Ano 2, Versão 2.0, fevereiro de 2008 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

O samba na “quebrada” do  Bexiga  e do Parque Peruche
 
Depoimentos como estes evidenciam uma profunda conexão com o entorno.Além do que, existe uma relação afetiva entre as pessoas, capaz de gerar identificações e sentimentos de alegria. 
Diferentemente do “pedaço”, onde há uma busca pelos iguais, a “mancha” oferece combinações não esperadas, dando a oportunidade para aqueles que não são do “pedaço” interagir com os que são. Além disso, propiciam uma multiplicidade de relações entre os atores sociais e seus equipamentos, edificações e vias de acesso; abrindo a “quebrada” do Parque Peruche para os que são “de fora”.

A “mancha” aqui exposta é formada pelas escolas de samba Unidos do Peruche, Império de Casa Verde e Morro da Casa Verde. Fisicamente próximas uma das outras, as três escolas de samba se complementam com o mesmo efeito; transformando-se em um ponto de referência físico, visível e público para um número mais amplo de usuários (Magnani, 1988). Por conseguinte, atraem sem discriminação aqueles que são “de fora”.

No interior da “mancha” um complexo movimento se dá em função das especificidades de cada uma das escolas de samba. Para o olhar daqueles que são “de fora”, tudo é samba e a presença de novos freqüentadores depende muito da classificação obtida no último carnaval. 

Na Unidos do Peruche, que é a escola mais tradicional da “mancha”, seu público interno é formado por indivíduos que buscam suas origens, que fazem parte do “pedaço” há muito tempo e por isso trazem em seus sentimentos algo de “ancestral”. Ou seja, seus familiares fizeram ou fazem parte da construção do nome da escola, projetando-a para o que é hoje. É uma escola com 50 anos de existência, e por essa razão, muitos sambistas antigos se sentem superiores por ter consigo um passado que lhes diz respeito; relacionado à história de suas próprias vidas.

A Morro da Casa Verde, apesar de também ser querida pelos moradores do Parque Peruche, não possui uma quadra, mas apenas uma sede. Seus ensaios acontecem nas ruas do “pedaço” e talvez por esta razão tenha poucos participantes. Pelo fato de não ser concorrente direta da Unidos do Peruche por estar há muito tempo em grupos diferentes no desfile carnavalesco, tem nos seus desfiles e seus ensaios (que são em dias não coincidentes com a Unidos do Peruche) a participação de grande número de perucheanos. Em termos econômicos, o Morro da Casa Verde é o “primo pobre” da “mancha”, utilizando-se de uma escola municipal situada dentro do Parque Peruche para a realização de seus ensaios em dias de chuva. 

Por outro lado, a Império de Casa Verde é a caçula da “mancha” e sua fundação se deu através de uma dissidência com a Unidos do Peruche. Com apenas doze anos de existência, é formada por um público mais jovem em comparação com as outras duas e como toda irmã caçula, é “invejada” pelas irmãs mais velhas. Muitos da “quebrada” do Parque Peruche dizem que “é uma escola de samba nova e como todo produto novo possui prazo de validade”. Apesar de ter sido campeã do carnaval do Grupo Especial em 2005 e 2006 e possuir maior capacidade de investimentos por razões já destacadas anteriormente, a Unidos do Peruche e a Morro da Casa Verde continuam tendo destaque entre os moradores do Parque Peruche. 

Mesmo com todas essas peculiaridades das escolas de samba citadas, elas se reconhecem e se respeitam. Na lógica interna do “pedaço”, a “mancha” é bem demarcada por essas peculiaridades, embora para os de “fora” do “pedaço”, trata-se apenas de uma área com concentração de escolas de samba que servem ao lazer e ao espetáculo. 

A “quebrada” do samba evidencia como um olhar “de perto e de dentro” permite desfazer a impressão de que a cidade produz apenas o isolamento do indivíduo, a fragmentação, a desordem, contrapondo-se os “de longe” aos “de fora”; sem excluí-los.

Já foi anteriormente colocada a importância, principalmente do futebol, na constituição da “quebrada” do samba. Também já foi comentado aqui que com o crescimento desordenado dessa área, muitos espaços destinados à prática do futebol cederam espaço à ocupação com interesses residencial e comercial. Esses espaços acabaram por se concentrar nos limites da “mancha” e hoje constituem áreas de parada para um público eclético. 

Quem joga futebol e freqüenta esses espaços não é necessariamente o público do “pedaço”. O futebol permite o encontro dos diferentes, pois times chegam de todas as partes de São Paulo para jogar com o pessoal da “quebrada” do samba. Um exemplo clássico é o do Grêmio Esportivo Cruz da Esperança, que tem dois ex-jogadores muito famosos como diretores. Este fato atrai pessoas de vários bairros da cidade e dos mais diferentes segmentos sociais, fomentando um “circuito” que abre a possibilidade do “pedaço” sair de seu âmbito particular e conviver com desconhecidos. O “circuito” do futebol une os bares, as escolas de samba e os campos de futebol em uma série de possibilidades para o novo. Aquilo que aparentemente nada tem em comum, revela-se reconhecido pelos seus usuários

Muitas vezes um time que chega na “quebrada” é composto somente por empresários, ou por funcionários de uma churrascaria, ou mesmo por malandros de outra “quebrada”. Assim, muitas trocas vão se realizando nestes encontros e inevitavelmente novos convites serão feitos. 
 
 
 

O samba na “quebrada” do Bexiga
 
 

“Quem nunca viu o samba amanhecer
 Vai no Bexiga pra ver, vai no Bexiga pra ver. 
O samba não levanta mais poeira
Asfalto hoje cobriu o nosso chão
Lembrança eu tenho da Saracura
Saudade tenho do nosso cordão
Bexiga hoje é só arranha-céu
e não se vê mais a luz da Lua
Mas o Vai-Vai está firme no pedaço
É tradição e o samba continua”. 
(“Tradição” de Geraldo Filme)


A música Tradição de Geraldo Filme expressa a expropriação que a urbanização trouxe aos espaços do samba no Bexiga, “engolindo” parcelas deles. Mas, como diz o compositor, a Vai-Vai continua firme no “pedaço”, pois é parte da tradição do samba paulistano

Como evidenciado anteriormente, existe uma forte vinculação entre a formação de escolas de samba e blocos carnavalescos, que se organizam a partir de times de futebol de várzea. Este é o caso do Cordão Carnavalesco Vai-Vai que “surgiu de um time de futebol de mesmo nome, que por sua vez foi fundado para rivalizar com outro time existente no bairro: o Cai-Cai” (Simson, 1989, p.96). 

Situada na Rua São Vicente n° 276, no bairro da Bela Vista, a escola de samba Vai - Vai é mais do que um local de encontro entre pessoas envolvidas com a dinâmica do samba, ela guarda a tradição do “pedaço”, conforme cantou Geraldo Filme em sua mais famosa composição. No momento em que começamos a freqüentar a escola, tínhamos como intento o entendimento da dinâmica do bairro a partir da análise da “mais visível” escola de samba da cidade. Pretendia-se percebê-la relacionando-a com o cotidiano das pessoas que ali residem e tecem suas relações sociais diárias. 

Em nosso exercício etnográfico, observamos alguns aspectos da organização administrativa, da conformação das alas, dos ensaios da bateria, da escolha do samba-enredo e formação das “parceradas” . Uma de nossas primeiras constatações foi a de que a escola apresenta uma dimensão “cosmopolita”, aberta não apenas ao Bexiga, mas até mesmo aos freqüentadores de outras escolas de samba e de outros bairros. Como explicação, há de se destacar o fácil acesso dado pela proximidade a corredores de ônibus e grandes avenidas, como a Brigadeiro Luís Antônio, a Nove de Julho e a Paulista. Pode-se ilustrar tal fato, com uma conversa que tivemos com um freqüentador, que dizia morar no “fim da zona leste” e passou a freqüentar a escola quando trabalhou na região; que segundo ele tem um acesso fácil. 
 
 

Obs: O tracejado em azul indica o hipotético limite do

Mapa do Sub-Distrito da Bela Vista – São Paulo
 Fonte: http://www.ajorb.com.br/

 O tracejado em azul indica o hipotético limite do 
bairro do Bexiga, que fica totalmente dentro do 
Sub-Distrito da Bela Vista

 
Tiramos muito proveito do período anterior ao carnaval de 2007, quando os ensaios se intensificaram e a Vai-Vai passou a atrair freqüentadores de diversas regiões da cidade, transformando-se em local para a diversão, além dos ensaios. 

Atraídos pelo samba, fonte de lazer nesta época do ano, muitos vão para a escola como se fossem para um bar ou casa noturna. Com tanta gente acrescida, há necessariamente a ocupação das ruas vizinhas da quadra para a realização de alguns eventos (como podemos verificar na foto abaixo, a quadra é pequena) . Nesses dias, a quadra fica aberta para a venda e exposição de fantasias, enquanto o samba enredo é entoado entusiasticamente na rua. 
 
 
 

Roda de Samba na Vai-Vai


 
 

Na ocasião em que ocorreu o último ensaio antes do carnaval, presenciamos a concessão de benção a todos os presentes na quadra, efetuada pelo padre da Igreja Nossa Senhora Achiropita. Segundo alguns entrevistados, isto serve de reforço da confiança para o desfile carnavalesco realizado no Sambódromo. Interessante ainda notar que no mês de maio ou casualmente em outros meses, é realizada a “Missa Afro” na Igreja Nossa Senhora Achiropita. Nesta oportunidade, os cantos católicos cedem lugar à música afro-brasileira e muitos elementos do catolicismo são amalgamados àqueles dos cultos afro-brasileiros. 
Há de se salientar a devoção dos sambistas aos protetores das religiões afro-brasileiras. Em algumas das escolas que visitamos soubemos da existência de altares dedicados aos orixás e divindades afro-brasileiras, além daqueles destinados aos santos católicos. Como os dedicados aos orixás ficam em lugares acessados apenas pelos “do pedaço”, os “de fora” somente visualizam os altares dos santos católicos, que em geral estão bem visíveis nas quadras das escolas de samba. Não conseguimos fotografar nenhum altar para os orixás, mas somente um dedicado a alguns santos da igreja católica. Interessante notar a presença de santos católicos ao lado de orixás em algumas das escolas de samba visitadas. Este fato comprova a tese de Rita Amaral de que “é sobretudo no estilo de vida festivo do povo de santo e dos freqüentadores das escolas de samba que se pode entender como esses espaços mantêm entre si uma relação de proximidade e sobreposição” (Amaral, 2002 [1992]). 
 
 
 

Altar dedicado aos santos católicos na Unidos do Peruche


 
 

Cabem algumas palavras sobre o acompanhamento da disputa dos sambas-enredos de 2007. Existem algumas estratégias para a divulgação do samba junto à comunidade, dentre elas a gravação de compact disc (cd) para distribuição nos ensaios. Esta prática tem como propósito divulgar as composições com a maior abrangência possível, atenta  à premiação  do samba vencedor na forma de dinheiro ou carro . Por outro lado, esta gravação demanda um investimento que visa o retorno financeiro posterior, proveniente da escolha do samba-enredo que representará a escola no desfile carnavalesco. Portanto, é muito comum compositores pedirem apoio a políticos e comerciantes para a confecção e impressão das letras das músicas, posteriormente distribuídas. Muitas vezes, o compositor contrata cantores profissionais que, além de dar maior qualidade à interpretação da composição concorrente, atraem pessoas para a quadra durante a fase de eliminatórias. 

Outra informação a respeito da escolha do samba-enredo nos foi dada por um de nossos entrevistados: “o samba que ganha é sempre o samba do presidente”. Neste sentido, nem sempre importa a qualidade do cd gravado ou da composição, pois o samba-enredo que irá vencer passa pelo crivo da diretoria. Com um detalhamento maior, percebe-se que também o carnavalesco tem um importante papel de orientação na escolha do tema do ano, na medida em que é o responsável pela confecção da sinopse (orientações gerais sobre o enredo do ano), podendo opinar a respeito das composições, dizendo se a mesma está “fora do tema” ou não

No caso da Vai-Vai, dá-se muito valor aos compositores que são “da casa” e que são reconhecidos pelos vínculos com a comunidade; sendo portadores dos mesmos símbolos, orientações e valores. Outra observação interessante nesta experiência foi a necessidade de que as composições se enquadrassem na sinopse fornecida pela diretoria da escola aos compositores. Ou seja, a letra é obrigada a se relacionar com o tema escolhido para o carnaval do ano. Cabe salientar que as entrevistas realizadas até o presente momento nos apontam que existe o interesse de captar recursos por meio de patrocínios e auxílios provenientes de pessoas e empresas escolhidas para serem homenageadas pelo samba enredo

Um detalhamento maior revela que a circulação de compositores entre as agremiações é intensa no período de eliminatórias dos sambas-enredo (agosto a outubro). Isto só não ocorre, em raras exceções, quando o compositor é exclusivo da sua agremiação (exemplo da Vai-Vai e da Camisa Verde). Os compositores que somente concorrem em sua agremiação são chamados de “compositores de ala fechada”. Ainda vale ressaltar que a circulação dos compositores só não é bem vista quando realizada entre as escolas do mesmo grupo (como as do Grupo Especial) ou quando realizada com escolas originadas a partir de torcidas de futebol

Com relação ao público freqüentador, podemos classificá-lo em “turistas” (aqueles que só buscam diversão e aparecem nos momentos que antecedem o desfile carnavalesco, nem sempre conhecendo as normas internas) e os “do pedaço”, que se conhecem e convivem durante o ano todo. Para estes, os eventos que ocorrem na escola durante o ano todo funcionam como oportunidades de lazer e de encontro; onde a quadra é o ponto de referência. 

 
No que se refere às normas, observamos a existência de uma organização administrativa que, da mesma forma que nas outras escolas de samba, integra uma hierarquia rigidamente estabelecida e respeitada pelos membros integrantes (na maioria, pessoas da comunidade). No topo, encontram-se o presidente e os diretores, seguidos pelos membros distribuídos nas alas e na bateria Assim, podemos pensar que no interior de uma escola de samba como a Vai-Vai existem diferentes formas de apropriação simbólica que ocorrem no espaço da quadra: o lugar para a diretoria, o lugar para os membros da velha guarda, o lugar para os integrantes da bateria, o lugar para os mais idosos, o lugar para os solteiros, o lugar para conversar, o lugar para tocar e não tocar etc. 
Embora a organização interna da escola revele esta hierarquia com relação ao uso e apropriação diferenciada, cada um dos integrantes ressalta a importância de seu trabalho para a escola, além de aparecer presentemente em seu discurso a idéia de trabalho coletivo com fins de vencer o desfile. 

Outro fato que nos chamou a atenção foi o respeito existente internamente, sendo banido qualquer ato preconceituoso. Busca-se tratar a todos como iguais, embora não se possa afirmar que todos sigam esta norma. Estas normas de convivência, constitutivas das relações sociais ali desenvolvidas, transparecem em frases como “aqui dentro todo mundo é respeitado e por isto eu te respeito” ou “não importa o que a pessoa faz lá fora, aqui dentro ela tem que andar na linha”.

Ao pretender estudar os eventos e atividades realizadas na Vai-Vai entre os meses de agosto a janeiro de 2007, tínhamos também como intenção captar o sentido comunitário dessas atividades, concebendo o samba como produto social. Mas, com o decorrer das visitações, algo novo se vislumbrou: a importância da quadra da escola para a comunidade do Bexiga e arredores. Isto nos permitiu enxergá-la não apenas como mero espaço físico, mas como um produto social repleto de significações. Nela são realizadas as reuniões da diretoria, as rodas de samba semanais e os vários eventos - que só poderiam acontecer da maneira que acontecem neste ambiente, visto que os encontros e trocas ali existentes provêm de uma sociabilidade derivada da combinação de vários fatores. Neste sentido, a quadra atua como fonte de relações sociais específicas, que são o produto de práticas sociais remotas e em constante diálogo com as atuais. 

Em outras palavras, a escola de samba foi observada como o resultado de uma rede emaranhada de relações sociais desenvolvidas historicamente pela comunidade local, onde o passado e o presente dialogam constantemente com a prática cotidiana da comunidade, promovendo novos vínculos e reafirmando antigos laços sociais. Nesse sentido, a quadra da escola reforça e promove vínculos de interação com o lugar e entre as pessoas, constituindo-se em uma forma simbólica espacial que contêm representações construídas pelas pessoas e que envolvem o passado, o presente e o futuro. 

A análise acima exposta deverá nos servir como pista orientadora para futuros exercícios etnográficos. Neste sentido, adotamos uma postura em que foi dado valor à interação pesquisador-pesquisado. A partir desta postura, pudemos articular as informações recolhidas de modo a perceber a interação existente entre as pessoas e o lugar. Sem a existência de um ambiente para o encontro, os vínculos existentes entre os membros da escola de samba não seriam tão estáveis e sólidos. Sem a existência de alguns “arranjos particulares” que somente existem no interior da quadra da escola, esta não passaria de uma construção material. Mais do que isto, ela possui uma “força aglutinadora” de pessoas, sendo um lugar de troca e encontros onde se instauram códigos entendíveis apenas pelos “do pedaço”, que se conhecem e reconhecem mutuamente. Tanto que em nossas primeiras visitas, fomos considerados estranhos pelos freqüentadores habituais da escola, que se aproximavam e perguntavam quem éramos e o que fazíamos. 

A partir das evidências constatadas, passamos a acreditar que a quadra poderia ser classificada como um “pedaço”, na medida em que este é definido por Magnani (1998). O “pedaço” da Vai-Vai é dependente dos vínculos mantidos e fortalecidos pelos encontros propiciados em diversos momentos do ano. Esse nosso recorte revelou algumas reflexões associadas ao “pedaço”. Dessa forma, configurou-se uma exploração da escola de samba Vai-Vai, sua organização, seus eventos, seus integrantes e algumas das suas normas de funcionamento. 

Como já exposto, nem todos os freqüentadores pertencem ao bairro da Bela Vista, devido à localização central da escola e sua referência para o samba paulistano. Além deste fato, um de nossos entrevistados afirmou que: 
 

A Vai-Vai é uma escola de samba universal, aberta, por mais que tenha a vinculação com o Bexiga. Com a construção das avenidas, valorização dos terrenos e remoção dos cortiços, muitos de seus componentes foram para a cidade inteira. (Tiarajú)


Embora uma boa parte dos freqüentadores seja proveniente de outros bairros, buscam um ponto de aglutinação para a construção e fortalecimento de seus laços. Mais do que alguns significados relevantes subjacentes à estrutura da escola de samba Vai-Vai, abriram-se novas possibilidades de estudo que não se faziam presentes inicialmente, delineando alguns novos rumos que podem ser tomados como orientadores de futuras idas a campo. 

Com a expansão da cidade, a noção de pertencimento sofreu modificações, visto que boa parte dos integrantes da Escola de Samba Vai-Vai, por exemplo, não mais residem no bairro da Bela Vista. Pelo que temos constatado isto também ocorre em outras escolas, de maneiras diferentes, pois em alguns bairros as pessoas podem ter se mudado menos e terem maiores vínculos com o lugar; em outras palavras, estarem mais territorializadas. Em virtude desta nova possibilidade que se vislumbra, torna-se necessária a busca de uma categoria que mostre que a noção de pertencimento extrapola a noção de bairro. Ou seja, que mostre que o pertencimento a uma escola de samba nem sempre constitui vínculo de moradia com  aquele bairro, mas insere-se num “circuito” no molde do conceito trabalho por José Guilherme  Magnani (2000). Esta categoria pode se mostrar adequada à análise das práticas de circulação associadas ao samba, por sua flexibilidade em ativar ou desativar as ações dos sambistas nas diferentes formas de apropriação territorial. Assim sendo, as práticas sociais ligadas ao samba demonstram ter enorme fluidez e mobilidade, além de serem realizadas sazonalmente por alguns ou de maneira regular por outros.
 
 

Notas

O presente trabalho é um exercício etnográfico fruto de reflexões realizadas nas disciplinas “Pesquisa de Campo em Antropologia” e “Dimensão Cultural das Práticas Urbanas”, ministradas pelo Prof. Dr. José Guilherme Cantor Magnani na Universidade de São Paulo.
Em visita recente à cidade do Rio de Janeiro, ao nos apresentarmos como pesquisadores do samba paulistano, ouvimos a seguinte frase: “Em São Paulo, cordão só se for de isolamento e bloco de concreto”. Interessante destacar que esta é uma provocação antiga feita pelos cariocas aos paulistas, que nos anos 70 gerou dezenas de respostas em matérias jornalísticas escritas pelo diretor de teatro Plínio Marcos. Em 1975, Plínio criou a Banda Bandalha, ainda existente com a denominação de Banda Redonda, atualmente organizada por Carlos Alves Costa. 
A designação mundo do samba visa englobar as atividades que têm o samba como o elemento central, dentre elas aquelas que acontecem nas escolas de samba, rodas de samba, bares e casas noturnas especializadas, projetos e movimentos de samba.
Artigo publicado na Folha de São Paulo de 16 de Fevereiro de 2007, intitulada “Vai-Vai enfrenta juízes do Carnaval 2007 e do Tribunal”, sob autoria de Alice Assunção. 
A escola de samba Tom Maior já teve seu endereço mudado por três vezes, exigindo uma “flexibilidade” maior dos membros de sua comunidade.
Como exemplo citamos o Cantinho da Peruche, que acontece todas as segundas-feiras à noite na Escola de Samba Unidos do Peruche. Mais do que uma roda de samba, trata-se de um momento de encontro entre os integrantes da escola e a ala de compositores, responsável pela preservação da tradição na escola. A faixa etária média dos freqüentadores está acima dos 40 anos, demonstrando a importância da “velha guarda” para a preservação da tradição na escola. Por cerca de três horas, as músicas de antigos compositores são tocadas e cantadas pelos participantes. 
Depoimento transcrito do documentário Samba à Paulista: Fragmentos de uma história esquecida. Escola de Comunicação e Artes – USP, São Paulo, 2006.
Entrevista cedida ao programa “Meu bairro minha escola” da Rede Globo de Televisão, exibido no dia 11 de fevereiro de 2007.
Em nossa pesquisa de campo nos deparamos com uma série de bares, mercearias e botecos, mas um deles merece referência. Conhecido como “Picanharia do Gaúcho” esse estabelecimento iniciou suas atividades vendendo picanhas argentinas e uruguaias em uma churrasqueira de latão colocada na calçada. Atualmente é um importante ponto de referência no meio da “mancha”. Curioso notar que, tal é a heterogeneidade de seus freqüentadores, que além do pessoal do “pedaço” encontramos gaúchos, nordestinos e pessoas das mais diversas regiões de São Paulo. No ano passado, cerca de quinze pessoas, entre funcionários e freqüentadores da “picanharia do gaúcho”, resolveram se organizar e participar do desfile carnavalesco em uma das escolas de samba da “mancha”. Temos aí uma representação clara de um novo padrão de troca, entre os funcionários da “picanharia” - na maioria gaúchos, e os freqüentadores – muitos deles moradores do Jardim São Bento, bairro situado dentro da “mancha” e formado por famílias de alta renda. Neste sentido, se estes moradores ficassem nas piscinas de seus condomínios, dificilmente teriam a oportunidade de ter contato com uma escola de samba, visto que antes deste acontecimento provavelmente jamais teriam ido a uma quadra de escola de samba. Interessante observar ainda que alguns deles se empolgaram tanto que convidaram amigos de Miami (EUA) para desfilarem no próximo ano.
Homenagem semelhante foi feita por Carlos Drummond de Andrade no “Poema à Nação Mangueirense”, enredo da Escola de Samba Mangueira no ano de 1987. 
As “parceradas” são junções de compositores para a elaboração do samba-enredo. Dá-se muito valor àqueles que são “da casa” e reconhecidos como tendo maiores vínculos com a comunidade; sendo portadores de mesmos símbolos, orientações e valores. 
A quadra tem aproximadamente 170 m² de área, compreendendo um salão maior, um mezanino e várias salas menores.
Um caso de samba-enredo que se tornou famoso e rendeu importante retorno ao compositor foi o da Escola de Samba Gaviões da Fiel no ano de 1995, que tinha como refrão: “Me dê a mão me abraça viaja comigo pro céu, sou gavião levando a taça, com muito orgulho pra delírio da Fiel”. Além de ter conduzido a escola à sua primeira vitória no Grupo Especial, este samba-enredo ficou amplamente conhecido. 
Em termos gerais, a sinopse expõe as orientações sobre o tema escolhido para o desfile carnavalesco para cada ano, especificamente
  Em algumas das escolas de samba que visitamos, como a Império de Casa Verde, notamos a existência de camarotes reservados à diretoria e “patronos” da escola que nela aplicam grandes montantes de capital). Paradoxalmente, pode-se dizer que se reproduz na dinâmica interna das escolas a estrutura de classes sociais segregadas e segregadoras.
  Apesar de fazerem parte do mundo do samba, as escolas de samba originadas de times de futebol Gaviões da Fiel, Mancha Verde, Camisa 12 e Torcida Jovem Santista apresentam uma lógica de torcida uniformizada e, muitas vezes, reproduzem no desfile os mesmos atos de agressão praticados nos estádios. Dentre as inúmeras ocorrências, destaca-se o carnaval de 2005, quando integrantes da Gaviões da Fiel deram as costas durante o desfile das escolas rivais, além de causarem transtornos no dia da apuração. Por conta destas atitudes, a partir de 2006 passaram a vigorar dois títulos no carnaval paulistano. Além do título do Grupo Especial, há agora o do Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas, vencido pela Mancha Verde em 2007. Observamos que  estas escolas não fazem questão de assumir o discurso de pertencimento a um bairro específico. 

Bibliografia

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On-line desde fevereiro de 2008.
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