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Introdução
Ao ser convidado, em 2002, para integrar
um grupo de pesquisa formado por lingüistas e historiadores da USP
sobre surdos em São Paulo, a primeira reação foi de
surpresa, pois pouca ou nenhuma familiaridade tinha com o tema. Quando,
porém, me foi explicado o motivo do convite, contribuir com o enfoque
antropológico - e em especial com o da antropologia urbana - a uma
pesquisa já em andamento, que incluía descrição
da língua de sinais brasileira, LIBRAS (por parte dos lingüistas)
e registro de histórias de vida (por parte dos historiadores), a
proposta começava a fazer sentido. O pedido era para identificar
a rede de sociabilidade dos surdos na cidade, a partir das categorias de
pedaço, mancha, trajeto, circuito utilizadas em pesquisas
do Núcleo de Antropologia Urbana. O mês em que ocorreu o convite
também teve seu papel nos rumos em que essa participação
se deu. Era época das festas juninas que tomam conta de escolas,
instituições, associações de bairros, paróquias,
clubes, etc. e a pergunta que se colocava era: as escolas e associações
de surdos também promovem essas comemorações? E outra
indagação, inevitável, logo veio à tona: festa
junina de surdo tem música?
Para
quem havia estudado diferentes formas de lazer na cidade, o estudo das
festas não apenas é um recorte obrigatório como ademais
constitui sempre uma via de acesso privilegiada para o entendimento das
regras que estão na base de redes de sociabilidade. Neste caso,
além de ser uma boa opção, a novidade do tema prometia
novos desafios. Antes, porém, de retomar as etnografias realizadas
e seguir as pistas suscitadas pela indagação acima, faz-se
necessário apresentar e desenvolver algumas questões prévias.
Surdo
ou deficiente auditivo
Convém começar com
a básica e didática distinção entre a expressão
"deficiente auditivo" e o termo "surdo", haja vista a confusão que
ainda se faz entre eles mesmo no campo específico dos estudos sobre
surdos, agravada pela suposição de que a primeira é
mais "politicamente correta" que o segundo. Apesar de estabelecida
e aceita em determinadas áreas do conhecimento e instituições
voltados para esse tema, a distinção acima apontada não
parece suficientemente difundida e reconhecida para além de um círculo
ainda bastante reduzido de especialistas. No entanto, é uma distinção
que delimita o campo onde a questão será colocada e trabalhada
e define as ferramentas que serão utilizadas: ou se trata de uma
questão afeita à patologia, de falta ou perda de uma capacidade
natural, a ser tratada com os instrumentos apropriados para corrigi-la,
talvez amenizá-la; ou, ao contrário, trata-se de um sinal
distintivo, capaz de agregar pessoas que se reconhecem de alguma forma
vinculadas entre si pelo fato de se comunicarem por uma modalidade - a
gestual-visual - diferentemente do que ocorre com a imensa
maioria dos usuários da modalidade predominante, auditivo-oral.
Assim, ainda que no senso comum "deficiente auditivo"
e "surdo" sejam tomados como sinônimos ou como índices de
grau, eles apontam para campos de reflexão, atuação
e atitudes diferentes. Se na área das ciências da saúde,
por exemplo, esta condição é predominantemente
encarada como uma falta, nas ciências humanas e sociais (lingüística,
história, antropologia, pedagogia, ciências cognitivas e da
mente) a tendência é encará-la sob o ângulo
de uma marca distintiva, geradora de formas de comunicação,
relações, valores, práticas e comportamentos
específicos .
Essa dicotomia atravessa todo o campo - estudo, pesquisa e atuação
- abrangendo os mais diferentes atores (inclusive os próprios surdos)
e instituições voltadas para tratamento e ensino, políticas
públicas, legislação, produção e comercialização
de equipamentos, etc. e sugere a necessidade de, inicialmente, buscar
estabelecer mais claramente as necessárias distinções.
No campo
em que a essa condição é encarada como patologia,
considera-se população surda o conjunto de pessoas
portadoras de uma disfunção especifica, a ausência
ou perda da função auditiva classificada de acordo
com o grau da afecção (profunda, severa, progressiva, lateral,
pré-linguística, etc.), constituindo conjuntos de pacientes
que são objeto de tratamento e estratégias diferentes.
No outro campo, porém, o grupo de referência é
constituído com base nas relações que seus integrantes
estabelecem entre si, tendo em vista que simbolizam e se comunicam através
de outras modalidades (principalmente a gestual-visual) que não
a dominante (auditiva-oral). Neste caso, as distinções
que se fazem são de outra ordem, e os termos habitualmente
utilizados são "comunidade surda", "cultura surda", "mundo surdo",
"minoria lingüística", "identidade surda" etc.
Muitas
dessas expressões são categorias que pertencem ao campo
das ciências humanas e sociais onde são objeto de uma
reflexão sistemática e que, para evitar ambigüidades,
imprecisões e assim torná-las operativas precisam ser
levadas em conta e retomadas à luz das matrizes em que surgiram
e foram desenvolvidas.
Esses
campos de reflexão e pesquisa estão afeitos aos enfoques,
entre outros, das áreas da Lingüística, História,
Pedagogia e Antropologia, e seu propósito é
encarar as questões relativas aos surdos - língua, cultura,
aprendizagem, socialização, etc - com a complexidade que
apresentam e estabelecer pontos de contato com outros domínios
do conhecimento.
Entre
aquelas áreas, a lingüística é uma
das que tem apresentado maiores avanços e não é
por acaso: a forma de comunicação e sua incidência
no aprendizado dos surdos desde muito tempo têm colocado em pauta
o tema da língua de sinais. Sem ir muito longe - deixando de lado
a antiguidade clássica e as referências a esse tema
até nos diálogos de Platão - desde o século
XVI a questão divide os especialistas entre oralistas (que submetem
os surdos a longos e penosos exercícios articulatórios com
o objetivo de torná-los usuários da língua oral) e
os sinalistas que reconhecem que os surdos se comunicam melhor e mais eficientemente
por meio do sistema de sinais. Na França, foi o abade
Charles M. de l´Epée, criador da primeira escola pública
que usava sinais, em 1760, quem estabeleceu as bases de um processo
de reconhecimento, elaboração e aperfeiçoamento
dessa modalidade específica de comunicação, processo
formalmente interrompido em 1880, no famoso Congresso de Milão,
que proibiu seu uso nas escolas públicas .
Não
há como retomar, aqui, todos os meandros dessa história,
com todos os seus embates e conseqüências; o certo é
que um experimento de mais de um século foi abortado e passou-se
mais outro até que a questão voltasse à cena: é
com o trabalho pioneiro de Stokoe (1960) que
a língua de sinais deixa de ser encarada como pantomima, conjunto
de gestos ou mímica e começa a ser considerada como
uma língua dotada de gramática com todas suas
partes constitutivas– fonologia, morfologia, sintaxe, semântica
etc. Atualmente, em virtude de novas pesquisas (Klima
& Bellugi, 1979; Liddell & Johnson,
1989; Liddell, 2003, etc.) já não há
dúvidas, por parte dos lingüistas, sobre o estatuto da língua
de sinais como língua e não como mero código ou linguagem
Um dos
pressupostos lingüísticos da própria definição
de qualquer língua “natural” é que esta surge e se desenvolve
espontaneamente no seio de uma comunidade de falantes. No caso dos
surdos, qual é sua comunidade? Eles não têm um território
seu e, com exceção da famosa ilha Marta´s Vineyard,
em Manhattan, não se conhece uma base territorial - país,
aldeia, bairro - só de surdos, de forma a assegurar a necessária
continuidade e co-presença de falantes nativos .
E na população mundial, em torno de 95 % dos surdos nascem
de pais ouvintes, o que não lhes assegura condições
de uma primeira socialização em contato com a língua
de sinais e com a chamada cultura surda.
Assim,
é de se perguntar que tipo de comunidade eles formam, e
aqui já entra a Antropologia, posto que este é um tema
clássico de sua reflexão .
A própria língua de sinais, aliás, já fora
objeto de interesse nos primórdios da disciplina, como se pode comprovar
no trabalho de E.B.Tylor, Researches into the early history of mankind
(1874), interesse que foi prejudicado pela desvalorização
oficial e formal por parte do Congresso de Milão de 1880 .
Comunidade
e cultura: categorias nativas ou analíticas?
Assim,
comunidade surda - e também cultura surda, identidade surda, minoria
lingüística, mundo surdo, etc.- é empregada freqüente
e indistintamente nos mais variados contextos (acadêmicos, políticos,
da vida cotidiana) e na maioria das vezes com alcances e entendimentos
muito diferentes. Na literatura sobre surdos ,
aparece quase sempre sem maiores explicitações ou como se
tivesse um significado unívoco, aceito de forma inconteste, transparente.
É o que ocorre, por exemplo, em Skliar
(2001, p. 6, passim) Sacks (2002, p. 9, passim), Wilcox
& Wilcox (2005, p. 64, 65), entre outros. Uma exceção
é Carol Padden (1989), autora que se
preocupa em definir o que entende por comunidade: a forma como o faz, entretanto,
é reveladora das dificuldades em incorporar um termo provindo de
outra área; por isso, vale a pena apresentar seu argumento.
Após
reconhecer que "unfortunately there is much disagreement among anthropologists
and sociologists about what constitutes a 'community' (p. 3) segue a indicação
de um autor, George Hillery o qual , depois de avaliar 94 diferentes definições
(sic) identifica três pontos comuns a todas elas:
"A community is a group
of people who shares common goals and cooperate in achieving these goals;
occupies a particular geographic location; has some degree do freedom to
organize the social life an responsibilities of its members". (idem, ibidem).
Padden propõe, a partir
daí, sua definição de comunidade surda: "A deaf community
is a group of people who live in a particular location, share the common
goals of its members and in a various ways, work toward achieving these
goals." (idem, p.5). A autora discorre também sobre cultura surda
e todo seu ensaio é objeto de uma leitura crítica de um lingüista,
Graham
Turner (1994) que, com base em trabalhos de Giddens, Featherstone,
Geertz, Street, entre outros, salienta o que denomina de caráter
de checklist embutido nas definições de Padden de comunidade
e cultura. Ele próprio, entretanto, ao optar por uma perspectiva
que incorpora a idéia de cultura as-a verb (no sentido de que cultura
não se refere a estados, mas a processos) articulando-a ao
conceito gramsciano de hegemonia, não escapa a um certo ecletismo .
Já Lane, Hoffmeister e Bahan (1996) descartam
"comunidade surda" por considerarem muito inclusivo e preferem a expressão
"mundo surdo", restringindo-o apenas àqueles que usam a língua
de sinais e se identificam com a cultura surda.
Não se trata de verificar
se, neste ou naquele caso, o emprego desses termos está correto
ou não; o interesse é, inicialmente, considerar
todos eles como usos "nativos", fazendo, porém, as devidas distinções
entre um uso descritivo e outro, com pretensões mais analíticas;
para tanto, faz-se necessário submeter as categorias
a um escrutínio e assim poder avaliar seu rendimento. A
proposta, portanto, é mostrar que as ambigüidades presentes
nos vários usos nativos são pistas valiosas, reveladoras
de nuanças que é preciso antes ressaltar do que homogeneizar;
no entanto, transpostas para o plano analítico de forma a-crítica,
tais termos, com essas ambigüidades, não contribuem para o
entendimento; ao contrário, confundem ou reforçam noções
do senso comum.
O estudo
dos usos nativos desses termos depende, entretanto, de uma análise
de contextos discursivos específicos e demanda, evidentemente,
trabalho mais exaustivo com base em corpus consistentes; da mesma forma,
verificar seu rendimento como categorias analíticas exige uma discussão
teórica mais alentada.
O que
segue é uma primeira aproximação e convém começar
com "comunidade" - é o termo que mais aparece, tanto em textos acadêmicos
como no discurso de militantes do movimento social surdo, de religiosos,
professores e na fala do dia-a-dia, com as mais diversas abrangências:
a comunidade surda brasileira; a comunidade surda paulistana; a comunidade
surda da Igreja Batista; a da paróquia N. S. Aparecida; a comunidade
surda usuária da língua de sinais; a comunidade surda como
um segmento na população dos "portadores de necessidades
especiais" e assim por diante.
Trata-se
de um uso empírico, ora com conotação territorial,
ora política, coloquial e até étnica.
Para
melhor apreciar as diferenças e alcances desses usos, vale a pena
retomar o ambiente da discussão inicial, na sociologia,
desse conceito. E a despeito das críticas que possa receber
no campo das ciências sociais, e das múltiplas re-leituras
pelas quais vem passando, é possível reconhecer no termo
comunidade uma questão de fundo que já estava em seu contexto
de origem e que pode explicar porque é tão amplamente
utilizado, nas mais variadas circunstâncias e com os mais diferentes
alcances. Como se sabe, esse conceito vem sempre associado a outro, sociedade,
com o qual forma a clássica polaridade: comunidade versus sociedade.
O contexto original da discussão é o da passagem do assentamento
rural tradicional para a cidade moderna:
"Segundo Tönnies, esquematicamente,
comunidade é marcada pelos laços de sangue, relações
primárias, consenso, rígido controle social; sociedade,
ao contrário, caracteriza-se pela presença de relações
secundárias, pela convenção, anonimato, troca de equivalentes.
Por meio dessa oposição, o autor descreve a transformação
de uma forma tradicional de vida sob a influência de uma economia
predominantemente baseada na troca: de uma Europa paroquial e agrária
para uma sociedade cosmopolita e comercial." (Magnani,
2000, p.22)
Esta distinção está
presente, de uma forma ou outra, na reflexão de outros autores mais
ou contemporâneos mas de orientações diferentes como
Émile Durkheim, Georg Simmel, Max Weber e os da Escola Sociológica
de Chicago. Ainda que as nuanças e contextos do uso dessa dicotomia
sejam diferentes e historicamente datados, mantém-se constante a
distância relacional entre os termos: enquanto um aponta para a proximidade
dos contatos e para o caráter direto e personalizado das relações,
o outro ressalta a formalidade, a presença de convenções
mais universalistas. Mas não se pode definir nenhum dos termos por
características intrínsecas, pois seus núcleos de
significado se estabelecem dentro da relação, por oposição:
o que caracteriza "sociedade", por exemplo, seja no caso de uma pequena
associação de amigos de bairro, ou de uma abrangente "Sociedade
das Nações", é o caráter formal das relações
entre os membros, o papel da hierarquia, das instâncias decisórias,
a listagem de direitos e deveres definidos por estatutos e regimentos,
etc.
E quando se fala em "comunidade" em
termos genéricos o que se evoca é também
a marca de origem: proximidade, presença de relações
face-a-face, seja por contigüidade espacial, (no trabalho, no bairro,
na instituição) ou por afinidade de propósitos, crenças
e modos de vida compartilhados. O que vincula os membros de uma comunidade
seria o reconhecimento desses vínculos e a possibilidade de checar
a sua inclusão. Portanto, mais do que organizações
sociais concretas, esses termos designam, neste caso, dois tipos-ideais
de interação e podem ser encontrados em diferentes
arranjos .
Por outro lado, eles podem também
ser usados como "agregados sociológicos", ou seja, para
designar algum grupo concreto. Nessa perspectiva podem
ser vistos como recortes empíricos, quantificáveis, referidos
sempre a um conjunto de pessoas, ligadas por algum tipo de vínculo
e sujeitas a alguma modalidade de normas ou regras. Esta é, porém,
a conotação que mais se presta a críticas, como a
de George Marcus (1991), sobre o emprego de "comunidade"
nas pesquisas antropológicas.
Este
autor afirma que é preciso repensar a noção desse
conceito tal como foi estabelecido e utilizado em determinados contextos
da "etnografia realista", em oposição a uma "etnografia modernista",
que leva em conta a mudança não apenas das condições
atuais dos povos estudados pela antropologia, como as transformações
no cenário mundial onde esses povos se inserem. Assim, afirma Marcus,
é preciso romper com uma noção de comunidade
que, "no sentido clássico de valores, identidade e, portanto, cultura,
compartilhados, foi baseado literalmente no conceito de localidade".(Marcus,
op.cit. p.204). Prossegue o autor:
As
conotações de solidez e homogeneidade relacionadas com a
noção de comunidade (seja esta concentrada num local ou dispersa)
foram substituídas nos estudos das modernidades, pela idéia
de que a produção localizada de identidade uma pessoa, de
um grupo, ou até de uma sociedade inteira - não depende apenas
e nem principalmente das atividades observáveis concentradas em
uma localidade específica, ou em uma diáspora (idem, ibidem).
Como
se pode ver, o emprego de "comunidade", nos exemplos acima, tirados
da literatura sobre surdos, ora é vago, ora demasiadamente
concreto. Em vista dessas limitações, proponho, em contrapartida,
valer-me da "família" de categorias (pedaço, mancha, trajeto,
circuito, pórtico) que desenvolvi em outros trabalhos (Magnani,
[1984] 1998, 2000,
2002)
e que vem sendo usadas em pesquisas do NAU (2002,
2005), mais apropriadas para captar e descrever a dinâmica e os processos
do que para propor delimitações estanques, fixar identidades
e delimitar lugares.
Apesar
de já terem sido discutidas nesses e em outros textos, vale a pena
apresentá-las, novamente, mas numa formulação sintética.
Assim,
pedaço
"designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa)
e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica,
mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais
densa, significativa e estável que as relações formais
e individualizadas impostas pela sociedade Pessoas de pedaços diferentes,
ou alguém em trânsito por um pedaço que não
o seu, são muito cautelosas: o conflito, a hostilidade estão
sempre latentes, pois todo lugar fora do pedaço é aquela
parte desconhecida do mapa e, portanto, do perigo" (Magnani op. cit. p.
116/117).
Manchas
são áreas contíguas do espaço urbano dotadas
de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam - cada qual com sua
especificidade, competindo ou complementando - uma atividade ou prática
predominante. Esta categoria fora proposta para descrever um determinado
tipo de arranjo espacial estável na paisagem urbana, se comparada,
por exemplo, com a de "pedaço", mais estreitamente ligada à
dinâmica do grupo que com ela se identifica. A qualquer momento,
os membros de um pedaço podem eleger outro espaço como ponto
de referência e lugar de encontro. A mancha, ao contrário,
resultado da relação que diversos estabelecimentos e equipamentos
guardam entre si, e que é o motivo da afluência de seus freqüentadores,
está mais ancorada na paisagem do que nos eventuais freqüentadores.
A identificação destes com a mancha não é da
mesma natureza que a que se percebe entre o pedaço e seus membros.
A mancha é mais aberta, acolhe um número maior e mais diversificado
de usuários, e oferece a eles não necessariamente um acolhimento
de pertencimento e sim, a partir da oferta de determinado bem ou
serviço, uma possibilidade de encontro acenando, em vez da
certeza, com o imprevisto: não se sabe ao certo o que ou quem
vai se encontrar na mancha, ainda que se tenha uma idéia do tipo
de bem ou serviço que lá é oferecido e do padrão
de gosto ou pauta de consumo dos freqüentadores.
Trajeto:
esse termo surgiu da necessidade de se categorizar uma forma de uso do
espaço que se diferencia, em primeiro lugar, daquele descrito pela
categoria pedaço. Enquanto esta última remete a um território
que funciona como ponto de referência - e, no caso da vida no bairro,
evoca a permanência de laços de família, vizinhança,
origem e outros -, trajeto aplica-se a fluxos recorrentes no espaço
mais abrangente da cidade e no interior das manchas urbanas. É a
extensão e, principalmente, a diversidade do espaço urbano
para além do bairro que colocam a necessidade de deslocamentos por
regiões distantes e não contíguas.
Com relação a circuito,
trata-se de uma categoria que descreve o exercício de uma prática
ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos,
equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma
relação de contigüidade espacial, sendo reconhecido
em seu conjunto pelos usuários habituais. A noção
de circuito também designa um uso do espaço e de equipamentos
urbanos - possibilitando, por conseguinte, o exercício da sociabilidade
por meio de encontros, comunicação, manejo de códigos
- porém de forma mais independente com relação ao
espaço, sem se ater à contigüidade, como ocorre na mancha
ou no pedaço. Mas tem, igualmente, existência objetiva e observável:
pode ser levantado, descrito e localizado.
A vantagem
do uso dessas categorias é que rompem com a necessidade de escolha
presente nas formulações dicotômicas. Tome-se a idéia
de pedaço, que se apresenta como espaço intermediário
entre "casa e rua": enquanto a primeira representa o
domínio do privado, é o espaço das relações
de sangue, do contato intimo e da segurança, "rua", ao contrário,
é o âmbito do público, das oportunidades, dos estranhos
e também do perigo. Pelo fato de intermediar os
dois domínios, o pedaço apresenta características
de ambos, combinando-as, porém, na forma de novas regras:
da casa reproduz o ambiente de segurança e, da rua,
a possibilidade de contato com pessoas que não estão vinculadas
pelos laços de parentesco. Desta forma, o pedaço pode ser
considerado uma espécie de transformação, de passagem
do âmbito doméstico em direção ao público.
É como se, de um lado, a casa se abrisse para fora e, de outro,
a rua se tornasse mais acolhedora: a intersecção
entre ambos é que permite a particular experiência proporcionada
pelo pedaço.
Todas
essas categorias apontam para o espaço público
e cada uma delas representa uma diferente modulação desse
domínio, na paisagem da cidade e de suas instituições.
Desta forma, elas conseguem descrever melhor e com mais nuanças
a dinâmica da sociabilidade e as alternativas de encontro, troca,
afirmação identitária e mesmo situações
de conflito propiciadas pela cidade, principalmente em sua escala metropolitana,
como é o caso de São Paulo.
Cultura
Dá-se
com o conceito de cultura o mesmo que com o de comunidade, quando
empregado nos estudos sobre surdos: faz-se alguma referência ao campo
de onde esses conceitos são originários, mas seu uso é
esquemático, descritivo e sobretudo político.Assim, para
Padden
(op. cit.)
"a culture is a set of learned
behaviors of a group of people who have their own language, values, rules
for behavior and traditions". (p. 4) Depois de afirmar que há muitas
comunidades de surdos nos EUA, mas uma só cultura surda americana,
com membros que vivem em diferentes comunidades, essa autora define o critério
para estabelecer quem é surdo: não é a perda da capacidade
auditiva que caracteriza uma pessoa como surda, mas se ela se identifica
com outros surdos e se comporta como uma pessoa surda. No entanto,
"the most striking characteristics of the culture of Deaf people is their
cultural values - these values shape how Deaf people behave and what they
believe in. (pg. 9)"
Entre esses valores Padden cita a língua,
contatos sociais, as histórias que circulam no meio e a literatura
sobre surdos, além de uma série de comportamentos distintivos
como, por exemplo, o uso do olhar na conversação: diferentemente
do que ocorre entre os ouvintes, para os quais não é
de bom tom encarar o interlocutor, esse contato é fundamental
na performance característica da língua de sinais. É
a esse tipo de caracterização que Turner (op. cit.) se refere
quando afirma que "the model encourages us to see a simple checklist of
criteria rather than any kind of interrelated network of elements" (p.
112).
Lane e outros
(1996), por sua vez, no capítulo dedicado à cultura surda,
consideram a cultura como os laços que mantêm os surdos juntos:
os surdos sentem-se vinculados uns aos outros primeiramente pela língua
e por um conjunto de valores e costumes e o "território" onde
a grande maioria dos surdos estabelece seus laços e adquirem
sua própria língua e cultura é constituído
pela rede das escolas residenciais (p. 125). Mais concretamente,
detalham os meios e instituições em que se desenvolve a cultura
surda: associações atléticas, clubes, organizações
políticas, artes (visuais e performáticas), literatura. Por
último, examinam duas poderosas - no seu entender - forças
no mundo dos surdos: a força unificadora de uma situação
de opressão compartilhada, e a força potencialmente fragmentadora
da diversidade.
Além do mais, a forma como
os surdos se apresentam uns aos outros, conforme relatam Lane e outros,
por meio de "cápsulas" de sua história de vida em que condensam
informações tais como a escola onde estudaram, pessoas surdas
eminentes que conhecem, instituições com as quais mantêm
contato, mostram a particularidade de sua "terra nativa":
"For unlike other
cultures, Deaf culture is not associate with a single place, a 'native
land'; rather, it is a culture based on relationships among people for
whom a number of places and associations may provide common ground". (Lane
H, Hoffmeister R. and Bahan, B. 1996:5)
Sem dúvida essa é uma
interessante observação a respeito da sociabilidade
entre os surdos e a categoria de circuito revela-se mais apropriada
para descrever o campo por onde os surdos circulam e mantêm seus
contatos mais significativos do que a definição habitual
de comunidade, seja a genérica, seja a que supõe
alguma forma de adscrição territorial mais delimitada. A
noção de circuito (com as demais categorias da "família")
introduz, ainda, mais claramente, a questão do espaço público,
por oposição ao domínio doméstico, e as limitações
que este traz para a socialização dos surdos, principalmente
quando nascidos de pais ouvintes. Por outro lado, enquanto "cultura surda"
e "mundo surdo", nas formulações acima, designam totalidades
fechadas que supõem e determinam quem entra e quem sai, quem pertence
e quem não pertence, quem está dentro e quem está
fora, a noção de circuito estabelece um recorte mais aberto,
com várias modalidades de participação e pertencimento.
Essas tentativas de definição
do conceito de cultura, entretanto, tal como ocorria com o de comunidade,
apenas tangenciam a discussão que é feita no campo da antropologia:
não vão além de um nível descritivo, pragmático.
E, da mesma forma como foi mostrado a respeito da dicotomia comunidade/sociedade,
o conceito de cultura, na antropologia, costuma vir acompanhado de outro
termo, compondo o par natureza versus cultura.
Trata-se de uma discussão
clássica na disciplina e que abre inúmeras possibilidades
para a reflexão sobre surdez. Esta, com efeito, pode ser pensada
como uma particularidade inscrita no organismo (na forma de ausência
de audição), portanto, no plano da natureza, com implicações
no plano da cultura, já que inaugura outras modalidades de simbolização
e comunicação. Outra perspectiva de abordagem, menos convencional,
é tomar a surdez não simplesmente como um dado "de natureza"
mas com uma construção social e histórica, resultado
da ação de múltiplos actantes - disciplinas
científicas, saberes médicos, instituições
religiosas, disposições legais, tecnologias, etc. Neste caso,
as análises e propostas desenvolvidas por Bruno
Latour (2005) podem ser de proveito para um enquadramento inovador,
assim como o conceito de "biossociabilidade" de Paul
Rabinow (1999), que pode também constituir uma contribuição
para enriquecer o debate e ampliar o horizonte de análise.
Em suma, tendo em vista esse
panorama, pode-se considerar que a questão da surdez traz
para o campo da reflexão e pesquisa antropológicas um tema
e um conjunto de atores sociais - habitualmente tratados na área
das ciências da saúde sob o foco da patologia, anormalidade,
deficiência. - que podem ser encarados numa outra perspectiva:
a partir do ponto de vista das diferenças que se estabelecem no
interior do próprio universo dos surdos (que não é
homogêneo) e também problematizar o uso nativo da expressão
mundo dos ouvintes, (o "outro" dos surdos) também postulado como
um bloco homogêneo. Em suma, como já foi afirmado, em vez
de encará-los sob o prisma da falta, cabe assumi-los da perspectiva
da marca.
A estratégia de pesquisa de
campo começou pela área do lazer, levando-se em consideração
não apenas a linha de trabalho seguida em trabalhos anteriores,
com a qual tenho familiaridade, mas também a importância que
os surdos dão a atividades como esporte, teatro, atividades
religiosas, festas, cerimônias - justamente porque abrem um rico
e constante espaço de encontro e de trocas, crucial para a
constituição do seu circuito.
Vale então a pena, agora,
passar ao relato de experiências de campo que pela primeira vez mostraram
algumas pistas para identificação das redes de sociabilidade
dos surdos em contextos de lazer na cidade de São Paulo.
"Festa no Pedaço
dos Surdos": um relato de campo

A participação nas
festas juninas de surdos na cidade de São Paulo, em
2002, foi considerada como o início da presença da etnografia
nesse campo multidisciplinar de estudo e antecedida por uma série
de questões. A primeira era avaliar as condições
de realização da pesquisa etnográfica num campo temático
novo, principalmente sob a ótica do lazer e da sociabilidade, recorte
previamente escolhido para direcionar a observação;
a segunda, se seria possível conduzir um "olhar de perto e
de dentro" (Magnani, 2002) ainda sem qualquer competência no
manejo da língua nativa, a língua de sinais, e sem conhecimento
do que se convenciona chamar de "cultura surda". Por outro lado,
esse mesmo desconhecimento era visto como o responsável por uma
das condições clássicas de realização
da pesquisa etnográfica, que é o estranhamento: para quem
é introduzido pela primeira vez num meio que lhe é estranho,
tudo é significativo, nada pode ser previamente hierarquizado numa
escala de valores entre o insignificante e o relevante: tudo é digno
de observação e registro. Com o tempo, esta condição
vai cedendo lugar a uma maior familiaridade com o meio, situação
que apresenta ganhos (e perdas) específicos, mas em outra
etapa da pesquisa.
Inicialmente, cabe uma apresentação
das características comuns dos quatro espaços da observação,
feitos pela primeira vez em 2002: ADEFAV (Cambuci), DERDIC (Vila Clementino),
Instituto Santa Teresinha (Saúde) e EMEE Helen Keller (Aclimação).
Todas as festas eram promovidas por
instituições, e instituições para surdos e
não de surdos. Duas delas, Adefav e Derdic, são instituições
voltadas para a capacitação e reabilitação:
a primeira, Adefav, trabalha com surdos, surdos-cegos e múltiplos
deficientes sensoriais; a segunda, vinculada à PUC/SP,
é especializada em distúrbios da audição,
voz e linguagem. As duas últimas são instituições
de ensino para surdos.
Todas as festas eram juninas, isto
é, inseriam-se num ciclo festivo de ampla difusão, tanto
nos grandes centros como em cidades pequenas e ambientes rurais no país,
de norte a sul, apresentando um "roteiro" básico e performances
já estabelecidas: barraquinhas para venda de comidas e bebidas típicas,
uso de roupas e adereços para caracterizar o personagem "caipira",
além de brincadeiras e folguedos, entre os quais a fogueira e a
quadrilha.

A música é elemento
constitutivo da festa e, se pode parecer alheia e despropositada num encontro
de surdos, não o é enquanto parte estruturante desse tipo
específico de comemoração. Ouvintes - pais, parentes
e amigos de surdos - também desfrutam da festa, o que mostra serem
esses eventos pontos de encontro mais amplos, colocando em contato diversas
categorias de pessoas: não se trata de guetos, mas de espaços
alargados de encontro e trocas.
O ambiente geral de todas elas era
de muita animação, como acontece nas demais festas juninas
que se multiplicam na cidade nessa época do ano. No caso dessas
festas em instituições voltadas para as pessoas surdas, porém,
um elemento diferenciador era que o público-alvo aparecia como mais
importante que a inserção espacial: enquanto festas juninas
de bairro ou escola geralmente congregam pessoas ligadas por vínculos
de proximidade territorial ou institucional, nas de surdos percebia-se
uma freqüência dada em função da condição
de surdos; pude notar, no pouco tempo de convívio, vários
rostos que estavam em quase todas as festas: é como se houvesse
um calendário que os surdos conhecem e freqüentam, seja qual
for o lugar ou instituição onde ocorram.

Essas festas, conquanto constituam
momentos de celebração e encontro de pessoas surdas qua
surdos, permitem encontros e trocas entre elas nas suas diferenças,
seja de classe social, escolaridade, origem, local de moradia e vizinhança:
é como se pudessem apreciar, para além da condição
comum que as une, as diferenças entre elas, o que as torna interessantes
umas em relação às outras; mas também abrem
espaço para o afloramento de atritos, divergências. Propiciam,
ainda, intersecção pública com o universo dos ouvintes,
mas em condição de superioridade em relação
a eles, a despeito da dominação exercida por suas instituições,
no dia-a-dia; ao menos ali, no momento da festa, os surdos eram mais numerosos,
comunicavam-se em sua língua, exibiam seus estilos e posturas corporais
características. Os ouvintes eram - fato raro - minoria, e atuando
no papel de coadjuvantes. A seguir, trechos do caderno de campo das duas
primeiras festas:
Na Adefav, a festa, no cair da tarde
do dia 7 de junho de 2002, era na rua, em frente à sede da instituição.
Em torno do nº 253 da rua Lacerda Franco, distribuíam-se as
barracas, as mesas e cadeiras e o pequeno palco. De certa forma o espaço
assim constituído era uma extensão das dependências
da associação, a qual servia de retaguarda e oferecia a infra-estrutura
básica para a festa: depósito, banheiro, cozinha, refúgio,
camarins...Como a instituição atende, além de surdos,
crianças com múltiplas deficiências, essa proximidade
garantia o fornecimento de cuidados extras para seu público específico.
A festa lembrava a situação descrita no texto "Quando a rua
vira casa" ,
ou, colocando desde outra perspectiva, mostrava a casa crescendo, incluindo
o espaço da rua. O fechamento de uma ou várias vias públicas
é uma estratégia bastante comum em comemorações
de bairro, incluindo até experiências mais amplas, como as
conhecidas "feiras de vila" (Vila Pompéia, Vila Madalena e outras).
Desta forma a rua, no contexto da grande metrópole, em determinada
ocasiões é novamente apropriada pelos moradores de forma
integral, podendo-se andar por ela sem perigo, desfilar, apreciar, exibir-se,
ir de um canto para outro.
Uma experiência singular
foi o contato com Cláudia Sofia, uma moça surda e cega que
freqüenta na Adefav e ali atua. Após observar sua forma de
comunicação com outro surdo cego, pedi a uma das diretoras
da instituição para entrar em contato com ela, no que fui
prontamente atendido. A experiência foi marcante, e sugeriu-me uma
série de desdobramentos. A diretora contou-me que havia outra moça,
também surda e cega, que atuava em outro "circuito": por ser evangélica,
não freqüentava festas e assim procurava contato com
pessoas na sua condição em templos e igrejas.
Sua modalidade de comunicação
é denominada "Tadoma", método de comunicação
especifica para surdos-cegos em interlocução com ouvintes-falantes,
pois é obtida pela vibração dos órgãos
fono-articulatórios. Foi desenvolvido pela professora de duas crianças,
Tad e Omã (daí a denominação) que ficaram surdas-cegas
em decorrência da síndrome de Usher, tipo de surdez congênita
seguida ou não de perda de visão a qual ocorre, geralmente,
em idade mais avançada. Trata-se de uma forma de comunicação
em que a pessoa surda-cega, por meio do tato, decodifica a fala de
seu interlocutor, colocando a mão no rosto de quem fala de forma
que o polegar toque, suavemente, seu lábio inferior e os outros
dedos sintam a vibração das cordas vocais. Contudo,
entre surdos-cegos usuários de Libras, a forma de comunicação
mais habitual é denominada "Libras tátil" .
Em ambos os casos, a postura e movimentação dos corpos configuram
uma performance muito particular.Este fato merece um relato à
parte, e entra aqui apenas por ter ocorrido no contexto daquela festa.
Sofia foi uma das pessoas que voltei a encontrar na festa seguinte, no
Instituto Santa Teresinha, a próxima a ser descrita:
"O Instituto Santa Teresinha convida
para a tradicional festa junina que se realizará no dia 15
de junho das 16 às 22 horas, na rua Jaguari, 364, na quadra de esportes
da OEMAR. O comprador deste convite concorrerá ao seguinte
prêmio: 1 máquina fotográfica digital - clone."
O meu ingresso, que custou R$ 3,00,
era de número 1.529; como cheguei em torno das 20h00, ele pode ser
tomado como um indicador da quantidade de pessoas que até
aquele momento tinham ido ao evento. E essa foi, de fato, a experiência
mais marcante. Em contraste com o clima mais tranqüilo e familiar
da festa da Adefav, aqui, o ambiente era agitado, as pessoas estavam bastante
animadas e realmente havia muita gente. Os ônibus nas imediações
atestavam que tinha vindo gente de outras cidades e até de outros
Estados. Tive a sensação de estar entrando numa "comunidade
em festa", numa aldeia em efervescência: nunca tinha visto tantos
surdos juntos, e essa densidade permite percepções vívidas
e ricas de suas formas de sociabilidade, de suas particularidades como
grupo diferenciado.
Como um estrangeiro, caminhava no
meio deles apreciando as rodinhas de conversa, dos grupos de amigos, os
casais, as conversas, a forma como estavam vestidos; pelo fato de não
dominar a língua de sinais, não me prendi a nenhum grupo,
nem procurei decifrar o que diziam; interessava-me, nesse momento, fazer
uma imersão nesse ambiente novo, cujo código básico
de comunicação me era estranho. Como eram as regras de etiqueta?
Pode-se passar no meio de uma roda de conversa? Como pedir desculpas por
um esbarrão? Solenemente ignorado por todos, restavam-me outros
códigos e outros planos de observação, sendo obrigado
a apurar o olhar, já que os significados não podiam provir
por intermédio do som. São raros esses momentos, na experiência
etnográfica: a prática mostra que aos poucos vai-se adentrando
no universo do outro, que acaba perdendo essa capacidade de maravilhar,
e termina tornando-se familiar ao observador .
Num determinado momento subi os degraus
da arquibancada que fica diante da quadra onde rolava a festa e, lá
de cima, tive acesso a um espetáculo realmente inusitado: uma disparidade
entre a multidão e o barulho que deveria estar fazendo, numa festa
de ouvintes; em contraste, havia um fervilhar de mãos numa espécie
de frenética pantomima, ao menos aos olhos de um leigo. Em termos
plásticos e coreográficos o espetáculo era realmente
impressionante, e me perguntei se o efeito do barulho, da algaravia, da
música no último volume sobre um ouvinte seria da mesma ordem,
em termos até de uma experiência extática, ao
efeito produzido pelo "mar de mãos", sobre uma pessoa surda .
Ganhei a revista "Sentidos
- a inclusão social com alto astral", recebi prospecto e explicações
sobre as vantagens de determinada marca de aparelho telefônico para
surdos, conversei um pouco com Cláudia Sofia, encontrei uma participante
do nosso grupo de pesquisa (Lia) e entrei nas filas das barraquinhas de
bebidas, sanduíches, etc. para comprar tíquetes. Já
na rua, indo embora, ganhei um folheto intitulado "Por que eu", de uma
igreja evangélica, com considerações a essa pergunta,
dirigida a diversas pessoas com doenças graves e defeitos físicos.
A resposta, no folheto, consistia em reconhecer os próprios pecados
e esperar a graça de Deus para suportar a dor e o sofrimento. Nada
mais distante do que o clima reinante na festa a que acabava de assistir...

As
outras duas festas observadas ocorreram, respectivamente na DERDIC (Vila
Clementino) e na EMEE Helen Keller (Aclimação). A primeira,
cujo ingresso era mais barato, um real, foi no dia 22/06/2002, na
rua Dra. Neyde Aparecida Sollito, nº 435. Apesar de ter chegado, com
Valéria, já quase no fim da festa ainda consegui
comprar uma latinha de cerveja, para entrar no clima e poder circular à
vontade. De novo, lá estava Lia que nos apresentou a algumas pessoas
importantes do meio. Não deu para avaliar a animação
dessa festa, mas os grupos remanescentes manifestavam o mesmo padrão
de intensidade de comunicação entre si; também era
mais visível presença de familiares acompanhando
os alunos; numa das dependências da escola, contígua à
quadra, estava ocorrendo um bingo.
Na escola Hellen Keller, rua Pedra
Azul, nº 314, a festa foi no dia 29 de junho e o ingresso também
de R$ 1,00. Carin, Danilo e César também estavam presentes.
Como no Instituto Santa Teresinha, havia muita gente, muita animação
e a circulação era intensa. Na quadra poliesportiva rolava
uma partida de futebol e pude apreciar a já comentada disposição
física e envolvimento dos surdos com o esporte. Uma brincadeira
comum em festas juninas, que consiste em prender alguém numa cadeia
da qual só se sai mediante algum tipo de pagamento, era feita com,
digamos, muito entusiasmo e...vigor físico. Numa sala ao lado,
já nas dependências da escola, havia computadores com documentários
relativos a personagens importantes na história dos surdos, suas
conquistas, e um vídeo com noticiário feito por e para
surdos, produzido na própria escola.
Das observações e impressões
obtidas no decorrer do trabalho de campo nessas festas, algumas considerações
gerais, pistas e perguntas para futuras incursões podem ser anotadas.
Em primeiro lugar, chama a atenção a faixa etária
dos participantes: eram, em sua grande maioria, jovens, entre 14 e 30 anos,
aproximadamente. Há que se perguntar se esta predominância
é devida ao fato de se tratar de festas em ambiente escolar
e se surdos mais velhos oferecem ou não maior resistência
à participação em eventos públicos. Poder-se-ia
investigar se em outros eventos - religiosos, de ensino, cultural, etc.
- mantém-se essa predominância juvenil. Teria algo a ver,
também, com uma melhor performance na língua de sinais?
Outra questão a ser aprofundada
é com relação às origens e posições
de classe, além de local de moradia. Haveria, por exemplo, alguma
correlação negativa entre melhor desempenho na língua
de sinais e nível de renda e/ou escolaridade? Em outros termos:
pessoas surdas de classes sociais mais altas tenderiam a receber treinamento
com vistas à oralização, usariam português sinalizado,
etc. diferentemente de surdos de camadas mais pobres, aos quais não
restaria outra alternativa para comunicação senão
a língua de sinais? Neste caso, qual seria seu grau de generalidade
e abrangência? Não poderia, neste caso, restringir-se
a uma espécie de "dialeto de periferia"? Evidentemente, esta é
uma questão também pertinente à área da sociolingüística,
cuja abordagem vai além do âmbito de uma pesquisa especificamente
em festas e momentos de lazer, mas tem a ver com a amplitude do campo de
trocas e experiências a que os surdos, em seus diferentes graus,
modalidades, nuanças, têm acesso.
Nas festas observadas foi possível
notar a presença de grupos familiares mais marcadamente em duas
delas: Adefav e Escola Helen Keller. No Instituto Santa Teresinha
de ambiente mais cosmopolita, predominavam grupos de jovens. Até
onde pude notar, havia representantes de um segmento importante
no universo dos surdos, o dos intérpretes, nas festas analisadas.
Qual a participação deles, nesse tipo de evento? Estariam
eles lá desfrutando, a seu modo, de uma festa, que de certa
maneira é também deles? Qual é a rede e os espaços
de lazer e encontro dos intérpretes, cujo trabalho (e sem dúvida,
valores, interesses, etc.) está ligado a esse universo específico?
Essa incursão a campo realmente
mostrou, de forma viva e convincente, a existência de um segmento
diferenciado e a presença de um mecanismo particular de elaboração
simbólica e comunicação. Uma questão a aprofundar
é: qual o estatuto do que é, nesse meio, denominado
"cultura surda" e desse instrumento de comunicação, a língua
de sinais? Qual é o grau de universalidade que apresentam e de forma
absorvem traços, marcas, expressões ligados a
círculos de socialização específicos?
Tais indagações, evidentemente,
são mais gerais e transcendem a etnografia nos espaços de
lazer: apontam para questões de fundo e requerem uma reflexão
mais teórica, multidisciplinar e outros recortes de pesquisa de
campo. O que, sim, o plano empírico da observação
já mostrou é a existência tanto de um núcleo
politicamente consistente, formado pelos surdos que se comunicam pela língua
de sinais - e que se colocam como referência e interlocutores,
por exemplo, de políticas públicas - como de surdos que se
aglutinam com base em outros vínculos, do tipo religioso, ou de
lazer. É preciso identificar, observar, descrever e analisar
as relações, passagens, conflitos e trocas entre esses diferentes
pólos de aglutinação
Para tanto a questão da cidade
é crucial, em termos estratégicos. Os graus de uso, a formas
de mobilidade, a multiplicidade de pontos de encontro, as oportunidades
de trabalho, estudo, etc. oferecidas pelas diversas escalas urbanas é
que vão determinar um maior ou menor campo de trocas,
permitindo construir, fortalecer e exibir marcas de identidades que se
legitimam na medida em que são assumidas pelos "de dentro" e exibidas
para "os de fora". É preciso, pois, identificar os pedaços,
os circuitos, os trajetos
que constituem diversas modulações ou gradações
do espaço público onde se pode perceber a construção
de múltiplas identidades - em contraste com o confinamento do
espaço privado, que dificilmente consegue fazer a passagem do estigma,
negativo, para a marca de pertencimento, positiva.
Foi a partir dessas primeiras experiências
que a equipe do NAU voltada para a pesquisa com os surdos teve acesso a
outros espaços de encontro e socialização, como os
cultos religiosos, congressos, encontros e apresentações
teatrais. Em cada um desses contextos, novas pistas se abrem para a reflexão
colocando questões novas, que não cabe detalhar aqui.
Penso que as primeiras incursões nesse terreno abriram um campo
novo, desafiador, e que é válido o registro das primeiras
impressões, pois logo vão ficando para trás
- resolvidas, esquecidas ou subsumidas em outras - à medida
que as análises prosseguem e se tornam mais específicas.
Este é o propósito
deste artigo, preservar o clima da experiência etnográfica
em seus inícios, com suas primeiras indagações. E
para completar, um último relato cujo tom de anticlímax
os antropólogos conhecem muito bem, mas que deve ser recuperado
não como mais um dos "faits divers" que pontuam o trabalho
de campo, e sim pelo que pode dizer da especificidade da etnografia.
Festa de Cowboys na Associação
dos Surdos de São Paulo
A observação deste
evento - que não é propriamente uma festa junina - foi feita
na seqüência das anteriores e de certa maneira fecha o primeiro
ciclo de participação em festas de surdos. Ocorreu
no sábado dia 26/10/2002, na Av. Pedro Bueno, 660 - Pq. Jabaquara
(próximo ao metrô Conceição e aeroporto de Congonhas)
na Associação dos Surdos de São Paulo.
Conforme o recado deixado por Lia
na lista de discussão do Projeto Estudos da Comunidade Surda, o
evento teria início às 21h00 estendendo-se até
às 5:00h. O site da Associação, porém, apresentava
outro horário: início do evento às 17h00. Tirando
uma média, então, resolvi ir às 20h00 e, mesmo assim,
cheguei muito cedo, como logo ficou claro. Havia pouca gente nas imediações;
comprei o ingresso (2 reais) numa mesa posta no alto da escada que dá
acesso ao sobrado onde está sediada a Associação;
não havia nenhuma placa ou indicação. O único
momento de comunicação que consegui estabelecer foi com um
senhor, já no interior da casa, para confirmar "se era ali a festa".
Entendeu minha pergunta (provavelmente pela leitura labial) e respondeu
naquela voz característica de surdo oralizado. Depois disso, passei
duas horas sentado numa cadeira, olimpicamente ignorado por todos que lá
estavam...
O ambiente era simples: tipicamente
uma sede de associação, meio clube de bairro, meio centro
comunitário com mesas de pebolin, de baralho, uma cozinha, banheiro,
cadeiras espalhadas e umas quatro salas. De cowboys mesmo, havia
a representação de uma cabeça de boi pendurada no
alto de uma parede, alguns cartazes de traço e tema meio infantilizados
alusivos ao evento e algumas pessoas com chapéus de vaqueiro. Sentei-me
numa das cadeiras colocadas ao longo das paredes no corredor que dá
acesso às demais dependências e pus-me a observar os que já
estavam e os que iam chegando. De início, umas vinte pessoas das
quais 15 eram homens. Foram chegando mais e o número de mulheres
aumentou. No começo, as pessoas estavam conversando de forma mais
individualizada. Quando saí, às 22h00, havia cinco grupos
formados: 3 dentro da casa, sendo um só de moças; outro monopolizado
por um rapaz acompanhado de sua namorada, muito animado; outro reunido
numa das salas; uma na escada de acesso e o último já na
calçada, em frente à sede. Diferentemente desses grupos,
o tempo todo no mesmo lugar, alguns senhores, com pinta de serem "da diretoria",
locomoviam-se de um lado para outro, alguns deles atentos ao fogo e aos
espetinhos na churrasqueira. A maioria absoluta era de jovens, entre
18 e 30 anos, metade rapazes metade moças, ao menos na hora em que
saí. Mais ou menos 30 pessoas dentro da casa, 10 na escada, uns
20 fora.
A sensação foi, mais
uma vez, de estar numa aldeia; só que, desta feita, eu estava não
apenas isolado, como nas festas juninas, mas também imobilizado.
Não havia ninguém conhecido, o ambiente era menor, e senti-me
acuado: estava realmente num pedaço surdo, e não era capaz
de manejar a regra básica: a língua de sinais. Senti-me constrangido
até mesmo para levantar e comprar algo para comer ou beber e assim,
minimamente, participar da festa. Não ocorreu nem mesmo a situação
em que alguém chega e pergunta o que é que eu estava
fazendo ali - como bem poderia acontecer quando se descobre
alguém de fora do pedaço.
Num ambiente onde todos se conheciam,
os surdos cumprimentavam-se e logo se enturmavam; e eu, cada
vez mais me sentindo como um peixe fora d'água. Deram-me até
as costas.... mas não senti agressividade, hostilidade e sim
indiferença; eu é que não agüentei a pressão:
a forma dominante de comunicação era em língua
de sinais. Desta forma, não tinha condições
de estabelecer qualquer contato nem mesmo para, se interpelado, dizer o
que estava fazendo ali. E, pior: se alguém me fizesse a pergunta,
que poderia responder? Que estava escrevendo um livro sobre surdos? Fazendo
"pesquisa" - principalmente depois de saber quanta desconfiança
essa palavra desperta nos surdos? ... Na verdade, eu até que tinha
uma historinha pronta, caso fosse interpelado: havia combinado encontrar
dois amigos surdos (Alex e Roberto, da universidade) e/ou um intérprete
(Ricardo). Mas se o suposto "interrogatório" prosseguisse,
e fosse perguntado sobre meu interesse particular em estar ali, não
teria uma resposta convincente. Sentia-me fora de lugar, e ignorado:
eles estavam na casa deles, no clube deles, entre eles. Esta era uma festa
de surdos, para surdos, mas organizada pelos surdos, diferentemente
do caso das festas juninas da Derdic, Santa Teresinha, Adefav e Hellen
Keller. Aqui não havia ouvintes! Alguns portavam aparelhos, mas
a forma dominante de comunicação era através
da língua de sinais. De vez em quando passava, bem próximo,
um barulhento avião - a Associação fica perto do aeroporto
de Congonhas - o qual, evidentemente, só a mim incomodava.
Algumas das pessoas apresentavam
certos traços fisionômicos que estou começando a notar
quando em contato com um grupo maior de surdos, mas sem ainda poder
relacionar com alguma causa específica: seria alguma síndrome
em particular? Aparentemente, a maioria era de jovens de classe média
baixa, alguns de classe baixa. O jovem "falador" e sua namorada estavam
bem vestidos, eram muito expressivos, principalmente o rapaz; na sua frente
estava posicionado outro casal, ele, atento e participativo, mas a menina
era mais retraída. Contei três pessoas com traços nitidamente
orientais (uma mulher, dois homens) e depois chegou uma moça, também
de origem oriental, acompanhada por outras jovens no meio de um grupo de
moças.
Diferentemente das festas juninas,
não havia música, talvez porque não havia ouvintes...
nem aquele clima de animação geral. O clima era de encontro
de pessoas que se conhecem, todos à vontade, em seu pedaço.
Percebi ser necessário ter um mínimo de conhecimento da língua
de sinais, ao menos para o básico - "sou ouvinte, tenho alguns
amigos surdos, fulano e beltrano..."; "por favor"; "desculpe"; "quanto
custa tal coisa" etc. E é preciso ter sempre uma historinha
à mão, para poder freqüentar e circular em ambientes
como este, tipicamente de pedaço - ainda que divulgado numa
página da Internet.
Fiquei duas horas de frente para
uma parede, vendo de soslaio o movimento de entrada e saída das
pessoas e observando-as em suas dinâmicas de encontro e comunicação.
Fiquei constrangido para levantar e circular e até mesmo para ler
os cartazes e avisos. É verdade que logo na chegada, após
sentar-me na fatídica cadeira, caiu um cartaz da parede e dispus-me
a recolocá-lo, no que fui ajudado por um dos presentes, devidamente
paramentado com um enorme chapéu de vaqueiro. Como faltava um pedaço
de fita adesiva, ele foi buscar; pregamos o cartaz e no final foi possível
trocar um olhar.... e contemplei, longamente, um aviso que estava logo
em frente: "Não jogue lixo no chão, jogue no lugar certo".
Depois disso nenhum dos surdos me
dirigiu um olhar sequer, mesmo quando passavam por mim: certamente eu estava
fora de lugar; era, logo à primeira vista e de longe, um estranho;
eles, ao contrário, estavam em seu ambiente, seu pedaço,
à vontade, entre iguais. Não havia possibilidade de contato,
a não ser por meio de algum tipo de interpelação,
diferentemente de outras situações de pesquisa onde ao menos
perguntas de valor "fático" seriam possíveis - onde é
o banheiro? Quanto custa o sanduíche? O que vai acontecer agora?
A experiência valeu, paradoxalmente,
pela absoluta falta de comunicação, pela estranheza mais
completa. Se a etnografia sempre permite experimentar a vivência
do outro, quem sabe é dessa forma que um surdo se sente quando está
no meio de ouvintes que nem ao menos se dão conta de sua particularidade.
Comentando minhas impressões dias depois, com Lia, que chegou a
essa mesma festa por volta da meia noite, soube que a festa durou
mesmo até a madrugada e houve um incidente em que uma
menina foi atropelada por uma moto, fato que mobilizou os surdos da festa.
Perdi....O que mostra, mais uma vez, que o etnógrafo deve ser o
primeiro a chegar e o ultimo a sair, para não deixar passar nada...
Mas aos pouco vamos construindo um corpus consistente de festas,
a partir do qual será possível identificar sua estrutura
mais geral e descrever suas diferentes dinâmicas.
Conclusão
As festas juninas ofereceram o primeiro
contato sistemático com o lazer do surdos e, juntamente com a surpresa
e o deslumbramento de um campo novo, trouxeram questões de interesse
que apenas começam a ser vislumbradas, como procurou mostrar o artigo,
construído com base nas idas iniciais a campo. Se os dois primeiros
relatos enfatizam a sensação de descoberta, o terceiro
faz o papel de contraponto: aparece como uma espécie de anticlímax,
mas na verdade serviu para mostrar uma outra dimensão do chamado
encontro etnográfico. Em ambas as situações pode-se
identificar o que o que Favret-Saada ([1990]2005)
descreve como a condição de "ser afetado": no primeiro caso
o antropólogo pôde vivenciar a descoberta de uma nova dimensão
até então desconhecida ou nomeada com os termos do senso
comum (o surdo como deficiente) ou por meio de sistemas classificatórios
de uma determinada área (surdez como patologia); já a segunda
situação trouxe o outro lado da situação, permitindo
ao pesquisador ter uma idéia de como se sente o surdo quando imerso
na sociedade envolvente, o mundo dos ouvintes. O final do processo foi
perceber que tinha chegado o momento de pôr os pés
no chão e reconhecer que pesquisa teria de entrar em outra
etapa. Terminara a fase do encantamento, da novidade representada pela
descoberta desses novos atores sociais na cidade, até então
invisíveis, da vontade de explicar para todo mundo a sutileza,
por exemplo, da língua de sinais que não, não
é pantomima, mas uma língua com sintaxe, morfologia, semântica
.... E chegou-se à conclusão, também, que não
há como aprofundar a pesquisa sem aprender essa língua!
Com o auxílio de algumas categorias
foi possível descrever o cenário das festividades: assim,
a noção de pedaço permitiu entender a dinâmica
de duas delas, a realizada pela Adefav e a da Associação
dos Surdos de São Paulo. Mas havia diferenças: a circunstância
de a primeira realizar-se na rua terminou dando-lhe um caráter mais
aberto, enquanto na segunda quem não era mesmo do pedaço
não se sentia à vontade: os sinais de reconhecimento eram
mais estritos. Contudo, nessa mesma Associação (não
é muita informação, trazer outra etnografia), em outra
ocasião, numa cerimônia de caráter religioso -
a entronização de uma imagem católica - ensejou um
encontro mais aberto com a presença de ouvintes, surdos oralizados,
intérpretes de igrejas neopentecostais, etc. Já a Escola
Santa Teresinha constitui o epicentro de uma mancha que inclui a quadra
poliesportiva, as ruas adjacentes, os arredores, os bares da vizinhança,
as esquinas, os pontos de ônibus, todos tomados por surdos, tanto
nas festas, quando sua presença é massiva, como no cotidiano.
Derdic e Hellen Keller pertencem propriamente ao circuito pedagógico,
mas no período das festas se integram ao circuito das festas juninas
e seguem os padrões dessas comemorações; ainda que
abertas a participantes alheios à escola (basta comprar o ingresso
para entrar) ficam, entretanto, mais restritas aos alunos e seus familiares.
É interessante notar essa dinâmica quando instituições
específicas do ponto de vista de suas funções (escola,
terapia) se transformam e se integram às normas de outro circuito,
o festivo, ajustando-se ao calendário de lazer. Como se pode ver,
seria difícil, nessa conjuntura, classificá-las como "comunidades"
com fronteiras e freqüentadores bem delimitados.
Com relação aos atores,
o que poderia parecer um bloco só, indistinto - surdos, em
suas festas - na verdade revelou uma notável heterogeneidade. Lá
estavam todas as nuanças: surdos usuários de Libras, surdos
oralizados, surdos-cegos, implantados, com aparelhos, familiares, professores,
intérpretes, pesquisadores, religiosos. Esses atores se conectam,
fazem escolhas, percorrem trajetos; em algumas circunstâncias, os
que dão o tom são os surdos mais intelectualizados, isto
é, aqueles que freqüentam a universidade ou circulam em meios
acadêmicos, proficientes em Libras, antenados com questões
e eventos do movimento surdo politizado; em outros casos, essas características
não tem centralidade e o que importa é o fervor religioso
(nas romarias devocionais, por exemplo) quando qualquer modalidade de comunicação
é aceita. O mesmo ocorre em eventos esportivos, workshops, congressos:
mudam a etiqueta, o eixo, reorganizam-se os fluxos. Na já mencionada
festa de entronização da imagem de São José,
na Associação dos Surdos de São Paulo, em que o padre
celebrante usava português sinalizado, havia até intérpretes
de igrejas neopentecostais, mas nenhum surdo do circuito "intelectual".
E para concluir: afinal, havia música?
Sim, nas festas dos surdos que foram objeto de observação,
havia música. E muitas outras coisas que a pesquisa apenas começa
a descobrir, de interesse não apenas para o entendimento dos surdos
e suas instituições, mas da própria cidade enquanto
espaço público por onde eles estabelecem seus circuitos
e recortam seus trajetos e cuja dinâmica favorece, impede ou amplia
as alternativas de encontro, trocas e exercício da diferença,
como direito de cidadania. A própria questão de haver ou
não música em festas de surdos foi objeto de polêmica
nos anos seguintes, pois não é um assunto secundário:
envolve, de certa forma, todos as noções que foram mencionadas
neste artigo: comunidade surda, cultura surda, centralidade da língua
de sinais, vínculos com os ouvintes, relações com
instituições e políticas públicas. É
válida ou conveniente a presença de um elemento que evoca
exatamente uma diferença fundamental, que aponta para um "grande
divisor" - entre os que ouvem e os que não ouvem?
Não seria politicamente incorreta num contexto em que se procura
justamente consolidar a especificidade da língua de sinais? Ou,
ao contrário, sua presença não poderia trazer
à tona outras mediações, facetas e passagens entre
aqueles dois pólos?
O que parece ser tão "natural"
em qualquer festa revela, assim, aspectos políticos da constituição
de atores sociais em sua complexa dinâmica no contexto da metrópole.
A pesquisa segue, no Núcleo de Antropologia Urbana, em contato com
pesquisadores do Departamento de Lingüística da USP,
integrado a um grupo interdisciplinar .
A fase atual se caracteriza por estudos mais específicos de
temas e objetos identificados ao longo do importante circuito formado por
instituições religiosas e suas múltiplas atividades
voltadas para os surdos.
Notas
Para
marcar ainda mais a diferença, convenciona-se grafar "surdo" com
a primeira letra em caixa alta - Surdo - quando se quer referir não
aos aspectos audiológicos, mas aos culturais ou políticos
da condição de surdez.
Sobre cuja decisão pesou a influência de um oralista célebre,
Alexander Graham Bell.
"Devido
a uma mutação, um gene recessivo posto em ação
pela endogamia, uma forma de surdez hereditária vingou por 250 anos
na ilha de Marta´s Vineyard, em Manhattan, a partir da chegada dos
primeiros colonizadores surdos na década de 1680. Em meados do século
XIX quase não havia famílias na porção norte
da ilha que não fossem afetadas e em alguns povoados (Chilmark,
West Tisbury) a incidência de surdez aumentara para uma em quatro
pessoas. Em resposta a esta situação, toda a comunidade
aprendeu a língua de sinais, havendo livre comunicação
entre ouvintes e surdos. De fato, estes quase nunca eram vistos como 'surdos'
e certamente não eram considerados de modo algum 'deficientes' "
(Sacks, 2002 p. 45)
Como
prova de que essa rede de interações não só
é necessária, mas realmente é efetiva na formação
da língua de sinais, cita-se o caso da Nicarágua: até
a revolução sandinista, não havia no país uma
só escola especial para surdos, para os quais não restava
senão a comunicação utilizada no interior das
famílias, limitada e restrita à esfera doméstica.
Em 1979 as autoridades convidaram a lingüista norte-americana Judy
Kegl para implantar escolas especiais para surdos e o resultado é
que estes, reunidos e convivendo, deram início a um
verdadeiro processo de "'invenção" de uma língua
em sentido próprio, a "LSN", ou Lengua de Señas Nicaraguense,
a partir dos sinais caseiros, mas organizados numa estrutura
gramatical reconhecível.
Citado
por Sacks (2002:87) . Cabe lembrar ainda o interesse despertado por
relatos como o de Kaspar Hauser, de Anselm von Feuerbach, publicado
em 1832. (idem,ib.: 64 e ss. ) sobre a questão da ausência
de aquisição de linguagem.
Parte
dessa literatura, sobre educação, é denominada
por Carlos Skliar de "Estudos surdos em Educação"
(2001, p.6).
No
entanto, ele é cuidadoso, sabe em que terreno está pisando:
"Although this paper has been fairly severe in its criticism of some
previous work in the field, it does so in the belief that the exercise
may mark a step towards enriching our understanding of the fundamental
issues raised. I make no claim whatsoever to expert knowledge in the fields
of sociology and anthropology, having come to the problem from a sociolinguistic
point of view, and look forward to reading more well-informed development
of the issues raised." (op. Cit. 120). Maria Cecília Moura
(2000) também reconhece a importância
e as dificuldades envolvidas no uso do termo, mas termina empregando
a expressão "Comunidades de Surdos de São Paulo" (p.71).
Tome-se,
por exemplo, o caso do uso da categoria de "pedaço", que será
apresentada mais adiante, em que se verifica a presença do núcleo
de significado característico de comunidade. Assim, pode-se
afirmar que há relações de tipo comunitário
nessa forma de sociabilidade, encontro e uso do espaço, ainda que
não se possa dizer que "pedaço" seja apenas uma outra maneira
de designar "comunidade".
Ver
Dos Santos et alii, 1978, Finep/Ibam, São Paulo, 1985
Ver
a propósito, Magnani, J.Guilherme: "O (velho e bom) caderno de campo",
in Revista Sexta Feira, nº 1, maio de 1997
Em
estudos clássicos sobre estados de êxtase e possessão
discute-se o papel da música, do ritmo, dos cânticos, louvações,
etc. sobre a produção de estados alterados de consciência.
É de perguntar-se que situação poderia produzir efeito
similar numa pessoa surda: a profusão e intensidade dos sinais?
As cores? A vibração sentida pelo corpo como um todo , como
um receptor mais amplo e genérico?
E
que se abrem para além dos limites de uma cidade, instaurando redes
e fluxos mais amplos.
"Estudos
da Comunidade Surda" - Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil
- CNPq
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