Circo-Teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade
circense no Brasil.
SILVA, Ermínia.
São Paulo, Editora Altana,
2007
434 p.
Por Luis Felipe Kojima Hirano
Ciências Sociais - USP
O diálogo
entre Antropologia e História, por vezes conflituoso, geralmente
rende resultados frutíferos. É, talvez, dentro desse diálogo,
que podemos encontrar uma das chaves de leitura possível do recém-lançado
livro Circo-Teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil
da historiadora Ermínia Silva. Resultado de uma pesquisa apresentada
como tese de doutorado ao departamento de História Social da Unicamp,
esse livro descreve de modo pormenorizado o processo de organização
e produção daquilo que ficou conhecido como circo-teatro,
nas décadas 1870 a 1910, tendo como fio-condutor a trajetória
do multi-artista Benjamim de Oliveira. O mergulho num extenso leque de
fontes como jornais, revistas, depoimentos, além da bibliografia
especializada, constitui um retrato rico das diversas relações
tecidas entre circenses e os diferentes campos de produção
cultural tais como a música, teatro, cinema e a crítica de
arte, trazendo uma nova perspectiva aos estudo sobre a dinâmica artística
em fins do século XIX e início do XX.
O pressuposto
da autora, tão atual quanto pertinente para se entender a dinâmica
cultural desse período, é que o circo, longe de uma entidade
fechada em suas tradições, conforma-se em sua formação
como espetáculo híbrido, agregando diversas modalidades artísticas.
Não foram raras, porém, as discussões em torno dos
elementos que as novas trupes incorporavam. Desde seu nascedouro, na Europa
no século XVIII, a adoção da comicidade falada nas
pantomimas e momices dos palhaços em companhias circenses causou
debates acirrados em favor daquilo que certos críticos e artistas
defendiam como "circo puro": apenas habilidades físicas e destreza
com animais, sem uso da palavra, eram válidas.
Mais
do que tomar partido nesse debate, a autora, compreende a arte circense
de modo ampliado, como fenômeno que percorreu e (ainda percorre),
durante a sua formação, o tenso diálogo entre a preservação
de suas tradições e a incorporação de novas
tecnologias. Nesse sentido, segundo a historiadora, "os circenses" devem
ser compreendidos como um grupo que articula "uma estrutura, a princípio
entendida como um núcleo fixo, com redes de atualização,
envolvendo matrizes e procedimentos em constante reelaboração
e ressignificação" (p. 25). É essa noção
flexível do métier circense que permite à autora perscrutar
a formação do circo de modo diverso, em suas mais variadas
relações com outros campos artísticos.
Por
meio de um breve histórico sobre o surgimento do circo, Ermínia
Silva, demonstra que as famílias circenses quando aportaram no Brasil,
em meados do século XIX, já carregavam em suas bagagens um
espetáculo múltiplo, com números eqüestres, acrobacia,
ginástica, teatro - cenas cômicas, operetas, pantomimas, variedades,
entre outros. Em solos brasileiros, ao mesmo tempo em que o circo preservava
a estrutura advinda da Europa, agregava e reinterpretava os novos elementos
locais.
É
nesse contexto, de início da arte circense no país, que um
negro nascido forro fugiu de sua cidade natal com Circo Sotero, transformando-se,
alguns anos depois, em um famoso ator, palhaço, cantor e instrumentista,
entre os maiores do Brasil. A trajetória de Benjamim de Oliveira,
mais do que fruto de uma genialidade, era expressão de uma educação
da prática circense denominado pela autora de processo de "formação/socialização/aprendizagem".
Nesse processo, crianças na mais tenra idade aprendiam as diversas
modalidades artísticas por meio da transmissão oral de práticas
e saberes. Sem desmerecer a grandiosidade de Benjamin, a historiadora,
demonstra, que trajetórias similares à dele foram inúmeras.
Caminhos
esses traçados não só por aqueles que nasciam nos
picadeiros, mas por pessoas sem tal tradição familiar, uma
vez que o trânsito entre circenses e não circenses no circo,
teatro, música, cinema, etc. era contínuo. Além de
Benjamin, que no início do século XX, já havia produzido
seis discos com modinhas e lundus e atuado no filme Os Guaranis,
havia também Eduardo das Neves compositor, cantor e palhaço,
que realizou turnês com o circo para divulgar sua música.
O picadeiro, ademais, era um grande divulgador das vogas culturais daquele
período e que em sua itinerância levava de um lugar para outro
as peças recém encenadas e as canções de grande
sucesso.
As relações
com as autoridades, empresários do ramo e críticos da época,
também eram laços importantes para as companhias de circo.
Malgrado os ataques frontais de alguns críticos, preocupados com
a formação de um teatro nacional e com o estímulo
à civilidade dos espectadores, alguns cronistas, como Arthur de
Azevedo, foram, aos poucos, cedendo aos encantos da teatralidade circense.
Azevedo, que antes o criticara, faria grandes elogios a Benjamin. Como
era de se esperar, este e outros críticos tinham um bom argumento
para as idas ao circo: diziam eles que Benjamim e seus colegas não
mais atuavam como palhaços, mas como verdadeiros atores de um "teatro
digno". Informação, porém, que parece não proceder,
pois Benjamim continuaria com suas momices até mais ou menos o decênio
de 1930. Enfim, como se diz, "a história é feita de muitos
esquecimentos". Afirmação mais do que apropriada quando se
trata da história do circo, silenciada em muitos casos.
Famigerado
também é o episódio de Marechal Floriano Peixoto que,
apaixonado pela comicidade circense, ao que parece contribuiu com o Circo
Spinelli, onde Benjamim era responsável por toda direção
artística. Inclusive, um de seus filhos era ginasta e atleta deste
circo. Cartazes da época anunciavam a grande atração:
um homem hercúleo enfrentaria feras enormes. Seu nome: "José
Floriano Peixoto, filho do Marechal de Ferro"(p.135).
São
muitas as histórias que se cruzam nesse livro, demonstrando que
dicotomias tais como popular/erudito ou tradicional/moderno fazem pouco
sentido frente a uma pesquisa minuciosa que descreve os atores sociais
indo de um pólo a outro ou permanecendo em muitos, na complexa dinâmica
cultural da época. Ao contrário do que se imagina, o circo
não era uma entidade fechada, tampouco exclusiva das camadas populares.
Como se vê nesse livro, havia um diálogo intenso entre os
vários campos artísticos, e seu público era vasto
e heterogêneo. Assim, as próprias categorias de circo e artista
circense devem ser relativizadas, no entender da autora.
Em tempos
nos quais as noções de processo e rede se tornam privilegiadas
na análise antropológica, a leitura deste livro pode trazer
muitos insights para se pensar não apenas o circo mas, também,
outras manifestações artísticas na atualidade. A voga
do circo nos últimos tempos, com vinda ao Brasil do aclamado Cirque
du Soleil, o surgimento de inúmeras escolas de circo, a formação
de trupes de artistas provenientes das mais diferentes tradições
e o uso da circoterapia no ambiente de trabalho, entre outras manifestações
que expressam a "teatralidade circense" (para utilizar o feliz conceito
de Ermínia Silva), trazem à tona diversas questões
acerca das transformações que o circo, o teatro, a dança
e outras artes vêm sofrendo. Questões essas que contribuem
para a reflexão sobre as redes que articulam os diferentes ramos
artísticos com a imprensa, com o governo e a iniciativa privada.
Enfim, um olhar atento ao passado permite uma perspectiva renovada desse
imenso campo da produção cultural em nossos dias.
Por
último, vale destacar aspectos da bela edição do livro,
com ilustrações raras dos artistas circenses, além
de várias reproduções das propagandas em jornais que
divulgavam os espetáculos. Há, também, no final do
livro, um extenso catálogo com as peças encenadas nos circos
entre 1834 a 1912, servindo de fonte para outras pesquisas. Convém
sugerir, ainda, para aqueles que se interessam pelo tema, o website Pindorama
Circus , coordenado pela própria autora do livro. Nele há
um banco de dados que disponibiliza uma série de artigos sobre circo,
além da tese de mestrado de Erminia Silva, O circo: sua arte
e seus saberes, na integra.
Webgrafia:
Pindorama
Circus
Bibliografia:
SILVA, Erminia
O
circo: sua arte e seus saberes – O circo no Brasil do final do século
XIX a meados do XX. Tese (Mestrado em História Social) Programa
de Pós-Graduação em História/UNICAMP, Campinas,
1996.