Depoimentos
como estes evidenciam uma profunda conexão com o entorno.Além
do que, existe uma relação afetiva entre as pessoas, capaz
de gerar identificações e sentimentos de alegria.
Diferentemente
do “pedaço”, onde há uma busca pelos iguais, a “mancha” oferece
combinações não esperadas, dando a oportunidade para
aqueles que não são do “pedaço” interagir com os que
são. Além disso, propiciam uma multiplicidade de relações
entre os atores sociais e seus equipamentos, edificações
e vias de acesso; abrindo a “quebrada” do Parque Peruche para os que são
“de fora”.
A “mancha”
aqui exposta é formada pelas escolas de samba Unidos do Peruche,
Império de Casa Verde e Morro da Casa Verde. Fisicamente próximas
uma das outras, as três escolas de samba se complementam com o mesmo
efeito; transformando-se em um ponto de referência físico,
visível e público para um número mais amplo de usuários
(Magnani, 1988). Por conseguinte, atraem sem
discriminação aqueles que são “de fora”.
No interior
da “mancha” um complexo movimento se dá em função
das especificidades de cada uma das escolas de samba. Para o olhar daqueles
que são “de fora”, tudo é samba e a presença de novos
freqüentadores depende muito da classificação obtida
no último carnaval.
Na Unidos
do Peruche, que é a escola mais tradicional da “mancha”, seu público
interno é formado por indivíduos que buscam suas origens,
que fazem parte do “pedaço” há muito tempo e por isso trazem
em seus sentimentos algo de “ancestral”. Ou seja, seus familiares fizeram
ou fazem parte da construção do nome da escola, projetando-a
para o que é hoje. É uma escola com 50 anos de existência,
e por essa razão, muitos sambistas antigos se sentem superiores
por ter consigo um passado que lhes diz respeito; relacionado à
história de suas próprias vidas.
A Morro
da Casa Verde, apesar de também ser querida pelos moradores do Parque
Peruche, não possui uma quadra, mas apenas uma sede. Seus ensaios
acontecem nas ruas do “pedaço” e talvez por esta razão tenha
poucos participantes. Pelo fato de não ser concorrente direta da
Unidos do Peruche por estar há muito tempo em grupos diferentes
no desfile carnavalesco, tem nos seus desfiles e seus ensaios (que são
em dias não coincidentes com a Unidos do Peruche) a participação
de grande número de perucheanos. Em termos econômicos, o Morro
da Casa Verde é o “primo pobre” da “mancha”, utilizando-se de uma
escola municipal situada dentro do Parque Peruche para a realização
de seus ensaios em dias de chuva.
Por
outro lado, a Império de Casa Verde é a caçula da
“mancha” e sua fundação se deu através de uma dissidência
com a Unidos do Peruche. Com apenas doze anos de existência, é
formada por um público mais jovem em comparação com
as outras duas e como toda irmã caçula, é “invejada”
pelas irmãs mais velhas. Muitos da “quebrada” do Parque Peruche
dizem que “é uma escola de samba nova e como todo produto novo possui
prazo de validade”. Apesar de ter sido campeã do carnaval do Grupo
Especial em 2005 e 2006 e possuir maior capacidade de investimentos por
razões já destacadas anteriormente, a Unidos do Peruche e
a Morro da Casa Verde continuam tendo destaque entre os moradores do Parque
Peruche.
Mesmo
com todas essas peculiaridades das escolas de samba citadas, elas se reconhecem
e se respeitam. Na lógica interna do “pedaço”, a “mancha”
é bem demarcada por essas peculiaridades, embora para os de “fora”
do “pedaço”, trata-se apenas de uma área com concentração
de escolas de samba que servem ao lazer e ao espetáculo.
A “quebrada”
do samba evidencia como um olhar “de perto e de dentro” permite desfazer
a impressão de que a cidade produz apenas o isolamento do indivíduo,
a fragmentação, a desordem, contrapondo-se os “de longe”
aos “de fora”; sem excluí-los.
Já
foi anteriormente colocada a importância, principalmente do futebol,
na constituição da “quebrada” do samba. Também já
foi comentado aqui que com o crescimento desordenado dessa área,
muitos espaços destinados à prática do futebol cederam
espaço à ocupação com interesses residencial
e comercial. Esses espaços acabaram por se concentrar nos limites
da “mancha” e hoje constituem áreas de parada para um público
eclético.
Quem joga futebol e freqüenta
esses espaços não é necessariamente o público
do “pedaço”. O futebol permite o encontro dos diferentes, pois times
chegam de todas as partes de São Paulo para jogar com o pessoal
da “quebrada” do samba. Um exemplo clássico é o do Grêmio
Esportivo Cruz da Esperança, que tem dois ex-jogadores muito famosos
como diretores. Este fato atrai pessoas de vários bairros da cidade
e dos mais diferentes segmentos sociais, fomentando um “circuito” que abre
a possibilidade do “pedaço” sair de seu âmbito particular
e conviver com desconhecidos. O “circuito” do futebol une os bares, as
escolas de samba e os campos de futebol em uma série de possibilidades
para o novo. Aquilo que aparentemente nada tem em comum, revela-se reconhecido
pelos seus usuários
.
Muitas
vezes um time que chega na “quebrada” é composto somente por empresários,
ou por funcionários de uma churrascaria, ou mesmo por malandros
de outra “quebrada”. Assim, muitas trocas vão se realizando nestes
encontros e inevitavelmente novos convites serão feitos.
O
samba na “quebrada” do Bexiga
“Quem nunca viu o samba
amanhecer
Vai no Bexiga pra ver, vai
no Bexiga pra ver.
O samba não levanta mais
poeira
Asfalto hoje cobriu o nosso chão
Lembrança eu tenho da Saracura
Saudade tenho do nosso cordão
Bexiga hoje é só arranha-céu
e não se vê mais a
luz da Lua
Mas o Vai-Vai está firme
no pedaço
É tradição
e o samba continua”.
(“Tradição” de Geraldo
Filme)
A música Tradição
de Geraldo Filme expressa a expropriação que a urbanização
trouxe aos espaços do samba no Bexiga, “engolindo” parcelas deles.
Mas, como diz o compositor, a Vai-Vai continua firme no “pedaço”,
pois é parte da tradição do samba paulistano
.
Como
evidenciado anteriormente, existe uma forte vinculação entre
a formação de escolas de samba e blocos carnavalescos, que
se organizam a partir de times de futebol de várzea. Este é
o caso do Cordão Carnavalesco Vai-Vai que “surgiu de um time de
futebol de mesmo nome, que por sua vez foi fundado para rivalizar com outro
time existente no bairro: o Cai-Cai” (Simson, 1989,
p.96).
Situada
na Rua São Vicente n° 276, no bairro da Bela Vista, a escola
de samba Vai - Vai é mais do que um local de encontro entre pessoas
envolvidas com a dinâmica do samba, ela guarda a tradição
do “pedaço”, conforme cantou Geraldo Filme em sua mais famosa composição.
No momento em que começamos a freqüentar a escola, tínhamos
como intento o entendimento da dinâmica do bairro a partir da análise
da “mais visível” escola de samba da cidade. Pretendia-se percebê-la
relacionando-a com o cotidiano das pessoas que ali residem e tecem suas
relações sociais diárias.
Em nosso
exercício etnográfico, observamos alguns aspectos da organização
administrativa, da conformação das alas, dos ensaios da bateria,
da escolha do samba-enredo e formação das “parceradas”
. Uma de nossas primeiras constatações foi a de que a escola
apresenta uma dimensão “cosmopolita”, aberta não apenas ao
Bexiga, mas até mesmo aos freqüentadores de outras escolas
de samba e de outros bairros. Como explicação, há
de se destacar o fácil acesso dado pela proximidade a corredores
de ônibus e grandes avenidas, como a Brigadeiro Luís Antônio,
a Nove de Julho e a Paulista. Pode-se ilustrar tal fato, com uma conversa
que tivemos com um freqüentador, que dizia morar no “fim da zona leste”
e passou a freqüentar a escola quando trabalhou na região;
que segundo ele tem um acesso fácil.
Mapa do Sub-Distrito da Bela Vista
– São Paulo
Fonte: http://www.ajorb.com.br/
O
tracejado em azul indica o hipotético limite do
bairro do Bexiga, que fica totalmente
dentro do
Sub-Distrito da Bela Vista
Tiramos
muito proveito do período anterior ao carnaval de 2007, quando os
ensaios se intensificaram e a Vai-Vai passou a atrair freqüentadores
de diversas regiões da cidade, transformando-se em local para a
diversão, além dos ensaios.
Atraídos
pelo samba, fonte de lazer nesta época do ano, muitos vão
para a escola como se fossem para um bar ou casa noturna. Com tanta gente
acrescida, há necessariamente a ocupação das ruas
vizinhas da quadra para a realização de alguns eventos (como
podemos verificar na foto abaixo, a quadra é pequena)
. Nesses dias, a quadra fica aberta para a venda e exposição
de fantasias, enquanto o samba enredo é entoado entusiasticamente
na rua.
Roda de Samba na Vai-Vai
Na ocasião
em que ocorreu o último ensaio antes do carnaval, presenciamos a
concessão de benção a todos os presentes na quadra,
efetuada pelo padre da Igreja Nossa Senhora Achiropita. Segundo alguns
entrevistados, isto serve de reforço da confiança para o
desfile carnavalesco realizado no Sambódromo. Interessante ainda
notar que no mês de maio ou casualmente em outros meses, é
realizada a “Missa Afro” na Igreja Nossa Senhora Achiropita. Nesta oportunidade,
os cantos católicos cedem lugar à música afro-brasileira
e muitos elementos do catolicismo são amalgamados àqueles
dos cultos afro-brasileiros.
Há de se salientar a devoção
dos sambistas aos protetores das religiões afro-brasileiras. Em
algumas das escolas que visitamos soubemos da existência de altares
dedicados aos orixás e divindades afro-brasileiras, além
daqueles destinados aos santos católicos. Como os dedicados aos
orixás ficam em lugares acessados apenas pelos “do pedaço”,
os “de fora” somente visualizam os altares dos santos católicos,
que em geral estão bem visíveis nas quadras das escolas de
samba. Não conseguimos fotografar nenhum altar para os orixás,
mas somente um dedicado a alguns santos da igreja católica. Interessante
notar a presença de santos católicos ao lado de orixás
em algumas das escolas de samba visitadas. Este fato comprova a tese de
Rita Amaral de que “é sobretudo no estilo de vida festivo do
povo de santo e dos freqüentadores das escolas de samba que se pode
entender como esses espaços mantêm entre si uma relação
de proximidade e sobreposição” (Amaral,
2002 [1992]).
Altar dedicado aos santos católicos
na Unidos do Peruche
Cabem
algumas palavras sobre o acompanhamento da disputa dos sambas-enredos de
2007. Existem algumas estratégias para a divulgação
do samba junto à comunidade, dentre elas a gravação
de compact disc (cd) para distribuição nos ensaios. Esta
prática tem como propósito divulgar as composições
com a maior abrangência possível, atenta à premiação
do samba vencedor na forma de dinheiro ou carro
. Por outro lado, esta gravação demanda um investimento que
visa o retorno financeiro posterior, proveniente da escolha do samba-enredo
que representará a escola no desfile carnavalesco. Portanto, é
muito comum compositores pedirem apoio a políticos e comerciantes
para a confecção e impressão das letras das músicas,
posteriormente distribuídas. Muitas vezes, o compositor contrata
cantores profissionais que, além de dar maior qualidade à
interpretação da composição concorrente, atraem
pessoas para a quadra durante a fase de eliminatórias.
Outra
informação a respeito da escolha do samba-enredo nos foi
dada por um de nossos entrevistados: “o samba que ganha é sempre
o samba do presidente”. Neste sentido, nem sempre importa a qualidade do
cd gravado ou da composição, pois o samba-enredo que irá
vencer passa pelo crivo da diretoria. Com um detalhamento maior, percebe-se
que também o carnavalesco tem um importante papel de orientação
na escolha do tema do ano, na medida em que é o responsável
pela confecção da sinopse (orientações gerais
sobre o enredo do ano), podendo opinar a respeito das composições,
dizendo se a mesma está “fora do tema” ou não
.
No caso
da Vai-Vai, dá-se muito valor aos compositores que são “da
casa” e que são reconhecidos pelos vínculos com a comunidade;
sendo portadores dos mesmos símbolos, orientações
e valores. Outra observação interessante nesta experiência
foi a necessidade de que as composições se enquadrassem na
sinopse fornecida pela diretoria da escola aos compositores. Ou seja, a
letra é obrigada a se relacionar com o tema escolhido para o carnaval
do ano. Cabe salientar que as entrevistas realizadas até o presente
momento nos apontam que existe o interesse de captar recursos por meio
de patrocínios e auxílios provenientes de pessoas e empresas
escolhidas para serem homenageadas pelo samba enredo
.
Um detalhamento
maior revela que a circulação de compositores entre as agremiações
é intensa no período de eliminatórias dos sambas-enredo
(agosto a outubro). Isto só não ocorre, em raras exceções,
quando o compositor é exclusivo da sua agremiação
(exemplo da Vai-Vai e da Camisa Verde). Os compositores que somente concorrem
em sua agremiação são chamados de “compositores de
ala fechada”. Ainda vale ressaltar que a circulação dos compositores
só não é bem vista quando realizada entre as escolas
do mesmo grupo (como as do Grupo Especial) ou quando realizada com escolas
originadas a partir de torcidas de futebol
.
Com
relação ao público freqüentador, podemos classificá-lo
em “turistas” (aqueles que só buscam diversão e aparecem
nos momentos que antecedem o desfile carnavalesco, nem sempre conhecendo
as normas internas) e os “do pedaço”, que se conhecem e convivem
durante o ano todo. Para estes, os eventos que ocorrem na escola durante
o ano todo funcionam como oportunidades de lazer e de encontro; onde a
quadra é o ponto de referência.
No que se refere às normas,
observamos a existência de uma organização administrativa
que, da mesma forma que nas outras escolas de samba, integra uma hierarquia
rigidamente estabelecida e respeitada pelos membros integrantes (na maioria,
pessoas da comunidade). No topo, encontram-se o presidente e os diretores,
seguidos pelos membros distribuídos nas alas e na bateria Assim,
podemos pensar que no interior de uma escola de samba como a Vai-Vai existem
diferentes formas de apropriação simbólica que ocorrem
no espaço da quadra: o lugar para a diretoria, o lugar para os membros
da velha guarda, o lugar para os integrantes da bateria, o lugar para os
mais idosos, o lugar para os solteiros, o lugar para conversar, o lugar
para tocar e não tocar etc.
Embora
a organização interna da escola revele esta hierarquia com
relação ao uso e apropriação diferenciada,
cada um dos integrantes ressalta a importância de seu trabalho para
a escola, além de aparecer presentemente em seu discurso a idéia
de trabalho coletivo com fins de vencer o desfile.
Outro
fato que nos chamou a atenção foi o respeito existente internamente,
sendo banido qualquer ato preconceituoso. Busca-se tratar a todos como
iguais, embora não se possa afirmar que todos sigam esta norma.
Estas normas de convivência, constitutivas das relações
sociais ali desenvolvidas, transparecem em frases como “aqui dentro todo
mundo é respeitado e por isto eu te respeito” ou “não importa
o que a pessoa faz lá fora, aqui dentro ela tem que andar na linha”.
Ao pretender
estudar os eventos e atividades realizadas na Vai-Vai entre os meses de
agosto a janeiro de 2007, tínhamos também como intenção
captar o sentido comunitário dessas atividades, concebendo o samba
como produto social. Mas, com o decorrer das visitações,
algo novo se vislumbrou: a importância da quadra da escola para a
comunidade do Bexiga e arredores. Isto nos permitiu enxergá-la não
apenas como mero espaço físico, mas como um produto social
repleto de significações. Nela são realizadas as reuniões
da diretoria, as rodas de samba semanais e os vários eventos - que
só poderiam acontecer da maneira que acontecem neste ambiente, visto
que os encontros e trocas ali existentes provêm de uma sociabilidade
derivada da combinação de vários fatores. Neste sentido,
a quadra atua como fonte de relações sociais específicas,
que são o produto de práticas sociais remotas e em constante
diálogo com as atuais.
Em outras
palavras, a escola de samba foi observada como o resultado de uma rede
emaranhada de relações sociais desenvolvidas historicamente
pela comunidade local, onde o passado e o presente dialogam constantemente
com a prática cotidiana da comunidade, promovendo novos vínculos
e reafirmando antigos laços sociais. Nesse sentido, a quadra da
escola reforça e promove vínculos de interação
com o lugar e entre as pessoas, constituindo-se em uma forma simbólica
espacial que contêm representações construídas
pelas pessoas e que envolvem o passado, o presente e o futuro.
A análise
acima exposta deverá nos servir como pista orientadora para futuros
exercícios etnográficos. Neste sentido, adotamos uma postura
em que foi dado valor à interação pesquisador-pesquisado.
A partir desta postura, pudemos articular as informações
recolhidas de modo a perceber a interação existente entre
as pessoas e o lugar. Sem a existência de um ambiente para o encontro,
os vínculos existentes entre os membros da escola de samba não
seriam tão estáveis e sólidos. Sem a existência
de alguns “arranjos particulares” que somente existem no interior da quadra
da escola, esta não passaria de uma construção material.
Mais do que isto, ela possui uma “força aglutinadora” de pessoas,
sendo um lugar de troca e encontros onde se instauram códigos entendíveis
apenas pelos “do pedaço”, que se conhecem e reconhecem mutuamente.
Tanto que em nossas primeiras visitas, fomos considerados estranhos pelos
freqüentadores habituais da escola, que se aproximavam e perguntavam
quem éramos e o que fazíamos.
A partir
das evidências constatadas, passamos a acreditar que a quadra poderia
ser classificada como um “pedaço”, na medida em que este é
definido por Magnani (1998). O “pedaço” da Vai-Vai é dependente
dos vínculos mantidos e fortalecidos pelos encontros propiciados
em diversos momentos do ano. Esse nosso recorte revelou algumas reflexões
associadas ao “pedaço”. Dessa forma, configurou-se uma exploração
da escola de samba Vai-Vai, sua organização, seus eventos,
seus integrantes e algumas das suas normas de funcionamento.
Como
já exposto, nem todos os freqüentadores pertencem ao bairro
da Bela Vista, devido à localização central da escola
e sua referência para o samba paulistano. Além deste fato,
um de nossos entrevistados afirmou que:
A Vai-Vai é uma escola
de samba universal, aberta, por mais que tenha a vinculação
com o Bexiga. Com a construção das avenidas, valorização
dos terrenos e remoção dos cortiços, muitos de seus
componentes foram para a cidade inteira. (Tiarajú)
Embora uma boa parte dos freqüentadores
seja proveniente de outros bairros, buscam um ponto de aglutinação
para a construção e fortalecimento de seus laços.
Mais do que alguns significados relevantes subjacentes à estrutura
da escola de samba Vai-Vai, abriram-se novas possibilidades de estudo que
não se faziam presentes inicialmente, delineando alguns novos rumos
que podem ser tomados como orientadores de futuras idas a campo.
Com
a expansão da cidade, a noção de pertencimento sofreu
modificações, visto que boa parte dos integrantes da Escola
de Samba Vai-Vai, por exemplo, não mais residem no bairro da Bela
Vista. Pelo que temos constatado isto também ocorre em outras escolas,
de maneiras diferentes, pois em alguns bairros as pessoas podem ter se
mudado menos e terem maiores vínculos com o lugar; em outras palavras,
estarem mais territorializadas. Em virtude desta nova possibilidade que
se vislumbra, torna-se necessária a busca de uma categoria que mostre
que a noção de pertencimento extrapola a noção
de bairro. Ou seja, que mostre que o pertencimento a uma escola de samba
nem sempre constitui vínculo de moradia com aquele bairro,
mas insere-se num “circuito” no molde do conceito trabalho por José
Guilherme Magnani (2000). Esta categoria
pode se mostrar adequada à análise das práticas de
circulação associadas ao samba, por sua flexibilidade em
ativar ou desativar as ações dos sambistas nas diferentes
formas de apropriação territorial. Assim sendo, as práticas
sociais ligadas ao samba demonstram ter enorme fluidez e mobilidade, além
de serem realizadas sazonalmente por alguns ou de maneira regular por outros.
Notas
O presente trabalho é um exercício etnográfico fruto
de reflexões realizadas nas disciplinas “Pesquisa de Campo em Antropologia”
e “Dimensão Cultural das Práticas Urbanas”, ministradas pelo
Prof. Dr. José Guilherme Cantor Magnani na Universidade de São
Paulo.
Em visita recente à cidade do Rio de Janeiro, ao nos apresentarmos
como pesquisadores do samba paulistano, ouvimos a seguinte frase: “Em São
Paulo, cordão só se for de isolamento e bloco de concreto”.
Interessante destacar que esta é uma provocação antiga
feita pelos cariocas aos paulistas, que nos anos 70 gerou dezenas de respostas
em matérias jornalísticas escritas pelo diretor de teatro
Plínio Marcos. Em 1975, Plínio criou a Banda Bandalha, ainda
existente com a denominação de Banda Redonda, atualmente
organizada por Carlos Alves Costa.
A designação mundo do samba visa englobar as atividades que
têm o samba como o elemento central, dentre elas aquelas que acontecem
nas escolas de samba, rodas de samba, bares e casas noturnas especializadas,
projetos e movimentos de samba.
Artigo publicado na Folha de São Paulo de 16 de Fevereiro de 2007,
intitulada “Vai-Vai enfrenta juízes do Carnaval 2007 e do Tribunal”,
sob autoria de Alice Assunção.
A escola de samba Tom Maior já teve seu endereço mudado por
três vezes, exigindo uma “flexibilidade” maior dos membros de sua
comunidade.
Como exemplo citamos o Cantinho da Peruche, que acontece todas as segundas-feiras
à noite na Escola de Samba Unidos do Peruche. Mais do que uma roda
de samba, trata-se de um momento de encontro entre os integrantes da escola
e a ala de compositores, responsável pela preservação
da tradição na escola. A faixa etária média
dos freqüentadores está acima dos 40 anos, demonstrando a importância
da “velha guarda” para a preservação da tradição
na escola. Por cerca de três horas, as músicas de antigos
compositores são tocadas e cantadas pelos participantes.
Depoimento transcrito do documentário Samba à Paulista:
Fragmentos de uma história esquecida. Escola de Comunicação
e Artes – USP, São Paulo, 2006.
Entrevista cedida ao programa “Meu bairro minha escola” da Rede Globo de
Televisão, exibido no dia 11 de fevereiro de 2007.
Em nossa pesquisa de campo nos deparamos com uma série de bares,
mercearias e botecos, mas um deles merece referência. Conhecido como
“Picanharia do Gaúcho” esse estabelecimento iniciou suas atividades
vendendo picanhas argentinas e uruguaias em uma churrasqueira de latão
colocada na calçada. Atualmente é um importante ponto de
referência no meio da “mancha”. Curioso notar que, tal é a
heterogeneidade de seus freqüentadores, que além do pessoal
do “pedaço” encontramos gaúchos, nordestinos e pessoas das
mais diversas regiões de São Paulo. No ano passado, cerca
de quinze pessoas, entre funcionários e freqüentadores da “picanharia
do gaúcho”, resolveram se organizar e participar do desfile carnavalesco
em uma das escolas de samba da “mancha”. Temos aí uma representação
clara de um novo padrão de troca, entre os funcionários da
“picanharia” - na maioria gaúchos, e os freqüentadores – muitos
deles moradores do Jardim São Bento, bairro situado dentro da “mancha”
e formado por famílias de alta renda. Neste sentido, se estes moradores
ficassem nas piscinas de seus condomínios, dificilmente teriam a
oportunidade de ter contato com uma escola de samba, visto que antes deste
acontecimento provavelmente jamais teriam ido a uma quadra de escola de
samba. Interessante observar ainda que alguns deles se empolgaram tanto
que convidaram amigos de Miami (EUA) para desfilarem no próximo
ano.
Homenagem semelhante foi feita por Carlos Drummond de Andrade no “Poema
à Nação Mangueirense”, enredo da Escola de Samba Mangueira
no ano de 1987.
As “parceradas” são junções de compositores para a
elaboração do samba-enredo. Dá-se muito valor àqueles
que são “da casa” e reconhecidos como tendo maiores vínculos
com a comunidade; sendo portadores de mesmos símbolos, orientações
e valores.
A quadra tem aproximadamente 170 m² de área, compreendendo
um salão maior, um mezanino e várias salas menores.
Um caso de samba-enredo que se tornou famoso e rendeu importante retorno
ao compositor foi o da Escola de Samba Gaviões da Fiel no ano de
1995, que tinha como refrão: “Me dê a mão me abraça
viaja comigo pro céu, sou gavião levando a taça, com
muito orgulho pra delírio da Fiel”. Além de ter conduzido
a escola à sua primeira vitória no Grupo Especial, este samba-enredo
ficou amplamente conhecido.
Em termos gerais, a sinopse expõe as orientações sobre
o tema escolhido para o desfile carnavalesco para cada ano, especificamente
Em algumas das escolas de samba que visitamos, como a Império de
Casa Verde, notamos a existência de camarotes reservados à
diretoria e “patronos” da escola que nela aplicam grandes montantes de
capital). Paradoxalmente, pode-se dizer que se reproduz na dinâmica
interna das escolas a estrutura de classes sociais segregadas e segregadoras.
Apesar de fazerem parte do mundo do samba, as escolas de samba originadas
de times de futebol Gaviões da Fiel, Mancha Verde, Camisa 12 e Torcida
Jovem Santista apresentam uma lógica de torcida uniformizada e,
muitas vezes, reproduzem no desfile os mesmos atos de agressão praticados
nos estádios. Dentre as inúmeras ocorrências, destaca-se
o carnaval de 2005, quando integrantes da Gaviões da Fiel deram
as costas durante o desfile das escolas rivais, além de causarem
transtornos no dia da apuração. Por conta destas atitudes,
a partir de 2006 passaram a vigorar dois títulos no carnaval paulistano.
Além do título do Grupo Especial, há agora o do Grupo
Especial das Escolas de Samba Desportivas, vencido pela Mancha Verde em
2007. Observamos que estas escolas não fazem questão
de assumir o discurso de pertencimento a um bairro específico.
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