da escrita – uma vez que essa representa uma fala à qual o surdo
não tem acesso – já tentou ser transposta na opção
oralista de ensino, em que os educadores buscaram preencher essa lacuna
desenvolvendo nos surdos a língua oral. Esse esforço, no
entanto, mostrou-se claramente fracassado. Uma alternativa bastante promissora
seria a de desenvolver um sistema de escrita de sinais que tornasse possível
ao surdo representar diretamente a sua língua de sinais e que servisse
de ponte para a sua aquisição da escrita da L2. Entre os
candidatos para esse sistema estão o recém-elaborado ELiS
(Estelita, 2006), desenvolvido no sul do Brasil,
e o signwriting (SW), há pouco tempo incluído no primeiro
dicionário de libras-português (Capovilla
e Raphael, 2001a; 2001b) e já utilizado em experiências
educacionais com surdos ao redor do mundo (e.g. Flood, 2002, além
de outras referências que podem ser encontradas no endereço
http://www.signwriting.org/).
Outro desafio para a implantação
de um modelo bilíngüe de manutenção é
a realização de políticas lingüísticas
que se estendam para além dos limites da escola. No âmbito
da instituição familiar, por exemplo, emerge a necessidade
de programas de orientação aos pais de crianças surdas
que tenham por objetivo torná-los sensíveis, tanto em relação
à importância da libras para os seus filhos, quanto em relação
à necessidade de contato dessas crianças com outras crianças
e adultos surdos. Essa sensibilização envolve também
habilitar esses pais na língua de sinais, a fim de que eles possam
estabelecer uma comunicação abrangente e rica com seus filhos
dentro do ambiente familiar. No âmbito educacional mais amplo, faz-se
necessário investir de maneira intensa na produção
de materiais didáticos em libras, na tradução de clássicos
da literatura para a libras, na produção de literatura própria
da comunidade surda, na formação de intérpretes de
libras-português, entre outras várias frentes. Por fim, no
âmbito das instituições prestadoras de serviços
(i.e. hospitais, parques, bibliotecas, museus, entre outras), a criação
de condições que viabilizem o acesso igualitário dos
surdos a esses vários serviços sociais exige como medida
crucial a contratação, seja fixa, seja temporária,
de intérpretes de libras qualificados. Somente a consideração
de todas essas questões, que a rigor extrapolam os limites da escola,
poderia criar uma base de sustentação necessária para
o bom desenvolvimento de um programa bilíngüe de ensino.
Nesse sentido, é importante
notar que, independentemente de toda a vontade política que possa
existir com o intuito de reverter esse quadro, existe um aspecto nessas
demandas extra-escolares – um mesmo pré-requisito permeando cada
uma delas – que, a menos que seja urgentemente desenvolvido, tornaria inviáveis
as suas execuções práticas: a qualidade do ensino
de libras como L2 para ouvintes. Seja na instrução e orientação
dos pais ouvintes de crianças surdas; seja na produção
de materiais didáticos e traduções literárias;
seja na formação de intérpretes de qualidade e/ou
preparação de funcionários para o atendimento às
pessoas surdas, a necessidade de existência de um programa de ensino
de libras de alto nível se mostra absolutamente imprescindível.
Nesse sentido, pesquisas no Brasil voltadas para a questão infelizmente
ainda se mostram bastante escassas (mas ver, e.g. Gesser,
2006; Leite, 2001a; 2001b;
2004).
Inclusão sim... mas qual?
Apesar
dos argumentos que têm colocado por terra os preconceitos sobre as
línguas de sinais e a identidade surda, demonstrando a sua legitimidade;
apesar do histórico fracasso das diferentes propostas educacionais
que ignoraram as línguas de sinais no ensino de surdos em todo o
mundo; apesar dos animadores resultados das experiências com políticas
bilíngües de ensino, que conferem igual importância à
língua e cultura dos alunos; apesar de todas essas ponderações,
a política oficial no Brasil ainda insiste em se colocar na contramão
de todas as evidências e considerações éticas.
Tal política, já em vigor há alguns anos, tem preconizado
a inclusão de todos os chamados “alunos com necessidades especiais”
(entre eles, os surdos) nas salas de aulas regulares, bastando para isso
o fornecimento, pelo poder público, de “recursos adicionais” que
“viabilizem” essa inclusão.
No caso
dos surdos, tais recursos consistiriam em professores especializados fluentes
em libras para salas de reforço; e, em alguns poucos casos – que
observamos principalmente em escolas particulares – a contratação
de intérpretes para intermediação surdo-ouvinte nas
salas de aula comuns. Tal política se mostra extremamente retrógrada,
não sendo capaz de reconhecer que a singularidade dos surdos em
relação aos demais indivíduos com necessidades específicas
(i.e. a profunda diferença lingüística apresentada pelos
surdos, ao contrário do que ocorre, por exemplo, com cegos e cadeirantes)
impõe a elaboração de uma política educacional
específica para esse grupo em particular; uma política, afinal
de contas, que não seja educacional em estrito senso, mas também
lingüística e cultural.
Como
visto na discussão acima, a diferença lingüística
das minorias acarreta implicações profundas para a sua educação,
que vão desde o âmbito cultural (i.e. desenvolvimento identitário),
passando pelo psicológico (i.e. auto-estima, ansiedade e motivação),
até o âmbito cognitivo (i.e. desempenho lingüístico,
intelectual e escolar). Ignorando essas implicações, o modelo
atual de escola inclusiva acaba por prever um papel bastante limitado e
secundário à libras, negando tanto o valor de seu uso como
meio de instrução pelo professor, quanto a necessidade de
ser continuamente aprimorada pelos alunos a fim de quem tenham um bom desenvolvimento
global. Acaba, também, por desconsiderar a necessidade de os alunos
co-construírem sua identidade e auto-estima junto a outros alunos
e adultos surdos. Em certo sentido, pode-se prever que os efeitos desse
modelo de inclusão devam ser ainda mais nocivos do que os do oralismo,
uma vez que essa nova política, além de coibir o pleno desenvolvimento
da língua e identidade surdas, de fato impede que elas sejam cultivadas
pelos estudantes, retirando-os de um de seus poucos núcleos de fomento
durante a infância e adolescência (i.e. as escolas de surdos)
e isolando-os em escolas regulares por todo o país.
O grande
argumento desse modelo de inclusão, levantado por aqueles que o
defendem, parece bastante progressista: a idéia de que as pessoas
chamadas “deficientes” não podem mais ser vistas como tais pela
sociedade, mas sim como pessoas “diferentes”. O melhor modo de derrubar
os estereótipos e preconceitos com relação a elas,
então, seria colocando-as lado a lado com os alunos ditos “normais”
em salas de aula regulares. O contato necessário que aí se
estabeleceria faria com que os ouvintes passassem a ver, em seus colegas
surdos, pessoas como eles próprios. Com base nesse argumento, temos
observado uma tendência do poder público de fechamento das
escolas de surdos por todo o Brasil.
É
preciso lembrar, entretanto, que simplesmente colocar as diferenças
em contato não implica, em si, qualquer garantia de derrubada de
preconceitos e estereótipos. Na verdade, quando uma situação
por demais assimétrica caracteriza essa relação, como
ocorreu por exemplo com a colonização, o corolário
mais natural é o de que o contato simplesmente reforce uma percepção
discriminatória por parte do grupo em posição privilegiada,
e não que acabe com ela. Se raciocinarmos assim, a questão
que devemos nos colocar é: que imagem de si um surdo poderá
apresentar aos seus colegas ouvintes em uma sala de aula em que todos falam
português oral? Possivelmente a imagem de um aluno dependente do
auxílio de colegas, com dificuldades de atenção e
compreensão, dificuldade e/ou pouca iniciativa para participação,
entre outras limitações decorrentes da desconsideração
de sua diferença lingüística. Somente em uma escola
onde a libras seja o meio predominante de comunicação e instrução
esse aluno poderia ver-se como parte de um mundo plenamente significativo,
que lhe possibilite participar do processo escolar em pé de igualdade
com todos os demais alunos e profissionais da escola.
O argumento da inclusão contrário
à existência de escolas de surdos é o de que o estabelecimento
dessas escolas tenda a produzir um isolamento social da comunidade surda,
contribuindo para a perpetuação dos preconceitos e estereótipos
dos ouvintes em relação aos surdos, e vice-versa. Parece-me
óbvio, contudo, que a derrubada dessas barreiras deva ser também
uma preocupação da escola bilíngüe de surdos.
Ao inserir o aluno em uma escola de surdos, por exemplo, uma política
de ensino bilíngüe pode (e deve) elaborar e colocar em prática
uma série de atividades voltadas para o incentivo à convivência
e à integração entre surdos e ouvintes. Entre inúmeras
possibilidades, práticas esportivas, eventos culturais, apresentações
de trabalho e festas integrativas podem ser realizadas periodicamente entre
escolas de surdos e de ouvintes. Tais iniciativas promoveriam, de modo
muito mais efetivo, a superação do estigma social sobre a
surdez e, conseqüentemente, do auto-isolamento que a comunidade surda
se impõe ao sofrer os efeitos da discriminação. Nessas
circunstâncias, a imagem que os alunos ouvintes teriam de indivíduos
surdos não seria a de pessoas limitadas, de estranhos no ninho,
mas de indivíduos integrados, capazes e felizes – com a diferença
de possuírem uma língua e uma identidade distintas.
A despeito dessa tendência
majoritária da inclusão, muitos profissionais, especialistas
e legisladores estão abrindo seus olhos para a real dimensão
da diferença surda. As evidências científicas sobre
as implicações educacionais da situação sociolingüística
e cultural de grupos minoritários são abundantes e podem
servir como parâmetro para a elaboração de programas
bilíngües que atendam às necessidades e anseios dessas
comunidades. Assim, retomando a reflexão de Crawford, esperamos
que a política finalmente ceda lugar à pedagogia na determinação
da melhor forma de educarmos as crianças surdas, pois se assim ocorrer,
certamente o futuro da comunidade surda será fundamentalmente distinto
de seu passado.
Conclusão
Neste
artigo, procurei traçar um panorama da situação sociolingüística
e cultural da comunidade surda brasileira e suas implicações
para a educação de surdos. Primeiramente, ao descrever o
contexto social da surdez, procurei chamar a atenção para
o sentido diferencial que a idéia de “tradição cultural”
teria para os surdos, em relação a outros grupos minoritários
ouvintes. A diferença estaria relacionada principalmente a dois
aspectos: o percurso inverso de constituição identitária
dos surdos em relação aos grupos ouvintes; e a saliência
da língua de sinais como aspecto gerador de diferenças culturais
entre surdos e ouvintes. Nesse sentido, procurei argumentar que parte da
dificuldade do mundo ouvinte em reconhecer plenamente a diferença
surda decorre dessas duas circunstâncias, que de fato tornam a situação
dos surdos um tanto peculiar em relação à dos demais
grupos minoritários.
Em segundo
lugar, ao discutir as atitudes sociais relacionadas ao reconhecimento das
línguas (i.e. a historicidade, a vitalidade, a padronização
e a autonomia) procurei demonstrar como o reconhecimento da libras também
se mostra dependente de questões que fogem ao âmbito estritamente
lingüístico. Vimos que a documentação da língua
de sinais, desde o passado até os dias de hoje, se deve em grande
parte à sua notável vitalidade, que tem chamado a atenção
dos educadores e pesquisadores para a necessidade de compreendê-la
e incorporá-la adequadamente na vida escolar dos surdos. A meu ver,
a sobrevivência da libras e de outras línguas de sinais frente
a um longo histórico de opressão se apresenta, em si, como
um forte apelo em favor da necessidade de um ensino bilíngüe
para surdos.
Em terceiro
lugar, então, procurei resenhar uma série de pesquisas focadas
em aspectos teóricos e empíricos da educação
bilíngüe. Vimos que, mesmo não existindo muitas experiências
e pesquisas específicas com o ensino de surdos, há um grande
corpo de estudos voltados para grupos minoritários em situação
social bastante similar. Tais estudos apontam de maneira consistente para
os benefícios que uma educação bilíngüe
de manutenção – que valoriza a língua e cultura próprias
do aluno durante todo o decorrer da escolarização – pode
trazer àqueles que vivem num contexto de bilingüismo popular.
Em seguida, procurei trazer então algumas das principais questões
pedagógicas que norteariam um planejamento desse tipo de ensino
para surdos, destacando as especificidades da situação sociolingüística
e cultural dos surdos e apontando os desafios referentes à falta
de um sistema de escrita para a libras e à falta de programas governamentais
de apoio às instituições sociais que dão suporte
à vida do aluno na escola e fora dela. Por fim, procurei discutir
brevemente o modelo de inclusão que tem vigorado nos últimos
anos, argumentando que essa proposta vai de encontro com todas as evidências
científicas e considerações éticas levantadas
nos debates sobre língua, identidade e ensino bilíngüe.
É importante frisar que,
ainda que eu considere o ensino bilíngüe um passo fundamental
para a emancipação das minorias, tal passo não implica
uma solução definitiva, por si só, da questão
(Fishman, 1979). As dificuldades enfrentadas
pelas mais diversas minorias sociais, entre as quais estão os surdos,
não se resumem à sua escolarização, podendo
se estender a diversas outras áreas (e.g. condições
sócio-econômicas) que, ainda que não estejam totalmente
dissociadas da questão educacional, também não se
restringem a ela. Isso é importante para que saibamos sempre dimensionar
a questão educacional, encarando-a como um passo fundamental rumo
à emancipação social e política da comunidade
surda, mas não como uma solução mágica.
Pesquisadores como Llanes
(1980) têm apontado o fato de que, independentemente da abordagem
educacional desejada, as forças políticas e econômicas
sempre prevalecem sobre as forças educacionais para determinar se
um determinado grupo é capaz ou não de manter lealdade à
sua língua materna (p. 428). De fato, um padrão recorrente
em estudos de minorias imigrantes é o de que, no período
de três gerações vivendo dentro de sociedades oficialmente
monolíngües, a L1 do grupo minoritário tende a perder-se,
cedendo lugar à língua nacional do país (Paulston,
1980).
É interessante notar, nesse
sentido, que os surdos se colocam como exceção a essa regra.
Gerações e gerações de surdos, apesar de pressionadas
por uma ordem política e econômica que sempre desconsiderou
por completo a possibilidade de manutenção das línguas
de sinais nos mais diversos âmbitos sociais (em especial na escola
e no trabalho), preservaram sua lealdade à libras. Como já
argumentado, essa lealdade parece estar intimamente relacionada ao fato
de os surdos poderem adquirir, natural e espontaneamente, apenas uma língua
de modalidade gestual-visual. Independentemente das razões para
essa lealdade, contudo, o fato é que, ao contrário de outras
minorias, os futuros netos de surdos que hoje são falantes fluentes
em libras não falarão português oral como L1, tampouco
o farão os netos de seus netos. As futuras gerações
de surdos continuarão falando libras. Talvez essa seja uma razão
adicional para olharmos a educação bilíngüe dos
surdos como uma condição fundamentalmente necessária,
embora não suficiente, para o resgate de sua cidadania.
O
presente artigo é uma adaptação do capítulo
"O contexto da pesquisa" de minha dissertação de mestrado
(Leite, 2004).
Referida na lei brasileira como "língua brasileira de sinais" e
também chamada por alguns de LSB.
Traduzido para o português como "Em terra de cego" no livro "Contos
fantásticos do século XIV". Textos escolhidos por Ítalo
Calvino, Companhia das Letras, 2004.
O paradoxo que a situação acima descrita coloca não
por acaso tem sido fonte de preocupação entre surdos (Andersson,
1994: 10). Por um lado, nota-se que a luta pela afirmação
da surdez em sua diferença lingüística e identitária,
e não enquanto deficiência, é um passo fundamental
para a concretização de uma educação bilíngüe
habilitadora, e não incapacitadora (Ferreira Brito, 1993; Quadros,
1997; Skliar, 1999a; 1999b), educação sem a qual a luta pela
emancipação social dos surdos dificilmente poderia ser pensada.
Por outro lado, nota-se que a luta pela conquista de direitos especiais
aos surdos, concedidos precisamente pela classificação da
surdez enquanto deficiência, é uma política afirmativa
necessária em uma sociedade como a atual, fortemente discriminatória
e excludente com relação aos surdos, especialmente no âmbito
profissional.
Martha's Vineyard é uma ilha a poucos quilômetros da costa
sudeste de Massachusetts, onde o nascimento de pessoas surdas atingiu taxas
elevadíssimas durante o século XVII, tornando a língua
de sinais de Vineyard amplamente difundida e utilizada pela população
local (Wilcox & Wilcox, 1997: 14-5). Fenômeno similar ocorreu
no norte do Brasil, no estado do Maranhão, onde uma língua
de sinais distinta da libras foi identificada entre os membros da tribo
Urubu-Kaapor, que possuía um grande número de pessoas surdas
(Ferreira-Brito, 1984).
A abordagem educacional de surdos voltada para a sinalização,
elaborada na França com o abade de l'Epée, desenvolveu-se
mais ou menos simultaneamente a uma segunda abordagem, a oralista, predominante
na Alemanha. Nesse último país, a busca iminente por uma
unidade nacional por volta do século XVIII, em face da forte fragmentação
que se impunha anteriormente à formação do estado-nação
alemão, envolveu o desejo de construção de uma cultura
alemã única e homogênea, que deveria então permear
todo o sistema educacional. Para a educação dos surdos, essa
demanda de unidade implicou o banimento da língua de sinais alemã
em favor do desenvolvimento da oralização dos alunos surdos
em alemão (Capovilla, 2001: 1481).
Uma observação comum - já apontada por l'Eppé
em relação aos surdos franceses e que muitos profissionais
e alunos surdos no Brasil igualmente relatam - é que, independentemente
das restrições e proibições ao uso da língua
de sinais na escola, os surdos constantemente violavam tais regras sempre
que tinham a oportunidade. L'Eppé, em particular, mostrou-se perplexo
diante do fato de os alunos surdos, fora da sala de aula, preferirem
sempre a língua de sinais espontânea, que para ele parecia
carecer de recursos gramaticais, à língua de sinais modificada
que ele considerava correta gramaticalmente e que era oficialmente adotada
na escola.
O Congresso de Milão foi um evento realizado no ano de 1880 na Itália.
Reunindo especialistas da área da surdez - entre eles figuras renomadas
como Alexander Graham Bell - o congresso teve como objetivo propor uma
solução sobre a melhor forma de se educar os surdos. O método
oralista foi quase unanimemente aclamado como superior e, além disso,
o aprendizado da língua de sinais foi apontado como sendo prejudicial
para o desenvolvimento e integração social do indivíduo
surdo.
Essa seção está restrita a poucas referências,
mas é importante frisar que muitas delas consistem de extensos levantamentos
de pesquisas, o que traz força às conclusões alcançadas.
A situação completamente distinta que enfrentam, de um lado,
os grupos minoritários, e de outro, os grupos socialmente privilegiados,
em face dos programas de "imersão", levou pesquisadores como Steven
Krashen a se referirem ironicamente a esses programas como programas de
"submersão", quando aplicados a alunos de grupos minoritários
(Krashen, 1981).
Fernando Capovilla, comunicação pessoal.
Ver, nesse sentido, a experiência de ensino bilíngüe
com surdos no Uruguai (Peluso, 1999). No artigo, Peluso reporta as dificuldades
que praticamente inviabilizaram o progresso desse ensino durante os anos
em que o autor atuou em uma das escolas públicas, com o objetivo
de manter os princípios gerais da educação bilíngüe.
Entre essas dificuldades, estão: a constante mudança das
autoridades em todos os níveis educacionais, impedindo a continuidade
teórico-metodológica do programa bilíngüe adotado;
o fim da parceria com a universidade, impedindo a manutenção
de grupos de controle e grupos experimentais para acompanhamento mais próximo
dos resultados alcançados a cada ano; constantes tensões
e conflitos de visão e interesse entre as três culturas participantes
do processo de transição, a saber, a dos acadêmicos,
dos surdos, e dos professores; e, por fim, a pouca flexibilidade da instituição
escolar no sentido de adaptar o ensino formal às características
requeridas por um grupo cultural ágrafo, o que resultou em uma resistência
à implantação de aulas voltadas para a instrução
da língua de sinais uruguaia, à aceitação e
o fortalecimento da identidade surda, e à contratação
de professores surdos para esses propósitos. Nesse relato, nota-se
que parte dos problemas enfrentados pelos uruguaios podem ser atribuídos
a um programa de ensino bilíngüe mais próximo do modelo
de transição do que do modelo de manutenção;
porém, nota-se também questões políticas e
circunstanciais que dificilmente poderiam ter sido previstas no planejamento
desses programas.
Essa conclusão é corroborada por um grande número
de pesquisas que apontam o melhor desempenho acadêmico de crianças
surdas filhas de pais surdos em relação às crianças
ouvintes filhas de pais ouvintes, pelo fato de as primeiras estarem
expostas a, e fazerem uso de, um cotidiano rico da língua de sinais
(Strong, 1988).
O termo oralidade, aqui, deve ser entendido não em seu sentido orocêntrico,
mas em seu sentido técnico de uso vivo, espontâneo, interativo,
face-a-face da língua natural; isto é, a oralidade deve ser
entendida mais plenamente como corporalidade (McCleary, 2001).
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