Ano 2, Versão 2.0, fevereiro de 2008 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Rituais Corporais contemporâneos

Rotina de exercícios físicos

Para que qualquer religião possa sobreviver, ela necessita de ritos, ou seja, de comportamentos codificados e estáveis e isto não é diferente na religião do corpo perfeito: para o bodybuilder é muito importante ter uma rotina bem estabelecida na academia, que inclui diferenciar os membros superiores dos inferiores para maximizar o treino, comparecer toda a semana e sempre se exercitar por, no mínimo, duas horas. 

Há um rigor com relação às atividades que devem ser desenvolvidas e cumpri-las corretamente é um dos modos de garantir o acesso ao templo. Também faz parte do ingresso aprender o dialeto próprio do grupo dos malhadores, dificilmente compreendido por leigos, ainda mais porque a maioria dos termos provém do inglês: transport, bodypump, bodybalance, bodyjump, crossramp, fitness, bodysistem.

As entrevistadas afirmam que não vivem mais sem fazer algum tipo de atividade física; ela é quase uma droga, vicia. Se nos anos de 1960 os hippies utilizavam drogas como uma forma de romper com a sociedade mais ampla, agora as mulheres utilizam a ginástica (e também produtos para emagrecer, anabolizantes, hormônio do crescimento) para se integrarem ao sistema. Várias mulheres enfatizaram que mesmo nas férias procuram compensar a ausência da academia, como ilustra o seguinte relato:
 

Eu já me peguei fazendo bíceps com garrafa de coca-cola e insistindo em tomar o controle do pedalinho no parque para exercitar as pernas. Se tivesse que sair da academia, faria ginástica em casa, na rua, em qualquer lugar. Quando viajo, a regra é sempre caminhar muito e subir e descer encostas de morros! Eu sou viciada em ginástica, ela faz parte do meu estilo de vida (Mulher 68, 34 anos, professora universitária).


Isto se dá  pela necessidade de construir um corpo ideal e mantê-lo, pelo fato da ginástica estar tão incorporada à vida das mulheres que se equipara a escovar os dentes ou tomar banho todos os dias, pelos mecanismos de compensação entre comer, se distrair e manter as formas corporais... Comenta-se, mesmo, que a ginástica e o controle alimentar estão de tal forma incutidos no ethos feminino que não ir à  academia ou comer em excesso dá culpa:
 

Se eu tiver um compromisso à tarde, eu não venho, eu troco, eu venho de manhã, agora se eu não venho mesmo, no outro dia eu procuro compensar. Mas eu não gosto de faltar. Parece que você fica se autopunindo, ‘ai Meu Deus do céu, porque que eu não fui’. A mesma coisa a alimentação: eu saio fora durante o final de semana, então de segunda à sexta eu fico no grelhado, na salada, e se eu tenho um compromisso que me tire da dieta, no outro dia eu tenho que compensar (Mulher 69, 45 anos, administradora de empresas).


Wacquant também fala do comportamento ascético entre os lutadores de boxe:
 

A ascese coletiva, cujo mestre-de-obras no ginásio é Deedee, é construída à imagem de sua vida pessoal espartana: levantar cedíssimo, dormir cedo, alimentar-se à base de legumes cozidos, peixe fresco e carne magra (frango e peru), jamais tomar ‘pop’ nem comer doces, raramente tomar um copo de bebida alcoólica e fazer uma visita ao médico a cada seis meses (Wacquant, 2002: 128). 


A conquista de um corpo perfeito supõe uma gestão rigorosa do corpo, uma conservação meticulosa de cada uma de suas partes, enfim, um gerenciamento racional do capital específico que os recursos físicos representam. No universo das mulheres pesquisadas, também é perceptível que a academia de ginástica parece fechar-se sobre si mesma, como diria Wacquant, numa espécie de “ilha de ordem e virtude”, onde não se discute política, religião ou qualquer outro assunto que não diga respeito à academia. Fala-se do corpo, da vida pessoal, dos mecanismos de aceitação  e, principalmente, da vida que se desdobra naquele cenário: das dietas, dos suplementos alimentares, dos relógios Polar que são verdadeiras calculadoras ambulantes (calculam passos, batimentos cardíacos, calorias...), do peso, da porcentagem de gordura corporal, de massa gorda versus massa magra, do novo treino puxado indicado  pelo instrutor, da dor que se manifesta no corpo após o treino, de novos equipamentos para cultivo do corpo... Mas fala-se, também, da satisfação em perceber o corpo sendo moldado, construído, admirado tanto pelos colegas de treino quanto pela sociedade envolvente (amigos, família e meros desconhecidos que lançam olhares aprovativos às mulheres quando cruzam com elas nos mais variados espaços.). Quanto mais a neófita adentra  o templo, mais domina seus mistérios e pode tornar-se apta a socializar outros membros. 
 
 

Alimentação, Remédios para emagrecer e Suplementos Alimentares

Outro elemento central citado pelas mulheres na construção ritual do corpo e da identidade de “malhadora” é a alimentação, que segundo elas, deve ser muito regrada. Elias (1990) e Rodrigues (1999) afirmam que na passagem da Idade Média para a Moderna temos uma mudança de sensibilidade quanto às questões alimentares e corporais, sendo que um dos indícios desta mudança refere-se à questão do controle. Se na Idade Média banquetear-se com alimentos calóricos era sinal de status e de alegria vitoriosa, na Moderna isto assume um caráter de culpa, já que a modernidade reforça as restrições frente ao corpo. Temos uma mudança na própria estrutura da personalidade, que pressionada por sanções sociais externas, desenvolve mecanismos de autocontrole mesmo quando o indivíduo encontra-se sozinho em casa: “Impulsos que prometem e tabus e proibições que negam prazeres, sentimentos socialmente gerados de vergonha e repugnância entram em luta no interior do indivíduo” (Elias: 1990: 189). As mulheres da Cia Atlética dizem exatamente isso. Controlam o que comem e o quanto malham porque sentem culpa quando comem demais ou deixam de fazer um exercício. Se o alimento, em especial o calórico, pode fornecer prazer, também suscita a culpa. E, se malhação produz endorfina e, portanto, prazer, também exige esforço e dor. Mesmo que ninguém esteja vendo, o policiamento é intenso; parte da própria pessoa e faz parte até dos momentos de lazer, como as férias. A pesquisa mostrou que 59% das entrevistadas já fez ou faz algum tipo de controle alimentar e o restante afirmou fazer “reeducação alimentar”:
 

Regime eu sempre fiz; depois que eu comecei a treinar, eu fiz dieta, pra ganhar massa, aumento de proteína, diminuição de carboidrato. Já fiz várias dietas da moda (...) se você quiser saber eu sei todas (Mulher 18, 23 anos, professora de educação física).


Dentre as entrevistadas, 79% declararam ter tomado algum tipo de “fórmula” ou remédios industrializados para emagrecer, como mostra o depoimento abaixo:
 

É, eu fiz regime há pouco tempo, agora. Tomei remédio porque eu trabalho de segunda a segunda e se eu diminuísse a parte nutricional eu não ia ter disposição para o trabalho, então eu tive que acelerar o processo com remédio. Tive os efeitos colaterais normais, os esperados, sabe, dilatação das pupilas, sudorese demasiada, minha mãos ficavam geladas, dava umas vertigens, escurece tudo (Mulher 5, 22 anos, professora de educação física)


Sempre me espanta que em nome da beleza, da perda de peso, aceitemos nos submeter aos efeitos colaterais dos remédios para emagrecer. Tememos um infarto, empenhamo-nos em fazer tudo que a medicina aconselha, fazer atividade aeróbica e diminuir a ingestão de gorduras. Mas, deliberadamente, por meio dos remédios para emagrecer, elevamos os batimentos cardíacos a ponto de termos insuficiência respiratória e mesmo infartos. A maioria deles contém anfetamina, que vicia em dias e é muito nociva para o organismo, gerando um desequilíbrio hormonal muito grande, bem como taquicardia e depressão. É sabido, também, que provocam danos ao cérebro e ocasionam distúrbios como anorexia e bulimia. Mas, em nome de alguns quilos a menos, aceitamos os riscos. É que, na verdade, a leitura é outra. Não se trata de meros quilos perdidos. Trata-se de "fazer as pazes com o espelho" e, portanto, consigo mesma. Trata-se de se sentir integrada e, portanto, aceita. Trata-se de ascender, via corpo, ao grupo das bonitas e bem sucedidas. Trata-se de viver  numa cultura em que beleza e magreza se associam como pré-condições para a felicidade...

Entre as mulheres por mim entrevistadas, 10% sofrem de anorexia ou bulimia e 56% conhecem ao menos uma pessoa vítima destes distúrbios alimentares (ver artigo “O corpo miragem: mídia e espetáculo no processo de culto ao corpo”, disponível em http://www.mirelaberger.com.br).

A ingestão de alimentos é feita de modo meticuloso, visando proporcionar nutrientes para que o músculo trabalhado se recupere, mas evitando qualquer alimento calórico que possa resultar em adiposidade e dificultar a visualização dos músculos. Aliás, músculos são quase entidades à parte, conforme expressão de uma das entrevistadas :“Quando como, penso assim: este pedacinho de carboidrato, com este de proteína vai fazer crescer meu músculo...”. (Mulher 68, 34 anos, professora universitária). Ou seja, malha-se e come-se para os músculos e quanto mais estes afloram, mais são cultuados, seja através da constante exibição frente ao espelho, seja no uso de roupas minúsculas que favoreçam sua exposição. A procura pela atividade de musculação se dá menos por gosto e mais por necessidade. Todos os bodybuilders trocam receitas de suplementos alimentares e em algumas conversas em surdina lançam mão de termos incompreensíveis até alguns anos atrás, como anabolizante, proteína sintetizada, hormônio do crescimento, creatina, entre outros. É muito comum ver as mulheres com garrafinhas com líquido colorido, normalmente um suco acrescido de proteínas ou carboidratos que potencializam o trabalho muscular. Os homens, menos discretos, carregam potes imensos de produtos como MegaMass e vários outros, e fazem sua “poções mágicas” na lanchonete. 

Há no templo uma poção mágica, misteriosa e velada: o anabolizante. Proibido por lei, considerado droga, é capaz de fazer com que os músculos cresçam rapidamente e de modo muito ostensivo, mas também pode levar, entre os homens, ao câncer de fígado e próstata, à impotência sexual, à agressividade, à cirrose hepática e até à morte. Acontece com o uso de anabolizantes a mesma coisa que ocorre com o preconceito racial: as pessoas dizem que existe racismo no Brasil, mas não são preconceituosas; da mesma forma, fala-se sobre anabolizantes, mas ninguém assume que os ministra, nem os alunos que os tomam. Até porque - como o discurso da saúde e o da estética misturam-se -, não é interessante assumir que em função da estética seja possível tomar substâncias que minem a saúde e possam até matar. Além do mais, como vivemos o “culto ao esforço”, é fundamental que os músculos adquiridos sejam vistos como resultado do trabalho árduo e não do uso de substâncias ilegais. Ocorre com o uso de  anabolizantes algo semelhante à  cirurgia plástica para as mulheres: sempre alguém dirá  que os tais músculos  ou os seios grandes são de “mentira”, “foram comprados”, ou  a pessoa optou “pelo caminho mais fácil”. Uma cintura fina conquistada com exercícios tem maior valor simbólico no grupo dos malhadores do que aquela conquistada com a retirada cirúrgica de algumas costelas. Do mesmo modo, músculos conquistados só com malhação e dieta são mais bem vistos do que aqueles obtidos com anabolizantes, fazendo-se de seu uso um tema cercado de tabus e que, muito lentamente, abre-se ao pesquisador. 

No universo pesquisado, só uma das entrevistadas afirmou ter ciência da existência de anabolizantes na academia:

 
É, o anabolizante acaba com tudo, tanto a identidade como a personalidade da pessoa, muda muito, aquela coisa de comparação. Eu acho que não vale a pena, acho que cada pessoa tem o seu lado bonito, já pensou se fosse todo mundo igual? Seria um monte de boneca, né? Um monte de Barbie, um monte de Bob. Acho que isso teve uma influência  muito grande, né, os bonecos mudaram a proporção, a proporção física dos bonecos mudou.  Então, antes era o Bob, né,  hoje em dia é aquele boneco enorme. Existe, muito. Existe, muitas academias... Hoje em dia tem muita fiscalização... Esconde muito..., isso e aquilo, mas...tem sim . (Mulher 61, 29 anos, instrutora de ginástica)

 
 

Figura 5 - Hormônios

Além dos anabolizantes, outra poção mágica advinda da técnica é o hormônio GH (sigla para “growth hormone”), produzido naturalmente no corpo humano pela hipófise (glândula localizada na parte inferior do cérebro), mas que foi sintetizado pelos laboratórios de bioengenharia. Ele não é proibido; a partir de 1994 a substância foi liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, mas a venda só poderia ser feita sob prescrição médica e retenção da receita, depois de constatada a deficiência do hormônio no organismo. Mas a substância tem sido contrabandeada dos E.U.A e não é barata: ampolas suficientes para um mês custavam R$ 2.000,00 no ano de 2001, segundo dados da revista “Veja”. 

Até mesmo os donos de academia e instrutores de ginástica injetam a substância e ela é comum antes do início dos campeonatos de fisiculturismo. Seu uso aumenta no verão, devido a maior exposição do corpo. Uma das entrevistadas, de 30 anos, observou: 
 

“É o preço para ficar com um corpo legal. Ainda mais no verão, que todo mundo quer se exibir. Por causa do HGH, vou estar perfeita para passar o carnaval na praia. A mudança é nítida. Meu corpo está mais bonito. Todo mundo me pergunta o que eu estou tomando. Eu digo que é só malhação” (Mulher 70, 30 anos, artista plástica). 


Este depoimento reforça a idéia já comentada de que é preciso ostentar um corpo perfeito, mas evitar atribuí-lo ao uso de recursos potencializadores como as drogas sintéticas. É preciso fazer acreditar que foi apenas o empenho do(a)  malhador(a) que levou a este corpo tão cultuado e desejado. No entanto, com o HGH ocorre o  mesmo que com quase todas as técnicas atuais de construção do corpo perfeito: a balança oscila entre “esconder” tais procedimentos (para fazer crer que o corpo foi conquistado só com o empenho) e “ostentá-los”. Assumir procedimentos como plásticas, aplicação de hormônios, sessões de estética  etc atesta duas condutas importantes do culto ao corpo: indica  status econômico (já que os tratamentos são caros e destinam-se, portanto, às classes abastadas), ostenta  a adesão à ética corporal da perfeição física, pleiteando  o status simbólico desta condição. Desta forma, comportamentos como injetar hormônio nas coxas, que poderiam ser considerados aberrantes há décadas, são hoje realizados às claras (vide figura 5). Assim, tanto quanto os remédios para emagrecer, suplementos alimentares ou hormônios, os anabolizantes vão servir ao mesmo tempo como potencializadores da performance muscular e como “ritos de passagem”, como mostra Sabino: 
 

Entre os marombeiros há um rito de passagem, ou como prefere Bourdieu, um rito de instituição, no qual o uso da droga surge como um item crucial na transição do indivíduo de um status para outro no campo da musculação (...) Este rito delimita a distribuição da autoridade no interior do campo (Sabino, s/d: 16).

 
Cirurgias Plásticas

A maioria das mulheres entrevistadas tem uma relação dúbia com seu corpo: se, por um lado, estão satisfeitas com as melhorias e as atribuem à ginástica e ao esforço pessoal, por outro, não poupam recursos financeiros para alterar o que acham que deve ser corrigido. Segundo uma pesquisa recente (Revista Galileu, 2004), realizada entre modelos, 100% delas estavam insatisfeitas com seus corpos e realizariam correções cirúrgicas e  96%  fariam lipoaspiração e implante de silicone nos seios. Se este descontentamento existe entre mulheres que são consideradas mais bonitas do que a média da população, imagine-se entre a parcela considerada comum. Uma de minhas entrevistadas, professora de ginástica, com 1,69 e 58 kg, 22 anos, tem o peso adequado à sua  idade, sem nada que possa ser interpretado como defeito físico ou gerar  algum tipo de constrangimento. Mas não vai á praia de biquíni:
 

“Ah, na praia eu não vou.  De biquíni, jamais. Se eu tiver que ir, jogar um vôlei, eu já vou de propósito de calça, de top, ou vou de roupa normal, pra ter uma desculpa, ‘ah, eu vim só pra jogar’, eu já sou tímida, eu sou gordinha, então eu evito” (Mulher 5, 22 anos)


Del Priori (2000) afirma que 
 

Anônimas, as que não são belas, simplesmente recusam seus corpos, tanto mais quanto vivemos hoje a supremacia da aparência. A fotografia, o filme, a televisão e os espelhos das academias dão à mulher moderna o conhecimento objetivo de sua própria imagem. Mas, também, a forma subjetiva que ela deve ter aos olhos de seus semelhantes. Numa sociedade de consumo, a estética aparece como o motor do bom desenvolvimento da existência (...) A feiúra é vivida como um drama. Daí a multiplicação de fábricas de ‘beleza’ cujo pior fruto é a clínica de cirurgia plástica milagrosa (Del Priori, 2000: 80).


A  revista “Veja”, de 6 de março de 2002,  intitulada “corpo à venda”, sobre os exageros da plástica, confirma o dado de 350.000 mil brasileiros operados em 2001, ou seja, em cada grupo de 100.000 habitantes, 207 foram operados, número superior ao de plásticas realizadas nos E.U.A, que no mesmo período registraram 185 cirurgias por 100.000 habitantes. Segundo a pesquisa, o mercado da plástica está em expansão: em sete anos, desde a edição do plano Real, o número de cirurgias plásticas realizadas no Brasil cresceu 250 % e a idade média dos operados brasileiros diminuiu 20 anos: se nos anos 80, a média de idade para uma cirurgia plástica era de 55 anos, em 2000  passou para 35 anos. Dentre as minhas entrevistadas, a porcentagem de mulheres que já fizeram algum tipo de cirurgia estética foi de 43%, sendo que as mais citadas foram redução de nariz, lipoaspiração e prótese de silicone nos seios. Entretanto, quando questionadas se pretendem se submeter a cirurgias no futuro, a porcentagem de mulheres adeptas da plástica sobe vertiginosamente, passando para 72%. Quando indagadas  a respeito, disseram:
 

Eu já mudei o meu nariz, eu dei uma afinada porque eu tinha desvio de septo. Eu pus prótese de silicone no peito. Se precisar, faço outras. Depois que eu tiver um filho, se precisar, acho que nada me impede, pra gente melhorar, hoje existe tanta técnica, o importante é a gente estar bem com a auto-estima, isto é fundamental. (Mulher 43, 39 anos, arquivista).
Coloquei prótese nos seios. Só. Me incomodava bastante. Mudou minha auto-estima, porque eu não tinha né [seio] Eu amamentei as minhas filhas até quase um ano, eu já tinha pouco, ai amamentando eu fiquei com nada, e aquilo me incomodava bastante, eu não podia usar top sem enchimento, então pra mim era muito desagradável, na praia, eu usava, mas não gostava (...) Eu tô super satisfeita, eu sou outra pessoa (Mulher 1, 30 anos, economista)


Ser outra pessoa. Esta fala é emblemática. Primeiro porque, de fato, com a plástica a identidade se modifica, já que ela está calcada no corpo. Segundo, porque, atrelado à  plástica, temos um comportamento curioso de desinibição por parte das mulheres. Como elas estão mais seguras da beleza de seu corpo, sentem-se mais à vontade para expô-lo. É uma cena comum no vestiário feminino mostrar  os seios operados umas para as outras. Durante a pesquisa, presenciei duas cenas de desinibição e total felicidade com o novo corpo. A entrevistada citada acima, Mulher 1, falou de sua plástica de seios, do quanto estava contente. Encerrada a entrevista, referindo-se à  prótese, ao questionar se a cicatriz não a incomodava, ela chegou a puxar o top para mostrar os seios, apesar de estarmos num restaurante. Karen, dona de uma clínica de estética, com implante de silicone, além de mostrar os seios, exigiu que os tocasse para sentir sua rigidez. Nenhuma das mulheres afirmou ter problemas quanto às cicatrizes, dizendo não serem importantes diante da satisfação com as novas formas. As mulheres tendem a minimizar as cicatrizes frente ao apelo de formas mais definidas, seios mais firmes ou diminuição da adiposidade. A existência de gordura localizada e de seios flácidos e/ou pequenos incomoda muito mais do que estrias e cicatrizes. Se fosse possível, as mulheres ficariam também sem as segundas, mas não sendo, optam pela remodelagem do corpo, ainda que adquiram cicatrizes.

As mulheres apóiam a plástica se esta trouxer satisfação pessoal, se  contribuir para elevar a auto-estima, mas é interessante notar que, embora a cirurgia plástica estética surja como um recurso aceitável, no segmento das bodybuilders só é bem aceita quando  se  esgotaram  todas as outras possibilidades  (exercícios, dietas , ou seja, já se empenharam o bastante, mas não conseguiram se livrar de uma ou outra gordura localizada, especialmente as da cintura.

Neste contexto, a cirurgia plástica estética é um plus, uma espécie de prêmio que a mulher se dá na conquista do corpo perfeito:
 

Eu sempre malhei a sério, cuidei da alimentação e  melhorarei muito o meu corpo, mas os seios não tinham jeito, por mais que eu me empenhasse... Achei que eu merecia me dar este presente; eu fiz e ainda faço a minha parte. (Mulher 68, 34 anos, professora universitária.)


Outra entrevistada reforça a idéia, mas afirmando não ser merecedora da plástica:
 

Eu nunca fiz, porque que eu nunca fiz o certo.  Porque primeiro eu tenho que fazer a minha parte.   Eu nunca falei, “ah, eu vou melhorar minha dieta, eu vou treinar regularmente”; eu nunca tive disciplina... (Mulher 34, 33 anos, psicóloga). 
Neste caso, ela não se julga digna da plástica porque está embebida da idéia de que precisa primeiro se esforçar com ginástica e alimentação, para depois fazer jus a este tipo de intervenção. 
Um relato que merece destaque, vindo de mulheres que fazem fortes críticas ao culto ao corpo, mas que se sentem tentadas e aderem  às práticas que de início condenam:

 
Faria, eu não tenho  pressa, nos seios,  mas  tenho   quase  50 anos, não sei se quando eu tiver 60, se eu estiver muito abatida, acho que o bombardeio da mídia interfere, você olha no espelho e se compara, a européia tem uma facilidade maior pra envelhecer  saudável, do que as brasileiras, que querem estar com o rosto muito esticado, né, acaba pegando né? (Mulher 23, 48 anos, veterinária).
A maioria das mulheres apóia a plástica quando a mulher já teve vários filhos e “necessita” levantar os seios caídos com a amamentação. Ou se a pessoa tiver seios desproporcionais ao corpo, ou uma barriga excessiva. Aí a plástica é justificável. Mas a plástica é condenada se for para mudar detalhes ou, talvez, adequar o tamanho dos seios às exigências da moda. É condenada também quando se transforma em um vício, quando a mulher faz uma em seguida à outra e nunca se contenta e neste caso as entrevistadas tendem a afirmar que a mulher em questão está com “problemas psicológicos”. Também se comentou que a decisão de operar deve ser sempre da própria mulher, que ela não deve se submeter à plástica nem para agradar o marido e nem deixar de fazê-la só porque ele não quer.  Neste ponto, a independência financeira feminina conta muito: se a mulher trabalha ou possui alguma fonte de renda, pode investir em si mesma através da plástica sem recorrer ao aval financeiro do marido. Caso contrário, ela tem que convencê-lo a concordar e pagar a cirurgia. Algumas mulheres observaram também que por terem suas cirurgias pagas pelos maridos, isto aumentou a cobrança deles para que elas mantenham o corpo em forma. Relembro de uma fala muito significativa  de uma entrevistada que, após voltar de um longo período de afastamento para realização de várias plásticas, disse estar triste, pois o marido a proibira  de comer feijão e havia lhe dado um ultimato (“você vai ter que se esforçar mais na ginástica”),  pois  não pagaria outra plástica. 
Há alguns denominadores comuns nos depoimentos colhidos.

Primeiro: o motivo  principal  alegado  para fazer plástica é a auto-estima. Na religião do corpo, “sentir-se bem consigo mesma” justifica e até pede intervenções cirúrgicas.

Segundo: como a auto-estima está diretamente ligada ao corpo, a perfeição física aparece como um pré-requisito para o bem-estar e justifica as intervenções cirúrgicas. Para amar-se é necessário ter um corpo perfeito (para 82% da amostra, a aparência física foi considerada “muito importante”).

 
Terceiro: dentre as cirurgias realizadas e/ou almejadas, as campeãs absolutas são lipoaspiração (ou lipoescultura) e implante de silicone nos seios (84% das minhas entrevistadas aprovam seu uso). Isto se explica porque  o modelo estético dominante em nossa época é caracterizado pela ausência de gorduras, por seios grandes e firmes e tônus muscular. Como o tônus muscular não  se consegue com cirurgias plásticas, a ênfase recai sobre os dois primeiros itens. Outra cirurgia que vem sendo cada vez mais realizada no Brasil é a prótese de silicone nos glúteos, que visa arredondá-los e levantá-los, mas que só foi citada por uma entrevistada - “Glúteo, mais glúteo. Peito nem tanto. Eu não gosto, a forma dele, é muito esparramado, não é um glúteo... É um glúteo disforme” (Mulher 10, 26 anos, orientadora de educação física) - embora existam suspeitas de que uma segunda entrevistada a tenha realizado, sem contudo assumir. 
 
A plástica tornou-se aceita publicamente nos EUA no século XX. De sua origem como cirurgia reconstrutora em soldados feridos na guerra, ela acabou encontrando sua maior fonte de pacientes em mulheres que queriam melhorar a aparência. Isto se deve a dois motivos principais: 1) a crença de um vínculo fundamental entre auto-estima e aparência física; 2) a crença de que a aparência tem valor de mercado. Tais motivos, aliados às idéias  (pós 1950) de que as mulheres são responsáveis por sua beleza e que esta se encontra ao alcance de todas, reabilitaram  de vez a cirurgia plástica estética como recurso aceitável (Haiken,1997). E, curiosamente, não só a habilita enquanto procedimento, mas também como prática que não precisa ser escondida. As entrevistadas assumem suas plásticas, falam sobre elas, avisam as colegas e os professores sobre o tempo em que ficarão afastadas e não dissimulam. Não se vêem tentativas de despistar a ausência da academia alegando férias ou outros compromissos; as mulheres falam abertamente: “semana que vem vou fazer lipo” ou “vou colocar peito”. Isto com muita naturalidade. E se algum interlocutor insinuar, por exemplo, que os seios “não são delas, são de mentira, são artificiais”, elas retrucam das mais variadas formas “são meus, sim; eu paguei por eles”, “são meus, mas melhorados”, “a cor do seu cabelo também não é natural”, e por aí vai. Em algumas “tribos” da academia, ter passado por cirurgia plástica é mais natural do que não ter se submetido a nenhuma; ali, o que "choca" é mais a ausência do silicone do que sua presença. Embora a discussão sobre a relação natural versus  artificial seja muito complexa e fuja aos objetivos deste trabalho, é pertinente pensar que nos anos de 1920 vigorava a idéia de que a mulher não precisava necessariamente “ser” bela, mas “fingir”  ser. Nos séculos anteriores, esta dissimulação era ainda mais possível com as roupas longas, com os espartilhos e anquinhas – só o marido saberia o quanto esta mulher era ou não “verdadeira”. No século XX, com a progressiva diminuição das roupas e o maior desvelamento do corpo, dissimular torna-se impossível e o próprio corpo assume o lugar das roupas: ele deve ser firme, torneado, magro. Qualquer detalhe anatômico é perceptível e se faz necessário corrigi-lo por meio da ginástica e das cirurgias plásticas. 
O cirurgião plástico configura-se como um demiurgo, pois se coloca como criador e organizador do universo representado pelo corpo e é capaz, por meio de seus encantamentos, de reconstruir o eu e de facilitar o ingresso da mulher no templo da perfeição física. 

Edmonds (2002) assinala que a plástica é tão importante na vida do brasileiro que em 1999 a escola de samba carioca Caprichosos de Pilares levou para a avenida o samba-enredo “No universo da beleza, mestre Pitanguy”. O autor comenta que o samba, além de fazer supor que a cirurgia plástica nas mãos de Pitanguy seria uma prática democrática, oferecendo beleza a ricos e pobres, também colocava a plástica como um misto de procedimento médico de alta tecnologia, serviço de luxo ao consumidor e transformação psicológica, esta última, enfatizada pelo próprio cirurgião: 

 
O objetivo da cirurgia plástica é a harmonização do corpo com o espírito (...) visando a estabelecer um equilíbrio interno que permita ao paciente reencontrar-se, reestruturar-se, para que se sinta em harmonia com a sua própria imagem e com o universo que o cerca (Pitanguy, Revista Brasileira de Cirurgia, março/abril, 1985, vol. 75, n 2, apud Edmonds, 2002: 215).
Um último ponto importante é que em sua análise sobre as cirurgias plásticas no Rio de Janeiro, Edmond cita a observação de Gilman (1999), registrada no livro Making the Body Beautiful, em que este autor defende uma interpretação da cirurgia plástica como meio de “passing” ou “impostura”, isto é, um meio de pessoas estigmatizadas  se fazerem passar por normais (ser aceito como o que não é)  por meio das plásticas. Para ele, todas as plásticas teriam este caráter de impostura. É importante notar que Edmonds critica o conceito de impostura e o faz por dois motivos: 1) porque ele evoca o conceito de normalidade, enquanto para muitas das mulheres que fazem plástica o desejo é de perfeição; 2) porque ele insinua que a paciente está tentando, passivamente, amoldar-se a um grupo ou juntar-se a ele, enquanto muitas mulheres afirmam que fizeram a plástica por si mesmas, não se submetendo às pressões sociais. 
 
Concordo plenamente com Edmond e comprovei com minhas pesquisas que, de fato, as mulheres, quando se submetem à plástica querem sobressair por suas formas, serem mais admiradas por elas, e não apenas estar “na média”. Elas ambicionam um plus, que só a plástica pode proporcionar. É justamente este “algo a mais” que a torna vital na construção da auto-estima e da identidade feminina. Já com relação ao segundo ponto assinalado por Edmonds – fazer plástica para si mesma e não para o outro - coloco ressalvas, pois acredito que a questão é mais complicada. A resposta dada à plástica é semelhante à resposta dada á pergunta “para quem você malha”? A primeira resposta é “para si mesma” (46%), ou seja, totalmente relacionada com auto-estima. Mas o que eu sou, sempre remete ao modo como o outro me vê; então, é sempre para os outros também, tanto que quanto questionadas “para quem as mulheres malham”, 52% afirmaram “para as outras mulheres” e somente 15% afirmaram “para si mesmas”. 
As falas das mulheres entrevistadas também apontam que as cirurgias plásticas – bem como outros aspectos do culto ao corpo – podem ser perigosas por estarem tão banalizadas que acabam gerando o efeito contrário: em vez da mulher ficar mais bonita e se destacar das demais, ela fica feia e padronizada. Ou, como colocou Mulher 56: 

 
Tem gente fazendo plástica como quem arranca um dente, não é assim, as pessoas não estão procurando um profissional, vão atrás de qualquer um, é lógico que nem todo mundo tem poder aquisitivo pra fazer tudo isso e assim vai. Coisa com o rosto também, tem uma série de senhoras da minha idade, eu vou fazer 58 este ano, as sessentonas estão todas com a cara igual,  uma cara de barbies, o botox, aquela boca, são todas muito semelhantes, loironas, eu olho e digo ‘Nossa, você tá ridícula’. (Mulher 56, 57 anos, professora)
 
É a beleza obtida a qualquer custo, a beleza que, em vez de libertar a capacidade expressiva, escraviza, como um feitiço que se vira contra o feiticeiro. Tal crítica nos leva ao cerne das discussões que empreendo sobre o culto ao corpo na atualidade. Acredito que o corpo seja realmente central na construção do eu em nossa cultura. Acredito também que, ao se voltar para os cuidados consigo mesma a mulher seja capaz de se valorizar, elevar sua auto-estima. Ao adquirir um corpo que lhe dá prazer e orgulho, ela faz deste um reduto que deve ser valorizado, cuidado. E isto pode ser positivo, já que o corpo é nossa primeira e última morada, pelo corpo experimentamos quem somos e nos relacionamos com o mundo. Mas quando o corpo é cultuado ao extremo, parte da positividade se dissolve e o mesmo corpo que pode nos trazer conquistas e alegrias, também passa a ser fator de frustração diante dos rígidos padrões estéticos e, ademais, lugar de homogeneização e padronização das diferenças. Em vez de nos libertar, nos oprime. Em vez de nos integrar, isola, a nós mesmos e aos outros, os que não se encaixam nestes padrões. Em vez de levar à saúde e à identidade, pode levar a  doenças, em especial aos distúrbios alimentares, que fragmentam o eu e até matam.
Weber já chamava nossa atenção para a racionalidade como uma das características da modernidade, mas também afirmava que o destino de uma sociedade extremamente racionalizada em termos técnicos, mas sem destinação social humana, é a gaiola de ferro – o aprisionamento, a falta de opção individual, a perda do sentido. 

Em parte, Kélh parece ter razão ao afirmar que 
 

o corpo malhado, sarado e siliconado do novo milênio diz: sou um corpo malhado, sarado, siliconado. O circuito se fecha em si mesmo. Parece a ética dos  ‘cuidados de si’, pesquisada por Foucault. Mas não é. No Brasil de hoje, em que o espaço público foi a um só tempo desmantelado e ocupado pela televisão, a produção dos corpos é a produção da visibilidade vazia, da imagem que tenta apagar a um só tempo o sujeito do desejo e o sujeito da ação política. A cultura do corpo não é a cultura da saúde, como quer parecer. É a produção de um sistema fechado, tóxico, claustrofóbico. Nesse caldo de cultura insalubre, desenvolvem-se os sintomas sociais da drogatização, da violência, da depressão. Sinais claros de que a vida, fechada diante do espelho, fica perigosamente vazia de sentido (Kélh, 2002: 18).
Além do mais, ao mesmo tempo em que o corpo malhado integra, ele também exclui, primeiro nós mesmos  se não alcançarmos  o padrão; depois, se o alcançamos, exclui os outros: feios, gordos, não-malhados, ou numa expressão: “os que não são como nós”. Aqueles que se recusam a ingressar na cultura do corpo são mal vistos, são relaxados, fracos, acomodados. Atestam fraqueza moral e física e, por rejeitarem as idéias dominantes, acabam sendo excluídos, marginalizados.
De tanto nos contemplarmos, seja através da mídia, seja pelo espelho, acabamos quase que enfeitiçados, ou nas palavras de Debord, hipnotizados pela imagem e miragem do próprio espetáculo que nós mesmos criamos: “Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico (...)” (Debord, 1992: 24). 
 
Como um veneno que nos contamina pelos olhos sem que o notemos, a religião do corpo perfeito infiltra-se em nós e, ao mesmo tempo, nos seduz e provoca: as chaves que abrem as portas do templo são as mesmas que nos fecham dentro dele.

 
Mirela Berger é formada em Ciências Sociais e doutora em Antropologia Social pelo PPGAS/USP. Atualmente, leciona em caráter temporário na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). É coordenadora do GEISA (Grupo de Estudos em Imagem e Som em Antropologia) e participa de outros grupos de estudo na Universidade.

 

Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na idade Média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.
BERGER, Mirela. "O corpo miragem: mídia e espetáculo no processo de culto ao corpo", disponível em http://www.mirelaberger.com.br
BERGER, Mirela. Corpo e identidade feminina, Tese de doutorado. Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, PPGAS/USP, 2006.
BOURDIEU, Pierre. A Distinção. São Paulo: Difel, 1996.
COURTINE, Jean Jacques. "Os staknovistas do narcisismo: body-buildinng e puritanismo osstentatório na cultura americana do corpo", in: Políticas do Corpo, org. Denise Bernuzzi de Sant'Ana. São Paulo: Estação Liberdade, 1995. 
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1992.
DEL PRIORE, Mary. Corpo-a-corpo com a Mulher: Pequena História das Transformações do Corpo no Brasil, São Paulo.  São Paulo: SENAC, 2000.
EDMONDS, Alexander. "Notas de campo sobre cirurgia plástica no Rio de Janeiro", in: Mírian Goldenberg et al. Nu e Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca,  Rio de Janeiro: Record, 2002.
ELIAS, Nobert. O Processo Civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
FEATHERSTONE, M. Cultura de Consumo e Pós-Modernismo. São Paulo: Nobel, 1995.
FEATHERSTONE, M. et alii. The Body: Social Process and Cultural Theory. London: Sage, 1992.
FUSSEL, San. Muscle: The Confession of an Unlikely Body-Builders. New York: Poseidddon Press, 1991.
GOLDENBERG, Mirian e RAMOS, Marcelo Silva. "A civilização das formas: O corpo como valor",  in: Mírian Goldenberg et al. Nu e Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca,  Rio de Janeiro: Record, 2002.
HAIKEN, Elizabeth. Venus Envy: A History of Cosmetic Surgery. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997.
KÉLH, Maria Rita. "Com que corpo eu vou?", Folha de São Paulo, Mais!, São Paulo, 30/06/2202.
LAURETIS, Teresa de. "A tecnologia do gênero", in:Holanda, Heloísa Buarque de. (Org.) Influências e Impasses: O feminismo como Crítica da Cultura. RJ: Rocco, 1994
LÉVI-STRAUSS, Claude. "A eficácia simbólica" e "O Feiticeiro e sua magia", in: Antropologia Estrutural Um. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.
MAFFESOLI, Michel. "Deixar de odiar o presente", in: Ética e Estética na Antropologia. Florianópolis: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC/CNPq, 1998.
MAGNANI, José Guilherme Cantor - "Tribos  Urbanas: Metáfora ou categoria", in: Cadernos de Campo, São Paulo,  no 2, 1992.
MAUSS, Marcel. "Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa e a noção do eu." E "As técnicas corporais", in: Sociologia e Antropologia, vol. 1. São Paulo: EPU, 1974.
ROCHA, Everaldo. Magia e Capitalismo: Um Estudo Antropológico da Publicidade. São Paulo: Brasiliense, 1995. 
RODRIGUES. José Carlos O Corpo na História.  Rio de Janeiro: Fiocruz, 1999.
RODRIGUES, José Carlos. O Tabu do Corpo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.
SABINO , César. "Anabolizantes: drogas de Apolo", Mírian Goldenberg et al. Nu e Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca,  Rio de Janeiro: Record, 2002. 
SABINO , César. As Drogas de Apolo: O Consumo de Anabolizantes em Academias de Musculação. Rio de Janeiro: Lugar Primeiro, sem data.
SAFFIOTI, H.I.B. "Rearticulando Gênero e Classe Social". In: Costa, A. de O. & Bruschini, C. (org.). Uma Questão de Gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos,/ São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1992. 
SAFFIOTI, H.I.B. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. São Paulo: Quatro Artes, 1969.
SAFFIOTI, H.I.B. O Poder do Macho. São Paulo: Moderna, 1987. 
SANT'ANA, Denize Bernuzzi de. "Apresentação", in: SANT'ANA, Denize Bernuzzi org. Políticas do Corpo, São Paulo: Estação Liberdade, 1995.
SFEZ, Lucien: A Saúde Perfeita. Crítica de uma Nova Utopia.  Paris, EHESS, 1996.
TRAVAILLOT, Yves. Sociologie des Pratiques d'Éntretien du Corps. L´Évolution Porteé ao Corps Depuis 1960. Paris: PUF, 1998. 
TURNER, Victor. O Processo Ritual. Petrópollois: Vozes, 1974.
VERNANT, Jean-Pierre. A Morte nos Olhos - Figuração do Outro na Grécia Antiga. (Ártemis e Gorgó).Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
VERNANT, Jean Pierre. "Dim body, dazzling body", in: Fragments for a History of the Human Body.  New York: Urzone, 1989.
WACQUANT, Löic. Corpo e Alma: Notas Etnográficas de um Aprendiz de Boxe.  Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1989.
 
 

Reportagens

"Brasil, império do Bisturi", Veja, 10/01/2001
"O pico da vaidade: em busca de um corpo perfeito e da eterna juventude, homens e mulheres recorrem ao GH, hormômio que pode causar doenças como diabetes e hipertensão", Revista da Folha, 28 de janeiro de 2001.
Revista Galileu, n. 155, junho 2004.
 
 

Este artigo baseia-se em minha tese de doutorado Corpo e identidade feminina, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, 2006.
  O lócus da tese foi a academia de ginástica Companhia Athlética, unidade Shopping Morumbi. Trata-se de uma academia voltada para um público-alvo abastado e situa-se no segundo andar do Shopping Morumbi, podendo ser vista pelas pessoas que lá ingressam por uma das entradas. A academia atrai muito a atenção do público, pois tem piscinas com teto solar e amplas vidraças, pista de corrida suspensa na cobertura do shopping e salas de salas de musculação com paredes de vidro, que permitem aos freqüentadores do shopping plena visualização. O chão da academia é, em toda sua extensão, de granito e as estruturas, feitas de ferro com revestimento de vidro. Possui recepção, várias salas de ginástica, loja de roupas, restaurante de grife ("Paola Panini"), espaço para musculação, spinning, uma grande área para atividades aeróbias com dezenas de aparelhos, dois vestiários femininos e dois masculinos, aluguel de toalhas, saguão com televisão, espaço para as mães deixarem os bebês brincando (desde que acompanhados pelas babás), área das piscinas,  sauna seca, espaço de estética, "Biotherme", solarium, nutricionista e fisioterapeuta.
  Trata-se  dos termos genéricos utilizados em academias de ginástica e musculação para designar aqueles que, por meio de exercícios, pesos e aparelhos, procuram "construir" seu corpo, deixando-o magro, definido, musculoso e rígido.
  A amostra foi composta de 88 mulheres de classe-média-alta, freqüentadoras da academia de ginástica Cia Atlhética.
  As expressões "tribo" ou "tribo urbana" são categorias nativas, ou seja, utilizadas pelas próprias mulheres para se auto-identificarem e identificar outras mulheres (ou mesmo homens) que freqüentam os ambientes de academia de ginástica, das clínicas de estética, bem como aquelas que partilham a cultura da perfeição física. Assim, apesar das polêmicas que a expressão suscita (a este respeito ver Magnani, 1992), optamos por mantê-la, mas sempre considerando que ela só tem pertinência por emanar do próprio grupo pesquisado.
  Courtine (1995), no magistral artigo "Os Staknovistas do Narcisismo: body-buildinng e puritanismo ostentatório na cultura americana do corpo" mostra como nos E.U.A, entre 1870-1880, a cultura física e o esporte tornaram-se verdadeiras paixões, a ponto de numerosas academias de ginástica se espalharem por todo território americano e ser criada uma seita religiosa denominada "Cristandade Muscular", cujo credo era: a moralidade é tanto uma questão de forma muscular quanto de piedade religiosa, e os melhores cristãos têm o dever de possuir um corpo atlético. Sustentava-se inclusive que Jesus Cristo fora, antes de tudo, um homem de ação, um atleta espiritual, sua vida testemunhava seu entusiasmo pelas alegrias e esforços deste baixo mundo, e seu calvário não fora mais do que uma corrida de obstáculos, conduzindo-o ao primeiro lugar no podium.
  A este respeito, Lauretis (1994) comenta que há diversas teóricas feministas escrevendo sobre a sexualização das mulheres no cinema e nas propagandas, desenvolvendo descrições e críticas dos discursos psicosocial, estético e filosófico subjacentes à representação do corpo feminino enquanto lugar primeiro da sexualidade e do prazer visual. Ela indica para uma melhor compreensão do tema o trabalho de Stephen Heath, "Narrative Space", in: Questions of cinema, Bloomington, Indiana Univ. Press, 1981.
  Segundo Saffioti, só podemos compreender as relações de gênero enquanto um processo dialético. A autora assinala que a mulher na sociedade de classes capitalista oscila entre aderir aos papéis construídos (e ao status associado ao segundo - que Saffioti chamou de "status reflexo do marido") de "mulher economicamente ativa"  ou como "mãe de família  [ou 'dona-de-casa] 'ociosa' (do ponto de vista do sistema dominante de bens e serviços), que goza do status reflexo do marido" . É preciso, no entanto,  em virtude da peculiaridade da amostra, dar um novo sentido à expressão "mãe de família  [ou dona-de-casa]". As mulheres da amostra pertencem à classe média-alta ou alta e não assumem exatamente as funções do lar, como lavar e passar roupa, fazer a  faxina da casa e cozinhar. Elas atuam mais como governantas de suas próprias casas, contando com um séqüito de empregadas domésticas, passadeiras, cozinheiras e babás. Mais do que realizar os trabalhos, os supervisionam, verificando sua eficácia no andamento do lar. Quando assumem alguma função delegada às empregadas, como cozinhar ou organizar itens e aspectos da casa, o fazem menos por necessidade do que por demandas do gênero. Espera-se delas que continuem zelando pelo lar, pelo marido e filhos, atestando assim sua capacidade de manter  o funcionamento do lar. Mas numa época em que vigoram as tiranias da aparência, ser "apenas" boa mãe e esposa não basta, cabendo às mulheres se adequarem aos padrões estéticos estabelecidos. Assim, parte do prestígio social da mulher advém de sua aparência e, parecido com o que Saffioti afirmou mas invertendo os termos, os homens também se beneficiam da imagem física de suas esposas ou companheiras, configurando uma atitude de  status reflexa: o embelezamento das mesmas confere prestígio ao homem, pois ao circular com elas nos meios sociais que cobram beleza, eles se afirmam como viris (conquistaram e mantiveram mulheres bonitas), bem sucedidos (capazes de manter economicamente a casa e ainda permitem que a mulher possa "se cuidar"- e "se cuidar" será interpretado pelas mulheres como "estar bonita").
  Elias mostra como o corpo hiperbólico da época medieval vai sendo substituído na modernidade por imagens de corpos mais verticalizados, silenciosos e contidos e, necessariamente, aumenta o controle sobre a alimentação, sobretudo pelos excessos alimentares e também sobre os alimentos aceitos e condenáveis, dentre os últimos, a gordura, considerada vilã. As pessoas passam a se controlar mais e cresce o grau de consideração esperado dos demais. Aumenta a compulsão em policiar o próprio comportamento. Ele analisa a mudança do conceito de courtoise para o de civilité, que aparece na obra de Erasmo de Rotterdam, em 1530, De civilitate morun pueriliun (da civilidade em crianças).. Trata-se de um manual de etiqueta pra orientar o comportamento e o decoro corporais de pessoas em sociedade, e embora seja dedicado a um menino nobre, alcançou boa parte da sociedade européia, como a França, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Itália, entre outras. Embora as regras de etiqueta já estivessem presentes entre os medievais, na forma de poemas mnemônicos ou mesmo manuais, no tratado de Rotterdam e em outros que se seguiram ocorre uma mudança no tom e no rigor das prescrições. 
 

On-line desde fevereiro de 2008.
link para o portal da USP Site Meter