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Música e
significado cultural: uma abordagem antropológica do filme“Assédio”
de Bernardo Bertolucci
Lilian de Lucca Torres
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A relação entre música,
linguagem e mito, embora polêmica, parece ser muito atraente para
Claude Lévi-Strauss, sendo discutida, entre outros trabalhos, em
O Cru e o Cozido, Mito e Significado e Olhar, Escutar, Ler. Neste último,
Lévi-Strauss resgata um compositor, violonista e filósofo
francês do século XVIII, Michel-Paul-Guy de Chabanon (1730-1792),
que prenunciou os princípios sobre os quais Saussure fundaria a
lingüística estrutural, muito embora tenha se situado no campo
da música, sem perceber claramente todas as analogias entre esta
e a linguagem articulada (Lévi-Strauss,
1997, p. 72). Chabanon afirmava que um som musical (tal como um fonema)
não possuía significado intrínseco e que melodia e
harmonia dependiam, para cada som, dos sons que o precediam e o seguiam
(apud Lévi-Strauss, 2005,
p. 75). Como se pode notar, já havia uma percepção
de que os termos não valem em si e que o significado provém
das relações entre eles. A análise estrutural se caracterizará,
mais tarde, pelo estudo das relações internas presentes em
uma totalidade.
Para
Chabanon, assim como a língua compõe suas inumeráveis
palavras e frases com alguns poucos fonemas, a música também
é composta por um repertório limitado de sons (com a diferença
de que a música passa diretamente dos sons para as frases sem possuir,
como a língua, “palavras”). Segundo ele, para que a música
pudesse expressar e transmitir idéias tal como a linguagem articulada,
deveria possuir um caráter referencial vinculado à experiência
sensível. Se assim fosse, um acorde, que é uma espécie
de complexo sonoro resultante da emissão simultânea de três
ou mais sons diferentes, deveria designar algo, por exemplo, “pão”.
Toda vez que se ouvisse esse acorde, imediatamente a imagem se formaria
na mente do ouvinte (apudLévi-Strauss,
2005, p. 75-76). Desta forma, Chabanon já indicava que as palavras
são os signos convencionais das coisas, possuindo equivalentes quando
se trata de idiomas diferentes; por isso podem ser encontradas correspondências
e é possível fazer traduções. Em música,
pelo contrário, os sons não estão no lugar das coisas;
são a própria coisa (apud Lévi-Strauss, 2005, p.76).
Para a música – e aqui é Lévi-Strauss quem observa
– não existe um equivalente do dicionário. Não é
possível, por exemplo, traduzir uma Sonata de Beethoven.
Para
Lévi-Strauss, entre a linguagem, a música e o mito, a linguagem
seria o sistema mais completo, na medida em que possui todos os níveis
- fonemas, palavras e frases. A música e o mito teriam se originado
dela, desenvolvendo-se separadamente e em diferentes direções:
se em música não existe o equivalente às palavras,
no mito o que importa é o sentido e não o som
.
Outra
hipótese de Lévi-Strauss é que mito e música
são linguagens simétricas. Quando se está ouvindo
música (a música clássica ocidental), reconhece-se
algo que tem claramente um começo, um meio e um fim, ou seja, que
se desenvolve através do tempo e é uma totalidade. Simultaneamente,
esta totalidade possui um tema central acompanhado de variações,
que, de tempos em tempos, voltam a aparecer, sendo possível relacionar
o que se ouviu antes com o que se está a escutar. Ou seja, as frases
musicais reaparecem ao longo da peça. Ocorreria um fenômeno
semelhante com o mito: há um tema central e temas secundários,
que se repetem durante a narrativa. Lévi-Strauss chama esta relação
entre mito e música de “relação de similaridade” (1981,
p. 67).
Segundo
a “relação de similaridade”, deve-se ler uma partitura musical
não só da esquerda para a direita, mas, simultaneamente,
na vertical, de cima para baixo, tentando entender a página inteira,
além de perceber que cada página relaciona-se a todas as
demais. Assim, consegue-se isolar as frases musicais, acompanhar suas reaparições
ao longo da obra e usufruir este tipo de prazer que a música pode
proporcionar: “só se pode entender e sentir a música se,
para cada variação, se tiver em mente o tema que se ouviu
em primeiro lugar” (Lévi-Strauss,
1981, p. 72). O mesmo acontece com o mito.
Esta é a razão
porque devemos estar conscientes de que se tentarmos ler um mito da mesma
maneira que lemos uma novela ou um artigo de jornal, ou seja, linha por
linha, da esquerda para a direita, não poderemos chegar a entender
o mito, porque temos de o apreender como uma totalidade e descobrir que
o significado básico do mito não está ligado à
seqüência de acontecimentos, mas antes, a grupos de acontecimentos,
ainda que tais acontecimentos ocorram em momentos diferentes da História
(Lévi-Strauss, 1981, p. 67-68).
É
preciso, entretanto, situar o momento histórico preciso em que essa
simetria teria passado a vigorar. Segundo Lévi-Strauss, isto ocorreu
com o nascimento do tonalismo. Lévi-Strauss defende a hipótese
de que a música ocidental, tal como se desenvolveu nos séculos
XVII, XVIII e XIX, teria assumido a “função intelectual e
também emotiva” do pensamento mitológico enfraquecido pela
ciência (1981, p. 68-69). O mito
teria “reencarnado” na música tonal graças ao caráter
narrativo de ambos. Lévi-Strauss cita como exemplo as composições
de Bach e Wagner, principalmente a tetralogia wagneriana O Anel dos
Nibelungos. Nesta obra, tal como numa narrativa mítica, um tema
musical (o da renúncia do amor) reaparece diversas vezes. Outro
caso significativo seria o da fuga, tal como formalizada no tempo de Bach,
remetendo à representação sonora de dois motivos (ou
grupos de motivos) contrastantes entre si, que se “perseguem” ao longo
da peça, também de uma forma similar ao que ocorre em certos
mitos.
A história inventariada
pelo mito é a de um grupo que tenta escapar ou fugir do outro grupo
de personagens. Trata-se então de uma perseguição
de um grupo pelo outro, chegando às vezes o grupo A a alcançar
o grupo B, distanciando-se depois novamente o grupo B - tudo como na fuga.
(...) A antítese ou antifonia continua pela história fora,
até ambos os grupos estarem misturados e confundidos – um equivalente
da stretta da fuga; finalmente, a solução ou clímax
deste conflito surge pela conjugação dos dois princípios
que se tinham oposto durante todo o mito (Lévi-Strauss,
1981, p. 72-73).
No
filme Assédio pode ser encontrada uma construção
semelhante, mitológica ou musicalmente falando. O espectador irá
se deparar com diversos níveis de oposições - no campo
político-econômico (países desenvolvidos X países
dependentes), no cultural (África X Europa), no da linguagem
musical (música modal X música tonal), no das formas de trabalho
(braçal X intelectual; informalidade X legalidade) e, por fim, no
das emoções (lago X vulcão). Algumas dessas oposições
encontrarão em um terceiro elemento uma espécie de “ponte”.
A personagem feminina, que veio de um país africano subdesenvolvido
e trabalha como empregada doméstica fazendo o contraponto com o
patrão/pianista inglês, ao ter acesso, na Itália, a
um curso superior, poderá superar sua condição profissional
e adquirir independência econômica. Shandurai e Kinsky, no
início separados social, cultural e musicalmente falando, vão
se aproximando ao longo da narrativa através das linguagens universais
do amor e da música. Através de meios distintos somente na
aparência, que funcionam como variações (mensagens
e presentes enviados através do elevador, músicas,
a promessa da volta ao país de origem, a venda de todos os seus
bens, inclusive o piano), Kinsky (Jasão/Ansaldo) enfrenta seus limites
para conquistar Shandurai. Esta, por sua vez, vai abandonando aos poucos
sua postura arredia e formal, até o momento em que “dança”
ao som do piano de Kinsky. Como foi visto, quando Kinsky começa
a compor para Shandurai, o piano praticamente assume a função
de um instrumento de percussão e a música ganha ritmo e velocidade
similares aos das sonoridades tribais africanas.
O
pianista inglês, tanto no conto de Lasdun como no filme de Bertolucci,
não é somente um intérprete; é também
um compositor. O caminho criativo que ele percorre, como foi visto, é
o do próprio desenvolvimento da narrativa: sua música torna-se
uma metáfora não só da relação homem/mulher,
mas do encontro entre mundos culturalmente diferentes. Sendo estes mundos
a África e a Europa, os diálogos entre a música modal
e a tonal, que perpassam todo o filme, reassumem na música de Kinsky
sua relevância histórica .
Nas palavras do compositor Alessio Vlad:
Muito difícil traduzir
pianisticamente algo que soe como uma aquisição da Música
Africana e que possa depois conviver com o material temático ‘ocidental’.
Desta vontade nasceu a peça ‘Ostinato’, que Kinsky compõe
e toca para Shandurai. Um módulo rítmico assimétrico
baseado sobre intervalos de quinta vem repetido ostensivamente sobre diversos
planos sonoros até encontrar-se no material temático. Para
depois recomeçar mais uma vez e gerar novo material temático,
como uma dança tribal, repetitiva, obsessiva, ao infinito (retirado
do encarte do CD da trilha sonora do filme).
A
composição “Ostinato” (Obstinado) remete, em termos emocionais,
à persistência de Kinsky, e, por outro lado, à estrutura
do mito. Nela percebem-se dois temas distintos: um inicial, ritmado, veloz,
em que o piano é utilizado quase à maneira de um instrumento
de percussão; o segundo, melodioso, mais lento, porém intenso,
que “persegue” o primeiro. É preciso lembrar que, no filme, o pianista
compõe inspirando-se nos ruídos do aspirador de pó
bem como no ritmo dos movimentos do corpo da mulher amada, incorporando
dissonâncias e assimetrias que, além de aludir às transformações
ocorridas com a música clássica ocidental no século
XX, irão provocar em Shandurai uma mudança visível
de comportamento. Shandurai (ritmo das sonoridades africanas + ritmo do
trabalho) e Kinsky (melodia), ao se aproximarem pela linguagem do amor,
podem representar, através da música “Ostinato”, as relações
do mundo modal africano com o mundo tonal europeu.
Antropóloga, Professora
da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP)
e Pesquisadora Associada do
Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo.
NOTAS
José Miguel Wisnik cita um mito arecuná, do norte do Brasil,
colhido por Koch-Grünberg e analisado por Lévi-Strauss em O
Cru e o Cozido, que trata da “origem do veneno da pesca” e remete ao
“sacrifício do ruído” no ato da criação cultural
do som. Num certo ponto deste mito, o arco-íris é uma serpente
aquática com uma pele multicolorida, que é morta pelos pássaros,
cortada em pedaços e redistribuída entre todos os animais.
Conforme a coloração do fragmento recebido por cada um dos
bichos, serão definidos o som de seu “grito” particular e a cor
de sua pelagem ou plumagem. Assim, a arara, o papagaio, o jacu, a garça,
o rouxinol, o tucano, o tapir, a capivara, o veado, a cutia, o macaco,
entre outros, passam a exibir suas cores bem como suas “músicas”
identificadoras. O “continuum” do mundo será recortado no mito (como
também o faz a cultura) para que se criem ordens singulares e diferenciadoras
(2004, p. 36-37).
Segundo Wisnik, a música pode ser descrita como “a própria
extração do som ordenado e periódico do meio turbulento
dos ruídos” (2004, p. 27).
Devo a Luciana Ferreira Moura Mendonça (pós-doutoranda do
Centro
de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra/Núcleo de Estudos
sobre Cidades e Culturas Urbanas esta observação, além
de uma leitura atenta dos originais.
Entrevista
extraída do site da RAI
International On Line, onde não consta o nome do entrevistador.
Capturado em 16 jan. 2007.
Em relação ao filme O Último Tango em Paris,
é preciso lembrar que foi proibido na Itália. No Brasil,
ainda em 1988, não podia ser exibido na TV. A justiça italiana
condenou Bertolucci e o produtor a dois anos de prisão, além
de determinar a destruição dos originais. Bertolucci contrabandeou
o negativo para fora das fronteiras do país e, deste modo, garantiu
sua preservação. Este acontecimento foi marcante na trajetória
do cineasta que, enquanto se desenvolvia o processo, perdeu seu direito
ao voto por cerca de cinco anos. “Senti ódio e, pela primeira vez,
tive vontade de deixar este país. Na época eu era muito politizado
e o episódio, um tanto heróico, foi terrível” (apudByington
& Carelli, p. 52, 1999). A este fato somou-se a desilusão
de Bertolucci perante a corrupção política, apontada
por ele próprio como uma das causas de sua opção por
filmar fora da Itália (como nas obras
O Último Imperador,
O
Céu que nos Protege e
O Pequeno Buda).
A teoria do “cinema autoral" foi o pilar do movimento da Nouvelle Vague.
Criada em 1954 por François Truffaut, que ainda era apenas um crítico
da revista francesa Cahiers Du Cinema, essa teoria afirma que uma
pessoa, quase sempre o diretor, tem a única responsabilidade sobre
o filme e que sua visão pessoal da sociedade pode ser observada
na obra. Truffaut falava da necessidade de se empreender uma “Revolução
Cinematográfica”: uma predominância de locações
externas nas filmagens; menos restrições dos estúdios,
produtores ou roteiristas; uma forma mais solta para o ato de atuar; uma
produção simplificada e acessível ao amador (alguns
cartuchos de filme e uma câmera versus as exigências da indústria
cinematográfica); e, mais importante, diretores que iriam escolher
o próprio material, rejeitar clichês e criar filmes pessoais,
sempre conscientes da natureza específica do meio cinematográfico.
Isso significava que o filme podia ser visto como uma produção
individual, não muito diferente de um livro ou uma música.
François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Pierre-Louis
Rivette, Eric Rohmer e Alain Resnais estavam no centro desse movimento.
A Nouvelle Vague francesa alcançou repercussão internacional,
influenciando movimentos como o Cinema Novo brasileiro (vide http://www.facom.ufba.br/com112_2001_2/nouvellevague/texto_02.html).
Bertolucci, que fez seu primeiro filme aos 21 anos (La Commare Secca, 1962),
admirava os cineastas franceses da Nouvelle Vague. Dizia, com freqüência,
que o francês era a língua oficial do cinema. Neste momento,
na Itália, o Neo-Realismo já perdia seu vigor e a “comédia
à italiana” (Dino Risi, Monicelli, Ettore Scola) ganhava força
(Byington & Carelli, p. 49, 1999). O filme O Conformista (1970),
uma adaptação do romance homônimo de Aberto Moravia,
rendeu a Bertolucci a indicação ao Oscar de melhor roteiro
adaptado e ao Urso de Ouro em Berlim. Este trabalho, porém, gerou
um esfriamento de sua amizade com Godard, que criticou abertamente a obra,
e um distanciamento da Nouvelle Vague. Com este filme, Bertolucci
parecia inclinar-se para um cinema que se aproximasse mais do público,
ao contrário de cineastas mais radicais e militantes, como Godard,
que rejeitavam tudo que implicasse em assumir uma caracterização
mais comercial. Estava-se, ainda, muito perto dos acontecimentos de Maio
de 68. Godard, por exemplo, era Maoísta; o próprio Bertolucci
fora militante do PCI.
Em entrevista concedida à Revista Bravo, Bertolucci relembra sua
convivência com os cineastas brasileiros ligados ao Cinema Novo.
Glauber Rocha, Gustavo Dahl e Paulo César Saraceni passaram períodos
de tempo variados na Itália enquanto esteve em curso a ditadura
militar no Brasil. Bertolucci ressalta que tanto o cinema que ele
realizava naquele momento quanto o Cinema Novo brasileiro tinham
sua origem na Nouvelle Vague francesa (Byington
& Carelli, p. 49, 1999). Em janeiro de 1965, Glauber Rocha participou
de um seminário em Gênova sobre o “cinema de autor” e o “cinema
novo”. Defendeu, nesta ocasião, o que chamou de “estética
da fome”, impregnado que estava pela perspectiva revolucionária
existente na América Latina, simbolizada por Che Guevara, então
ainda vivo. Dizia que a única forma do colonizador compreender a
existência do colonizado era através de uma estética
marcada pela violência dos temas e imagens. O Cinema Novo,
na visão de Glauber, devia dar ao público a consciência
de sua própria existência, ser útil ao ativismo político
e promover a reflexão filosófica. Enfim, um “cinema de autor”
levado às últimas conseqüências (Feijó,
1996, p. 12-16).
Em Assédio, embora a música seja central, não
há cenas de dança. Em Antes da Revolução,
tia e sobrinho dançam de rostos colados, na sala, diante do pai
que lê seu jornal e da avó que dorme profundamente sentada
no sofá. O momento máximo da transgressão se dá
quando, depois do pai ter se retirado para seu quarto (“acordem-me às
16h”), os dois se beijam enquanto a família, metaforicamente, está
adormecida. No filme de 1972, quando a relação entre os dois
personagens, que se conheceram de modo casual nas ruas da cidade, atinge
o ápice das contradições, começa a tocar um
tango. As cenas que antecedem o final do filme irão se desenvolver
durante um concurso de dança. O personagem americano, que até
então manteve sua identidade em segredo, começa a desvelar
seu passado na tentativa de recomeçar a relação em
novas bases, propondo, inclusive, que os dois passem a morar junto. Porém,
o encontro só é possível no campo da transgressão
dos valores da “sagrada família” e a jovem recusa-se a trocar a
fantasia sexual por uma rotineira vida de casada. Quanto à música,
considerando estes três filmes, é em Assédio
que ela adquire papel fundamental, podendo-se dizer que os temas musicais
(sejam os africanos sejam os ocidentais) continuam a “narrar” a história
através dos “espaços abertos” pela ausência de palavras,
como diria Abbas Kiarostami (2004, p.184).
Sobre a categoria trajeto vide Magnani,
1984. Para Magnani, trajeto remete a deslocamentos recorrentes por
regiões distantes e não contíguas no espaço
mais abrangente da cidade, bem como no interior das manchas urbanas
(áreas do espaço urbano dotadas de equipamentos que marcam
seus limites e viabilizam uma atividade ou prática dominante, por
exemplo, na área da saúde, do lazer, etc.). Trajetos,
de modo geral, ligam equipamentos, pontos, manchas, sejam estes complementares
entre si ou não.
Comparativamente, a Roma do filme homônimo de Fellini (Roma,
1972) está dentro de uma chave mais histórica, sendo tratada
a partir de uma crítica ao fascismo, à monarquia e ao cristianismo.
Para a análise do filme Roma vide Martins,
2000. Igualmente o filme Roma, cidade aberta (1945), de Roberto
Rossellini, filmado logo após a libertação da Itália,
em locações reais e com a participação de inúmeros
atores amadores, mostra a cidade sob a ocupação nazista,
tendo se tornado o marco inicial do neo-realismo italiano. O roteiro de
Roma,
cidade aberta foi escrito em um apartamento na Piazza di Spagna, sendo
a primeira cena do filme feita também nesta locação.
No documentário “Cinema sem tempo”, realizado pela RAI a partir
de diversas entrevistas concedidas por Bertolucci até o final dos
anos 90, o cineasta comenta sobre Assédio: “Este é
um pequeno filme para a televisão, um filme de uma hora, que ocorre
quase todo nesta casa semi-abandonada. Repare que temos as janelas do andar
de cima que dão para a escadaria de Trinità dei Monti. Eu
não quero, como fariam os americanos se filmassem aqui, usar imediatamente
o que eles chamam de ‘production values’, ou seja, o valor do set
em si. Quero tratá-lo com muita economia, de modo quase minimalista.
Quero, devagarinho, descobrir antes as escadas com pessoas sentadas, que
poderão estar em qualquer lugar, e, depois, sempre devagar, lá
para o fim: ah!”. Porém, até o fim do filme, nem a praça,
nem a igreja, nem a escadaria serão filmadas em um plano mais aberto.
Em algumas críticas sobre este filme, diz-se que Bertolucci “descuidou-se”
da ambientação cenográfica por ter pouca verba e,
portanto, pouco tempo para sua realização. Entretanto, ao
que parece, há aqui uma intencionalidade de “economizar” também
imagens.
Sobre a categoria pedaço vide Magnani,
1984. O pedaço, segundo Magnani, possui um componente físico
e remete, também, a um conjunto de relações sociais.
Assim, no caso do bairro, não basta passar por um lugar ou mesmo
freqüentá-lo com alguma regularidade para ser do pedaço:
é preciso estar situado (e ser reconhecido como tal) numa peculiar
rede de relações que combina laços de parentesco,
vizinhança, procedência, participação em atividades
comunitárias, etc. Em áreas mais centrais da cidade, ser
do pedaço não significa conhecer de fato as pessoas,
mas se reconhecer como portador dos mesmos símbolos, que remetem
a gostos, valores, hábitos de consumo e modos de vida semelhantes
e compartilhados.
Sobre a categoria de não-lugares vide Augé,
1994.
Sobre as categorias familiar e exótico vide Da
Matta, 1974.
As frases foram transcritas diretamente do DVD do filme Antes da Revolução.
É interessante notar que os atores também não são
italianos (aliás, o que não é incomum na filmografia
de Bertolucci, fato pelo qual já foi bastante criticado). Nascida
a 6 de Novembro de 1972, em Londres, Thandie Newton é filha
de pai inglês e mãe africana da tribo Shona, do Zimbabwe (a
grafia correta de seu primeiro nome é Thandiwe, que significa “beloved”,
amada). Morou no Zâmbia até que perturbações
políticas forçaram a família a voltar para a Inglaterra.
Estudou dança moderna, na Inglaterra, e teatro, nos EUA. Na Inglaterra,
na Universidade de Cambridge, formou-se em Antropologia. O outro protagonista,
David Thewlis, nascido em Blackpool, mudou-se para Londres aos 18 anos
para estudar na prestigiada Guildhall School of Music and Drama. Trabalhou
na televisão e no teatro, tendo recebido, por sua atuação
em Naked (1993), de Mike Leigh, o prêmio de Melhor Ator em
Cannes.
O monta-cargas era um elevador que servia para levar as comidas preparadas
pelos empregados para os andares superiores da casa, onde os patrões
faziam suas refeições. Percebe-se que no filme (como no conto
de Lasdun) ocorre uma inversão: é de cima que vêm os
enigmáticos presentes que o pianista envia para a empregada, o que
configurará o assédio. O sobrado de época, escolhido
por Bertolucci como cenário, adquire ainda mais sentido para esta
história por ter sido o lugar em que Gabriele D’Annunzio escreveu
seu romance Il piaccere (Carlos, 2005).
A flauta que aparece nas mãos de Hermes nesta representação
do deus grego remete a Pã. Segundo Pugliesi,
Pã é filho de Hermes, sendo representado com chifres e corpo
de bode da cintura para baixo. Muitas vezes é confundido com um
fauno ou um sátiro. Aparece associado à flauta de sete tubos,
conhecida como “flauta de Pã”, porque teria sido seu inventor (2005,
p. 114).
Segundo Clare Peploe, co-roteirista, Kinsky “parece temer as mulheres e
só consegue aceitar uma presença feminina dormindo em casa
na forma de empregada” (apud Byington &
Carelli, p. 55, 1999).
Há uma cena no filme que remete de forma poética à
questão da sedução. Shandurai está, como de
costume, limpando os arabescos de metal da escadaria quando Kinsky se prepara
para sair. Neste momento, Shandurai está posicionada um andar acima
do dele. Quando Kinsky começa a descer, Shandurai pára seu
trabalho para observá-lo e, “sem querer”, deixa escorregar de sua
mão o pano de limpeza, que cai volteando no ar até terminar
na cabeça dele. Kinsky pega o pano e, de forma irônica, diz
“Acho que isso é seu”, aliás a frase de Shandurai ao devolver-lhe
o anel. Shandurai, de maneira tímida e um tanto atrapalhada, tenta
se justificar. Devo à amiga e aluna Karla Lima (co-autora, juntamente
com Pya Pêra, do livro Armário sem portas, Edição
do Autor, São Paulo, 2006) a observação de que isto
se assemelha com “derrubar o lencinho”, prática de sedução
e conquista tematizada nas histórias de cavalaria do período
medieval.
Nesta cena, Shandurai olha fixamente as canelas de Kinsky, num momento
em que sua pele alva aparece entre a meia e a calça comprida.
Aqui, enquanto se dá o diálogo, Shandurai está de
pé e Kinsky está sentado no chão, pois até
o sofá foi vendido. Significativamente, há uma televisão
ligada, também apoiada no chão, que está sintonizada
em uma corrida de automóveis, o que pode remeter à competição
entre dois homens pela mesma mulher.
José Miguel Wisnik, em O som e o sentido, afirma que essa
hipótese de Lévi-Strauss não precisa ser entendida
literalmente como uma proposição "genética", mas,
dentro das propostas do estruturalismo, como "jogo matemático";
remete Lévi-Strauss ao quadrivium medieval (que unia
aritmética, geometria, música e astrologia como disciplinas
básicas para o conhecimento do universo), dizendo que este autor
teria seu próprio quadrivium estrutural (matemática,
língua, música e mito). Na matemática, encontram-se
estruturas em estado puro, isentas de som e sentido; na língua,
as estruturas são duplamente encarnadas, pois nascem da intersecção
entre som e sentido. ‘Menos encarnadas’ que a língua e ‘mais encarnadas’
que a matemática, as estruturas musicais constituem-se do som e,
as míticas, do sentido (Wisnik, 2004, p. 163).
Só para tomar alguns exemplos: o blues é um dos produtos
da sobreposição singular do sistema modal com o tonalismo.
No caso do Brasil, o canto de João Gilberto une um repertório
tonal mais linear, melódico, a nuances rítmicas, timbrísticas
e contrapontuais entre voz e instrumento; vide Wisnik,
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FILMOGRAFIA
DE BERNARDO BERTOLUCCI
La
commare secca, 1962.
Antes da revolução,
1964.
La via del petrolio, 1965.
Il canale, 1966.
The partner, 1968.
Amore e rabbia, 1969.
A estratégia da aranha,
1970.
O conformista, 1971.
O último tango em Paris,
1972.
1900,
1976.
La
luna, 1979.
A tragédia de um homem ridículo,
1982.
O último Imperador,
1987.
O céu que nos protege,
1990.
O pequeno Buda, 1993.
Beleza roubada, 1996.
Assédio, 1998.
Paraíso
e Inferno, 1999.
Os
sonhadores, 2003.
FICHA
TÉCNICA DOS FILMES CITADOS
Antes
da Revolução
Sinopse:
O jovem Fabrizio oscila entre um tipo de romantismo pré-revolucionário
e o engajamento de fato nas mudanças sociais que se seguem às
convulsões políticas. É extremamente crítico
e não consegue acreditar inteiramente nas bandeiras aceitas por
outros militantes. Por outro lado, demonstra também um certo conformismo.
Título original: Prima
della revoluzione
País de origem: Itália
Ano: 1964
Duração: 115
min
Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista(s): Gianni Amico,
Bernardo Bertolucci
Fotografia: Aldo Scavarda
Música: Ennio Morricone,
Aldo Scavarda
Elenco: Francesco Barilli,
Adriana Asti, Allen Midgette, Morando Morandini, Christina Pariset, Gianni
Amico, Domenico Alpi
O
Conformista
Sinopse:
Na Itália de 1938, sob o poder de Mussolini, um jovem professor
torna-se um lacaio fascista. Em viagem de lua-de-mel a Paris, recebe ordens
para planejar o assassinato de um inimigo do regime. Surpreende-se, no
entanto, quando toma conhecimento que este homem é seu antigo mestre.
Título original: Il
conformista
País de origem: Itália,
França, Alemanha
Ano: 1970
Duração: 115
min
Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista(s): Bernardo Bertolucci;
Alberto Moravia
Fotografia: Vittorio Storaro
Música: Georges Delerue
Elenco: Jean-Louis Trintignant,
Stefania Sandrelli, Gastone Moschin, Enzo Tarascio, Fosco Giachetti, José
Quaglio, Dominique Sanda, Pierre Clémenti, Yvonne Sanson, Milly,
Giuseppe Addobbati, Christian Aligny, Carlo Gaddi, Umberto Silvestri, Furio
Pellerani, Luigi Antonio Guerra, Orso Maria Guerrini, Pasquale Fortunato,
Antonio Maestri, Alessandro Haber, Massimo Sarchielli, Pierangelo Civera,
Christian Belegue, Benedetto Benedetti, Claudio Cappeli, Romano Costa,
Marta Lado, Luciano Rossi, Gino Vagniluca.
O
Último Tango em Paris
Sinopse:
Obra-prima de Bertolucci que marcou época e escandalizou as platéias
com a história de um homem sofrido que se entrega a uma paixão
alucinada por uma jovem parisiense. Ela está prestes a se casar,
mas não se importa com quanto tempo esta relação possa
durar nem com regras e papéis sociais tradicionais.
Título original:
The last tango in Paris
País de origem: Itália,
França, EUA
Ano: 1972
Duração: 136
min
Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista(s): Bernardo Bertolucci,
Franco Arcalli, Agnès Varda
Fotografia: Vittorio Storaro
Música: Gato Barbieri
Elenco: Marlon Brando, Maria
Schnaider, Jean-Pierre Léaud, Maria Michi, Verônica Lazar
O
Último Imperador
Sinopse:
A saga de Pu Yi, alçado ao posto de imperador da China com apenas
três anos de idade. Yi passou boa parte da vida enclausurado na Cidade
Proibida até que o governo revolucionário o depôs,
forçando um jovem de 24 anos a conhecer uma outra realidade. Uma
história de transformações pessoais e culturais.
Título original: The
Last Emperor
País de origem: Itália,
Inglaterra, China, Hong Kong
Ano: 1987
Duração: 160
min
Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista(s): Mark Peploe,
Bernardo Bertolucci, Henry Pu-yi
Fotografia: Vittorio Storaro
Música: David Byrne,
Ryuichi Sakamoto, Cong Su
Elenco: John Lone, Joan Chen,
Peter O'Toole, Ying Ruocheng, Victor Wong, Dennis Dun, Ryuichi Sakamoto,
Maggie Han, Ric Young, Cary-Hiroyuki Tagawa
Premiação:
nove Oscars, incluindo o de melhor filme e melhor diretor
O
Céu Que Nos Protege
Sinopse:
Nos anos 40, casal americano em crise e amigo rico partem para a África
sem qualquer objetivo especial. Procurando apenas aventura, eles vivem
experiências marcantes, sob o sol do Saara, onde aprendem a se autoconhecerem.
Título original: The
Sheltering Sky
País de origem: Itália,
Inglaterra, EUA
Ano: 1990
Duração:137
min
Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista(s): Mark Peploe,
Bernardo Bertolucci, Paul Bowles
Fotografia: Vittorio Storaro
Música: Ryuichi Sakamoto
Elenco: John Malkovich, Debra
Winger, Campbell Scott, Jill Bennett, Timothy Spall, Eric Vu-An, Juliet
Taylor, Amina Annabi, Tom Novembre, Kamel Cherif
O
Pequeno Buda
Sinopse:
Família americana é visitada por tibetanos que alegam ser
seu filho a reencarnação de um Lama, mestre espiritual budista.
É o início de uma jornada no espaço, rumo ao Oriente,
e no tempo, em busca de referências culturais tão distantes
da realidade vivida por aquela família.
Título original: Little
Buddha
País de origem: Itália,
Inglaterra, França
Ano: 1993
Duração: 140
min
Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista(s): Bernardo Bertolucci,
Rudy Wurlitzer, Mark Peploe
Fotografia: Vittorio Storaro
Música: Ryuichi Sakamoto
Elenco: Keanu Reeves, Ruocheng
Ying, Chris Isaak, Bridget Fonda, Alex Wiesendanger, Raju Lal, Greishma
Makar Singh, Sogyal Rinpoche
Assédio
Sinopse:
Jovem africana foge para a Itália quando seu marido é preso
pelo governo ditatorial local. Em Roma, decide cursar a faculdade de medicina
e, para pagar os estudos, emprega-se como doméstica na casa de um
pianista solitário de nacionalidade inglesa. Quando este se apaixona
por ela e declara seu amor, fica sabendo de sua condição
de mulher casada.
Título original: Besieged
País de origem: Itália,
Inglaterra
Ano: 1998
Duração: 93
min
Diretor: Bernardo Bertolucci
Roteirista(s): Bernardo Bertolucci,
Clare Peploe
Fotografia: Fabio Cinchetti
Música: Alessio Vlad
Elenco: Thandie Newton, David
Thewlis, Claudio Santamaria, John C. Ojwang, Massimo De Rossi, Cyril Nri,
Paul Osul, Veronica Lazar, Gian Franco Mazzoni, Maria Mazetti Di Pietralata,
Andrea Quercia, Alexander Menis, Natalia Mignosa, Lorenzo Mollica, Elena
Perino, Fernando Trombetti, Veronica Visentin
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