Jovens na metrópole:
etnografias de circuitos de lazer, encontro e sociabilidade.
MAGNANI, José Guilherme Cantor
& SOUZA, Bruna Mantese de (orgs.).
Jovens na metrópole: etnografias
de circuitos de lazer, encontro e sociabilidade.
São Paulo, Terceiro Nome,
2007
279 pp.
Por Íris Morais Araújo
Mestre em Antropologia Social (USP)
Apreender
as regras de sociabilidade que conformam as práticas sociais de
jovens na Região Metropolitana de São Paulo. Este foi o convite
de José Guilherme Cantor Magnani aos freqüentadores de seus
cursos, graduandos em Ciências Sociais da USP dos primeiros anos
do século XXI. Aqueles que aceitaram o desafio buscaram conhecer
melhor alguns desses jovens, os espaços públicos que orientam
suas atividades e, ainda, as regras de sociabilidade que os distinguem
e que os faz relacionar, das formas mais diversas, com vários outros
agentes sociais.
Os resultados
das empreitadas podem ser conferidos em Jovens na metrópole: etnografias
de circuitos de lazer, encontro e sociabilidade, livro organizado por José
Guilherme Cantor Magnani e Bruna Mantese de Souza. Escritos com rigor e
envolvimento, os capítulos de Jovens na metrópole são
os primeiros trabalhos de uma nova geração de cientistas
sociais que, esperamos, continue a produzir de forma obstinada e criativa.
Os artigos reunidos na coletânea, relatórios de pesquisa de
campo que foram sendo depurados nas discussões coletivas do NAU,
jogam luz nas práticas coletivas desses jovens em momentos de lazer.
Afinal, o tempo livre pode ser uma frincha da vida cotidiana em que é
possível buscar realização pessoal, por meio do exercício
“[d]aquelas regras de reconhecimento e lealdade que garantem a rede
básica de sociabilidade” (Magnani, 1994). A perspectiva adotada
? e que vincula esta antologia a outras investigações produzidas
ou orientadas por Magnani (cf. Magnani, 1984; Magnani & Torres, 1996)
? permite que o leitor conheça melhor as situações
em que tais agentes possuem autonomia em relação às
instituições aos quais estão inseridos, na maior parte
das vezes, de forma compulsória (como, por exemplo, a escola ou
o local de trabalho) e cujas atividades costumam ser vistas por eles como
uma obrigação nada gratificante.
Em função
desta escolha, as análises vinculam-se especialmente a um dos muitos
sentidos que se atribui ao termo juventude na produção acadêmica
relativa ao assunto: trata-se do momento em que os indivíduos optam
por uma forma de existência, buscando realizar um vir a ser (cf.
Augusto, 2005, p. 20). Desta maneira, tal termo foi, é certo, utilizado
como um bom ponto de partida para que as investigações fossem
iniciadas. A palavra juventude, porém, foi sendo substituída
por outras: aquelas que os antropólogos descobriram em campo e que
conformam identidades, circunscrevem pertencimentos, determinam diferenças
e conferem sentidos ao fenômeno juvenil na concretude da existência
social. Podemos depreender, portanto, que é praticamente impossível
tratar do assunto no singular. Lendo os artigos, aprendemos que os jovens
são jovens porque antes de tudo são góticos, forrozeiros,
pixadores, straight edges, b.boys, streeteiros, ravers, instrumentistas,
baladeiros, baladeiros do Senhor, baladeiros black, baladeiros de rodas
de samba.
São
muito ricas as análises a respeito das práticas criadas e
recriadas por tais agentes na região metropolitana de São
Paulo e resultado de observações acuradas. Os achados etnográficos
– que privilegiaram as regularidades nos comportamentos e na apropriação
dos espaços públicos – permitiram que os autores desconfiassem
de certas argumentações relacionadas às formas de
sociabilidade dos jovens das grandes metrópoles. Uma delas é
a de Michel Maffesoli que, em O tempo das tribos, chama os agrupamentos
juvenis de tribos urbanas e os qualifica como nômades, efêmeros,
sem organização. Muitas críticas podem ser feitas
ao uso do termo tribo para qualificar tal fenômeno (cf. Magnani,
1992) e podemos destacar sua associação feita pelos meios
de comunicação de massa aos costumes exóticos e à
violência que seriam inerentes à (má) conduta de muitos
desses agentes.
Buscando
compreender o fenômeno de maneira alternativa – e na melhor tradição
antropológica, que busca afastar-se das classificações
etnocêntricas apreendendo as regras que regem as ações
da vida social –, os autores trabalharam em seus textos com a expressão
circuitos de jovens. Segundo Magnani, este termo possibilita criar um denominador
comum ante a diversidade de práticas juvenis, buscando analisá-las
por meio da inserção das mesmas no espaço urbano.
Ante
tal perspectiva, menos que particularismos, fragmentações
ou isolamentos, as análises esquadrinham jovens de São
Paulo em relação com outros jovens, parceiros com quem estabelecem
relações de afinidade ou de evitação. É
desta maneira – privilegiando a análise das formas de sociabilidade
de alguns agentes e de seus outros –, que os autores da antologia escapam
do risco de romantizar ou aviltar as práticas juvenis. Vale a pena
conferir!
Referências
bibliográficas:
AUGUSTO,
Maria Helena Oliva. Retomada de um legado intelectual: Marialice Foracchi
e a sociologia da juventude. Tempo Social: Revista do Departamento
de Sociologia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo. V. 17, n. 2, São Paulo,
nov. 2005, pp. 11-33.
MAGNANI,
José Guilherme Cantor. Festa no pedaço: cultura popular
e lazer na cidade. São Paulo: Brasiliense, 1984.
MAGNANI,
José Guilherme Cantor. O lazer na cidade. Texto apresentado
ao Condephaat para fundamentar o processo de tombamento do Parque do Povo.
São Paulo, 4 de julho de 1994. Disponível on-line via www
em: <http://www.n-a-u.org>. Capturado
em: 14 nov. 2007.
MAGNANI,
José Guilherme Cantor Tribos urbanas: metáfora ou categoria?
Cadernos
de Campo: revista dos alunos de pós-graduação em Antropologia
da Universidade de São Paulo. V. 2, N. 2, São Paulo,
1992, pp. 48-51.
MAGNANI,
José Guilherme Cantor & TORRES, Lílian de Lucca (orgs.).
Na
metrópole: textos de antropologia urbana. São Paulo:
Edusp/Fapesp, 1996.