|
Classificação e Estigmatização:
uma abordagem etnográfica na escola
Marina Capusso, Roberta Soromenho
Nicolete e Nicolau Dela Bandera Arco Neto
Ciências Sociais - USP
|
“Eu não tinha
interesse por bruxaria quando fui para a
terra Zande, mas os Azande tinham;
de forma que tive de
me deixar guiar por eles”.
Evans-Pritchard
Pátio,
cantina, o olhar atento dos inspetores, hora do recreio, professores reunidos
em uma sala. Compondo esse cenário, o barulho das “troças”
e das “peladas” e o grito dos estudantes que se confunde com o toque do
sinal que indica a saída e o retorno às salas de aula. No
interior dessas, o diário de classe, a chamada, o giz, a lousa,
os professores e eles (outrora nós), os alunos. Essa imagem, por
ser comum a muitos de nós, fez com que achássemos que estar
em uma escola, seria estar em um lugar familiar. No entanto, estar lá,
embora tenhamos passado pela escola, não é mais “estar entre
iguais”. Além de não nos confundirem com alunos – éramos
chamados “tio” ou “tia” -, o campo na escola mostrou que essa imagem, antes
familiar, se apresentava como um cotidiano estranho a nós. Esse
estranhamento ocorreu tanto por elementos que ultrapassavam a imagem acima
descrita e, portanto, se afastavam da noção de escola que
trazíamos, como pela mudança do nosso olhar, pois não
tínhamos nenhum papel, em termos institucionais, na escola. Esse
“não-lugar”, livre das obrigações e rotinas da escola,
também nos garantiu certa invisibilidade2 que nos permitiu acessar
todas as dependências dessa instituição.
A
orientação etnográfica e a invisibilidade
permitiram a apreensão dos elementos que compunham a especificidade
de nosso campo, bem como a construção da articulação
entre esses que se deu a partir de um achado da pesquisa, o nosso insight.
Esse insight, que mudou a orientação inicial de nossa pesquisa3,
ocorreu quando observamos uma dinâmica em que uma parte dos alunos
exercia papel de inspetores, para não dizer de policiais, como demonstraremos.
Ao questionar tal grupo de alunos, fomos informados que se tratava de alunos
que lá estavam por “mérito”. Mais tarde descobrimos que esse
grupo tem um nome, JCC – Jovens Construindo a Cidadania, que analisaremos
adiante, junto à descrição de três achados de
campo: a presença de policiais na escola, uma turma específica
de alunos da 8ª série, a relação entre professores
e alunos. Para tanto, o artigo estrutura-se em três partes. Na primeira,
realizamos uma descrição do campo na escola, enfatizando
os agentes supracitados e a relação entre cada um deles.
Na segunda, articulamos os termos classificatórios operados pelos
agentes do campo, partindo da noção de estigma de Erving
Goffman. Por fim, problematizamos o papel da etnografia enquanto elemento
essencial que propicia a revisão de nossas hipóteses e a
construção de novos objetos de pesquisa, o que nos revelou
a necessidade de pesquisas etnográficas relacionadas à escola
e à prática de seus agentes.
O
achado de campo: JCC
Nossa
pesquisa foi, geralmente, realizada em duplas. Porém, em uma de
nossas visitas acampo, a ausência de pares nos deixou constrangidos
de ficar no pátio junto aos alunos na hora do recreio. Vencidos
pela inibição, permanecemos nos corredores internos da escola,
quando observamos que alguns alunos vigiavam a entrada e liberavam a passagem
apenas aos que iam ao sanitário, exercendo dessa forma uma espécie
de vigilância sobre seus colegas. Ao questionar esse grupo de alunos
sobre tal exercício e o porquê de serem eles, especificamente,
os responsáveis por essa atividade, fomos informados de que se tratava
de alunos que lá estavam por mérito, sendo função
destes não apenas controlar as portas que dão acesso às
dependências internas e às salas de aula, como também
organizar de excursões, festas e controlar a rádio.
Ao longo
de nossa pesquisa descobrimos que esse grupo, a JCC, é coordenado
por dois policiais militares, que também selecionam os alunos que
o compõe. O primeiro fato que chamou nossa atenção
foi a existência de um grupo de policiais exercendo uma atividade
dentro da escola que não fosse apenas de repressão (que já
seria de se estranhar dentro de uma instituição pública
de ensino). Um segundo fato, foi a existência de um grupo de alunos,
cujos membros controlavam os que dele não faziam parte, exercendo
atividade de policiamento, o que revelou uma cisão entre os estudantes.
É difícil construir um “breve histórico” da instalação
desse grupo na escola, pois os discursos sobre sua origem são incompatíveis,
mas o que se pode afirmar é que não há mais grêmio
na escola, e qualquer organização dos alunos, que se pretenda
autônoma, passa pela JCC. A direção dá completa
liberdade a este grupo, de forma que eles constituem a mediação
entre os alunos e a direção.
Percebemos
que alguns alunos questionam a legitimidade da JCC. Eles dizem: “Eles cobram
a sessão de cinema, e ninguém sabe para onde vai o dinheiro”;
“Eles não são grêmio, são um grupo escolhido
pela direção”; “Quando tinha o grêmio era legal, a
gente votava, a professora Carmen
passava com a urna na sala”; “Fizemos [o Grêmio] várias atividades
para conseguir construir a academia [de musculação], e agora
só quem é da JCC pode usar”. Essas falas questionam o lugar
ocupado por esse grupo de alunos e o privilégio que eles possuem
em relação ao uso do espaço da escola. Esses alunos
questionam também o papel de autoridade exercido pelos membros da
JCC:“Eles são folgados”; “Eu sou amigo do pessoal, mas o grupo em
si...”; “Eles se acham melhores”.
Por
outro lado, os alunos que participam da JCC, têm também, é
claro, suas visões sobre os “outros”. Dizem: “Eles têm inveja
da gente”; “têm ciúmes”. Eles também têm absoluta
clareza de que exercem um poder sobre seus colegas, visto que têm,
como eles afirmam, a “polícia e a direção por trás
de nós”, tornando-os alvo de críticas tais como “Eles são
protegidos”. A fala do policial Carlos, um dos coordenadores da JCC, corrobora
a posição dos alunos: “É legal ser da JCC, a molecada
adora, eles ficam populares. Quando eles deixam de fazer alguma coisa,
é só ameaçar tirar eles do grupo... eles não
querem sair de jeito nenhum.”
A participação
ou não na JCC depende da realização de uma rigorosa
pesquisa biográfica. Os policiais e os alunos deste grupo questionam
os professores, a direção, analisam o histórico escolar,
conversam com outros alunos e avaliam as notas até que um novo integrante
seja aceito. Os policiais escolhem os alunos “dedicados”, “de futuro”,
“de sucesso”, “os bons”, ou aqueles que ainda “podem ser salvos”, ainda
“têm jeito”.
É
interessante notar que esse pertencimento como percebido por seus próprios
integrantes, oferece status a esses alunos, portanto, pertencer ou não
à JCC era a chave para que o esquema classificatório desta
escola fosse apreendido, e é por isso que abandonamos o projeto
inicial sobre o preconceito nas escolas.
8ª
RC : recuperação ou recriminação?
Dentre
os alunos, segundo a nossa observação, um outro grupo importante
para a compreensão das distinções estabelecidas na
escola é o da oitava série chamada pelos “nativos” de “reciclagem”
; trata-se da turma onde estão os alunos que repetiram o ano escolar.
Devido à “progressão continuada”, a única série
que os alunos podem repetir é a 8ª, inclusive mais de uma vez,
pois podem repetir o ciclo por excesso de faltas. Nessa sala as idades
variam, há inclusive alunos com mais de 18 anos. Por conta disso,
esta classe é absolutamente estigmatizada, são alunos tachados
de “problemáticos”, “desinteressados”. E segundo eles, a culpa por
tudo que acontece na escola (do sumiço de algum objeto até
a depredação de algum móvel) lhes éatribuída.
Eles têm ciência de que são estigmatizados e reclamam:
“Tudo o que acontece de ruim aqui na escola é a 8ªRC”; “Quebrou
um vidro, fomos nós.”; “Sumiu alguma coisa, é sempre a gente”.
Essa
percepção encontra correspondência direta no comportamento
de muitos professores. Quando questionados sobre quais salas estávamos
acompanhando e respondíamos “8ªRC”, os professores faziam uma
expressão de reprovação, de insatisfação
Quando não, argumentavam que essa turma era problemática
e que deveríamos fazer nosso trabalho com outras salas.
A 8ª
RC é a única sala de oitava série no período
da tarde, desse modo, pensamos que isso também contribui para seu
isolamento, uma vez que os seus companheiros de série estão
no período da manhã e também pelo fato do período
da tarde ser considerado “dos pequenos” (5ª,6ª e 7ª. séries),
como observamos na fala dos alunos Este é o modo como se dirigem
aos mais novos.
Um professor
nos contou – e os alunos também não escondem – que nesta
sala há internos da FEBEM, em liberdade assistida (L. A.). Observamos
que esses alunos são apelidados de “FEBEM” ou pelo artigo do código
penal em que foram enquadrados. Assim, o professor faz a chamada “nº
1, 2, 3...” e eles fazem trocadilhos com os artigos, “157”, “12” e assim
por diante; em vez de dizer “faltou”, eles dizem “está preso”.
Professores
Durante
as aulas que acompanhamos, os professores sempre procuraram conversar conosco
enquanto os alunos exerciam alguma atividade, ou nos intervalos entre aulas.
Muitos tinham atitudes de desabafo, falavam sobre a dificuldade e o cansaço
deles: “Dou aula há vinte anos, e não vou esquentar mais
minha cabeça com isso...” (Professora se referindo à não-participação
dos alunos em aula e da “bagunça” que faziam); “Ah! Esse pessoal
não tem jeito, aqueles ali até são inteligentes, mas
os outros...”. Outros professores vinham nos explicar o método deles
para manter a atenção dos alunos, como negociavam com eles
o tempo de fala e as atividades a realizar, e se mostravam orgulhosos de
conseguir com que a sala “trabalhasse” e “produzisse”.
Algo
quase unânime entre os professores é o conhecimento que têm
dos alunos, sabem o histórico deles, como são suas famílias,
suas dificuldades. O que percebemos com o decorrer do campo é que
esse conhecimento acaba sendo base mais para uma atitude estigmatizadora
do que para um real conhecimento da totalidade das características
dos alunos. Diz um professor: “Desse aluno eu nem cobro muito, qualquer
coisa que ele faz já é um ganho, pois na família dele,
só ele é gente, e é ele quem fala isso!”; “Esse aí
não tem jeito, a mãe é uma barraqueira!”
Os professores,
com raras exceções, se referiam aos alunos em relação
à “produtividade”, sendo partilhado entre eles um “jargão
classificatório” que estabelece um continuum que vai do “bagunceiro”,
“sem jeito”, “perdido”, “maloqueiro”, passando pelo “esforçado”,
“interessado”, “o que vêm de uma família desestruturada” ao
“inteligente”, “habilidoso”, “com futuro”, “produtivo” ou “no caminho certo”
. No entanto, alguns professores desenvolviam poucas atividades junto aos
alunos, cumprindo burocraticamente a sua função, apenas “permanecendo”
na sala .
Policiais
Tivemos algumas conversas com os
dois policiais que coordenam o projeto JCC e observamos que existe uma
duplicidade essencial em torno do seu papel e sua função
na escola: a ambigüidade entre a repressão e a prevenção
ou entre reprimir e “educar”. Antes da implantação desse
projeto, tal função não existia, pois o trabalho do
policial dentro da escola era o mesmo exercido fora dela, ou seja, reprimir.
Segundo relato de um dos coordenadores, policial Paulo, “toda a corporação
da polícia no Brasil possui uma ‘educação/treinamento’
voltada para essa função, independente do local onde ela
é exercida” – na rua, na escola, na favela ou em qualquer outro
lugar. Antes da JCC, a principal preocupação dos policiais
na escola era a de autuar os estudantes portadores e usuários de
drogas e o de reprimir eventuais brigas decorrentes do tráfico e
entre membros das torcidas organizadas de futebol. Essa é ainda
a função essencial da Ronda escolar, exercida neste caso
por quatro policiais, que passam em algumas escolas da região central
de São Paulo para constatar a “normalidade” delas, sendo chamados
em casos de ocorrências (tráfico de drogas, brigas etc).
Infelizmente não conseguimos conversar com esses policiais, já
que eles estavam sempre de passagem pela escola. Mas constatamos a partir
do relato dos estudantes e dos outros policiais que existe uma diferença
fundamental entre o papel desses na escola e o desempenhado pelos policiais
coordenadores da JCC. Os últimos, diferentemente do papel exercido
pelo restante da polícia militar paulista e pela Ronda Escolar,
têm como função remediar e prevenir os possíveis
atos de delinqüência dos jovens. A prevenção,
nesse sentido, aparece como uma complementação da ação
de repressão policial. Segundo o policial Paulo, essa idéia
de que a polícia deve exercer uma função educativa
e de prevenção foi importada dos EUA, onde “o sistema policial
está muito mais desenvolvido”. Lá, de acordo com o relato,
a parte da polícia preventiva corresponde a uma grande parcela da
corporação e tem como função principal a redução
dos crimes cometidos nos guetos e nas regiões mais perigosas das
cidades norte-americanas. Paulo lembrou que a idéia da JCC (sigla
que então significava Jovens Contra o Crime) também surgiu
nos EUA com a preocupação central de diminuir os crimes nas
escolas e prevenir a delinqüência juvenil e consumo de
drogas .
O
policial explicou detalhadamente o que seria “uma polícia preventiva
e educativa”. Primeiramente, trata-se de buscar a “raiz dos problemas na
escola e da delinqüência” e não apenas reprimir os efeitos
(o consumo de drogas, o tráfico, as brigas, os problemas de indisciplina
etc.) de um processo complexo de formação desses indivíduos.
Assim, a JCC busca realizar um trabalho não somente na escola, mas
em parceria com a família dos “alunos problemáticos” ,
já que a “raiz do problema” não é somente a
educação na escola, mas também a educação
e “a (des)estrutura familiar”. A principal preocupação dos
policiais e do trabalho preventivo que dizem realizar é o “problema
familiar”: “famílias com pais que não convivem com seus filhos
porque trabalham o dia todo e não se preocupam com a ocupação
do tempo dos jovens”. Combater o “tempo ocioso” dos jovens, segundo Paulo,
“o princípio de todos os males na escola”, surge como o principal
objetivo das atividades culturais e esportivas promovidas por esse grupo.
Em segundo
lugar, para ser um policial preventivo e coordenador da JCC é necessário
que esse tenha um treinamento especial e que ele seja voluntário,
ou seja, tenha interesse em desenvolver atividades ligadas à educação
e à prevenção, além de saber “lidar com os
jovens”, sendo necessária ainda a autorização dos
oficiais superiores. Além desse interesse pessoal e da adesão
voluntária, o policial passa por um curso de “reeducação”
para adquirir noções e técnicas da polícia
preventiva antes de coordenar a JCC. Esse curso tem a duração
de duas semanas, nas quais se aprende a ter uma conduta diferente da conduta
do “policial tradicional”, treinado exclusivamente para reprimir
e “agir na rua”. Segundo Paulo, sem esse processo de reeducação
“os policiais iriam sair batendo na molecada, já que eles foram
educados exclusivamente para a repressão”.
Por
fim, a prevenção realizada pela polícia não
é simplesmente ligada aos problemas da delinqüência juvenil,
ou seja, aos problemas da transgressão das normas da escola e da
sociedade (como o tráfico e consumo de drogas e a violência
física). Também estão ligadas à prevenção
de doenças, de “comportamentos (inclusive sexuais) desviantes” e
da solução dos diversos conflitos existentes no espaço
de interação entre os jovens.
Apesar
dessas falas sobre prevenção, segundo os policiais, há
momentos em que somente a repressão dá resultado e outros
em que uma conversa é suficiente. Cabe ao policial discernir e estar
preparado para exercer essas duas funções. Temos aqui a ambigüidade
essencial do papel do policial na escola: em alguns momentos ele reprime
e em outros ele educa ou previne, ou então ele realiza as duas funções
ao mesmo tempo, reprimindo para “educar” e prevenir futuros problemas com
esses jovens.
Ainda
segundo o policial Paulo, a imagem que a maioria dos estudantes têm
dele é a de um irmão mais velho ou simplesmente de um professor/policial
amigo – “o cara que tem os conselhos certos e que sempre está disposto
a ajudar, sem perder contudo sua autoridade”, e não simplesmente
a imagem do policial autoritário. “Muitas vezes eu sou visto como
um professor comum, principalmente quando estou sem farda dando minhas
aulas de Jiu-jitsu ou Judô com meu quimono”. Contudo, observamos
que nem todos os alunos têm essa imagem do bom professor/policial
dos coordenadores da JCC. Nem mesmo o próprio Paulo pensa assim.
de si. Quando questionamos se ele andava fardado e armado na escola como
os outros policiais da Ronda escolar, ele foi enfático:
“Claro que sim. Não tiro [a arma] para nada”. Segundo ele, há
momentos em que é necessário estar fardado e armado na escola;
momentos em que a simples palavra não é suficiente para prevenir
e que somente a repressão pode ser eficiente .
Há
limites, portanto, para essa imagem do policial/professor que tem unicamente
a função de prevenir. Desse modo, podemos apontar que o policial
na escola tem esse conjunto dual de características que não
se excluem: prevenir/reprimir, sem farda/com farda, professor/policial,
conselheiro/cumpridor da lei, educar/punir.
Infelizmente
no nosso curto período de campo não conseguimos desvendar
e delinear quais seriam as fronteiras entre essas duas faces do trabalho
policial na escola. Contudo, observamos que essas funções
constituem uma ambigüidade essencial no interior da escola contemporânea
e são fundamentais para a estrutura de classificação
operada nessa que possui a polarização entre os alunos “com
jeito” - que podem se recuperar e que estão abertos aos mecanismos
de prevenção - e aqueles alunos “perdidos”, “sem solução”
que só podem ser tratados por meio da repressão.
Gramática
da escola: classificação e estigmatização
Essas
distinções são constituídas por elementos estigmatizantes.
Goffman nos mostra que escolhemos, nós “os normais”, uma característica
relacionada à biografia de um individuo para definir, seu
caráter, sua identidade, desconsiderando qualquer outro traço
da personalidade desse individuo. Nesse relacionamento entre o eu e o outro,
não só a personalidade estigmatizada é constituída,
mas também a personalidade dita “normal” – os bons alunos, os destaques
do ano, os produtivos, que em sua maioria compõe o grupo JCC.
Do
que foi exposto acima, apreendemos que a despeito da distância entre
os lugares institucionais ocupados por cada um dos agentes (policiais,
professores e alunos) e as categorias utilizadas, há uma linguagem
por eles compartilhada, uma vez que todos estão imersos em um mesmo
contexto. Algo nessa linguagem, para nós relevante, é a centralidade
de um sistema classificatório utilizado por todos .
Foi na operação desse sistema classificatório que
apareceu o termo “produção”, numa oposição
que distinguia os “produtivos” versus os “não-produtivos”, os “de
futuro” dos “sem jeito”. Percebemos que tais oposições coincidiam
com a distinção entre os alunos da JCC e os da 8ªRC,
elaborada principalmente pelos professores. Paralelamente, os policiais
opunham os alunos “delinqüentes” e os alunos “normais”, os vindos
de “famílias desestruturadas” e os que possuíam uma “família
estruturada”, enfim, eles distinguiam os “corrigíveis” e que poderiam
ser tratados mediante a prevenção daqueles que “não
têm mais solução” e só poderiam ser tratados
pela repressão e coerção.
Segundo
Goffman, o estigma corresponde a uma discrepância específica
entre a identidade social virtual e a identidade social real .
Não são todos os atributos indesejáveis que estão
em questão, mas somente os que são incongruentes com o estereótipo
que criamos para um determinado indivíduo. Assim, um estigma é
um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo.
O autor ressalta que há importantes atributos que em quase toda
a nossa sociedade levam ao descrédito e afirma que a sociedade estabelece
tanto os meios de categorizar as pessoas quanto os atributos considerados
como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Dessa
forma, termos como “produção”, “pessoa de futuro”, relacionados
aos “bons” alunos são utilizados largamente na escola sem causar
estranhamento, pois encontram reflexo direto na sociedade mais ampla. O
problema que Goffman aborda, que se mostrou essencial para a nossa pesquisa,
é que as pessoas que se relacionam com indivíduos estigmatizados
não conseguem dar a eles o respeito e consideração
que os aspectos não contaminados de sua identidade social os havia
levado a prever. De tal modo que tornam-se pessoas desacreditadas frente
a um mundo não receptivo.
Em
muitos dos nossos contatos com os alunos percebemos como a imagem prevista
– e estereotipada – anulava as demais características deles. Dois
exemplos são emblemáticos de tal situação:
uma aluna nos apresentou um soneto, dentre os vários que escrevia,
muito bem escrito; conversamos sobre literatura e ela disse que lia Edgard
Allan Poe e participava de um grupo de teatro fora da escola. Um outro
aluno, pelo que notamos, bastante comunicativo, “informado” e articulado,
estudava há muitos anos uma língua estrangeira (inglês)
e havia adquirido fluência nessa língua e, mesmo assim, foi
reprovado nessa matéria .
Essas características, no entanto, não impediam que a imagem
deles na escola fosse a de “alunos-repetentes”, “desinteressados”, “problemáticos”,
pois essa era a imagem dos alunos da 8ªRC.
Assim,
essa “imagem pública” não permitia que características
positivas fossem reconhecidas. O predomínio do estereótipo
se mostrou a nós operante quando percebemos que também era
válido para os alunos da JCC. A “imagem pública” deles impedia
que as características negativas – muitas delas iguais àquelas
imputadas aos alunos da 8ª RC, como o desinteresse pelas aulas– viessem
a público .
De acordo com Goffman:
“Parece
que a imagem pública de um indivíduo, ou seja, a sua imagem
disponível para aqueles que não o conhecem pessoalmente,
será, necessariamente, um tanto diversa da imagem que ele projeta
através do trato direto com aqueles que o conhecem pessoalmente.
Quando um indivíduo tem uma imagem pública, ela parece estar
constituída a partir de uma pequena seleção de fatos
sobre ele que podem ser verdadeiros e que se expandem até adquirir
uma aparência dramática e digna de atenção,
sendo posteriormente, usados como um retrato global”(Goffman, 1975, p.82)
Seria
errôneo afirmar que os alunos estigmatizados constituem um grupo
completamente isolado na escola. Pela nossa observação constatamos
que eles interagem com as outras turmas, o que pode significar que um estigma
não implica em um completo isolamento.
Apontamentos
finais
Tendo
em vista o pouco tempo que tivemos para a realização de nosso
trabalho (uma etnografia exigiria muito mais tempo), não nos arriscaremos
em uma conclusão que pretenda finalizar este assunto. Muito pelo
contrário, o campo suscita questões que, a nosso ver, merecem
ser exploradas. Sabe-se que independentemente do método de pesquisa
escolhido, sempre haverá limites e. certas desvantagens. No presente
trabalho, a etnografia se mostrou muito vantajosa. O olhar de. perto e
de dentro fez com que tivéssemos acesso a determinadas relações
entre os agentes da escola. e o sistema de classificação
compartilhado por esses que não nos seria visível caso realizássemos.
apenas um survey ou uma análise documental.
A etnografia
nos levou a confrontar os conceitos sociológicos com os conceitos
e idéias dos nativos para ver até que ponto são adequados
aqueles para a compreensão destes. (Peirano,
1995). Desse modo, apesar de tentarmos inicialmente analisar a realização
do preconceito de marca na escola, tivemos que lidar com fatos que extrapolavam
a formulação e a análise realizada por Nogueira. Essa
é a principal característica da antropologia, como argumenta
Peirano (1995) é o estar com os nativos
que permite a apreensão daquilo que é essencial para eles,
e não para nós:
Notoriamente preocupada
com a peculiaridade do objeto de pesquisa, a antropologia talvez seja,
entre as ciências sociais, paradoxalmente, a mais artesanal e a mais
ambiciosa: ao submeter conceitos preestabelecidos à experiência
de contextos diferentes e particulares, ela procura dissecar e examinar,
para então analisar, a adequação de tais conceitos
(...). Seu objetivo mais geral foi sempre a procura de uma visão
alternativa, mais genuína talvez, da universalidade dos conceitos
sociológicos. Ao contrastar os nossos conceitos com outros conceitos
nativos, ela se propõe formular uma idéia de humanidade construída
pelas diferenças.
Essa visão alternativa
que buscamos em campo foi expressa através do confronto entre o
nosso projeto inicial e aquilo que era a preocupação central
dos nativos: a JCC e a 8ª RC.
Para além desta mudança
de interpretação teórica, a etnografia permitiu a
descoberta de algo ignorado pela literatura escolar corrente, isto é,
o papel cada vez mais central da repressão policial, da estigmatização
entre os alunos – e da relação entre essas – dentro dessa
instituição.
Se
no passado a “pedagogia” utilizava réguas e palmatórias,
hoje a disciplina na escola se consegue pela coerção policial.
Consideramos preocupante que ao mesmo tempo em que assume um discurso liberalizante,
de “constituição livre” do indivíduo (e isso é
endossado pela sociedade), a escola também permita uma coerção
que, mesmo incorporada a um discurso de prevenção, de processos
educativos progressistas, é exercida por uma instituição
essencialmente repressora: a Polícia Militar. Esse mecanismo de
repressão se ancora no sistema classificatório operante na
escola que, de certa forma, reproduz a imagem existente na sociedade mais
ampla que separa os indivíduos “de futuro” dos “perdidos”, os “bons”
dos “maus”, os “educados” daqueles que podem ser “corrigidos” ou devem
ser “eliminados”, nem que seja simbolicamente.
Notas
Esse
artigo se baseia em um trabalho realizado para disciplina Pesquisa de Campo
em Antropologia, ministrada pelo professor José Guilherme Cantor
Magnani, no segundo semestre de 2006. À época da realização
da pesquisa os integrantes do grupo eram: Igor Pantoja, Marina Capusso,
Nicolau Dela Bandera e Roberta Soromenho.
O
sentido usado por nós de “invisibilidade” não significa que,
de fato, não éramos vistos, mas que podíamos circular
pela escola sem sofrer os mesmos impedimentos que os agentes que dela faziam
parte. José de Souza Martins problematiza tal noção
de invisibilidade nos seguintes termos: “Era excepcional a posição
de alguém cuja atividade o fizesse invisível e insignificante,
especialmente alguém que em princípio e em razão da
própria atividade, tinha acesso praticamente livre a qualquer ponto
do estabelecimento e a qualquer um de seus edifícios, inclusive
nas seções da Divisão de Refratários, como
era o meu caso” (1994, p.4).
Nosso
projeto inicial de pesquisa objetivava abordar as relações
raciais na escola. Procurávamos evidenciar um aspecto que a literatura
sobre esta questão negligencia: a heterogeneidade dos espaços
e em que medida isso influencia na manifestação de preconceitos,
no caso, racial. Tínhamos como principal referencial teórico
o conceito criado por Oracy Nogueira, o preconceito de marca. Nas nossas
primeiras visitas à escola, pudemos perceber que embora existissem
as relações raciais, tal como relatadas por Nogueira, o preconceito
racial não era algo que se destacasse como operante de um mecanismo
de classificação e de conflito entre os agentes na escola.
Os
nomes que utilizamos neste trabalho são fictícios.
Oficialmente
8ªRC significa oitava série recuperação de ciclo.
A
estigmatização não se dá, estritamente, na
8ªRC. Como pudemos observar em uma outra turma em que realizamos a
nossa pesquisa, a 7ªA, outros alunos também são estigmatizados
pelos professores e funcionários, como mostraremos mais adiante,
quando abordarmos a questão do esquema classificatório.
Essa
atitude não reflete o comportamento de todo o corpo docente da escola.
Alguns professores ressaltavam diversas características positivas
dos seus alunos e, de certa forma, fugiam do esquema classificatório
que trataremos a seguir.
É
necessário frisar que as polarizações e o continuum
observados no campo não se colocavam contrapostos diretamente nos
discursos. Foi a partir da nossa observação e análise
que construímos esse sistema classificatório.
É
muito importante salientar que não podemos – e esse foi um ponto
de debate intenso entre nós - simplesmente culpar os professores
e dizer que são os responsáveis, majoritariamente, pelo estado
da escola. Entendemos as condições de trabalho a que são
submetidos: falta de materiais, salas sujas e lotadas, má formação
universitária, baixos salários, jornada, muitas vezes tripla
de trabalho. Não podemos, do mesmo modo, vitimizar os mesmos por
compreendermos essas condições. Assim, as nossas preocupações
em torno do campo estavam o tempo todo às voltas com esse dilema.
Ver
a esse respeito os sítios na internet http://www.jccbrasil.com.br/
e http://www.ycwa.org/ que contêm
uma pequena história da origem da JCC nos EUA, onde o nome era Youth
crime watch of América. Sítios consultados em junho de
2007.
Em
uma de nossas conversas, o policial Paulo relatou que há uma parceira
da JCC com um consultório de psicologia, para o qual são
encaminhados os alunos problemáticos e com “desajustes familiares”.
A
indefinição em torno da imagem dos policiais apareceu num
acontecimento relatado pelo policial Paulo, ocorrido entre ele e uma professora:
“Ao ser chamado para solucionar um problema [uma briga entre alunos]
dentro de uma sala de aula, uma professora disse que não iria admitir
que eu entrasse na sua sala armado. Eu disse que ela estava sendo ignorante
e que ela não conhecia aquele lugar [a escola] e aquelas
pessoas. Eu estava lá há três anos e sabia que havia
momentos em que era necessário a repressão e estar fardado
e armado para resolver alguns conflitos e outros em que isso não
era necessário. Ela precisava saber distinguir as coisas. Hoje em
dia ela nem se preocupa mais com isso e eu entro e saio da sua sala sem
o menor problema”.
Diversas
possibilidades de reflexão surgiram com a descoberta de campo da
JCC. Muitas questões foram levantadas, sendo relacionadas ao próprio
papel da autoridade do professor; à repressão mediante uma
instituição militar na escola; à impossibilidade de
uma organização política autônoma dos alunos
etc. Neste trabalho optamos por desenvolver a questão do estigma,
deixando as outras questões para desenvolvimentos posteriores.
Goffman
distingue a identidade social virtual da real nos seguintes termos: “as
exigências que fazemos poderiam ser mais adequadamente denominadas
de demandas feitas 'efetivamente', e o caráter que imputamos ao
indivíduo poderia ser encarado mais como uma imputação
feita por um retrospecto em potencial – uma caracterização
'efetiva', uma identidade social virtual. A categoria e os atributos que
ele, na realidade, prova possuir, serão chamados de sua identidade
social real” (Goffman, 1975, p. 12).
Essa
informação nos foi passada por um outro professor que afirmou
que a professora de inglês reprovou esse aluno que “sabia mais inglês
do que ela mesma”.
Esse
domínio da imagem pública ficou muito mais evidente no caso
da 8ªRC. A constatação da importância da imagem
pública dos alunos da JCC apareceu para nós em menor recorrência,
não sabemos se por causa do pequeno período de campo ou porque
no caso da JCC o estereótipo não se tornou um estigma.
Bibliografia:
GOFFMAN, Erving.
(1975). Estigma: notas sobre a manipulação da identidade
deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar.
MAGNANI, José
G. C. (2002). “De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana”.
Revista
Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v.17, n.49,
pp.11-29.
MARTINS,
José de Souza. (1994). “A aparição do demônio
na fábrica, no meio da produção”. Tempo Social:
Revista Sociologia USP. São Paulo, v.5, n.1-2, pp.1-29.
NOGUEIRA,
Oracy. (1998). Preconceito de marca: as relações raciais
em Itapetininga. São Paulo: Edusp.
PEIRANO,
Mariza G. S. (1995). A favor da etnografia. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará.
EVANS-PRITCHARD,
E.(1978). Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande.
Rio de Janeiro:Zahar.
|
|