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LIVIO TRAGTENBERG |
A
rua é o espaço da diversidade. Costuma-se
defini-la a partir de sua função de circulação,
de passagem, por oposição ao “estar”; como “lugar público”
em contraponto ao “espaço privado” da casa. Mas a experiência
urbana faz ver que a rua é muito mais que uma via, trilha ou caminho.
A expressão “alma da rua” remete à sua face social: espaço
de encontros, de troca de informações, vivências coletivas,
relações; território de reapropriações
impensadas pelos planejadores e urbanistas. Assim, a rua pode ser, e freqüentemente
é, lugar de estar. Já se pensou em banir a rua como espaço
de interações humanas e substituí-la por vias expressas,
ocupadas somente por veículos, sem obstáculos como faróis
e pedestres. Tudo em prol da rapidez, do fluxo ininterrupto, da economia
de tempo que rege o sistema capitalista de acumulação de
riqueza. Mas a rua resistiu. E nela, a diversidade de ações,
a polissemia de sentidos, a multiplicidade de experiências culturais.
A rua não é espaço neutro. Nela, os grupos imprimem
suas identidades, seus sinais diferenciadores, dialogando entre si e com
o espaço. As ruas de um bairro predominantemente habitado por migrantes
nordestinos têm sonoridades, odores, movimentos, faces e atividades
muito distintos daqueles dos imigrantes coreanos, por exemplo. É
esta polissemia, estas diferentes identidades, bem como os diálogos
inter-grupos que o trabalho do músico Livio Tragtenberg ressalta.
Seu olhar apurado da diversidade que comportam as cidades e seus atores
gerou este projeto, a Orquestra dos Músicos das Ruas de São
Paulo, que reúne músicos que tocam nas ruas com músicos
de comunidades de imigrantes. Personagens que contribuíram e contribuem
para a formação/transformação de São
Paulo, como nordestinos, latinos, japoneses, entre outros. Em muitos casos,
sonoridades e vozes invisíveis, porque apresentados fora de espaços
artísticos convencionais – ao invés de salas de concertos
e teatros, ruas e espaços culturais comunitários. Vozes
e sonoridades que foram resgatadas e reunidas em combinações
impensadas (emboladores da região central com as melodias tradicionais
paraguaias, bolivianas e japonesas) retornam aos ouvidos dos paulistanos,
tornando vivas a história e a memória de sua cidade.
:
A sua música quase sempre aparece conjugada a outras linguagens
- ao cinema, à poesia, à literatura, à ópera.
Qual foi sua trajetória e quem o influenciou?
LIVIO TRAGTENBERG: Na verdade,
sou autodidata em música, não fiz nenhuma escola de música,
de instrumento, teoria, nada disso. Então, brinco que não
tenho formação, tenho informação. Fui buscando
as informações que me interessavam. Na época em que
comecei a me interessar por essas coisas, na adolescência, conheci
o Augusto de Campos,
que pra mim foi uma ótima referência. Ele foi muito generoso
comigo e com o grupo de pessoas com quem eu trabalhava. A gente começava
a produzir coisas, a ler coisas em conjunto. Então, o Augusto deu
um apoio pra gente. A gente editou uma pequena revista e levou pra ele,
ele gostou. Começamos uma convivência. Minha trajetória
vem, da literatura, dessa convivência com o Augusto, depois um pouco
mais tarde com o Haroldo
e com os amigos poetas, da poesia visual, o Julio Mendonça. E a
música, ao mesmo tempo em que tocava bateria numa orquestra de jazz,
dixieland, de bairro, estudava música serial, música atonal.
Pra mim essas coisas vieram juntas, a experiência de tocar e estudar
música. Minha mãe é atriz, portanto convivi muito
com essa coisa do teatro, da televisão; pra mim era um universo
em que eu já transitava, era um meio natural. Na verdade,
minha trajetória é essa reunião. Em casa tinha muitos
livros por causa do meu pai,
que era sociólogo. Tinha muita coisa de literatura. Tudo à
mão. Então, já nasceu a minha personalidade, isso
de ir misturando as coisas, não só em termos de linguagem,
mas também na música, misturando a música popular
com a erudita, contemporânea, experimental, sem o menor problema.
:
“Neurópolis” é o nome do espetáculo e do CD que acabou
de ser lançado pelo Selo SESC. O que significa “Neurópolis”?
LIVIO TRAGTENBERG: “Neurópolis”
significa, literalmente, “cidade dos nervos”. Por quê? Vendo como
esses músicos de rua atuam nesses anos todos na cidade, percebi
que eles são como pessoas invisíveis na cidade. Existe a
cidade visível, que é a cidade da mídia, em que as
pessoas reconhecem a cidade, que é a televisão, o rádio.
Esses músicos não estão dentro desse universo, são
invisíveis. As pessoas meio que tratam eles como coisas invisíveis,
como se passa por um poste, mas de um poste se você não desviar
você quebra a cara. Então, a idéia é pegar essas
poéticas, essas leituras da cidade que estão invisíveis,
como os nervos estão invisíveis no organismo da gente, estão
dentro, só que eles é que dão vida à coisa.
Então a metáfora é essa.
:
Quando e onde o espetáculo “Neurópolis” foi apresentado pela
primeira vez?
LIVIO TRAGTENBERG: Foi um
evento importante, pra inauguração da sala Olido, no centro
da cidade, em Novembro de 2004. Foi interessante porque eu já vinha
batalhando há uns dois ou três anos a realização
dessa Orquestra. Houve os 450 anos de São Paulo, todo aquele "oba-oba",
mas não rolou a Orquestra. O projeto ficou lá, porque mandei
para a comissão dos 450 anos. Aí um dia, a Secretaria Municipal
da Cultura – na época o Celso Frateschi era o secretário,
a Marta era a Prefeita – me ligou falando, olha, aquele teu projeto, nós
estamos interessados nele. Aí fui lá conversar com
eles. Falei, olha, preciso de dez dias de ensaio aqui no palco. A gente
vai ensaiar todo dia e, ao final desses dez dias, a gente estréia
o trabalho. Eles aprovaram o projeto. Foi uma aventura. Aí eu tinha
um mês pra escolher essa Orquestra, juntar esses músicos e
começar o ensaio. Saí que nem doido pela cidade atrás
desses músicos. Fui onde eles normalmente se encontram, Zona Sul,
no centrão, na Benedito Calixto. Fui atrás de músicos
de rua, porque essa Orquestra é feita de dois tipos de músicos:
músicos de rua e músicos imigrantes. Então, é
o “genérico“, que é o músico de rua, que é
o que toca o que for, o que o cliente pedir, o embolador “manda” o tema
que você pedir, como se fosse um “genérico“; e o músico
imigrante, que é um músico “de grife“, quer dizer, tem instrumentos
típicos, uma linguagem musical típica, um idioma típico,
então pratica a coisa bem fechada, num universo fechado. Queria
fazer com que esses dois tipos de cultura, que é São Paulo,
se encontrassem nessa Orquestra. Então era uma loucura. Tinha senhoras
japonesas, que são muito reservadas, aquela coisa de japonês,
tímidas, recatadas, ao lado dos dois emboladores da Praça
de Sé, que só fazem emboladas de sacanagem na Praça
da Sé, que é o que o povo gosta. São tipos diferentes.
São tipos rudes, é gente da rua, e elas, que são muito
delicadas, aquela cultura, a coisa da sutileza. Então, a convivência
foi muito interessante e foi muito fácil. Eu, inicialmente, achava
que ia ser difícil. Bolei toda uma estratégia, os horários
do pessoal, e foi sempre tudo muito fácil. Então, “Neurópolis”
nasceu em dez dias. No primeiro dia ninguém se conhecia; em dez
dias a gente tava estreando um trabalho que ficou até hoje.
:
Quanto à apresentação feita em 25 de Janeiro no SESC
Pinheiros, aquela é a formação original da Orquestra?
LIVIO TRAGTENBERG: É.
Não mudei nada. Isto é um fato, também, em que a gente
tem que prestar atenção, que é interessante. Estamos
há dois anos tocando juntos, não houve mudança de
músicos, não houve problemas pessoais, não houve inimizades.
Só tem aquela tiração de sarro normal na sociedade:
o maranhense tirando sarro do paraguaio, porque o paraguaio tem esse estigma,
brincando com a japonesa, tirando sarro do boliviano; são os preconceitos
que estão aí, que é natural que florescessem lá,
nesse grupo pequeno. Então, um tira sarro do outro, mas dentro de
uma coisa saudável, e natural até dentro da sociedade. Seria
estranho se todo mundo virasse “freira” lá dentro, o que não
é a idéia. A idéia é justamente que a identidade
de cada um seja colocada.
:
Fale sobre a identidade de uma Orquestra que é composta por um “conjunto
de identidades”.
LIVIO TRAGTENBERG: É
o seguinte: a Orquestra erudita ela é... a idéia da música
erudita européia é que o músico, a identidade do músico,
desapareça. Ele é um veículo para a partitura que
está sendo tocada. Não importa se é o José,
se é o Ernesto, se é o Pedro que estão tocando clarinete,
desde que ele consiga tocar o mais próximo do que está escrito
na partitura. Esta minha Orquestra é o inverso. Inclusive, a gente
não tem partitura. A partitura é o background de cada um.
O que me interessa? É justamente o que é o diferencial de
cada um. Como cada um toca. O que a gente compõe é um misto
de composição coletiva com uma finalização
que eu faço. Começo as músicas assim: peço
para um músico “toca pra mim alguma coisa que você gosta”.
Sei que dentro do universo dele... Já escolhi os músicos
em função de criar uma palheta interessante de identidades,
então, sei que falando pra um boliviano “me toca um tema interessante,
que você gosta, da tua música”, sei que vai vir algum tema
ligado à música boliviana. Já tá dentro do
meu jogo de composição esse dado. Aí ele vem com a
coisa de que mais gosta. É o contrário da Orquestra convencional,
em que o compositor já fixou a música e a Orquestra vai dar
vida àquela música. No nosso caso não existe uma música
pronta e é a contribuição de cada um que vai formando
como um mosaico.
:
Eles têm uma autonomia.
LIVIO TRAGTENBERG: Eles estão
100% lá dentro. Nunca falo pra um: mas toque isto daí melhor.
Às vezes eu falo: toca pior. Mas nunca melhor. O Tinhorão
escreveu o texto para o CD e notou isso: “legal que você pegou os
caras e não lapidou, não botou eles nos padrões sonoros
clichês”. Porque você entra em estúdio de gravação,
tem todo aquele clichê, aquele padrão de sonoridade, que é
o aceito como bom. Muitas vezes, quando se levam grupos que não
têm esse tipo de som, o produtor musical vem e arredonda o som. Então,
fica com aquela cara mediana, aquela cara normal, de uma sonoridade normal.
No meu caso, o que eu quero? Queria justamente essa aspereza dos instrumentos
que eles tocam, que têm um som X, não é o “melhor”
som, mas é o que dá a cara do som.
:
Os instrumentos são deles?
LIVIO TRAGTENBERG: Lógico.
:
Nada foi acrescentado?
LIVIO TRAGTENBERG: Eles tocam
os instrumentos deles, que eles tocam nas ruas. E os imigrantes também:
as japonesas tocam o Koto,
o Sanguen. Os paraguaios
tocam guitaron, harpa paraguaia, a requinta, que é um violão
tenor. Os instrumentos são deles e a idéia é fazer
esse som. O que interessa é esse som e não arrumar esse som.
Trazer esse som.
:
Já que, efetivamente, nem todos os músicos da Orquestra tocam
nas ruas diariamente, por que a opção em manter o título
“Orquestra dos Músicos das Ruas de São Paulo” para este projeto?
Qual é o sentido atribuído à rua neste contexto?
LIVIO TRAGTENBERG: Não
é uma Orquestra de músicos de rua; isso faz toda diferença.
Das ruas porque somos todos nós, que é a idéia do
amador, que é a idéia que está implícita nesta
Orquestra. Todos nós podemos fazer música, se reunir e fazer
música. A gente não precisa ficar só passivamente
assistindo outros fazerem música. Você pode fazer da forma
como você faz; não precisa estudar quinze anos, ser um virtuose.
Música tem que ser parte da vida e não uma coisa que te tira
da vida. Músicos das ruas, porque envolve gente que tá nas
ruas e gente que anda pelas ruas, engloba todos. É também
o que a gente ouve nas ruas.
:
A particularidade seria, então, eles não terem passado por
um ensino oficial de música, ou isso não entrou como um critério
de escolha? Eles até poderiam ter estudado música?
LIVIO TRAGTENBERG: Poderiam
e alguns até estudaram. Um dos paraguaios pesquisa música
latino-americana. A questão não é se estudou ou não.
A questão é se o que ele faz reflete essa cidade, seja na
rua, seja nesses espaços, porque eles tocam em restaurante, festa
comunitária. Isso é a cidade, e não o que a televisão
mostra; essa é a cidade que a gente encontra pelas ruas.
:
São Paulo é o lugar da diversidade cultural, mas também
do estranhamento. Músicos de tradições culturais tão
diversas sentiram algum estranhamento ao serem reunidos?
LIVIO TRAGTENBERG: A questão
é a seguinte: houve um estranhamento natural, principalmente as
duas japonesas nunca tinham tocado fora do contexto da música japonesa.
Elas são musicistas amadoras. Ensinam Koto, Sanguen, dão
aulas, mas dentro daquele universo fechado, como uma flor de estufa. Quando
se juntaram aos outros músicos, o tipo de música, o tipo
de dinâmica era diferente, o tipo de proposta profissional era diferente.
Então, houve um estranhamento inicial, mas o mais importante é
que esse estranhamento nunca chegou a inibir ou atrapalhar o trabalho,
porque sempre fiz questão de manter os ensaios num tom muito objetivo,
e eu trabalho muito rápido. Então, em três dias a gente
tinha feito o repertório, doze músicas. Foi assustador pra
eles. Não deu tempo de estranhar. É trabalho, fazer três
músicas por dia, quatro. Então, isso foi uma coisa que eu
aprendi: não deixar tempo ocioso para que venham questões
que não sejam o foco da gente. Qual era o foco da gente? Criar um
show musical juntos. A gente tinha dez dias pra ter um show musical pronto.
Isso também é importante pra eles sentirem que não
existe nenhuma outra intenção a não ser musical. Fiz
questão, na hora de escolher os músicos e roteirizar o espetáculo,
que cada um tivesse o seu solo. Então, ninguém se sente menos
participante, menos importante que o outro. A idéia da Orquestra
é justamente essa: um conjunto de solistas. Então, no roteiro
que fiz, fiz de um jeito que, numa ou noutra música, vai naturalmente
aparecer um solo. Então, esse estranhamento, que foi natural, hoje
fica no pitoresco, essa brincadeira de tirar sarro, trocar a letra das
músicas paraguaias, coisa de colégio. Quando você junta
muita gente muito tempo, infantiliza. Isso acontece em Orquestra, acontece
em escola. Não tem problema lá, porque há dois anos
a gente mantém esse ambiente jovial. Como a gente ensaia pontualmente,
não dá tempo de surgirem questões do tipo alguém
querer se destacar. É um processo interessante, porque quando a
Orquestra começa a ganhar projeção, claro, as pessoas
começam a ter aspirações, é natural que queiram.
Administrar isso pra que não deturpe o conjunto da coisa, com eles,
é muito fácil, mais fácil do que com músico
profissional.
:
A rua é o lugar das trocas sociais em meio à diversidade.
Grupos distintos demarcam seus territórios, espacial e simbolicamente
falando. Há diálogos intergrupais e também negociação,
competição. Os músicos das ruas trazem consigo este
tipo de experiência?
LIVIO TRAGTENBERG: Sim. Eles
são da rua. Vou pegar um exemplo: o Jorge do Cavaco, que toca com
um outro músico, o Franco. O Franco toca violão e o Jorge
canta e toca cavaco, na rua, na 15 de Novembro e agora na Praça
da Luz, Parque da Luz . Acontece o seguinte: o centro é muito agressivo
hoje em dia. Eu reparo em músico de rua há uns vinte e cinco
anos. Fui notando, ao longo do tempo, que os músicos de rua no centro
foram diminuindo cada vez mais, porque o centro é agressivo. Os
mais fracos vão perdendo espaço. É a lei da selva.
Como é a lei da selva, os fortes ficam. Por exemplo, o Jorge tem
dois caras que tocam percussão ao lado dele, mas que na verdade
a função deles é ficar de olho na grana, no chapéu,
porque passa a molecada e leva, e o Jorge não tem condições
de sair correndo atrás. Tá com o instrumento, já tem
uma idade. O dia a dia deles é muito influenciado por isto e eles
criam estratégias de sobrevivência, e isso é o mais
legal. Outro exemplo, a dupla de emboladores, o Peneira e o Sonhador. Veio
um suíço e fez um documentário sobre eles, levou pra
Europa e nunca mais apareceu. Lançaram na Europa o documentário,
teve até uma certa repercussão lá. Eu cheguei a ouvir
no festival em Berlim. Tava numa outra sala, “pô, eu conheço
essa voz”, fui lá e era um documentário sobre eles. O cara
nunca pagou nada, e tal. Então, um dia eles conseguiram uma cópia
desse documentário. O que eles fazem hoje em dia? Copiam esse DVD
e vendem. Agora, quem é o pirata? É o suíço
ou são eles? Evidentemente, o suíço é o pirata.
Eles estão se reapropriando de um bem deles, que é a arte
deles, que foi roubada. Essa também foi uma questão interessante.
Quando comecei a abordar os músicos, sentia inicialmente da parte
deles uma certa resistência, porque já foi tanta gente roubá-los,
e eu um cara que eles nunca viram, branco, de óculos, chega falando...
Mas aí de cara eu já desmontei a coisa. Falei, olha, o negócio
é o seguinte, não sou um produtor, sou músico como
vocês, a gente vai fazer um trabalho musical, vai durar de tal a
tal dia, vocês vão ganhar tanto por esse trabalho, tal dia
vocês vão receber e no dia depois do último show vocês
vão voltar pra rua, que eu não quero ver a cara de vocês.
Pra não ficar essa coisa de que eu venho com uma tábua de
salvação ou com um “venham comigo porque nós vamos
mudar sua vida”. Nada disso. Ninguém vai mudar a vida de ninguém,
isso não é um trabalho social, é um trabalho musical.
Insisto nisso porque não quero ser confundido com essas coisas de
inclusão social, de Ong, que vêm e... Na verdade, o pobre
é um mal necessário. No meu caso, toda essa coisa de inclusão
naturalmente vem, porque uma vez que eles circulem num ambiente outro,
expandem-se as possibilidades, mas é pelo mérito deles, não
porque eu vou ficar como empresário dos caras. Não é
do meu interesse. É da própria convivência nova que
eles têm. Uns já foram figurantes num filme da Laís
Bodanski, como os músicos de orquestra que tocam no filme, outros
já participaram de uma cerimônia aqui na Sala São Paulo,
entrega de prêmios. Então, o show atrai um público
diferente do que vai ao centro, e esse público diferente os leva
pras coisas diferentes também. Isso amplia o mercado de trabalho
dos caras.
:
A idéia é replicar esse show em outros lugares, ou, por exemplo,
se alguém convidar vocês vão, ou é uma coisa
que acabou.
LIVIO TRAGTENBERG: Inicialmente,
eu ia fazer a temporada no Olido e parar, mas o trabalho ficou tão
bom que falei eu não posso abrir mão de um negócio
desses que tá sendo tão bom pra mim. Porque pra mim é
uma experiência nova, totalmente nova. Então, não podia
abrir mão de uma coisa dessas. Não é todo dia que
a gente tem uma experiência nova realmente bem sucedida em termos
de criação. A Orquestra existe, vai continuar existindo,
saiu o CD agora, a gente vai continuar fazendo shows. Vou mudar alguns
músicos da Orquestra, porque eu quero que ela mude um pouco. Vai
entrar alguém de Hip Hop. Ela é mutante como a cidade.
:
Apesar da grande diversidade de músicos e músicas que compõem
a Orquestra, ela não repõe, um a um, todos os personagens
sonoros de São Paulo (nem poderia). Como e por que você elegeu
esse e não um outro recorte possível entre tamanha variedade?
Há mudanças em vista? Novos grupos étnicos ou novas
sonoridades poderão ser agregados?
LIVIO TRAGTENBERG: Olhe só,
isso é realmente uma coisa bem pragmática. Eu tinha um mês
pra montar essa Orquestra. Foi o que de mais interessante eu pude encontrar
em um mês pra montar a Orquestra. Então, deixo também
que o acaso me leve, não gosto muito de predeterminar totalmente
as coisas. Agora, o “Neuropolis” é um mapa de tempos muito fechado:
eu tinha músicas de três minutos, de um minuto e meio, de
quatro minutos, de seis minutos, como num mapa em branco pra ser preenchido
com as cores de cada formação musical, de cada cultura musical.
Mas, o meu lado compositor tava ali bem fechado. Então, ele funciona
como uma composição sinfônica, que a gente divide em
seções, movimento rápido, movimento lento, movimento
de solo, movimento “tutti”. Agora, quando cheguei nesse grupo inicial,
já o achei suficientemente rico pra uma primeira experiência.
Nessa primeira temporada no Olido, a gente fez um Workshop com o público,
e o público de Hip Hop veio e cobrou, “cadê o Hip Hop, a gente
quer participar, quer fazer junto”. Como o Hip Hop tem outras. Tem um senhor
que toca Balalaika
lá na zona Leste que quase consegui trazer. Por problemas pessoais,
de saúde, não pude trazê-lo. São Paulo ainda
tem muitas coisas a se explorar, nessa idéia da Orquestra refletindo
a cidade. As mudanças vão vindo. Agora, inicialmente, minha
idéia era que todo som dessa Orquestra ia passar pela minha mesa
de som e eu ia remixá-lo com recursos eletrônicos, ia filtrar,
distorcer, mudar. Minha idéia inicial era essa. A partir dos ensaios,
da criação, vi que era tão interessante o som deles
que tava rolando, que fui tirando aos poucos minha parte de processamento
eletrônico. Pensei “esse som acústico tá tão
vivo, tá tão surpreendente, que o meu filtro aqui é
burro”.
Então, tirei tudo. Ao longo da criação já saiu
90%. Ainda ficou um pouquinho que tirei agora depois do disco. A gente
brinca que são samplers acústicos, como se eu estivesse
com uma máquina de sampler com que vou editando. Agora, montei
uma outra Orquestra similar a essa em Miami, a “Nervous City Orchestra”,
que é uma outra sonoridade. Agora vou partir pra outras orquestras.
Porque, no fundo, a palavra orquestra é favorável. Duas coisas:
uma, porque ela é um grande guarda-chuva, você pode fazer
orquestra de tudo. Orquestra quer dizer “um agregado de gente fazendo junto”.
Segundo porque, como moeda social, ela tem um valor alto. Tudo que vem
precedido da palavra Orquestra ganha um status de prestígio na mediocridade
da cultura mediana. Minhas próximas orquestras vão ser “Orquestra
de Assoviadores de São Paulo”, só com assoviadores. Vou montar
a “Orquestra das Empregadas Domésticas de São Paulo”, só
com as mulheres que cantam pra valer. Vou aproveitar essa idéia
de orquestra pra explorar essas outras tonalidades e a idéia de
que na orquestra você tem um monte de gente junto, gente diferente
junto, gente que não foi treinada para estar ali com aqueles pares.
Essa situação nova pras pessoas é interessante também.
:
É um pouco o que acontece na cidade também.
LIVIO TRAGTENBERG: Na verdade
é isso, é o que acontece na cidade: um dia você tá
aqui, você dobra a esquina é uma outra história, depois
você tá fazendo outra coisa, mas sempre com o foco bem definido,
musical, criar uma expressão musical, uma invenção
musical.
:
A cidade de São Paulo permite vários recortes musicais.
LIVIO TRAGTENBERG: Não
só São Paulo, quase qualquer cidade. É só a
gente ter ouvido pra isso, não se fechar, porque a riqueza é
grande, não só em São Paulo.
:
Cidades diferentes resultam (ou resultariam) em Orquestras diferentes,
então?
LIVIO TRAGTENBERG: Sim. Porque
o que diferencia esse trabalho de um trabalho normal de composição,
é que ele não é só composição,
é uma vivência, uma experiência de vida. Tenho uma experiência
aqui em São Paulo, nasci aqui, vivi sempre aqui. Em Miami tenho
uma experiência longa, são quase quinze anos que vou lá
trabalhar. Em Berlin, já tenho vários anos de experiência.
São coisas que você vai compondo, não exatamente quando
você senta pra compor. Quando você senta pra compor, na verdade,
já está tudo composto, porque são coisas que você
vai colecionando. São vivências, idéias, observações.
Especialmente observar o que acontece em volta. Então, cada orquestra
desse tipo, tanto a de São Paulo como a Nervous City de Miami,
é uma leitura da cidade, o ponto de escuta, de vista, da cidade,
como você vê e ouve a cidade. Cada cidade vai ter uma conformação
de expressão diferente. É evidente que, de um país
pra outro, muda muito fortemente a cultura e mudam as questões.
Por exemplo, em Miami, a questão mais interessante é com
relação aos imigrantes latinos, que estão fora do
sistema cultural americano. Vivem uma vida de comunidade, festa de igreja,
festa de comunidade. É um apartheid. Aqui, em certa medida,
também é assim, mas lá é muito forte. Então,
quando juntei esta orquestra, tinha inclusive americanos, o único
músico de rua era um americano mesmo, os outros tocavam em restaurante,
o que o pessoal comentava é que era a cara de Miami, mas não
a cara oficial. Não é a cara que a cidade vende pro turista,
mas é a cara de quem vive na cidade. O cidadão de Miami,
que vive em Miami, reconhece ali Miami. Turista nem tanto, porque não
é um show de cabaré, não é um show étnico,
de música latina, nem nada disso. Portanto, o objetivo da música
tem a ver com o approach dessas pessoas na cidade.
:
Uma Orquestra em Berlim que cara teria?
LIVIO TRAGTENBERG: Pois é,
estou tentando lá, mas em Berlim existe uma questão interessante.
Por exemplo, pra você tocar na rua em Berlim, você precisa
ter uma autorização da Prefeitura. Pra ter essa autorização
da Prefeitura, você tem que fazer uma prova com uma comissão,
tem que tocar pra uma comissão. A comissão vai avaliar se
você tem nível pra tocar na rua em Berlim, vai avaliar, inclusive,
seu instrumento, o tipo de volume de som, pra adequar um espaço
na cidade. Vai te colocar num lugar X, numa estação de metrô,
de modo que não atrapalhe um músico que está num outro
extremo da estação, ou numa região em que eles achem
que vai ter uma aceitação melhor. É todo um controle
da cidade, das sensações da cidade. Está tudo mapeado.
O problema lá é que os músicos interessantes e de
rua, são todos músicos ilegais. Tem muito músico do
leste europeu lá, ilegal, que seriam os músicos perfeitos
para essa orquestra. O grande problema lá é que o Estado
que seria o patrocinador natural pra esse tipo de projeto cultural não
pode contratar o ilegal. É um ponto difícil de atravessar.
Eles são ilegais, o Estado não pode contratar... Existe até
um festival que se interessou em fazer, mas ‘como é que a gente
justifica pagar esses caras se eles estão ilegais aqui, não
posso pagar com dinheiro do Estado’. Aí, o que é ilegal?
Dizem que é ilegal pagar com dinheiro do Estado esses caras, mas
ao mesmo tempo esses caras trabalham ilegalmente para os alemães.
Em Berlim, essa orquestra teria também a cara de uma orquestra como
a de Miami, a de imigrantes que estão apartados da vida da cidade,
mais do que em São Paulo. São Paulo é de tal forma
maleável... Você vê, os coreanos aqui do Bom Retiro
criaram o ambiente deles, eles dominaram. Não são segunda
categoria, eles dominam, compram segurança, compram visto, têm
um poder. Os bolivianos, que são a ponta mais fraca dos imigrantes,
estão se organizando. Os chineses já estão pondo a
cara; há dois ou três anos que eles comemoram o ano novo chinês
na rua. Até agora eles não comemoravam; era uma comunidade
que vivia meio na sombra. São Paulo tem, assim, uma tolerância
bem maior ao imigrante. A nossa estrutura social abre espaço. Eles
entram e encontram espaço. Lá é muito difícil
abrir espaço, tanto em Berlim como em Miami. Sempre há um
apartheid.
Então, essas orquestras vão ter mais uma cara de uma orquestra
de apartheid.
:
Você comentou, no Workshop dado no SESC Pinheiros, que muitas pessoas
confundem “músicos das ruas” com “moradores de rua”. Essa confusão
não encontra eco, na verdade, naquela dicotomia presente nos meios
científicos entre o erudito e o popular, passando pela desvalorização
do popular enquanto sinônimo de “iletrado”?
LIVIO TRAGTENBERG: Sem dúvida,
tá dentro do mesmo pacote de mentalidade. Na verdade, é uma
mentalidade que se julga superior; porque estudou na escola, acha que tem
um conhecimento superior. Pode até ter uma cultura letrada maior,
mas sabedoria e conhecimento não são coisas que se aprendem
só na escola. Me irrita quando as pessoas vêm querendo elogiar
e falam ‘puxa, que legal esse trabalho com moradores de rua’. Meu, não
tem nenhum morador de rua. Na verdade, o que a pessoa quer dizer é
o seguinte ‘olha como sou legal, gosto de um trabalho que apóia
morador de rua’. Na verdade, é uma forma de apaziguar a consciência
de culpa da própria classe média. A pessoa faz uma catarse,
consegue se purificar, porque essa é uma das funções
mais antigas da arte. Purificação através da catarse.
As pessoas saem leves, achando que as coisas são mais possíveis
depois de ver aquele negócio. Tem uma mensagem de otimismo naquilo,
bem pragmático, mas tem. É natural que tenha. Isso fiz questão,
na primeira temporada: a orquestra entrava de casaca, como uma orquestra
erudita. Por quê? Porque queria que as pessoas pegassem o ruído
entre a face e a roupa. Meio que aquele trocadilho verbal, que a roupa
não faz o homem. Então, eles olhavam aquela roupa toda composta
e olhavam na cara do cara e era gente do povo que toca na Praça
da Sé, era o boliviano, o paraguaio. Eles nunca vêem essas
caras dentro dessas roupas. Então, meio pra criar esse ruído,
no sentido de ‘olha, vou chamar isso de orquestra, botar roupa de casaca
nesses caras pra vocês sentarem a bunda aqui e ouvirem esses caras,
porque quando você passa por eles na rua você quase chuta o
cara, você não vê; então, o problema cultural
tá em você também; é uma questão de qual
é a sua mentalidade com relação às coisas que
estão a sua volta’. Abandonei a casaca porque ficava muito caro
o aluguel. Mas as japonesas entram com as roupas típicas, os paraguaios,
o boliviano, isso acho legal.
:
Qual o lugar das culturas indígenas na Orquestra? Qual o lugar da
cultura negra?
LIVIO TRAGTENBERG: Como é
um projeto musical, não um projeto antropológico, não
estou fazendo musicologia nem antropologia musical lá, porque inclusive
me
aborrecem muito esses trabalhos pseudo-antropológicos, étnico-musicais,
porque uma coisa é você tirar uma música de um contexto,
botar ela num outro e ignorar o contexto de chegada. Música, arte,
é uma coisa viva, que tem que funcionar onde ela acontece, e não
como museu, como referência, como cultura no pior sentido da palavra,
como aquela cultura morta. Também não quero pilhar cultura
musical dos outros, pegar um pouco da japonesa e fazer uma coisa à
moda de... Não. Pego a música japonesa e ponho ali. Todas
as coisas que entram no Neurópolis são as músicas
deles. Não componho música à la japonesa. Nesse
sentido é muito próximo da colagem. O papel de cada cultura
dentro da idéia da Orquestra é como um input musical.
Atrás do musical vem tudo o mais, toda a herança cultural
do idioma, da temática, da forma de tocar, do imaginário
que o público tem. Por que gosto dos paraguaios? Porque os paraguaios
são parte da escória (é ou não é?),
no imaginário da América Latina. Eles só não
estão piores atualmente do que os bolivianos. A gente tem um preconceito
contra os paraguaios por causa das coisas falsificadas, são os falsificadores.
Isso me interessa mais do que a própria coisa da cultura paraguaia.
Como a gente vê os paraguaios e o efeito que vai ter, de repente,
você ouvir uma música paraguaia e falar ‘pô, que legal
isso’. Atravessar o preconceito. Então, nunca pensei nesses termos,
"que papel tem". Sempre pensei em termos musicais: preciso de instrumentos
graves, médios e agudos; preciso de instrumentos de sopro, de percussão,
de cordas; preciso de culturas tradicionais e preciso de músicos
de rua. O que couber nisso tá valendo. Nunca pensei em termos de
cultura negra, música negra, música africana. Naturalmente
vai vir no Nazareth, que toca percussão, a música negra.
Naturalmente os emboladores vão trazer a coisa do improviso, da
poesia oral. Naturalmente os paraguaios vão trazer a música
latina. Um mosaico, e incompleto. Sempre vai ser incompleto. Senão
vira aquelas orquestras da ONU, ‘We are the world’. Uma pseudo-pagelança;
não é a idéia.
:
Falando um pouco do Symphonia, agora. Não é a primeira vez
que a cidade de São Paulo aparece como tema/mote/inspiração/cenário/realização
de trabalhos que você desenvolveu. Quais são as diferenças
e as semelhanças entre “Neurópolis” e a trilha elaborada
para “São Paulo, A Symphonia da Metrópole”?
LIVIO TRAGTENBERG: O Neurópolis
só pode acontecer porque aconteceu o Symphonia. Porque no Symphonia
aconteceu uma coisa única. Quando a gente estreou no Cine SESC,
em 1997, foi uma temporada maluca: fechou a Rua Augusta, o trânsito
da Rua Augusta, quebraram a entrada do cinema, pra ver um filme mudo de
1929. Então, o que aconteceu? Nas sessões, as pessoas de
idade vinham pra rever a cidade com essa visão nostálgica;
as pessoas de meia idade vieram pra rever, mas com o sentido já
do presente, de estabelecer relações. Enquanto uns vieram
totalmente afetivos, como o pessoal de mais idade, o pessoal de meia idade
já veio com o olhar mais crítico, também com uma dose
de nostalgia; a molecada veio pra saber o que é que era isso daqui
que deu nisso. E o choque foi para os três. Acabavam as sessões,
as pessoas vinham pra gente com os comentários mais inusitados.
A molecada vinha descobrindo São Paulo, porque na verdade essa é
uma cidade que apaga a história dela. Pra eles foi um choque, a
seqüência da Penitenciária do Estado... Então,
teve uma empatia de forma diferente segundo cada geração.
A partir daí pude, pela primeira vez num trabalho, mais fortemente
testar essa relação da música na cidade. O que é
a música na cidade, conversando com a cidade. Não só
você tocando e o público passivamente... a platéia
gostando ou não, aplaudido ou não. Semelhança, na
verdade, é essa: o Neurópolis pra mim é como se fosse
um filme que passa, só que é um filme de hoje. Na Symphonia
eram os olhos de 29 com os ouvidos de 97. No Neurópolis são
os olhos de hoje com os ouvidos de hoje. São dois projetos de música
dialogando com a cidade.
:
Conte um pouco sobre a história do Symphonia, como surgiu a idéia
de musicar o filme, como foi o trabalho de pegar o filme e compor a nova
trilha.
LIVIO TRAGTENBERG: Na verdade,
a já falecida diretora da Cinemateca, Tânia Savieto, que era
cineasta, me chamou pra fazer a música do Symphonia da Metrópole.
Perderam-se as partituras usadas originalmente, do maestro Gaó Gurgel.
Porque não havia banda sonora, o que havia era uma coleção
de partituras, que se imagina que era uma coleção de peças
musicais como era típico na época. Não era exatamente
uma partitura original. Não se sabe. Minha intuição
é que era um pout-pourri... Especialmente porque o maestro,
o Maestro Gurgel, era um maestro de orquestra de baile, de arranjo, então
tinha um repertório muito vasto. Não era exatamente um compositor
de partitura, erudito. Quando então, a Tânia me chamou, pensou
numa orquestra, seria o natural por causa de um projeto de grande extensão,
meio um épico da cidade. Nós fomos a todos os bancos, a Cinemateca
foi atrás de dinheiro. Aí tive a idéia de ir ao SESC
de São Paulo. Juntei a Cinemateca e o SESC um dia numa reunião,
ela e o Danilo Santos de Miranda. O Danilo adorou a idéia e restaurou
o filme. O SESC viabilizou restaurar o filme que estava se perdendo, materialmente
em combustão, se perdendo. O filme passou vários meses em
processo de restauração na Cinemateca. Aí a idéia
da orquestra sinfônica , pra mim, já era insuficiente. A orquestra
sinfônica, na verdade, é um instrumento ligado à cultura
européia, a uma cultura musical, a um público que não
me interessava. Queria a cidade de hoje, não fazer uma visão
da cidade de hoje pelo filtro da orquestra do século XIX. Convidei
o compositor Wilson Sukorski,
que já tinha trabalhado comigo em várias coisas, pra gente
fazer como se fosse uma retrospectiva do som no cinema. A gente começa
como se fosse um filme sonoro, mas só com “ruidagem”, sonoplastia
de rádio, como novela de rádio, e vai evoluindo. Aos poucos
entram os pianeiros, que foram os primeiros sonorizadores dos filmes no
cinema. Aí a trilha que vai ganhando uma independência.
Então, o Symphonia é como se fosse uma retrospectiva do som
no
cinema e da trilha sonora no cinema ao longo do filme. Essa foi a idéia.
A cidade sempre está no meu trabalho, em tudo que faço. Não
vou buscar nas teorias, nos livros, o meu estímulo de criação.
Eu o encontro na cidade. Mas nunca busquei isso intencionalmente. Agora
posso dizer, depois de quase trinta anos de trabalho, sempre foi o meu
tema. Na verdade, a cidade é o meu tema, seja em diferentes expressões,
diferentes angulações, mais focado, mais geral: a vida da
cidade, das pessoas na cidade. Isso é o que me interessa. Nunca
me interessei pela coisa rural em si, a não ser ela na cidade. Como
é a orquestra: a Orquestra de Músicos das Ruas tem um lado
rural, são os emboladores.
:
O “Neurópolis” parece tratar mais sobre espaço: pessoas de
lugares diferentes que se encontram num mesmo lugar – São Paulo.
Em “Symphonia” o tempo parece estar mais em foco: de um lado temos uma
cidade da década de 20, quando o filme foi rodado, e do outro
uma de 2006 ou da década de 90, a partir de quando a experiência
dos músicos permitem remusicá-la. O diálogo entre
ambas as cidades é produzido também a partir de imagens,
quando alguns takes do original são refilmados nos dias de hoje
e projetados com sobreposições em certos momentos... Como
você pensa as dimensões de espaço e tempo na cidade?
LIVIO TRAGTENBERG: Se se
pegasse os caras e dissesse vamos fazer um Symphonia da Metrópole,
que vocês fizeram em 29, hoje, em São Paulo, os mesmos planos,
as mesmas tomadas, a mesma montagem, como se criássemos um clone,
atualizado, porque se a gente mantém a mesma coisa a diferença
da cidade é que vai aparecer. Mantendo o filme, a cidade é
que vem pra frente e não o filme. Ela passa a ser o tema principal
do filme. O filme como estrutura não tem forma, tem fôrma,
aquela fôrma de 29. O que eu queria era “estuprar” o filme de 29,
essa idéia de que não existe registro imutável e sacralizado
no tempo. Então, “estuprar” com as imagens de hoje em dia. Por isso
um filme entrava no outro, uma imagem entrava na outra, pra justamente
criar uma dificuldade de visão. Sobreposição mesmo,
mais do que comentário ou um gesto artístico, estético.
É mais essa coisa material minha, gosto... Imagem entra no filme,
sai do filme, essa coisa material. Para isso chamei o Lucas Gervilla e
a Joana Cancio – que estudaram comigo num curso rápido que dei na
PUC-SP – para registrar essas tomadas iniciais. Isso também pra
dessacralizar o próprio Symphonia, porque o Symphonia como ideologia
é muito reacionário. É 100% São Paulo.
:
O filme da ordem...
LIVIO TRAGTENBERG: Até
hoje. O prefeito de São Paulo é totalmente identificado com
essa ideologia, não só o prefeito. O prefeito é o
espelho da grande maioria da população de São Paulo,
que é ainda muito reacionária. Dessacralizar o que você,
de certa forma, chamou atenção e sacralizou, pra evitar essa
coisa do culto. Qualquer culto é estático. Na verdade, não
existe tanto movimento no tempo e no espaço em São Paulo.
São Paulo de 29 é muito parecida com a de hoje, o que diferencia
é a escala. Mas para aquelas pessoas, aquilo lá era uma megalópole,
um milhão de almas, na época. Pras nossas dezoito milhões,
a escala é a mesma de megalópole. O que mudou? São
as relações, são as pessoas. Quero trazer ênfase
para as pessoas, não tanto para a arquitetura da cidade, essa questão
mais visível. Por isso também, a coisa do Neurópolis,
os nervos. O que me interessa é o que é invisível,
o que não está nas estatísticas, o que você
só consegue ver se pára e observa. Essa observação
é que traz para mim a essência do que está acontecendo.
Muito do se que lê, nessas megateorias universitárias. Só
que elas enchem de termos, que eu procuro evitar o máximo, essa
terminologia acadêmica, ou high-tech acadêmica. Às
vezes a terminologia cria tantas mediações entre o que você
está falando e sobre como você está falando, que você
passa a falar sobre o falar, que é a academia. A idéia é
a da observação diletante, entre aspas, amadora. Walter
Benjamim é o melhor exemplo disso. A filosofia dele, em grande
medida, vem da observação.
:
Tanto “Neurópolis” quanto “Symphonia” foram apresentados por ocasião
das comemorações do aniversário da cidade. Trata-se
de uma data mais favorável para enfocar a cidade ou há um
“que” de homenagem também? Afinal, você gosta de São
Paulo?
LIVIO TRAGTENBERG: Como todo
paulistano típico, amo e odeio a cidade. O paulistano tem isso,
não vê a hora de pintar um feriado e cair fora. Muito diferente
do carioca, que fica na cidade no feriado. Mas, enfim, por que muito no
aniversário de São Paulo? Porque é a chance que a
gente consegue de pegar um gancho, uma carona, nesse oficialismo. Quando
o Memorial da América Latina ia botar minha música lá
dentro? Ele precisa ter um grande álibi, uma grande desculpa, uma
desculpa que fique bem pra eles. Então, o filme Symphonia... Muitas
vezes, compram o filme e levam a música de brinde, mas eles não
sabem bem o que é, acham que a gente vai fazer uma louvação,
e o que a gente faz não é uma louvação, é
uma crítica à mentalidade de São Paulo, não
ao filme. O filme tem planos maravilhosos, tem gestos maravilhosos, é
desigual como tudo em São Paulo é desigual, tudo é
meio feio meio bonito meio mal acabado. No Rio de Janeiro a natureza é
exuberante demais, ela te oprime pela exuberância dela, você
vira um observador pequeno daquela grandiosidade; mas você convive
com toda aquela majestade da natureza de uma forma natural. Em São
Paulo não tem nada bonito naturalmente. O que há de agradável
e confortável aqui é construído. Nossa relação
com a cidade é totalmente diferente. Quando a gente faz alguma coisa
sobre a cidade, tem que trazer esse lado da coisa mal acabada, da coisa
assimétrica, mal resolvida, por isso não acredito nessa coisa
de homenagear a cidade com uma coisa louvatória.
:
Em seus trabalhos muitas vezes podemos perceber uma cidade com um certo
ordenamento, inteligível, cheia de significados para aqueles que
nela vivem... Os sons e movimentos ritmados da vida cotidiana em “Symphonia”
apontam bastante para isso, assim como a possibilidade de entendimento
mútuo entre pessoas de tradições musicais tão
diversas trazida por “Neurópolis”. Isso é correto? Como você
vê a relação entre música e cidade? E como você
vê São Paulo nessa dimensão humanizada, das pessoas
conseguirem transitar e viver aqui?
LIVIO
TRAGTENBERG: A música na cidade tem camadas. A cultura, a vivência
do lazer, da música são camadas. Vou entrar numa coisa que
pode parecer meio simplória em termos de um sociologuês, mas
é simples e verdadeiro. O pessoal que tem grana convive com a música
de um jeito; o pessoal que tem um pouquinho menos de grana convive de outro;
o pessoal que não tem grana convive de outro. A música na
cidade tem muito a ver com a classe social. A vivência musical das
pessoas na cidade é muito diferenciada. A classe média tem
uns funis na sua visão de cultura: é a televisão,
o jornal, a revista que informam a gente sobre a cultura da cidade. Isso
é um erro. Isso faz a gente deixar de viver 80% do que acontece
na cidade. Porque 80% do que acontece na cidade não interessa a
essa mídia, porque a essa mídia só interessa aquilo
que eles trocam por valor, grana, anúncio. Todo aquele circuito
da cultura como negócio. Viver a música na cidade passa pelo
músico amador, e essa é a questão principal do Neurópolis,
da Orquestra dos Músicos das Ruas e desse trabalho que comecei,
“A Balada do Deus Morto”, que é em sistema de oficinas. Não
escolho, não faço seleção. Isso é o
maior choque pras pessoas. ‘Você não vai selecionar?’ Não.
Por que tenho que selecionar? A vida seleciona. Isso tem um pouco do Cage,
que é um músico que me trouxe grandes toques, entre eles
esse: saia, abra espaço, tire seu ego, suas idéias, seu julgamento.
Lide com o surpreendente, o inesperado, mas não o inesperado em
termos calculados, como é no Jazz. Fala-se que se improvisa no Jazz;
no Jazz não se improvisa mais, no Jazz você faz uma estilização
em torno de um repertório. Digo, improvisar tudo mesmo, como aqui,
nessa oficina para criar “Balada do Deus Morto” de Flavio de Carvalho.
Em três semanas veio gente que não selecionei, não
fiz nenhuma restrição quanto à idade, habilidade.
Acredito que , se não posso criar com o que está à
minha volta, não sou um artista necessário. Se preciso de
condições ideais, ou de condições que não
são as que tenho, então o que vou fazer não vai ser
interessante. Vai só expressar o quão habilidoso posso ser
na minha arte, vai ser só mais uma forma de expressar o meu ego,
a minha diferença. Quero expressar a minha diferença, mas
não no sentido de me colocar na frente, mas de criar situações...
Se vou ficar fazendo música a vida inteira, preciso transformar
isso daqui em uma coisa interessante pra mim, não só numa
reafirmação do meu ego. Não vejo a carreira de criação
como uma carreira cumulativa como a carreira do executivo, que você
vai acumulando bens, não só materiais mas bens simbólicos.
O interessante, na minha forma de ver, é que monto uma coisa e desmonto
no passo seguinte, vou pra outro lado. Essa coisa do músico amador,
que é uma coisa totalmente abandonada, que foi desprezada, porque
é coisa de pobre, pobre é que fica tocando cavaquinho, pobre
é que fica tocando em boteco, fica tocando na rua. Não é
valorizado. Filho da classe média já ganha instrumento muito
bom. O moleque não sabe tocar nada, já vai estudar na escola
de música. A música tem que ser muito mais do que isso numa
cidade, num país tão diverso como o nosso. Meu enfoque principal
é esse: como resgatar práticas de música amadora,
mas dentro do mais alto nível de criatividade, sem nenhum tipo de
concessão pra “inclusão social”, pra paternalismo, nem paternalismo
cultural.
:
E os trabalhos com a Banda Operária da Lapa? Dentro da sua trajetória
de trabalhos sobre a cidade, que lugar ela ocupa?
LIVIO TRAGTENBERG: É
uma coisa engraçada. Me lembrava da Corporação Musical
Operária da Lapa, que ela existia. Há muitos anos passava
por lá. Aí me lembrei dela e me veio uma idéia musical
simples: nessa música tecno, música eletrônica de pista,
o metro é binário, são dois tempos, como na marcha,
no dobrado. Então, pensei, que interessante juntar dois mundos a
partir de uma solução musical muito simples, os dois se encaixam
musicalmente perfeitamente. Mas são dois universos opostos, de tempo,
de público, de linguagem. Vamos juntar isso. Quero ver a molecada...
que é tão excludente como é essa molecada da música
eletrônica, que é da tribo, essa idéia da tribo, da
nossa tribo, que não é uma idéia generosa em termos
de cidade, que é a idéia dos Estados Unidos, vamos nos fechar
na nossa tribo e a cidade vira um campo de batalha das tribos. Queria ver
como seria essa experiência, tanto em termos musicais, juntar velhos
dobrados com música eletrônica, e como o público de
um festival de música eletrônica de moçada clubber
ia reagir com aquela energia daquela banda. Aí fiz esse projeto
praquele festival
4Hype do SESC Pompéia, um festival de música
eletrônica pra moçada. Naquele contexto, ali, tinha uma leitura
a mais. Colocar essa experiência musical naquele contexto, um estilo
musical que a moçada que também despreza, trabalhar
com esses preconceitos, música antiga, música de velho. Eles
não tiveram nenhum preconceito de tocar junto com as batidas eletrônicas
que eu fiz, isso é que é interessante. Quando comecei a aparecer
com as batidas nos ensaios, ficavam curiosos com aquilo acontecendo, entende?
Muito diferente do preconceito da moçada que se diz da vanguarda,
do comportamento pós-moderno. O preconceito é a base desse
trabalho. A base é musical, fazer tocar junto essas batidas, drum’n
bass, essas coisas, com os dobrados antigos. Você tem a rítmica,
uma sonoridade entre aspas moderna, novidadeira, que já é
velha, mas é o novidadeiro do dia, o que estão vendendo como
novidade essa semana, e você tem em cima disso uma harmonia, uma
melodia, um timbre totalmente relacionado a uma coisa do passado, visto
como antiquado, obsoleto.
:
Tem algum músico da Banda Operária no Neurópolis?
LIVIO TRAGTENBERG: Não.
Ainda, não. Mas pode migrar. Porque são instrumentos... bombardino,
tuba,
que você não encontra por aí. Migro eles pra outros
trabalhos meus. Vou fazer uma adaptação de uma novela do
Karl Marx, vou chamar um tubista da Corporação da Lapa pra
tocar junto com uma atriz que fala. É como um baralho. Vou embaralhando
as coisas, pego uma coisa daqui... Quando o Neurópolis viajava pelo
interior, no ano passado – agora a gente vai voltar a viajar – eu ia antes
a cada cidade, encontrar um músico de rua da cidade, escolher um
músico, pra tocar com a gente. Ia, gravava o cara, ensaiava uma
música dele, e quando a gente chegava na cidade ele era nossa grande
estrela do show, o que era um constrangimento muito interessante pra população
da cidade, porque ela via o cara todo o dia, de segunda a segunda, tocando
na frente do banco lá, e de repente eles pagaram ingresso, num lugar
bacana, que tá conferindo a eles um status cultural, social, e vão
ter que aplaudir aquele cara. Esse é o lado teatral do Neurópolis.
A narrativa teatral é essa. Daí vêm as pessoas no final,
‘é, sempre vejo ele tocar, nunca tinha...’ Aí passam a valorizar
o cara, porque ele tava no palco, tocando com a gente no SESC. Não
tem nada a ver com música. Na verdade, tudo isso que rola não
tem nada a ver com cultura, são trocas simbólicas de status,
problemas de auto-imagem das pessoas, dos grupos sociais. Tanto que os
paraguaios, alguns deles, você fala ‘de onde você é’,
ele fala ‘sou da fronteira’, ele não diz que é paraguaio.
‘Mas que fronteira?’ Mas inicialmente ele omite que é paraguaio,
sabe que vem porrada. Pra que vai dizer que é paraguaio? Então,
vou embaralhando. Esses vídeos que fiz na cidade com os músicos,
virou um outro show meu, em que toco com eles, eles no vídeo e eu
ao vivo, o “Personas Sonoras”. Nada tá fechado. A idéia é
essa, não fechar nada. Vão mudar os músicos do Neurópolis,
o Corporação vai vir com outras coisas, sempre mudando. Mas
a Orquestra de Músicos das Ruas deve continuar. Quero chegar num
segundo CD, mais radical musicalmente, porque eles já estão
mais preparados pra se soltar. Já estou pedindo pra uns tocarem
outro instrumento, já estou interferindo um pouco mais. É
outra etapa, já passou essa.
:
Você pensa em fazê-los dialogar mais com a música atonal?
LIVIO TRAGTENBERG: Não,
porque nunca trabalhei com música atonal no sentido da dissonância,
nunca trabalhei. Estudei isso, sei fazer isso, mas não é
minha expressão, não me sinto à vontade. Me sinto
como um bom aluno, da academia. E se tem uma coisa que não sou é
isso. Não julgo a música pela dificuldade. Tem um outro preconceito
aí. As pessoas acham que o que dá trabalho é bom.
Trabalho não garante qualidade em arte, em criação,
no que for. Você ficou seis meses e pode ser uma porcaria; você
fez em dois minutos, pode ser um negócio genial. Porque o tempo
não é esse; é outro tempo. É como quando perguntam:
‘Quanto tempo você ensaiou pra fazer o Neurópolis?’ Falo:
‘Vinte anos’. Foram dez dias. Vinte anos que tive que condensar em dez
dias, mas foram vinte anos. Você não faz nada em dez dias,
em uma semana, em um mês. Esse trabalho “Balada do Deus Morto” foram
três semanas de oficinas, só que não são três
semanas. Fiz há vinte anos atrás para inaugurar as Oficinas
Culturais Oswald de Andrade e me chamaram agora pra montar uma outra versão
em cima da coisa do Flávio de Carvalho. Essa questão de sempre
quantizar as coisas em termos de mercadoria é que é o problema
pra cultura, porque as pessoas acabam acreditando nisso. E se a gente não
toma cuidado, você embarca mesmo. Volta e meia me pego embarcando
nessa lógica, que é a lógica da grana, do esforço,
positivista. ‘Estudei quinze anos’. ‘Quantas horas você estuda por
dia?’ O cara fala com a boca cheia ‘estudo seis, oito horas com meu instrumento’.
Pra mim, honestamente, isso pode chocar as pessoas, não quer dizer
nada. O cara pode estudar dez horas por dia, tocar muito bem um instrumento,
e a coisa que ele faz ser completamente morta ou ser uma coisa totalmente
ornamental, como um lustre. Aliás, o Baudelaire tem uma ótima
definição. Vieram pra ele e perguntaram ‘O que você
gosta mais no teatro?’ Ele falou: ‘O lustre’. A gente pode dizer isso da
Sala São Paulo. Nem sei se tem lustre lá. No dia em que a
Orquestra chegou a tocar na Sala São Paulo, na entrega do prêmio
da revista Bravo, a gente tocou uma música só, no final,
e o pessoal ficou de queixo caído. Então, tem um frescor
que não tem a ver com música. É muito mais. Tem uma
dimensão que é a experiência que te dá, de você
ir acumulando camadas. Tem uma construção, meio casual, dessa
coisa dos vinte anos de acaso. É uma constelação de
situações. É como a cidade. Nada na cidade é
organizado. E não venham organizar. Por que todo alemão é
depressivo, o berlinense é a figura mais depressiva? Porque aquela
trolha é toda organizada, não se consegue montar uma orquestra
com músicos de rua. Não vêem a hora de vir pra cá,
fugir de bala perdida no Rio de Janeiro. É divertido pra eles. Você
não vê o pessoal que vem se hospedar na favela? Pra eles é
como entrar num videogame real, o que é uma perversão.
:
Quando a música feita para o filme é mais do que uma trilha
sonora?
LIVIO TRAGTENBERG: Quando
ela assume um papel narrativo e não só ornamentativo, só
de reforçar situações que já estão na
imagem, quando a música vem para reforçar o que a imagem
já está dizendo. Ela reforça o significado ou de um
diálogo ou de uma situação. Então a música
diz a mesma coisa que a imagem. Ela é mais quando ela vem acrescentar
um elemento que a imagem não está expressando; não
precisa ser em oposição à imagem, mas que ela traga
um elemento a mais pra leitura daquela imagem. Aí a música
deixa de ser descritiva e passa a ser uma música de cinema no sentido
mais criativo.
:
Esse é o caminho que você faz quando compõe a trilha,
não?
LIVIO
TRAGTENBERG: Totalmente. Porque a minha idéia é que a
pessoas têm ouvidos, têm olhos, então a gente pode conviver
com vários estímulos simultâneos. Basicamente não
gosto de manipular as pessoas, não gosto de usar o meu meio pra
manipular a emoção, não gosto de filme que faz chorar
manipulando. Tipo Central do Brasil, que pega você, manipula você,
agora você vai se sentir muito mal, agora você vai chorar,
agora sua má consciência pequeno-burguesa, isso é um
nojo, ainda mais vindo de um filho de banqueiro. Esse uso da audiência
acho nojento, procuro evitar esse tipo de relação quando
é música de cinema. O cinema tem essa coisa arrebatadora,
que te envolve. Procuro trazer outras coisas do que só fazer o público
ser reativo. Você está ali conversando com gente, não
com um monte de corpos reativos emocionalmente só. Tem outros níveis.
Tem a coisa da cabeça, mesmo sensorial, não só no
sentido de manipular uma emoção, chegar a um ponto, ‘vou
te levar pra cá’. Deixar as coisas dialogando mais.
Entrevista
concedida a Lilian De Lucca
e Bruna Mantese
em fevereiro
de 2007.
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