O olhar
da sociedade majoritária sobre a língua e identidade dos
surdos mudou rapidamente nos últimos anos. Hoje, imersos num conturbado
período de transição, vivemos uma situação
repleta de conflitos e contradições. Por um lado, o discurso
da diferença se coloca de maneira cada vez mais universal na fala
de educadores, políticos, psicólogos, lingüistas, fonoaudiólogos
etc. Enfatiza-se que devemos enxergar a surdez como uma “diferença
que precisa ser respeitada e aceita”. Por outro lado, acredita-se que a
“diferença” surda seja definida em termos de uma deficiência
física; que a criança surda possa ter uma estruturação
identitária sólida sem a convivência com outros surdos
em sua infância, entre outros vários equívocos que
revelam as limitações desse reconhecimento pleno da identidade
surda.
Contradição
parecida pode ser observada no que se refere ao reconhecimento pleno da
língua de sinais brasileira (libras)
.
Por um lado, a libras é cada vez mais referida como uma língua
natural pela sociedade brasileira. Os cursos se multiplicam pelo país,
as pessoas se interessam em aprendê-la, e a língua ganha valor
nos espaços públicos e privados. Entretanto, acredita-se
que essa “língua” possa ser aprendida em cursos de um ou dois anos;
que um professor polivalente possa ser capaz de, ao mesmo tempo, ensinar
em português alunos ouvintes e, em libras, alunos surdos; que ser
um ouvinte proficiente em conversações espontâneas
na libras pressupõe a habilidade de saber interpretá-la,
entre outros vários equívocos que revelam, novamente, as
limitações desse reconhecimento da diferença surda.
É
dentro deste contexto conflituoso e contraditório que propostas
de educação de surdos têm sido reivindicadas e discutidas
– o que de certa maneira é inevitável. Contudo, é
importante chamar a atenção para a necessidade de aprofundar
nossas visões sobre esses dois pilares da surdez: a língua
e a identidade. De outro modo parece-me difícil pensar como uma
educação de surdos de qualidade possa ser implementada no
Brasil. Tal crítica se estende inclusive às propostas de
ensino bilíngüe que, a despeito de minha simpatia, não
estão isentas de se mostrarem aquém das necessidades e anseios
da população surda e acabarem frustradas, caso seus planejadores
não tenham claro o que a diferença lingüística
e identitária dos surdos envolve e implica do ponto de vista educacional.
Esse
reconhecimento da língua e identidade dos surdos não vai
se dar da noite para o dia. São várias as barreiras que devemos
enfrentar para que possamos alcançá-lo. Neste artigo, pretendo
abordar algumas das questões mais gerais envolvidas nessa discussão,
em primeiro lugar, refletindo sobre duas das possíveis razões
pelas quais nossa sociedade encontra tanta dificuldade em ver o surdo efetivamente
como um outro; e, em segundo lugar, refletindo sobre como certas atitudes
sociais em relação à língua podem e devem afetar
o estatuto lingüístico atribuído à libras.
Num
segundo momento, a discussão se desloca para a questão do
ensino bilíngüe para surdos. Primeiramente, buscarei justificar,
com enfoque principalmente empírico, a necessidade desse tipo de
política lingüístico-educacional para o caso dos surdos,
refletindo neste contexto sobre as implicações da discussão
sobre língua e identidade para a formação escolar
da criança. Em seguida, discuto alguns desafios e especificidades
que um ensino bilíngüe para surdos, diferentemente do ensino
bilíngüe voltado para outras minorias lingüísticas,
deve necessariamente considerar.
O artigo
encerra com uma reflexão sobre as implicações da presente
discussão para o modelo atual de inclusão – movimento
que visa romper com a tradição de exclusão e discriminação
de certos segmentos sociais na escola e na sociedade. O argumento central
é o de que a inclusão, assim como toda política lingüística
e educacional voltada para os surdos, tem buscado uma meta a qual todos
compartilhamos: a de ver a comunidade surda socialmente integrada e exercendo
efetivamente seus direitos e deveres como cidadãos brasileiros.
A grande questão, então, são os meios que devemos
construir de modo a se atingir esse fim. O presente artigo pretende trazer
alguns subsídios básicos para o aprofundamento dessa reflexão.
Além
do estereótipo do silêncio
No seu
formidável conto The country of the blind
,
o escritor inglês H. G. Wells promove uma impactante desconstrução
de nossas visões sobre normalidade e deficiência. Para isso,
o autor constrói um mundo fictício peculiarmente distinto
do nosso, de tal modo que várias das características às
quais nós mais facilmente atribuímos o qualificativo “normal”
fossem deslocadas para as margens da sociedade fictícia como algo
“anormal”. A escolha do protagonista, Nunez, um jovem perfeitamente normal
aos olhos de nossa sociedade mas não aos olhos da sociedade do conto,
não poderia ter sido melhor: o escritor nos força a experimentar
o gosto amargo da frustração e humilhação que
o “outro”, o “diferente”, enfrenta ao perceber a incompatibilidade entre
o modo como ele vê a si mesmo e o modo como a sociedade majoritária
o vê. Adentrar o mundo fantástico do conto é uma experiência
única, tendo em vista que, em nosso dia-a-dia, é muito difícil
conseguirmos nos deslocar da nossa posição auto-centrada
e nos aproximarmos efetivamente de um olhar sobre “o outro” que não
seja mediado por nossos preconceitos e estereótipos.
Um olhar
rápido sobre títulos de produções sobre surdez,
por exemplo, mostra como é comum nos referirmos ao mundo surdo de
maneira estereotipada, mesmo quando o nosso objetivo é o de abrir
os braços para a diferença. Referências ao mundo do
silêncio,
seja isso interpretado positiva ou negativamente, revelam a nossa dificuldade
de aceitar o surdo para além de nossos referenciais, uma dificuldade
que uma atenção redobrada sobre o mundo surdo pode superar.
Por exemplo, muitos surdos leves e moderados, protetizados ou não,
são capazes de ouvir uma gama variada de sons, embora não
tenham acesso às freqüências sonoras necessárias
para se ouvir sons tais como a fala humana especificamente – o que afeta
a sua relação com o mundo ouvinte de maneira mais direta.
Até mesmo para os surdos congênitos severos e profundos, cuja
audição é bem mais limitada, a idéia de “ausência
de som” ou “silêncio” sequer tem um registro, como o tem para nós.
A ausência de som, afinal de contas, pressupõe uma experiência
sensível daquilo que, em contraposição, seja sonoro,
experiência essa que surdos assim nunca tiveram ou que é para
eles por demais ínfima para tornar-se significativa. A idéia
de que o silêncio seja um conceito representativo do mundo surdo
é um exemplo interessante de como até mesmo os defensores
da diferença surda freqüentemente revelam uma limitação
em seu reconhecimento dessa diferença.
Quando
nos deparamos com um indivíduo pertencente a algum grupo étnico
e/ou imigrante, tal como chineses, argelinos, bolivianos, entre outros,
não duvidamos do fato de tais indivíduos possuírem
identidades distintas da nossa. Um fato empírico é que essas
pessoas tendem a conviver mais entre si, de modo que esse agrupamento deve
ser resultado de uma identificação maior que sentem em relação
aos membros de sua comunidade através da língua que falam,
dos assuntos pelos quais mais se interessam, das roupas que usam, da religião
que professam, entre uma série de outros aspectos. O conjunto desses
elementos pode ser entendido como a tradição cultural desses
indivíduos, que é edificada dentro de sua comunidade desde
o nascimento da pessoa e que é constantemente negociada e re-significada
a cada nova situação de enunciação cultural,
seja na relação com os próprios membros de seu grupo,
seja na relação com a sociedade majoritária.
Os surdos,
enquanto grupo cultural, também possuem a sua tradição.
Entretanto, em pelo menos dois aspectos essa tradição parece
ter um sentido diferente daquele atribuído a grupos ouvintes: em
primeiro lugar, no modo como essa tradição é edificada
pelos surdos; e, em segundo lugar, nos elementos que compõem essa
tradição e que a diferenciam das tradições
presentes na sociedade majoritária. Esses dois aspectos, a meu ver,
explicam em grande parte o modo como os surdos têm sido predominantemente
vistos e tratados pela sociedade majoritária até os dias
de hoje, bem como as dificuldades que eles enfrentam para superar essa
visão e tratamento.
Sobre
o primeiro aspecto, o caminho percorrido pelos surdos em sua constituição
identitária se mostra particularmente distinto do caminho “natural”
– se é que assim pode-se dizer – trilhado pelos chamados grupos
étnicos. Ao contrário das minorias étnicas, a maioria
esmagadora dos surdos não traz uma tradição cultural
de seus berços, isto é, da família, que parece consistir,
em nosso mundo ocidental, a instituição primordial de fomento
cultural do indivíduo. Apenas cerca de cinco, de cada cem surdos,
pertencem a famílias de pais surdos (Hall, 1989). O corolário
dessa situação é que os surdos não são
vistos pela sociedade majoritária ouvinte como um outro exatamente.
Para o senso comum, os surdos são ouvintes deficientes,
isto é, uma manifestação patológica, ou desviante,
do padrão social hegemônico de normalidade.
As origens
da perspectiva patológica da surdez se encontram já na antiguidade
(Capovilla, 2001: 1480-1). Por séculos,
desenvolveu-se a crença de que o indivíduo surdo não
seria educável. Aristóteles afirmava que todo o processo
de aprendizagem se dava pela audição. Na Idade Média,
acreditava-se que os surdos não poderiam se salvar, uma vez que
não podiam ouvir a palavra de Cristo. Grandes filósofos como
Kant e Schopenhauer afirmaram que o surdo seria incapaz de exercer o raciocínio
e fazer abstrações. Tais visões se fortaleceram na
era moderna através de uma filosofia educacional que preconizava
a oralização e o abandono da língua de sinais como
único meio de promover a integração do surdo na sociedade.
Nas
últimas décadas, porém, tem sido questionado o fato
de a defasagem na formação de muitos indivíduos surdos
ser acarretada pela surdez em si. Levantando esse questionamento, Wilcox
(1994) afirma que a surdez pode ser
explicada sob dois ângulos distintos. Numa ótica patológica,
o surdo é classificado como um ouvinte deficiente; o cerne dos problemas
enfrentados em sua vida é físico, está dentro do indivíduo;
e o objetivo principal da educação é remediar esse
problema físico da melhor forma possível (i.e. fazendo uso
de próteses, cirurgias ou submetendo-o a um treinamento de oralização),
buscando adaptar o indivíduo surdo ao mundo ouvinte. Numa ótica
sociológica, no entanto, o surdo não é um deficiente,
mas uma pessoa que tem uma forma de ver o mundo distinta da sociedade majoritária;
os problemas enfrentados em sua vida não são físicos
e intrínsecos ao indivíduo, mas de natureza política
e relacional, pois residem precisamente no ponto de contato do indivíduo
com uma sociedade despreparada para recebê-lo; nesse sentido, o objetivo
principal da educação é o de estruturar-se para receber
o surdo adequadamente dentro das particularidades que ele apresenta, estimulando-o
ao máximo em suas potencialidades. Assim, Wilcox afirma:
“Se aceitarmos a visão
patológica da surdez, e também acreditarmos que o conhecimento
é externo ao indivíduo, então será natural
atribuir a condição física do aluno surdo como sendo
a fonte de suas dificuldades ... Entretanto, se acreditarmos que a surdez
pode capacitar o indivíduo para uma visão de mundo diferente
e que o conhecimento é construído ativamente, então
poderemos esperar que as pessoas surdas venham a apresentar um entendimento
de mundo diferente daquele apresentado pelas pessoas ouvintes” (p. 110).
O fato de a sociedade majoritária
tratar a surdez como patologia traz algumas implicações para
a busca de reconhecimento da identidade surda que precisam ser consideradas.
Em nossa sociedade, grupos minoritários com profundas diferenças
lingüísticas sempre coincidem com minorias imigrantes, isto
é, estrangeiros cujo status lingüístico e identitário
diferenciado é reconhecido, embora o fato de pertencerem a outro
povo ou nação possa vir a ser fonte de discriminação.
Frente aos surdos, no entanto, o olhar discriminatório da sociedade
majoritária assume uma perspectiva distinta. Não há,
nem nunca houve, qualquer polêmica quanto ao fato de os surdos nascidos
no Brasil serem considerados membros da nação brasileira,
tal como qualquer outro cidadão ouvinte nascido aqui. Embora isso
pareça constituir-se numa vantagem, o problema acarretado por tais
circunstâncias não é menor: não somente a língua
e cultura surdas carecem de um status igualitário frente à
sociedade ouvinte; elas sequer são reconhecidas em sua diferença.
Nesse sentido, é interessante
traçar um paralelo entre os surdos e os homossexuais. Não
é coincidência o fato de ambos os grupos serem vistos como
patologias pela sociedade majoritária, afinal de contas, tanto surdos
como homossexuais nascem em famílias dentro das quais alguns aspectos
importantes de sua identidade pessoal são vistos de maneira muito
negativa. Tais aspectos, então, desde que não sejam suprimidos,
tenderão a ser compartilhados (i.e. construídos social e
politicamente) de modo tardio por esses indivíduos com outras pessoas
em condição similar. Quando isso acontece, e quando a identificação
com o grupo minoritário se torna mais uma fonte de fortalecimento
da auto-estima do que de conflito para o indivíduo, esses tenderão
a afastar-se de sua “família biológica”, aproximando-se mais
e mais de sua recém-adquirida “família cultural”.
É em face desses fatos que,
podemos dizer, o caminho para a constituição identitária
e cultural percorrido pelos surdos se mostra inverso àquele percorrido
por outras minorias lingüísticas. Esses últimos nascem
imersos numa cultura distinta da majoritária e, com o contato cultural
tardio, movem-se (ou podem mover-se) da “periferia” cultural trazida do
berço em direção ao “centro”; os surdos nascem imersos
na cultura majoritária e, com o contato tardio com a comunidade
surda e o aprendizado da língua de sinais, movem-se (ou tendem a
mover-se) do “centro” cultural ouvinte em direção à
“periferia”. No que diz respeito à luta pela emancipação
social, as minorias imigrantes lutam para receber igual consideração
e, desse modo, serem respeitadas em sua diferença; os surdos lutam
primeiro para serem reconhecidos como diferentes, para somente então,
alcançarem a consideração e o respeito que lhes é
devido
.
Um segundo diferencial no sentido
da tradição trazida pelos surdos se refere aos aspectos que
a constituem e que a distinguem das tradições presentes na
sociedade majoritária. De maneira geral, parece claro até
mesmo para aqueles que convivem com surdos diariamente que, na grande maioria
dos aspectos, tais como hábitos alimentares, vestuário, formas
de lazer, crenças religiosas, entre outros, os surdos pouco ou nada
se diferenciam da cultura ouvinte hegemônica – não mais do
que qualquer indivíduo ouvinte poderia se diferenciar dela. Tal
questão costuma ser levantada por aqueles que consideram a idéia
de uma identidade ou cultura surda superestimada. Por outro lado, um diferencial
marcante e incontestável dessa tradição é a
língua de sinais utilizada pela comunidade surda e as formas de
comunicação particulares da interação sinalizada
que decorrem, em grande parte, dessa diferença lingüística.
Os críticos que apontam essa
limitação na perspectiva de uma tradição surda
parecem não se dar conta do peso que a diferença lingüística
possui na construção de diferentes identidades. Afinal de
contas, é também um fato empírico que os surdos, assim
como os indivíduos de vários grupos minoritários,
revelam uma forte tendência a conviver mais entre si. Sendo assim,
podemos pressupor também para o caso dos surdos que esse agrupamento
deva ser resultado de uma identificação maior que sentem
em relação aos membros de sua comunidade através de
um ou mais aspectos compartilhados pelo grupo. Se os aspectos geradores
dessa identificação parecem estar praticamente restritos
ao elemento lingüístico nesse caso, isso não invalida
a idéia de que o grupo também deva construir coletivamente
a sua própria tradição; apenas torna essa tradição
singular tendo em vista as circunstâncias sociais em que a comunidade
surda se constitui e se estabelece.
De fato, diferentemente do que a
sociedade ouvinte pensa, o quanto uma pessoa se vê e é vista
por outros surdos como membro ou não da comunidade não depende
tanto do grau de sua perda auditiva. Wilcox & Wilcox (1997: 65-6),
referindo-se aos estudos de Baker-Shenk e Cokely (1980),
apontam que são quatro os critérios principais relacionados
a essa identificação: o critério lingüístico
(i.e. o fato de a pessoa ter uma boa proficiência na língua
de sinais do país); o critério social (i.e. o fato de a pessoa
conviver com membros da comunidade cotidianamente, estabelecendo relações
sociais, afetivas, profissionais etc); o critério político
(i.e. o fato de a pessoa participar da luta política da comunidade
pela conquista de direitos sociais indiscriminadamente restritos aos ouvintes)
e o critério audiológico (i.e. o fato de a pessoa possuir
uma perda auditiva em algum grau).
Estabelecer
o fator lingüístico como o elemento identitário primordial
para a constituição da comunidade surda e da tradição
cultural que ela cultiva não parece ser, de fato, um exagero. Tanto
o critério social quanto o político, por exemplo, parecem
tomar o critério lingüístico como pressuposto. A convivência
na comunidade surda, por exemplo, exige a habilidade para efetivamente
participar de suas redes de interação, o que só pode
ser realizado por pessoas proficientes em libras. Assim, quanto maior a
limitação lingüística, maior a restrição
de participação na vida social dos surdos. Igualmente, a
vida política da comunidade surda está intimamente ligada
ao histórico de discriminação lingüística
que o grupo tem continuamente experimentado nos mais diversos âmbitos
sociais – família, educação, saúde, entretenimento
etc. – e a luta pelo reconhecimento lingüístico com o fim de
superação dessa situação discriminatória.
De fato,
a própria vivência junto à comunidade surda mostra
que existe uma hierarquia desses critérios. Muitos intérpretes
ouvintes são tão fluentes em libras e tão envolvidos
na vida social e política da comunidade que se vêem e são
vistos como totalmente integrados ao mundo surdo. Por outro lado, muitas
pessoas com perdas auditivas que foram oralizadas na língua portuguesa
por toda a vida, que não puderam ou não quiseram aprender
a libras e que não se envolveram na vida social e política
dos surdos, encontram grandes dificuldades para se integrar à comunidade
– nos casos em que tais pessoas sentem alguma identificação
tardia com os surdos sinalizados, o que nem sempre acontece. Tais conflitos
de identidade só podem ser explicados considerando-se que o elemento
crucial de definição da comunidade, em seus próprios
termos e não sob o olhar estereotipado da sociedade majoritária,
não é a sua condição audiológica, representada
pela metáfora do silêncio, mas a condição lingüística.
Nesse sentido, fica evidente o quanto o reconhecimento lingüístico
pleno da libras, como uma língua natural marcantemente distinta
do português, deverá contribuir para o reconhecimento da própria
identidade surda.
Atitudes
sociais em relação à língua de sinais
Quando
consideramos todas as variantes lingüísticas utilizadas por
comunidades de fala – as variantes de uma nação, e na nação,
as de uma região, e numa região, as de grupos sociais, e
nesses grupos sociais, as individuais, e no nível individual, as
realizadas de acordo com as contingências imediatas da interação
social – concluímos que a noção do que constitui uma
língua se trata, na verdade, de uma grande abstração
lingüística. Mais do que isso, concluímos que o critério
lingüístico, em si, não basta, e que são fatores
em grande parte extrínsecos à linguagem que, em última
instância, determinam a existência ou não de uma língua
aos olhos da sociedade.
Fishman
(1972: 24-28) enumera, nesse sentido, quatro atitudes sociais que se mostram
fundamentais para o reconhecimento de uma dada variante como língua:
historicidade (i.e. a variante deve possuir uma trajetória histórica
associada a algum movimento nacional ou ideológico); vitalidade
(i.e. a variante deve ser empregada por um grupo social cotidianamente
nas mais diversas funções diárias); padronização
(i.e. a variante deve possuir uma relativa unidade num dado espaço
social, resultado de sua aceitação como uma variante de maior
prestígio); e autonomia (i.e. a variante deve ter um sistema lingüístico
que se mostre independente de outras línguas já reconhecidas).
A historicidade da libras, cultivada
pelo movimento dos surdos brasileiros em busca de sua afirmação,
tem sua origem na França, já na época moderna. Com
o objetivo de traçar essa historicidade, no entanto, é preciso
voltarmos nossa atenção para o campo educacional, principalmente
– e, no que concerne à historicidade das mais diversas línguas
de sinais do mundo, a necessidade desse direcionamento não é
de se surpreender. Isso porque - com raras exceções,
como por exemplo o caso da ilha de Martha’s Vineyard nos Estados Unidos,
ou da tribo de Urubu-Kaapor no Brasil
- é somente no meio escolar que as crianças e adolescentes
surdos encontram uma oportunidade de conviver cotidianamente com outros
surdos, possibilitando dessa maneira a emergência de redes de interação
em uma língua de sinais ,,impossíveis de serem estabelecidas
num ambiente familiar, onde cada surdo se encontra em geral isolado e incapaz
de desenvolver-se lingüisticamente, dada a sua inacessibilidade à
língua oral.
Foi através das anotações
pessoais de um educador, conhecido como abade de l’Epée, que se
tem hoje acesso a um dos primeiros registros da língua de sinais
utilizada pelos surdos franceses no século XVIII – língua
essa que, por razões históricas, acabou por se tornar a língua-mãe
da libras. L’Epée notou que, em situações naturais
de interação entre surdos, esses comunicavam-se sempre em
sinais. Tal observação levou-o a perceber a importância
de utilizar o canal gestual-visual na comunicação com seus
alunos surdos, ao invés do canal oral-auditivo enfatizado em outras
abordagens, como a oralista
.
As mesmas observações do abade, contudo, levaram-no também
a concluir que os sinais então utilizados pelos surdos, estruturados
de maneira distinta daqueles encontrados nas línguas orais, seriam
desconexos e agramaticais. L’Epée desenvolveu, com base nessa conclusão,
um sistema sinalizado que consistia no léxico da língua de
sinais francesa da época acrescido de sinais inventados referentes
a palavras gramaticais da língua oral francesa, como conjunções,
preposições, artigos e cópulas (Wilcox
& Wilcox, 1997).
Essa abordagem, que se difundiu
por boa parte da Europa e dos Estados Unidos (Lane
et al., 1996: 53), acabou chegando ao Brasil na segunda metade do século
XIX. No ano de 1855, um francês de nome Hernest Huet, herdeiro da
tradição educacional francesa iniciada por l’Epée,
seria convidado pelo imperador D. Pedro II para iniciar a educação
dos surdos brasileiros. O meio de ensino consistia basicamente no uso de
um alfabeto manual e de um sistema sinalizado derivado da língua
de sinais francesa (LSF). Como não havia escolas de surdos no Brasil,
Huet solicitou ao imperador a fundação de uma, e no dia 26
de setembro de 1857 seria então fundado, no Rio de Janeiro, o Instituto
de Educação de Surdos-Mudos – atual Instituto Nacional de
Educação de Surdos, o INES –, a primeira escola de surdos
do Brasil.
A carência
de pesquisas lingüístico-históricas sobre a libras não
nos permite saber se havia uma língua de sinais utilizada por surdos
no Brasil anteriormente à vinda de Huet ao país e à
inauguração da primeira escola de surdos no Rio de Janeiro
– embora seja plausível assumir que houvesse, em especial nos grandes
centros urbanos onde o potencial de agrupamento dos surdos era maior. Apesar
disso, no ano de 1910, a fundação da Associação
Brasileira de Surdos-Mudos aponta para o estabelecimento de um grupo cuja
língua e cultura iam, pouco a pouco, se firmando de maneira particular
em meio à sociedade brasileira ouvinte. A hipótese mais provável
é a de que – de maneira similar às propostas sobre a formação
da língua de sinais americana (ASL) nos Estados Unidos (Lane
et al, 1996) – a língua de sinais que hoje conhecemos como libras
seja resultado de um processo de crioulização de pidgins,
ou línguas de contato, emergentes nas antigas escolas de surdos,
cujas fontes seriam o sistema sinalizado derivado da LSF, que fora importado
na educação especial dos surdos brasileiros, e os sinais
caseiros próprios de cada aluno, trazidos de diferentes localidades
do país. Além disso, como já apontado, é plausível
a hipótese de que esse processo tenha sido também afetado
pela existência de alguma língua de sinais local, já
existente entre alguns dos surdos brasileiros anteriormente à vinda
de Huet.
Nas
décadas que se seguiram à fundação do INES,
os sucessivos diretores acabaram por demonstrar diferentes atitudes em
relação ao uso da língua de sinais na escola. Alguns
se mostraram mais abertos e admitiram seu uso irrestrito entre os
alunos, bem como entre esses e os professores. Outros diretores mostraram-se
mais conservadores e exigiram como meio de comunicação na
escola, por exemplo, apenas o uso do alfabeto manual, auxiliado por um
bloco de papel e caneta onde se pudessem escrever palavras e frases
.
Em 1910, contudo, a influência do Congresso de Milão acabaria
se estendendo também ao Brasil, repercutindo na proibição
definitiva do uso da libras nas escolas de surdos e implantando-se, a partir
de então, a abordagem oralista de ensino de maneira generalizada
.
Embora a consolidação
dessa abordagem oralista tenha representado uma barreira para o desenvolvimento
pleno da libras, a vitalidade dessa língua demonstrou uma
força incomum. Durante as muitas décadas em que foi estigmatizada,
desacreditada, desestimulada ou até mesmo proibida pela política
educacional oficial, a libras – assim como as demais línguas de
sinais do mundo – foi capaz de sobreviver porque havia surdos que resistiam,
insistindo em se comunicar uns com os outros em sua língua natural.
Ao concentrar os surdos em escolas especiais por todo o país, o
oralismo acabou por cultivar sementes que nunca pretendeu fazer florescer,
uma vez que deu margem para que os surdos utilizassem a escola como um
núcleo de agregação comunitária em que sua
língua e identidade pudessem ser construídas e cultivadas
– mesmo que, se necessário, às escondidas. Não fosse
a vitalidade da libras durante esse longo período, a força
com que a proibição da sinalização se impôs
em todo o país poderia perfeitamente ter como corolário o
seu desaparecimento definitivo no Brasil, como de fato já ocorreu
com várias línguas indígenas.
A notável vitalidade da libras
e das demais línguas de sinais do mundo parece se nutrir não
apenas do valor simbólico a ela atribuído por seus usuários
surdos, que a enxergam como um precioso patrimônio cultural, mas
também da própria condição audiológica
dos surdos. As línguas de sinais são as únicas línguas
que pessoas surdas podem aprender naturalmente, isto é, sem o intermédio
de instrução; são também as únicas línguas
que podem estruturar uma interação face-a-face da qual os
surdos possam participar de maneira plena, sem restrições
de acesso ao que se passa. Tais circunstâncias impelem os indivíduos
surdos a se aterem à língua de sinais a qualquer custo e
confere força simbólica ainda maior a essa língua.
De fato, as histórias de vida de surdos brasileiros freqüentemente
remetem ao momento em que viram a libras pela primeira vez como um momento
único de fascínio e libertação; uma água
divisora em suas vidas (e.g. Leite,
2004).
A vitalidade das línguas
de sinais, então, acabou por impulsionar o seu processo de padronização,
bem como por dar início à conquista de sua autonomia.
Isso se deu quando, na segunda metade do século XX, a forma de comunicação
sinalizada que os surdos utilizavam a despeito de todas as discriminações
começou a chamar a atenção da comunidade científica,
o que resultou na publicação de uma série de estudos
acadêmicos sobre as línguas de sinais. O passo inicial nesse
empreendimento foi dado pelo lingüista norte-americano William C.
Stokoe, através de seus estudos da ASL nos Estados Unidos, na década
de 60. Sua principal contribuição foi a publicação
do Dictionary of American Sign Language – em parceria com Dorothy
Casterline e Carl Croneberg – livro que oferecia uma análise descritiva
da ASL dentro do modelo estruturalista da lingüística de sua
época, além de trazer um olhar sobre a surdez de um ponto
de vista social e não mais patológico.
Esse
estudo abriu as portas para uma rica área de conhecimento ainda
não explorada. Nas décadas subseqüentes, pesquisas relacionadas
com as diferentes línguas de sinais espalhadas pelo mundo aumentaram
significativamente, principalmente nos países mais desenvolvidos
da Europa e da América do Norte. A publicação de novos
dicionários e gramáticas, primeiro com a ASL e mais tarde
com outras línguas de sinais no mundo, conferia cada vez mais prestígio
a essas línguas, que progressivamente passavam a ser vistas como
línguas naturais, com autonomia não somente em relação
às línguas orais, mas também em relação
umas às outras.
Um trabalho
decisivo, nesse sentido, foi a pesquisa desenvolvida por Klima
e Bellugi (1979). O livro The Signs of Language viria consolidar
a descoberta de Stokoe de que línguas de sinais como a ASL estavam
estruturadas de acordo com os mesmos pilares das línguas naturais
orais: a arbitrariedade/convencionalidade do signo e a dupla articulação.
Klima e Bellugi mostraram que a modalidade gestual-visual impunha diferenças
marcantes na estrutura fonológica e morfossintática das línguas
de sinais, e que a aparente ausência de gramática nessas línguas
não passava de uma incompreensão quanto aos seus mecanismos
gramaticais peculiares. As línguas de sinais, comumente tidas como
línguas artificiais, inventadas e baseadas nas línguas orais,
ganharam a partir de então um forte impulso para alcançar
sua autonomia enquanto sistemas lingüísticos independentes
desenvolvidos naturalmente.
No Brasil,
a ampliação da padronização e a conquista da
autonomia da libras tiveram início mais recentemente, embora o atual
reconhecimento da libras aqui revele avanços muitas vezes não
vistos em países onde as pesquisas já estão bem mais
avançadas. Uma frente de pesquisa precursora no Brasil foram os
estudos conduzidos por e sob a coordenação de Lucinda Ferreira
Brito no Rio de Janeiro, a partir da década de 80 (e.g. Ferreira
Brito, 1984;
1988;
1990;
1995).A
partir daí, os estudos lingüísticos voltados para a
libras ampliaram-se progressivamente e hoje caracterizam um campo em grande
expansão.
A conquista
de autonomia de línguas que foram por tanto tempo estigmatizadas,
contudo, é lenta e gradual, e as repercussões de todas essas
pesquisas nunca se dão de maneira plena ou imediata nos âmbitos
sociais que estão além da academia ou mesmo do campo de estudos
lingüísticos. Na educação, por exemplo, o primeiro
redirecionamento na abordagem educacional de surdos que se seguiu a essas
pesquisas, a chamada abordagem da comunicação total, não
implicou ainda uma aceitação completa da língua de
sinais. De acordo com essa abordagem, o objetivo de desenvolver a língua
oral nos surdos poderia ser alcançado não apenas através
do treino intensivo dos alunos com a língua oral, como no oralismo,
mas por todos os recursos possíveis, inclusive os sinais. Em geral,
permitia-se nessa abordagem, desde a fala, passando por uma série
de sistemas artificiais de sinais baseados nas línguas orais, até
as línguas de sinais propriamente ditas. O objetivo era o de abrir
tantos canais de comunicação quantos fossem possíveis
na interação com os alunos surdos (Capovilla,
2001: 1482-3).
A grande
contribuição dessa abordagem, no entanto, não foi
a eficácia de sua aplicação, mas principalmente o
fato de tornar os profissionais envolvidos na educação de
surdos mais sensíveis à necessidade de se comunicar com seus
alunos por meio de sinalização. No âmbito prático,
na verdade, ficou evidente que esse avanço ainda estava muito aquém
do ideal. O crescente volume de pesquisas sobre a estrutura e o léxico
das línguas de sinais destacava cada vez mais a autonomia dessas
línguas, o que tornava mais e mais patente a incompatibilidade estrutural
e lexical entre as línguas orais e as línguas de sinais.
Tal constatação demonstrava ser inviável uma prática
típica da comunicação total, de empregar os sinais
concomitantemente à fala oral. Foi quando tais fatos começaram
a se tornar mais patentes, entre as décadas de 80 e 90, que se começou
a considerar mais seriamente a pertinência de uma política
de ensino bilíngüe para surdos.
Esse
quadro geral sobre a historicidade, vitalidade, padronização
e autonomia da libras constitui um retrato sociolingüístico
da comunidade surda bastante introdutório. Muitas pesquisas são
necessárias para aprofundar o nosso conhecimento sobre vários
dos aspectos que cercam a questão, tais como: o contexto sócio-histórico
em que a libras se originou e se consolidou; as influências de outras
línguas ou políticas educacionais sobre a gramática
da libras; as características gramaticais, lexicais e discursivas
da libras num recorte sincrônico; o repertório das variantes
que coexistem em diferentes círculos sociais no âmbito nacional,
entre outros vários aspectos. Somente com tais estudos, poderemos
ampliar nossas bases de reivindicação para uma inclusão
efetiva da libras na educação de surdos, através de
uma política de ensino que reconheça a legitimidade da língua
e identidade surdas de maneira plena.
O
caminho rumo a uma educação bilíngüe para surdos
As
promessas da educação bilíngüe
Pesquisas
têm evidenciado que a proposta de ensino bilíngüe para
minorias se mostra não somente a alternativa mais ética mas
também a mais eficaz no sentido de otimizar o desenvolvimento lingüístico,
cultural, cognitivo, psicológico e, conseqüentemente, o potencial
escolar de crianças de grupos minoritários, como é
o caso dos surdos. Embora pesquisas sobre o assunto ainda sejam escassas
no Brasil, diferentes modelos de educação bilíngüe
têm sido investigados nos locais em que eles têm sido experimentados
– os Estados Unidos sendo um dos principais locais –, revelando de maneira
consistente os benefícios que podem ser alcançados adotando-se
tal política para a educação de minorias
.
Antes
de trazer essas pesquisas para discussão, contudo, uma distinção
crucial deve ser feita sobre o contexto em que elas se inserem: a diferença
entre o chamado bilingüismo de elite e o bilingüismo
popular (Paulston, 1980). Sabemos
que nunca houve qualquer obstáculo político e educacional
para a promoção do bilingüismo para as classes média
e alta; pelo contrário, a opção pela aquisição
de uma segunda língua (L2) por pessoas desse grupo social
foi sempre vista com muito bons olhos pela sociedade majoritária.
Uma situação bastante diferente se coloca na situação
social de grupos minoritários. Para eles, os obstáculos políticos
e educacionais para a aceitação social de um ensino bilíngüe
colocam-se de maneira constante. E tal fato ocorre justamente num contexto
social em que, ao contrário do anterior, o bilingüismo não
é uma opção mas uma necessidade de sobrevivência,
uma vez que a língua da sociedade majoritária, fundamental
para o sucesso acadêmico e profissional, difere da primeira língua
utilizada pelo grupo (L1). È nessa última condição,
e não na primeira, que os surdos se encontram, daí a necessidade
de que as pesquisas aqui reportadas devam ser lidas num contexto social
de bilingüismo popular.
Baral
(1980) realizou um levantamento de pesquisas sobre os efeitos da mudança
lingüística a que os alunos de grupos minoritários são
submetidos em escolas monolíngües (i.e. abandono da L1 em favor
da L2), bem como sobre os efeitos da preservação da L1 dos
alunos em programas bilíngües. O levantamento – que envolveu
países tão diversos quanto Estados Unidos, México,
Peru, Paraguai, Suécia, Rússia, entre outros – reporta a
conclusão quase consensual de que a manutenção do
uso da L1 como meio de instrução tem um papel decisivo para
o sucesso escolar da criança. Ao mesmo tempo, o abandono da L1 pela
escola, substituindo-a pela língua majoritária, aponta para
resultados diametralmente opostos.
Sucesso acadêmico de crianças
em programas de imersão na L2 (i.e. programas em que a L2 é
utilizada exclusivamente) também é reportado mas - é
interessante notar - somente em situações em que as habilidades
comunicativas e escolares da criança na L1 já estão
consolidadas. É o caso, por exemplo, de crianças imigrantes
que ingressaram com idade bem mais avançada na escola do país-destino
e que já haviam passado por algum processo de escolarização
na L1 em seus países de origem; é o caso, ainda, de estudantes
das classes média e alta, também já escolarizados
na L1, que mais tarde buscaram escolas de imersão em L2 a fim de
intensificar a sua prática nessa língua – uma situação
típica do bilingüismo de elite. No caso de alunos de grupos
minoritários em fase inicial de escolarização, por
outro lado, a exclusividade no uso da L2 em programas de imersão
se dá sob condições bastante adversas: sem que o aluno
tenha quaisquer habilidades escolares, orais ou escritas, na L1; sem que
o professor seja um bilíngüe proficiente, capaz de entender
e atender às necessidades do aluno na L1; sem que os alunos venham
de um ambiente familiar em que a alfabetização seja valorizada;
e sem que a língua e cultura trazidas pelo aluno carreguem um status
não-deficitário
.
Desse modo, até mesmo nos casos em que os resultados de pesquisas
sobre programas de imersão se mostram positivos, a conclusão
levantada por Baral ainda se mostra consistente: tais programas só
são eficientes para grupos cuja L1 possui status social elevado;
raramente para minorias socialmente estigmatizadas e economicamente desprivilegiadas.
Cummins
(1981) ajuda a refinar a discussão sobre o papel da língua
materna na escolarização combatendo a idéia de que
o uso constante da L2 em casa seja benéfico ao progresso acadêmico
dos alunos – ou que, como diz o senso comum, quanto mais o aluno utilizar
a língua majoritária, mais rápido será o seu
aprendizado e o seu ajuste à cultura majoritária. Citando
uma série de pesquisas, o autor mostra que o progresso acadêmico
não está relacionado à quantidade de interação
na L2, mas fundamentalmente à qualidade da interação
experimentada pela criança com adultos, em qualquer língua
que seja. Quando os pais da criança não se sentem confortáveis
com a língua majoritária, por exemplo, seu eventual desejo
de comunicar-se com a criança nessa língua pode acabar se
mostrando prejudicial, e não benéfico, para o desenvolvimento
escolar de seu filho.
Krashen
(1982) traz como suporte para a proposta de ensino bilíngüe
a teoria por ele desenvolvida sobre aquisição de L2. Elaborada
de acordo com cinco hipóteses fundamentais (i.e. a hipótese
da aprendizagem-versus-aquisição; a hipótese da ordem
natural; a hipótese do monitoramento; a hipótese do input;
e a hipótese do filtro afetivo), a teoria ressalta o papel preponderante
da aquisição (inconsciente) da L1 sobre a aprendizagem formal
(consciente) da L2. Dentro do modelo, os únicos fatores que apontam
como variáveis determinantes para a aquisição de L2
são o input compreensível (i.e. exposição
a um uso da língua um pouco mais complexo do que aquele que o aluno
conhece, embora sempre de maneira sempre significativa) e o filtro afetivo
(i.e. a baixa ansiedade, elevada motivação e forte auto-estima
do aluno) (p. 62). A teoria de Krashen teve enorme repercussão no
campo de ensino de L2, pelo fato de ser uma das poucas teorias a ser alimentada
por dados empíricos de pesquisas.
De acordo com Krashen
(1981), é clara a implicação dessa teoria para o ensino
de minorias. Se todo estudante de línguas deve ser exposto a fontes
de input compreensível, conclui-se que isso não pode
ser conseguido simplesmente colocando-se a criança em idade escolar
para ouvir uma língua que ela não conhece – e que se apresenta
para ela como puro ruído. Ao contrário, deve-se oferecer
à criança instrução na língua nacional
através de aulas que empreguem metodologias de ensino de L2, onde
tanto o contexto da instrução quanto o nível lingüístico
do professor são trabalhados de modo a tornar o input sempre
significativo para o aluno. Isso não quer dizer que as matérias
curriculares devam ser postergadas para os anos mais avançados de
escolarização, esperando que o aluno tenha um bom domínio
da L2; significa, sim, que essas matérias devem ser ministradas
desde o início na própria L1 do aluno. Vendo o professor
utilizar uma língua que ele compreende e com a qual ele se identifica,
cresce a possibilidade de a ansiedade desse aluno ser minimizada e a sua
auto-estima fortalecida, o que contribuiria para aumentar sua motivação.
Além disso, o progressivo domínio das matérias acarretaria
um desenvolvimento da cognição e do conhecimento prévio
dessa criança que, em última instância, contribuiriam
para a aquisição da L2. Dando força às suas
hipóteses, Krashen traz dados de pesquisas empíricas de outros
pesquisadores que se mostram consistentes com tais predições.
Apesar
dessas evidências apontarem para a validade do ensino bilíngüe,
é preciso ter em mente que diferentes programas bilíngües
apresentam diferentes características e circunstâncias, aspectos
esses que precisam ser considerados em conjunto na avaliação
de cada um desses programas. Um desses aspectos, analisado por Cummins
(1998), refere-se aos diferentes tipos de ensino bilíngües.
O autor aponta, com base num levantamento de pesquisas, que muitas das
apreciações negativas sobre ensino bilíngüe na
literatura educacional se referem a programas bilíngües que
não buscam de fato desenvolver a L1 dos estudantes. Isso significa
que, mesmo admitindo a importância de se manter a L1 dos alunos como
meio de instrução no período inicial de escolarização
– evitando as conseqüências negativas da mudança lingüística
destacadas por Baral –, tais programas ainda aspiram ao monolingüismo
como meta final, atribuindo à L1 dos alunos um papel apenas transitório
e adaptativo.
Do ponto
de vista lingüístico, essa proposta de ensino bilíngüe,
chamada modelo bilíngüe de transição,
está fundamentada numa suposição sobre a aquisição
de duas línguas, que também é sustentada pelos programas
de imersão e que Cummins afirma ser contraditória aos dados
empíricos de pesquisas. Trata-se da crença de que o tempo
investido na L1 em nada contribua, ou até mesmo seja prejudicial,
atuando como obstáculo para a aquisição de proficiência
na L2, e que, por essa razão, a L1 deva ser abandonada tão
logo quanto possível. Contrapondo-se a essa idéia, Cummins
propõe o conceito de proficiência subjacente comum.
De acordo com esse conceito, desde que a instrução na língua
materna seja eficiente, a transferência de habilidades da L1 para
a L2 vai ocorrer, bastando apenas que o aluno seja suficientemente exposto
a essa L2 (na escola ou na comunidade) e que tenha motivação
para esse aprendizado (p. 3). Com base nessa conclusão, Cummins
propõe então um modelo bilíngüe de manutenção,
isto é, um ensino que invista na instrução da L1 de
maneira tão ou mais incisiva do que é investido na instrução
da L2 – proposta também favorecida por autores como Fishman
(1979), que se refere a esse tipo de programa como educação
bilíngüe completa.
Do ponto
de vista cognitivo, os argumentos de Cummins em favor da necessidade de
manutenção e desenvolvimento da L1 encontram suporte teórico
principalmente nos trabalhos dos psicolingüistas cognitivos. Segundo
Saville-Troike
(1991), a aquisição e o desenvolvimento da competência
na L1 facilita o processo de aquisição da L2 em parte por
equipar a criança com uma variedade de frames, roteiros e esquemas,
que permitem a ela inferir os significados de situações similares
em uma L2, mesmo que essa seja uma língua ainda desconhecida. Tais
frames,
roteiros e esquemas são representações abstratas do
conhecimento e se desenvolvem a partir de, e que são trazidos para,
os processos comunicativos interpessoais. Essas representações
são estruturadas a partir de situações recorrentes
(e.g. manipular objetos, ler um texto, ir a um restaurante etc) e envolvem
conhecimento de partes e relações, do cenário, da
identidade e função dos participantes, de seqüências
de atividades esperadas, de regras de interação e normas
de interpretação, entre outras. Quando os alunos começam
a aprender uma L2, eles nunca aprendem cada conceito a partir do zero;
eles os interpretam em termos dessas representações que já
possuem, fazendo eventuais ajustes a depender da novidade com que os novos
esquemas se apresentam a eles. Ao tornar as situações de
interação bem mais significativas, a experiência prévia
rica na L1 permite, então, uma otimização na aquisição
e no desenvolvimento da L2.
Do ponto de vista cultural, o ensino
bilíngüe de transição mais uma vez parece compartilhar
a visão de um programa de imersão: apenas a cultura majoritária
é que têm valor e que deve ser almejada ao final da escolarização.
Enquanto em programas de imersão essa meta é buscada por
meio da negação de qualquer papel à L1 na escolarização
dos alunos, no caso do ensino bilíngüe de transição
essa meta se reflete na atribuição de um papel meramente
instrumental à L1. Cummins (1981)
ressalta, nesse sentido, que uma das principais razões para o sucesso
de programas bilíngües é justamente o fato de valorizarem
a identidade dos alunos, buscando encorajá-los a ter orgulho de
sua língua e de sua bagagem cultural como bens em si. Essa valorização,
que as pesquisas têm demonstrado ser psicologicamente fundamental
para o sucesso escolar do aluno, só pode ser realizada em programas
bilíngües de manutenção, que acreditam na importância
de se preservar e desenvolver tanto a língua e cultura minoritária
quanto a majoritária, durante todo o período de formação.
Um outro aspecto também analisado
por Cummins (1981) que levou muitos programas
bilíngües a serem precipitadamente julgados fracassados refere-se
ao desconhecimento, por parte dos profissionais da escola, da diferença
entre proficiência comunicativa e acadêmica numa língua.
O primeiro tipo, que se caracteriza pela habilidade do falante de comunicar-se
em situações cotidianas de contato face-a-face, ocorre sempre
dentro dos chamados contextos ricos, em que a necessidade de elaboração
lingüística é minimizada pela riqueza de informações
contextuais do ambiente físico e social compartilhado. Já
o segundo tipo de proficiência lingüística, a acadêmica,
se caracteriza pela habilidade do falante de comunicar-se a respeito de
assuntos acadêmicos mais abstratos, tanto por meios orais quanto
escritos. Diferentemente do primeiro caso, esse uso da língua se
manifesta nos chamados contextos reduzidos, em que a ausência
de informações contextuais do ambiente físico e social
compartilhado exige do falante um alto grau de elaboração
lingüística para compreender e fazer-se compreender.
O desconhecimento a respeito da
distinção entre ambos os níveis de proficiência
fez com que fossem criadas expectativas não-realísticas em
relação a muitos programas bilíngües. Os educadores
esperavam que, tão logo a criança do grupo minoritário
adquirisse habilidade comunicativa na L2 – o que em geral ocorre após
cerca de 2 anos de contato com essa língua – ela já estaria
apta a alcançar bons resultados em atividades e avaliações
envolvendo habilidades acadêmicas. Tal meta raramente era atingida.
Para explicar isso, Cummins aponta dados de pesquisas que indicam um tempo
bastante maior – em geral, entre 5 e 7 anos de escolarização
– para que alunos de grupos minoritários consigam alcançar
o padrão normativo de nota/idade nas avaliações que
exigem habilidades acadêmicas em contexto reduzido na L2.
A despeito desse tempo maior de
maturação acadêmica na L2, pesquisas sobre bilingüismo
têm demonstrado que a proficiência em duas línguas pode,
com o passar do tempo, acarretar benefícios cognitivos para o indivíduo.
Hakuta (1990), por exemplo, aponta como
uma das evidências mais consistentes em seu levantamento de pesquisas
na área o fato de o bilingüismo estar positivamente associado
a uma maior flexibilidade cognitiva e consciência meta-lingüística.
O autor destaca a existência de estudos comparando crianças
monolíngües com crianças bilíngües, bem
como crianças bilíngües em diferentes graus de desenvolvimento,
mostrando que o bilingüismo, quando bem trabalhado, pode conduzir
a uma melhor performance da criança no que diz respeito a uma série
de habilidades cognitivas – embora ainda não se compreendam bem
os mecanismos, ou mesmo as condições particulares, que têm
conduzido a tais benefícios.
Experiências de ensino bilíngüe
com surdos também têm sido realizadas em alguns países.
Os primeiros a fazer uma mudança em direção ao ensino
bilíngüe para surdos foram os países escandinavos. Já
em 1980, a Suécia assumiria uma posição dianteira
em relação ao restante do mundo, reconhecendo a língua
de sinais sueca como língua oficial e nacional ao lado do sueco;
e, em 1983, adotando o bilingüismo como a política educacional
oficial para o ensino de surdos naquele país. Na Dinamarca, a conquista
definitiva do ensino bilíngüe só seria alcançada
dez anos mais tarde, em 1992, quando o ensino da língua de sinais
dinamarquesa foi introduzido como matéria oficial em todas as escolas
públicas de surdos. Adotando tais políticas, os países
dessa região já puderam demonstrar sinais de avanço
em relação aos demais no que se refere ao desempenho alcançado
pelos alunos surdos em sua escolarização. 