Estar
bela, malhada, sentir-se bem consigo mesma. Não ter gordurinhas
sobrando. Ter um corpo rígido, cabelos e pele impecáveis.
Ser admirada por sua beleza ou por seu corpo em forma. Ter um corpo perfeito.
Encaixar-se nos padrões de beleza massificados. Cultuar o corpo,
desejá-lo belo, mas, ao mesmo tempo, malhá-lo. Submetê-lo
a esforços para que ele desabroche em sua melhor forma.
Estas
falas, todas nativas
(ver tese de doutorado “Corpo e Identidade Feminina”, disponível
em http://www.mirelaberger.com.br),
apontam para um processo central das últimas décadas (1980-2000),
que é o de culto ao corpo. É possível afirmar que
o corpo virou uma religião, um culto permanente e diário,
que se desenrola nos templos de mármore, vidro e ferro das academias
de ginástica, e cujos mentores são a mídia, os personaltrainers,
os nutricionistas, os cirurgiões plásticos e inúmeros
outros profissionais que alardeiam a beleza enquanto capital simbólico
(Berger, 2006).
Embora
seja quase impossível estabelecer com certeza quando as expressões
“culto ao corpo” e “cultura do corpo” surgiram, sociólogos e historiadores
vêm se utilizando destes termos para designar um comportamento em
que o corpo figura como elemento central e definidor de identidades. Mais
do que ser apenas um meio, o corpo transforma-se no próprio fim,
ou, como diria Maffesoli: o que parece desconcertante, atualmente, é
que o corpo é tomado em si mesmo; há uma espécie de
culto ao corpo que ganha cada vez mais importância na vida social.
Veste-se o corpo, cuida-se do corpo, constrói-se o corpo, e é
neste sentido que se pode falar de um culto ao corpo como sendo (um pouco
por todo lado do mundo) uma das marcas deste hedonismo (Maffesoli,
1998).
O fenômeno
do culto ao corpo explode de maneira definitiva a partir da década
de 80 nos Estados Unidos da América e chega ao Brasil nos anos 90,
impulsionado, entre outros fatores, pela difusão da ginástica
aeróbica feita pela atriz Ioná Magalhães, semelhantemente
ao que aconteceu nos EUA com a atriz Jane Fonda. Surpreendentemente, constatei
que a expressão “culto ao corpo” é corrente no universo da
academia de ginástica pesquisada e todas as entrevistadas precisam
seu surgimento no mesmo período apontado pelos pesquisadores. É
significativo que entre as mulheres pesquisadas, 88% percebem nitidamente
um processo de culto ao corpo, 9% o percebem mais ou menos e somente 3%
desconhecem sua existência.
Não
enveredaremos aqui pelas justificativas citadas pelas mulheres para o culto
ao corpo, mas, podemos ao menos mencioná-las. São elas: importância
do momento presente, da técnica e do esforço individual;
importância do corpo na conquista de parceiros sexuais e no mercado
de trabalho; exposição e desnudamento constante do corpo;
existência de modelos de beleza rígidos que culminam no culto
à perfeição física; excessiva cobrança
social da beleza e influência da mídia e da moda.
Como
em todo culto, temos, por um lado, os atores – no caso, os “Body-buildings”
ou “Bodybuilders”
-, a ideologia que o alimenta, seus mecanismos de veiculação
e sustentação e, em especial, uma série bastante codificada
de ritos corporais.
Interessa-me,
no curto espaço desta comunicação, investigar os mitos
(também chamados aqui de “chaves simbólicas”), tais como:
a mística da perfeição física, inspirada nos
modelos dos deuses gregos, a idéia do corpo enquanto marcador totêmico,
a ideologia de que o corpo é mutável, a importância
atribuída ao presente, ao esforço do indivíduo e à
técnica, o ethos ascético que norteia o comportamento do
bodybuilder e que rituais (rotina de exercícios, alimentação,
uso de suplementos alimentares e/ou remédios para emagrecer e cirurgias
plásticas) permitem ao neófito ingressar no tão sonhado
templo das pessoas “belas e malhadas”.
As mulheres
urbanas contemporâneas (e, cada vez mais, os homens, também),
quando alcançam o corpo desejado (para 63,75% da amostra
, isto quer dizer “corpo magro e malhado”), sentem-se próximas ao
mundo das mulheres que elas admiram e pertencentes a um grupo seleto, que
é caracterizado, entre outras coisas, pelo poder “cuidar de si”;
pelo sinal de que “não se entregam às tentações
alimentares de uma maneira desregrada” (Mulher 68, 34 anos, professora
universitária). Enfim, correspondem aos padrões corporais
da sociedade em que vivem. Nas academias, ao adquirir um corpo “malhado”,
o (a) aspirante a bodybuilder vai sendo consagrado a um novo papel.
Esses ritos vão demarcando as posições entre
dominados e dominantes, entre aqueles que são - como dizem
os informantes – “fortes, saudáveis e bonitos” e os que são
“fracos, doentios e feios”. Neste sentido, é possível repetir,
com Bourdieu, que as instituições são “atos de magia
social”, pois “criam a diferença ex-nihilo” (Bourdieu,
1996:100).
No templo
das academias de ginástica, podemos identificar os seguintes atores:
a) os bodybuilders, que se dividem principalmente entre neófitos
(aqueles que estão se iniciando na religião do culto ao corpo)
e veteranos (aqueles que, em função do tempo de atividades
físicas e do próprio sucesso corporal, auxiliam os neófitos
e possuem forte ascendência sobre os mesmos); b) os personal
trainers, professores de ginástica, nutricionistas, fisioterapeutas
e esteticistas, que são os "sacerdotes": aqueles que possuem os
conhecimentos e segredos próprios do campo e que têm o poder
de transformar o corpo e a identidade de seus neófitos, sendo glorificados
pelos mesmos. Fora do ambiente da academia de ginástica, temos,
também, os cirurgiões plásticos, considerados, por
muitos, os verdadeiros demiurgos da religião do corpo perfeito,
pois têm o poder de, literalmente, construir novas corporalidades
e, como veremos, novas identidades.
Ideários
Místicos do culto ao corpo
Construir
a si mesmo...
Para
os bodybuilders a transformação do corpo é
central no processo de construção ritual da pessoa.
Falar
em “ritual” remete-nos à clássica obra de Turner ("O Processo
Ritual" ,1974), na qual o autor nos mostra que uma das chaves centrais
para o entendimento de qualquer cultura reside nos ritos, já que
estes são indícios para a compreensão de pensamentos,
sentimentos e relações entre os nativos e o seio de suas
comunidades. Entre os vários ritos sociais, destacam-se os chamados
“Ritos de Passagem”, ou seja, “ritos que acompanham toda mudança
de lugar, estado, posição social, idade” (Arnold Van Gennep,
1960, apud Turner, 1974) e que
se caracterizam por três fases: 1) separação,
2)
margem ou limem e 3) agregação. A primeira fase marca
o afastamento do indivíduo (aqui chamado de “neófito”) de
um determinado grupo ou ponto fixo na estrutura social. A segunda, marca
o processo de transição, quando o neófito inicia o
lento aprendizado das regras, valores e linguagem do grupo ao qual quer
ascender. A terceira fase consuma a passagem e reintegra o indivíduo
ao grupo, agora com os direitos e deveres de sua nova posição.
A academia
de ginástica e seus freqüentadores configuram-se como uma “tribo
urbana”
, cuja adesão passa pela estética corporal e cuja tônica
incide nos corpos esculpidos como uma marca de status e diferenciação
social. 75% das entrevistadas assumem-se como pertencentes à uma
“tribo urbana”, como atesta o seguinte depoimento:
O culto ao corpo vira até
uma tribo. Eu acredito. Porque, se você não estiver dentro
(pra algumas pessoas, tá?), se você não estiver dentro,
você é excluída. É exclusão social. Então,
tem muita gente que está dentro desta tribo para não ser
excluída. (Mulher 48, 40 anos, comerciária)
Podemos entender esta visão
que as entrevistadas têm de si mesmas evocando, novamente, Victor
Turner: as mulheres, ao ingressarem em uma academia, desejam, em sua maioria,
construir um corpo magro e levemente musculoso, para se separarem e se
contraporem ao grupo das “não-malhadas”, “gordas”, “desleixadas”.
Elas querem sentir-se integradas e aceitas em uma sociedade que valoriza
a forma física como referencial de status e sucesso e tentarão
adequar seu corpo à forma correspondente dos novos papéis
que desejam assumir. Assim, elas se afastam do grupo das sedentárias,
o que corresponde à primeira fase do processo ritual, qual seja,
a “separação”. Durante a segunda fase, encontram-se num processo
de “liminaridade”. São ainda neófitas e precisam aprender
as regras do grupo que, no caso, envolvem praticar exercícios com
regularidade, consumir produtos específicos, manter uma dieta alimentar,
conhecer o nome das aulas, socializar-se no campo da musculação
e dos outros setores das academias. O processo é permeado de rituais,
envolvendo vestimentas, condutas, dialeto próprio e a manipulação
de um universo instrumental e simbólico que não está
livre nem mesmo da já consagrada “eficácia simbólica”
(Lévi-Strauss, 1991),
ou seja: do poder, próprio do rito, de atuar sobre a realidade agindo
sobre a representação que estes indivíduos fazem da
mesma. Quem é adepto de exercícios físicos sabe que
a simples realização do treino previsto já dá
ao praticante a sensação de ter melhorado seu corpo, ainda
que ele saiba que os resultados não são tão rápidos
e exigem regularidade. Mas, ao menos, ele sente que fez a sua parte quanto
ao corpo. Como dizem as entrevistadas, é “uma missão cumprida”.
Pelo menos, ele não poderá ser rotulado de “fraco”, “desleixado”:
ele “luta” (já que há uma verdadeira cruzada contra as adiposidades
)
para mudar o seu corpo e empenha-se para isso, o que, no limite, lhe confere
até fibra moral, segundo os valores postulados pela ideologia do
corpo perfeito. Na terceira fase, a de “agregação”, são
consagradas ao papel de “malhadoras”: suas atitudes e, principalmente,
seus próprios corpos, atestam que cada uma delas é, agora,
uma “nova mulher, que não se conformou com o que Deus lhe deu,
correu atrás, batalhou, ficou mais bonita e mais segura” (Mulher
70, 30 anos, artista plástica). O corpo, enfim “malhado”,
lhes conferirá uma nova identidade, um novo lugar no seio da comunidade
a que pertencem.
Uma
vez em consonância com os padrões estéticos difundidos
pela sociedade, que no caso das mulheres, envolvem magreza, tônus
muscular e seios avantajados, o corpo será cultuado e glorificado.
Ser
uma Deusa grega...
Um dos
referenciais simbólicos e míticos que orientam a religião
do corpo é o da imagem apolínea, ou seja, é o corpo
dos deuses da Antigüidade clássica que serve de modelo para
os bodybuilders. Várias das mulheres entrevistadas disseram querer
“se parecer com uma deusa grega” (Mulher 68, 34 anos, professora
universitária), “A Gisele Bündchen é uma grega”
(Mulher 2, 31 anos, professora de educação física).
É comum também que as mulheres se refiram aos homens “sarados”
e, portanto, considerados bonitos, como “deuses gregos”. Em ambos os casos,
elas indicam imagens em revistas que ilustrem essa associação.
Trata-se de imagens de mulheres em geral bem magras, com seios firmes,
nádegas bem desenhadas, pele sem manchas, com aparência firme
e proporcionalidade de traços. Já os homens são musculosos,
com aspecto viril e sedutor.
Vernant
(1986) afirma que a expressão “corpo dos deuses” remonta ao período
arcaico grego, quando não eram conhecidas as distinções
corpo/alma e natural/sobrenatural. O corpo humano era visto como tendo
a necessidade de reproduzir o corpo dos deuses. Deuses e homens faziam
parte de um mesmo universo de sentido, embora exibissem diferenças.
O corpo humano era percebido em sua efemeridade, enquanto o corpo
dos deuses não perecia. Mas havia sempre a tentativa de se chegar
ao esplendor de Deus, esplendor este que seria manifesto quando o corpo
fosse como deveria ser, ou seja, “radiating, youth, vigor and beauty,
similar to a god, like unto the Immortals” (Vernant,
1986: 28). Para que o corpo atingisse estas qualidades e se aproximasse
do corpo dos deuses, artefatos como maquiagem, jóias, roupas e outros
adornos sobre o corpo, além de uma pele que parecesse lisa, polida,
firme e jovem, eram fundamentais. Havia um “supercorpo”, que envolvia perfeição
e beleza, e que se afirmava como um testemunho da imortalidade:
If the gods are immortal
and imperishable, it is because, unlike men, their corporality possesses,
by nature and even in the very heart of nature, that constant beauty and
glory with the social imagination shiver to invent for mortals when they
no longer have a body to display their beauty or an existence that can
win them glory. Living always in strenght and beauty, the gods
have a superbody: a body made entirely and forever of beauty and glory
(Vernant, 1986: 34).
O corpo divino deveria ser, ao
mesmo tempo, pesado e leve, etéreo, impalpável, devendo se
parecer com uma estátua de materiais nobres. A identidade individual
passava pela aquisição de um nome e pelo próprio corpo.
O corpo era visto como substrato da identidade e marca de pertencimento
e de distinção.
No nosso
caso, as mulheres urbanas também acreditam que este corpo “malhado”
seja indício da perfeição e fundamental para a construção
de uma identidade altamente valorizada neste período histórico
e na nossa cultura, que é a identidade de “malhadora”. Mas elas
não estão interessadas na imortalidade diante dos deuses
e nem no ingresso ao paraíso celestial: estão preocupadas
com uma outra forma de imortalidade, a alcançada pelo sucesso atestado
no corpo e pelo corpo, não para a aprovação divina,
mas para a aprovação de seus pares, que podem ser tanto os
parceiros afetivos, quanto a família, os amigos, o restante da sociedade
e em especial, as outras mulheres. Sucesso este que também conduz
à imortalidade, pois se cristaliza nos olhares e nas formas midiáticas
como fotografias e vídeos. Se a mulher em questão for “VIP”
(very important people) e/ou famosa, o sucesso de seu corpo e de si mesma
pode se eternizar em revistas, comerciais de televisão e até
mesmo no cinema.
O
Corpo e a Publicidade enquanto marcadores totêmicos
É
impossível dissociar, na contemporaneidade, os fenômenos do
culto ao corpo e a importância da mídia. A importância
dada ao corpo é tão grande que Lucien
Sfez (1996) chegou a proclamar a substituição do
culto à informação por uma “religião” biogenética,
calcada na “utopia do corpo”. No entanto, ao contrário de Sfez,
acredito, que a comunicação está vivíssima
e é a grande aliada e ao mesmo tempo veiculadora desta utopia do
“corpo perfeito”. O desafio, para mim, está em mostrar como estes
dois pilares muitas vezes se entremeiam, como precisam disto para sobreviver
e como dizem muito a respeito da concepção de pessoa e de
valores centrais à nossa sociedade.
Figura 1 - Feiticeira
Quando
questionadas sobre a relação entre mídia e culto ao
corpo, a esmagadora maioria, 96%,afirmou que sim, a mídia influi
no processo de culto ao corpo. Absolutamente nenhuma mulher respondeu que
não, e apenas 4% da amostra responderam “mais ou menos”. As mulheres
por mim entrevistadas sempre mencionam a leitura de revistas ligadas à
aparência física, como “Boa Forma”, “Dieta Já”, entre
outras, que são consideradas “verdadeiras bíblias da beleza.
O que você precisa saber para ter um corpo legal tá nestas
revistas” (Mulher 31, 54 anos, designer). Dois depoimentos ilustram
o papel da mídia na propagação do culto ao corpo:
“Eu
acho que a mídia influencia em tudo: nas revistas, na televisão,
em tudo quanto é lugar. Muito. Você só vê aquela
perfeição. Eu acho, também, que não se pode
chegar ao exagero, mas na televisão você vê aquele corpo,
aquele cabelo. A mídia bombardeia a gente com imagens, então
você tem que trabalhar a cabeça pra você não
chegar a se sentir feia, se sentir mal” (Mulher 43, 39 anos, arquivista).
“Mais
uma vez a mulher, coitada, se vê escrava do culto ao corpo. O que
é uma pena; a gente luta, luta, luta e mais uma vez a mídia...
Eu não vou fazer cirurgia de peito por causa da estética,
mas muitas estão fazendo; nós estamos sendo massacradas pela
mídia.” (Mulher 69, 45 anos, fonodióloga).
Um dado interessante sobre a
influência da mídia, e que foi comentado de maneira espontânea
por três entrevistadas, é que o culto ao corpo veio na esteira
da popularidade dos grupos de pagode e axé como o grupo “É
o Tchan” e com a valorização do corpo semi-desnudo e malhado
das personagens televisivas “Tiazinha” e “Feiticeira” – de forte apelo
erótico, criados em 1999 pela midia. O corpo "perfeito" destas personagens
era claramente um fetiche e alvo dos desejos masculinos
. Criou-se um clima de erotização que passava pela exposição
dos corpos “malhados” e que contribuiu para a divulgação
de um padrão de corpo que, por sua vez, invadiu as casas via televisão
ou por meio de revistas como “Playboy”, “Sexy” e “Boa Forma”. Aliás,
justamente na época de explosão destes grupos e das personagens
citadas, Joana Prado saiu na capa da Revista Boa Forma, cuja chamada
era “O feitiço do corpo perfeito”.
Figura 2 - Mídia e modelos
de beleza
Em outra
capa, Figura 2, desta vez da revista "Corpo”, temos a chamada “Fique gostosa
como elas”, com a exibição da modelo Luma de Oliveira, também
muito citada como referencial de beleza. Se associarmos a capa com a fala
da própria modelo, enfatizando que considera a plástica uma
aliada, temos a clara associação entre modelos/plásticas/mídia
exercendo forte impacto sobre o imaginário de mulheres comuns. Até
mulheres que não faziam ginástica sentiram-se ameaçadas
por estas imagens de mulheres sedutoras, que poderiam enfeitiçar
seus companheiros e roubar-lhes a atenção. Aderir à
malhação, para algumas destas mulheres, foi uma tentativa
de diminuir a distância entre elas, simples mortais, e as “gostosas”
da televisão:
“Eu acredito. Eu acho que
muita gente nega. Mas eu acho que tem isso, tem nas novelas, em todo lugar.
Não é só o sexo, é mostrar o corpo, aí
eu acho que acaba sim, virando um culto. Eu acho que começou na
época daquele grupo ‘É o Tchan’, que começou a dar
ênfase na mulher mostrar o bumbum, ficar dançando daquele
jeito, depois veio a Tiazinha, a Feiticeira, tudo isso contribuiu para
que todo mundo se ligasse mais no corpo, no visual, na gostosona, malhar
pra ficar durinha.” (Mulher 22, 32 anos)
Featherstone afirma que a centralidade
da manipulação comercial das imagens, mediante publicidade,
mídia, exposições, performances e espetáculos
da trama urbanizada da vida diária, determina uma “constante reativação
de desejos por meio das imagens” (Featherstone,
1995: 100). De tanto ver o corpo malhado exposto, seja no dia a dia, seja
na mídia, acostumamo-nos a desejá-lo, e de tanto desejá-lo,
ele se tornou vital para nós.
As imagens
têm um papel novo e central na cultura de consumo. Para Baudrillard
(s/d), a concentração, a densidade, a abrangência da
produção de imagens na sociedade contemporânea nos
empurra para uma sociedade qualitativamente nova, o mundo simulacional,
no qual se aboliu a distinção entre realidade e imagem, estetizando-se
a vida cotidiana. Tudo se transforma em espetáculo, como já
diria Debord: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas
condições de produção se apresenta como uma
imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido
diretamente tornou-se uma representação” (Debord,1992:
13). No que se refere à religião do corpo na contemporaneidade,
a imagem é central, primeiro porque toda cultura do corpo passa
por imagens reais do corpo, projetadas como espetáculos e, segundo,
porque as imagens veiculadas pelos meios de comunicação são
indissociáveis deste processo de desejar e construir um corpo ideal.
Sabemos
que as imagens são formas privilegiadas de recorte, apreensão
e organização do real e do imaginário. Através
dos múltiplos elementos que põem em cena, as imagens constroem
idéias, contam histórias, enfim, registram tempos, lugares,
sentimentos. Assim como um "fato social total" (Mauss,
1974), condensam uma série de eventos e representações
(ver GEISA, disponível em http://www.geisa.mirelaberger.com.br).
No universo dos bodybuilders, proliferam revistas específicas
destinadas aos cuidados com o corpo. Revistas como “Boa forma”, “Dieta-Já”,
“Corpo”, são alguns dos exemplos. Além destas, é evidente
o quanto a preocupação com o corpo tomou conta de várias
outras revistas como “Veja”, “Época” e de jornais como “Folha de
S. Paulo”, “Estado de São Paulo” etc.
As revistas
citadas são prenhes de imagens que priorizam corpos considerados
bonitos. Além disto, é comum fotos que contrastam situações
chamadas de “antes” e “depois”. As fotos do “antes” são imagens
corporais de mulheres que eram “gordas e infelizes”; já as do “depois”
mostram imagens destas mesmas, agora “magras e bonitas, através
do produto 'X' ou da clínica tal”. Vincula-se felicidade à
beleza e, por sua vez, beleza à magreza. É uma espécie
de mantra, não só sonoro, mas também visual, que constrói
e reafirma modelos corporais, bem como representações de
gênero a eles associados. Os termos para uma construção
de gênero ocorrem por meio de tecnologias (como o cinema, a televisão,
as revistas) e discursos institucionalizados com o poder de “controlar
o campo do significado social e assim, promover e implantar representações
de gênero”(Lauretis, 1994: 228).
Constroem, por meio das formas midiáticas, a representação
da mulher bonita como preocupada com a aparência, que “se cuida”,
que é admirada por homens e mulheres graças a seus atributos
físicos.
Tais
imagens induzem à correlação entre obter o corpo perfeito
e alcançar a felicidade. A publicidade surge neste processo como
uma espécie de operador totêmico (Rocha,
1995), e as formas perfeitas como totens midiáticos. Sabino
concorda com Rocha e diz que:
"tal como um ‘selvagem’ saberá
identificar o comportamento e a aparência de uma pessoa do clã
do urso ou da Águia, podemos identificar, pela aparência ou
conduta, alguém que é marombeiro ou se dedica regularmente
ao mundo da musculação e das academias" (2002: 145).
Os corpos
dos bodybuilders estão permanentemente em construção,
mas também em exibição: são corpos-mensagens,
verdadeiros totens que falam pelos sujeitos. São, ao mesmo tempo,
produtos, e veiculadores da religião do corpo.
Presenteísmo,
técnica e esforço individual
Uma,
entre várias entrevistadas, afirma:
Você vê pessoas
que se drogam, tomam anabolizantes, esteróides, pelo corpo e esquecem
da saúde. Isto também é um culto ao corpo, porque
esquecem que amanhã isto pode prejudicar muito, é um culto
ao corpo, porque não pensam no que vai fazer mal, só pensam
no agora, ficar bem bonita agora, mas depois eles vão ver as conseqüências,
porque só pensam no agora, no que estão fazendo agora
(Mulher 24, 18 anos, instrutora de ginástica, ênfase dela).
Esta fala aponta para dois pontos
importantes: primeiro, que o culto ao corpo está ligado ao que Maffesoli
chamou de presenteísmo (Maffesoli,
1998), ou seja, a demasiada primazia do presente na contemporaneidade:
vive-se para o agora, para o instante imediato; a tradição,
tão rica no período anterior à contemporaneidade,
é descartada e o futuro está demasiado longe para se pensar
nele. Cultua-se o momento presente e o triunfo do corpo: quando questionadas
sobre as conseqüências de atitudes como regimes extremos, bronzeamento
artificial, uso de drogas para emagrecer ou mesmo de anabolizantes, as
mulheres afirmaram que não vale a pena se preocupar demais com os
seus efeitos nocivos em longo prazo, que o importante é estar bonita
agora. O outro ponto que merece destaque é que a entrevistada aponta
para um dado que se repetirá e é fundamental para se entender
a modernidade e o processo de culto ao corpo: a questão da técnica.
Vejamos um depoimento:
As salas de musculação,
se você for ver, o que tinha antigamente e o que tem hoje, hoje você
tem aparelhos que você põe a chave e ele te diz o que você
tem que fazer, a tecnologia auxilia, dos aparelhos de musculação,
e mesmo de som. Hoje a coisa é muito mais rica do que quando eu
dava aula (Mulher 14, 34 anos, professora de educação física).
Figura 3 – Influência da técnica
Courtine
(1995) reforça a importância da técnica e do
comportamento regrado na construção corporal do bodybuilder
após os anos de 1980. Segundo ele, o desenvolvimento do mercado
do músculo e do consumo de bens e serviços destinados à
manutenção do corpo, além de toda uma tecnologia do
suor (“hight-tech sweat”), são alguns dos itens que diferenciam
as atuais das antigas práticas de musculação e que
neste sentido, marcam um processo de culto ao corpo diferente de outros
processos ligados ao corpo no passado. Segundo ele, a tônica da atualidade
é que é preciso “sofrer se distraindo: a sofisticação
eletrônica do material quer fornecer novos meios para favorecer a
constância exigida pela disciplina e combater a dor do esforço
e também o tédio da rotina” (p. 84).
Sylvie Malisse (apud Del
Priori, 2000:91), afirma que, a partir de 1970, junto com as bonecas
Barbie chegaria ao Brasil o body bussiness, ou seja, máquinas
e técnicas do corpo que promoveriam um marketing de vivências
corporais e passaríamos de uma estética feminina à
uma ética feminina, ética que obrigaria a mulher a responsabilizar-se
por seu próprio envelhecimento e a consumir produtos e técnicas
para evitá-lo. A mulher passa a ser responsabilizada por sua imagem
e cobrada por ela, reforçando assim estereótipos e construções
de gênero. Ela incorpora que uma das suas responsabilidades, enquanto
mulher, é ser/estar bonita
.
Esta
associação entre técnica e marketing corporal é
claramente visível na academia de ginástica Cia Athlética.
Há um grande investimento no aparato técnico, seja dos equipamentos
de ginástica em si (esteiras, transport, bicicletas, aparelhos de
musculação), seja de televisores e circuitos integrados de
televisão que permitem monitorar todo o ambiente da academia. Há
também painéis onde se afixam fotos de freqüentadores
que se destacam, dos professores e personal trainers, além
de uma revista interna cuja foto e manchete sobre algum aluno convertem-se
em troféus a serem exibidos e guardados. A academia adquiriu recentemente
esteiras com monitor de televisão de tela plana acoplado, ou seja,
é possível caminhar na esteira assistindo à televisão
fixada na altura certa dos olhos e individual, pois cada esteira
possui uma. É possível sintonizar o canal preferido e se
exercitar/distrair ao mesmo tempo. Nas academias mais sofisticadas, as
máquinas de exercício (techno gym) têm entrada
para uma chave própria de cada aluno, que registra todas as informações
sobre o que ele deve fazer e do que efetivamente foi feito (desde o número
de séries e de repetições, até potência
do exercício, batimentos cardíacos, enfim, não só
o treino em si, mas o “desempenho” do aluno no treino). Ao final de alguns
meses, o personal trainer acessa a chave do aluno e supervisiona
o treino, controlando de perto os passos de seu neófito e decidindo
se este pode ascender algumas fases no lento processo de construção
ritual do corpo. Tudo isto parece nos dizer: “A tecnologia para obtenção
de um corpo perfeito está disponível e você só
não a utiliza se não quiser.” (vide figura 3). E pior : também
só não conquista um corpo perfeito se não quiser.
Desta forma, atribui-se à conduta do aspirante a portador do corpo
perfeito consegui-lo ou não. A estética se vale do discurso
da ciência, se legitima por ele e culpabiliza aqueles que, por algum
motivo, não aderem à esta lógica.
Outro
pilar que sustenta a religião do corpo perfeito é que o mesmo
passa pelo esforço do “indivíduo”, ou seja, a ênfase
em que o indivíduo sozinho, utilizando-se de aparelhos, pesos, muita
ginástica, alimentação e produtos químicos,
pode construir seu corpo ideal, tão veiculado e reforçado
pela mídia. Ou seja, ele não precisa e nem deve “se conformar
com o que Deus lhe deu”, já que, com seu esforço, ele pode
corrigir o que não corresponde ao padrão cultural de sua
época e lugar. Estamos na era da “tecnologia do suor” (high-tech
sweat) e, através dela, acredita-se, podemos escolher o corpo desejado:
"Você pode se tornar a pessoa que sonha ser", dizem os body-builders.
"Você pode desafiar, ao mesmo tempo, o inato e o adquirido e fazer
de você um outro” (S. Fussel,
1991: 73). O mito de que “é possível construir a si mesmo”
é central no processo de culto ao corpo (embora, na prática,
não existam tantas escolhas, já que temos que seguir os padrões
de corpo estabelecidos pela sociedade). Mas, de todo modo, a ideologia
que se vende aos adeptos do culto ao corpo é a de que o indivíduo
- e somente ele - prestará contas ao olhar “crítico” e hierarquizante
de seus pares (e não mais de um Deus transcendente), além
de se submeter ao escrutínio da fita métrica, da balança
e do espelho, em um processo que exige dele uma conduta ascética,
racional e individualista. E mais: além de ser produto do esforço
individual, passa pela conquista de um corpo que só ele vai ter
e, posteriormente, da forma física como veículo de afirmação
de status, conquista de parceiros sexuais em mesmo nível estético
e inserção social, além de oportunidades no mercado
de trabalho. Goldenberg e Ramos (2002)
também apontam que, para se atingir a forma ideal e expor o corpo
sem constrangimentos, é preciso investir na força de vontade
e na autodisciplina, como reforçam, inclusive, as revistas de estética.
É
como se a possibilidade de construir um corpo ideal, com o auxílio
desta tecnologia do suor se confundisse com a construção
de um destino, de uma obra: o homem moderno procura inventar a si próprio,
construir-se através de seu próprio corpo, o que reforça
a idéia de que no culto ao corpo atual, este é, ao mesmo
tempo, o ponto de partida e o ponto de chegada. O corpo não está
a serviço de uma missão religiosa: ele é a própria
missão. Está a serviço de uma ideologia – o culto
à perfeição -, mas é também a própria
ideologia.
Ethos ascético
Sabino
percebe que após 1980 surge um novo ethos, que ele chama
de ascético, e que se caracteriza pela profunda preocupação
de integração aos valores constitutivos da cultura dominante,
combatidos anteriormente pelos grupos da contracultura. Isto ocorreria
tanto no plano simbólico (portanto, no plano da mitologia) quanto
no das práticas, caminhando no sentido de uma estética corporal
que valoriza o cultivo muscular e hierarquiza a realidade a partir de valores
relacionados a este cultivo. Ou seja, estaríamos vivendo “um processo
de construção do corpo onde a forma física apresenta-se
como atitude não desviante” (Sabino,
s/d: 5).
Turner
(1974) mostra que a recompensa pelo corpo ascético não é
a salvação espiritual, mas a aparência embelezada,
um eu mais disputado. Na mesma linha de raciocínio, Baudrillard
destaca que o culto higiênico e dietético, bem como a obsessão
pela juventude, elegância e feminilidade, associados ainda com práticas
sacrificiais, suplantam a importância da alma: “O Mito do prazer
[...] o circunda – tudo hoje testemunha que o corpo se tornou objeto de
salvação. Substitui literalmente a alma, nesta função
moral e ideológica” (Baudrillard, s/d: 136).
Se,
no ideário místico e religioso, as concepções
sobre a vida sóbria e temperada tinham como referência uma
defesa contra as tentações da carne, a subjugação
do corpo - por meio das “rotinas de manutenção corporal”
- é a precondição para a conquista de uma aparência
mais aceitável, para a liberação da capacidade expressiva
do corpo. Neste sentido, Del Priore
(2000) afirma que
Diferentemente de nossas
avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas
em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição. Nosso
tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e
o espelho (p. 52).
Já que o corpo perfeito
é colocado, estrategicamente, como estando ao alcance de todos,
ele traz em si a culpa caso não seja conquistado. Estamos longe
dos preceitos religiosos dos anos 20 que condenavam as mulheres que se
preocupavam demasiadamente com a aparência. Neste caso, a própria
aparência torna-se objeto de culto e a culpa vem da impossibilidade
de ascender ao reino mítico da beleza. É preciso assim exercitar
o corpo até o limite para expiar a própria culpa da não-perfeição,
ou de uma refeição mais calórica, vista como um desvio
de conduta. E o algoz do corpo em pecado por não ser perfeito é
o espelho, tanto o de vidro quanto o de carne e osso das pessoas nas quais
nos miramos em busca da perfeição. Hoje, ser belo é
ser aceito e valorizado e isso passa pelo trabalho árduo e pelo
comportamento ascético frente ao corpo.
Wacquant
afirma a respeito do boxe:
“O que de imediato choca
é seu caráter repetitivo, árido, ascético:
suas diferentes fases repetem-se ao infinito, dia após dia, semana
após semana, com ínfimas variações” (Wacquant,
2002: 78).
Quando
falamos de comportamento ascético, obviamente estamos retomando
os trabalhos de Max Weber, em especial A Ética Protestante e o Espírito
do Capitalismo (1904), em que ele mostra que as sociedades modernas e ocidentais
se distinguiam das demais sociedades do passado tanto como lócus
do saber quanto do capitalismo. Segundo ele, a racionalidade, a técnica
e um ethos específico, que ele chamou de “ascético”, seriam
fundamentais seja para o triunfo do capitalismo, seja para o progresso
da ciência e caracterizariam o mundo moderno. Não será
possível aqui detalhar o pensamento de Weber, mas é importante
frisar que a idéia de auto-controle, bem como o sentimento da obrigação
de realizar tarefas e munir-se da técnica e da ciência como
aliadas, vão aparecer fortemente no universo dos bodybuilders.
Na
maioria das vezes, este processo de construção ritual da
pessoa é dolorido, tanto do ponto de vista dos exercícios
quanto dos tratamentos estéticos: injeções de botox
nos músculos faciais, choques elétricos na estimulação
russa, injeções de colágeno para preenchimento dos
sulcos, mesoterapia, entre outros, produzem sofrimento físico em
prol do próprio físico que, depois dos tratamentos, ascenderia
a uma nova e melhor forma. Isto sem mencionar a cirurgia plástica
que, devido à manipulação dos tecidos, cortes e pontos,
produz dores por semanas e, às vezes, por meses. Estamos aqui muito
distantes dos tratamentos de beleza da década de 20 que - perto
dos atuais - podem ser considerados paliativos e leves, já que envolviam,
em sua maioria, exercícios moderados e, principalmente, cremes e
poções que disfarçavam a "feiúra". Estão
distantes, também, da idéia veiculada nos anos de 1960 de
que era possível e desejável embelezar-se sem dor e com prazer.
Aqui, ainda que o prazer exista, ele advém da dor, ou melhor, da
eficácia simbólica - e real - de observar, por meio do empenho,
uma nova identidade aflorar por conta do esforço, pois entre os
informantes é corrente a expressão “se o músculo está
doendo, está crescendo” e, além disto, é o sofrimento
infligido ao corpo que faz com que os rituais sejam o que são, já
que os indivíduos aderem de maneira tanto mais decidida a uma instituição
quanto mais severos e dolorosos tiverem sido os rituais iniciáticos
a que se submeteram (cf. Clastres apud Turner,
1974).
Segundo
Travaillot (1998) o exercício, além de conferir essa imagem
de um corpo empreendedor, conquistador, ativo, também aproxima as
noções de beleza, forma e saúde.
Nada de beleza sem saúde.
Nada de saúde sem exercício. É a religião do
esforço, adotando um modelo de escola, mas sob um regime não
escolar, alegre e erotizado (Travaillot,
1998: 154).
A beleza
passa a ser responsabilidade feminina: a construção do corpo
perfeito advém do esforço do indivíduo e é
preciso fazer o que for para que o corpo perfeito seja alcançado.
É muito comum nas aulas de ginástica que se faça referência
à necessidade de fazer o corpo sofrer, para o seu próprio
bem:
Força, ânimo,
vai estar todo mundo pronto para o verão, interno de coxa e bumbum
durinho” (balé clássico, 23/05/2005); “judia do abdômen,
vamos deixar ele trincado” (aula de abdômen, 7/06/2005); “Dói,
mas é bom! Tudo duro agora, bumbum e perna, sem moleza" (aula de
body pump, 08/08/2005).
A etnografia revelou também que,
para as entrevistadas, realizar um “treino puxado” é também
purificador, na medida em que expia culpas (ligadas ao consumo de alimentos
considerados calóricos), raiva, mágoas e outros sentimentos.
De todo modo, o que mais desponta na etnografia é a idéia
de disciplina:
Malhar
exige disciplina, fazer ginástica exige disciplina, porque malhar...você
tem que ter uma continuação, então você tem
que ter uma disciplina para você saber coordenar as atividades com
o seu ritmo de vida, com seu ritmo de trabalho, de sono, de alimentação;
tudo exige uma disciplina (Mulher 54, 26 anos, professora de educação
física).
Figura 4 – Importância
da Disciplina
Quando
analisamos o universo das academias de ginástica, fica evidente
a um olhar atento que o processo de culto ao corpo está permeado
de rituais onde o autocontrole é fundamental - há uma rotina
a ser seguida desde que o bodybuilder acorda: o que comer antes,
durante e depois do treino, que exercícios fazer, com que potência
e quantas séries de repetições, enfim, um comportamento
ascético em que tudo é racionalmente calculado para atingir
um fim específico: a construção do corpo perfeito.
“Ter disciplina” (vide figura 4) passa a ser uma mensagem constante nos
meios publicitários e encontra eco nos discursos de pessoas anônimas,
como nossas entrevistadas. Neste processo, é fundamental que o indivíduo
observe, julgue a si mesmo e estabeleça os canais para melhorar
o que for preciso, seja na intensidade do treino, seja na alimentação
. Entre as mulheres pesquisadas, a disciplina é uma espécie
de código de honra, de preceito, sem o qual a mulher não
pode ser considerada de fato uma iniciada no templo da malhação;
ela é só uma “turista”, alguém “não compromissada
de verdade” com os ideais da ética/estética professados pelos
bodybuilders.