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Neste
artigo pretende-se explorar as relações de proximidade ou
de afastamento que o campo evangélico e o catolicismo mantêm
entre si no contexto contemporâneo. A análise compara a utilização
do espaço da cidade pelos fiéis da Renovação
Carismática Católica que buscam a Igreja do Loreto, localizada
no bairro de Jacarepaguá (RJ), àqueles que procuram a chamada
‘Catedral Mundial da Fé’ da Igreja Universal do Reino de Deus, localizada
no subúrbio do Rio de Janeiro.
Nas
últimas décadas, como vários autores já vêm
assinalando, o espaço religioso vem se modificando no contexto das
grandes cidades (Maggie & Contins, 1980; Silva,
1996; Mariz & Machado, 1998; Birman
& Leite, 2000;
Contins, 2003; Contins
& Gomes, 2005). Uma das características desse processo é
o crescimento e a visibilidade alcançados pelas denominações
evangélicas pentecostais, em especial das chamadas neopentecostais,
além do aumento de igrejas católicas com características
carismáticas (Movimento de Renovação Carismática
Católica - MRCC). Ressalte-se que as mudanças não
se dão apenas externamente na relação que estabelecem
com e no espaço público, mas também internamente às
confissões religiosas envolvidas.
Enquanto
as igrejas evangélicas mais antigas já atuavam em locais
onde havia predominância da Igreja Católica e de terreiros
de Candomblé e Umbanda (como por exemplo, na Baixada Fluminense)
e privilegiavam atividades religiosas voltadas à congregação
e à população local, as igrejas neopentecostais apresentam
características distintas. Estas são igrejas basicamente
voltadas para receber um grande público, bem diferente das igrejas
pentecostais mais tradicionais, como a Assembléia de Deus .
Além de disporem de um público fixo, investem em uma ‘clientela’
difusa e móvel. Sua arquitetura também se distingue das construções
das pequenas igrejas de bairro. Uma das características importantes
está em sua localização, geralmente no entroncamento
de grandes avenidas, expostas aos permanentes deslocamentos da população.
A renovação carismática católica, apesar de
atuar na esfera da própria Igreja Católica, também
realiza missas e eventos voltados para um grande público. Esta característica
reflete-se na escolha do local que será utilizado para a realização
dos eventos e na própria relação que se estabelece
com o espaço da cidade.
Desde
a obra de autores clássicos, tais como Max
Weber (1980) e Troeltsh (1909; 1983),
o paralelo entre o mundo católico e protestante em suas relações
com a modernidade tem sido um tema importante na sociologia da religião,
e continua recorrente nas discussões atuais (Harding,
1987; Hudson, 1981; Leonard,
1981; Martin, 1990; Novaes,
1985; Rolim, 1985;
Saunders,
1993). Mudanças recentes nesses universos religiosos, assim como
suas adaptações a diferentes contextos sociais e históricos
sugerem que esse tipo de comparação requer uma atualização
constante. As relações de identidade e diferença que
o protestantismo e o catolicismo mantêm entre si em contextos urbanos
contemporâneos conformam o pano de fundo da análise aqui empreendida.
Neste sentido, ao focalizar o que chamamos de “conexões urbanas”,
são expostos os vínculos de natureza total exercidos nas
relações desses grupos, não somente com outros grupos
sociais e instituições no espaço da cidade, mas igualmente,
e não menos importante, seus vínculos com a ordem cósmica,
relações expressas por categorias nativas de natureza mágico-religiosa.
Os
grupos selecionados parecem convergir ao considerarem como ponto fundamental
no seu culto o papel da categoria “espírito santo” enquanto mediador
entre os homens e a esfera extramundana. De certo modo, a “possessão
pelo espírito santo” aparece de maneira similar entre católicos
carismáticos e evangélicos pentecostais. As singularidades
podem ser observadas especialmente nas cosmologias e práticas nas
quais estão inscritas. No caso dos pentecostais e dos carismáticos
católicos, o “espírito santo” é incorporado pelo fiel
e se manifesta através de dons carismáticos, em especial
o dom de “falar em línguas estranhas”. A relação entre
fiel e “espírito santo” ocorre de forma individualizada e bastante
próxima. Alguns autores apontam a aproximação da Renovação
Carismática com o protestantismo, principalmente no que se refere
ao tipo de adesão, comprometimento institucional, que este prescreve
aos seus membros: “só pode ser identificado como protestante
ou evangélico quem, além de aceitar Jesus, tiver se batizado
ou se afiliado a alguma igreja e tiver compromisso com esta igreja”
(Mariz e Machado, 1998, p. 28). O processo de
adesão religiosa é marcado pelo “novo nascimento” inscrito
na concepção de reavivamento pelo espírito santo e
no relacionamento direto com este.
Max
Weber (1980) considera a importância e a relevância do
ritual na relação com as divindades como a principal diferença
entre cristãos católicos e protestantes. Protestantes rejeitam
a idéia de que existe um valor inerente às ações
rituais ou que é somente através dos sacramentos (como dizem
os católicos) que os homens entram em contato com o universo ultramundano
e recebem suas graças. A necessidade de um mediador entre esse universo
e os homens está fortemente presente no catolicismo popular, na
RCC e, paradoxalmente, entre os chamados neopentecostais. Apesar desta
dimensão individual, marcada pela interioridade e pela relação
direta entre o fiel e a divindade, é importante ressaltar que a
presença do “espírito santo” nas diferentes manifestações
dos dons espirituais e no batismo, só tem sentido na dimensão
espacial e temporal do culto. Cabe ressaltar que entre carismáticos
e pentecostais a conversão e a prática do proselitismo para
alcançar a salvação são indissociáveis.
Outro
ponto convergente é que tanto as diferentes reuniões realizadas
na Catedral Mundial da Fé como as missas de cura e libertação
que têm lugar na Igreja de Nossa Senhora do Loreto se caracterizam
pela grande participação de fiéis oriundos de diversas
localidades da cidade e de outras regiões. O propósito aqui
será explorar as funções sociais e simbólicas
que essas práticas exercem no processo de estabelecimento de conexões
sociais e simbólicas entre esses grupos religiosos e outros segmentos
sociais no espaço da cidade.
Paróquia
do Loreto: tradição e carisma em comunhão
No
último século, ainda na década de setenta, os padres
jesuítas norte-americanos Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty introduzem
a Renovação Carismática Católica (RCC) no Brasil.
Este movimento vem ganhando novos adeptos entre os católicos tradicionais
e mais espaço nos meios de comunicação. A RCC vem
promovendo megaeventos tais como shows, missas em estádios de futebol
e ginásios, apresentações em programas de televisão
e rádio, que representam um aspecto significativo deste movimento.
Um exemplo marcante desse investimento no processo de modernização
da evangelização é a Comunidade de Vida no Espírito
Canção Nova. Esta comunidade, apesar de ter como foco o “desenvolvimento
do interior sagrado dos sujeitos”, utiliza alta tecnologia, investindo
em muitos recursos midiáticos. A Canção Nova conta
com uma TV, com duas emissoras e 268 retransmissoras, uma rede de rádio
e um portal na Internet (Martins, 2005, p. 2).
Os
rituais da Renovação Carismática Católica e
de seus “grupos de oração” se caracterizam pela presença
de práticas como glossolalia, profecia, visões, revelações,
libertações, curas etc. No “grupo de oração”
da Igreja do Loreto no Rio de Janeiro, todos esses “carismas” podem ser
presenciados. No entanto, o “dom da cura” é o mais enfatizado e
procurado durante os encontros. Os sacerdotes e lideranças leigas
do grupo de oração carismática focalizam principalmente
a “capacidade de curar e de receber a cura pelo Espírito Santo”.
Segundo o ponto de vista das mulheres que trabalham na equipe de serviço
intitulada “Grupo de Oração Jesus Ressurgiu”, a “cura de
enfermidades” e “a libertação de diversos problemas” ocupam
um espaço determinante no universo simbólico dos carismáticos.
Vinte e três mulheres com idade acima de 40 anos são responsáveis
pela organização, administração e reuniões
semanais deste grupo. São estas as que mais manifestam os “dons
carismáticos”, em especial curas e revelações (Macedo,
2004).
A
Paróquia Nossa Senhora do Loreto é um ponto de referência
para a comunidade de Jacarepaguá, mais especificamente para a área
da Freguesia. Jacarepaguá localiza-se na Zona Oeste da cidade do
Rio de Janeiro. Com localização privilegiada, faz a ligação
entre diversos subúrbios e bairros e a região da Barra da
Tijuca. A igreja está localizada em uma região central da
Freguesia, num ponto que conta com um amplo suporte de meios de transportes,
que ligam a Zona Oeste à Zona Norte e ao centro da cidade do Rio
A
igreja do Loreto, fundada em 6 de março de 1661, é um dos
símbolos mais recorrentes nas reproduções de imagens
desta região. É também considerada responsável
pela autonomia do bairro. Na primeira metade do século XVII, Jacarepaguá
já possuía uma população considerável,
mas sua administração estava ainda sob a responsabilidade
da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, em Irajá.
Seu território era composto na época por propriedades particulares
(fazendas) que se dedicavam à agricultura e que estavam vinculadas
à jurisdição da freguesia de Irajá. A independência
do bairro só foi alcançada quando houve a fundação
da Igreja de Nossa Senhora do Loreto e Santo Antônio, pois foi a
partir de então que documentos como certidões de nascimento,
óbitos, casamentos e batizados começaram a ser feitos no
local e não mais em Irajá. Portanto, a construção
da paróquia significou um marco importante para a constituição
da identidade bairro.
Boa
parte do território que compõe hoje o bairro de Jacarepaguá
pertenceu no passado aos familiares do fundador da cidade do Rio de Janeiro,
Estácio de Sá. Em 1634 o local que compreende atualmente
a área da Freguesia foi vendido pelo General Salvador Correia de
Sá e desde então inúmeros fazendeiros assumiram o
controle dessas terras. No ano de sua fundação, a pequena
capela de Nossa Senhora do Loreto foi construída em propriedade
que pertencia ao Capitão Rodrigo da Veiga; em 1664, o padre Manoel
de Araújo construiu no lugar desta, uma igreja bem maior, exatamente
no lugar em que se ergue a atual matriz .
Com
o crescimento do bairro de Jacarepaguá, a Igreja do Loreto também
expandiu seus domínios. Pode-se dizer que hoje a paróquia
atende a uma grande população, que não apenas freqüenta
as missas como também participa de atividades pastorais, movimentos
e festas beneficentes e religiosas. A Paróquia Nossa Senhora do
Loreto é responsável por nove capelas que se espalham em
diversas áreas do mesmo bairro: Capela de São Sebastião
(Sertão - Anil); Nossa Senhora Aparecida (Araticum); Nossa Senhora
do Amparo (Anil); Nossa Senhora de Belém (Freguesia); São
José (Carmelo – Freguesia); Santo Antônio (Freguesia); Santa
Luzia (Gardênia Azul); Nossa Senhora Mãe da Divina Providência
e São João Batista (Rio das Pedras) e São Pedro (Canal
do Anil).
A
comunidade religiosa católica de Jacarepaguá foi crescendo,
principalmente em áreas como Freguesia, Anil e Rio das Pedras e,
neste sentido, foi preciso que a igreja expandisse seu espaço físico
para atender a todos que a procuravam. A partir do momento que a Ordem
Barnabita assumiu a igreja, diversas alterações e adaptações
foram necessárias com o objetivo de melhor assistir aos paroquianos.
Na década de 80, o santuário (a capela original do Loreto)
não conseguia abrigar a enorme quantidade de pessoas que vinham
assistir às missas, principalmente as missas de cura carismática.
Nesta época, o então pároco, padre Sebastião,
providenciou a construção de um grande ginásio de
esportes, que além de servir como área de recreação
e lazer, serviria também para a celebração das missas
de sábado e domingo (os dois dias da semana em que as missas eram
mais freqüentadas). Esse ginásio ficou conhecido pela comunidade
como “Loretão” e atualmente, apesar de sua grande arquibancada,
já se tornou pequeno para a assembléia, pois durante as missas
dominicais é comum verificar uma grande quantidade de pessoas em
pé. Segundo um participante desta igreja:
Nas missas de domingo deve
haver umas 900 pessoas, porque uma vez eles fizeram a contagem, fizeram
papeizinhos com senhas e conforme você ia entrando as pessoas iam
distribuindo para ter um cálculo de mais ou menos quantas pessoas
tinha. Isso tem mais de dez anos. A missa da noite não era tão
freqüentada como ela é hoje em dia, porque sempre houve aquele
costume de assistir à missa de manhã. Então quando
surgiu a missa da noite, muita gente passou a ir de noite porque você
faz tudo o que puder de manhã e de noite vai à missa. Pronto,
cumpriu com sua obrigação dominical! Principalmente os mais
preguiçosos que não gostam de acordar cedo para ir a missa
de Domingo de manhã, por isso a missa das 19:00 horas é a
mais cheia.
Em
1999, a Igreja do Loreto ainda possuía uma grande área ociosa
em seu terreno, e não tinha como aumentar suas instalações
por falta de dinheiro e também não podia vender a área
desocupada porque havia sido doada ao santuário. Neste mesmo ano
recebeu proposta de uma empresa de construir um shopping no local. Esta
forneceria em troca material e mão-de-obra para a edificação
de um centro de estudos para a igreja, em outra parte do terreno. Sobre
este caso um informante relata:
Foi mais ou menos uma troca
de favores. Porque aquela área ali é uma área de doação
da igreja, aquilo ali foi doado à igreja em épocas imemoriais
e se foi doada não pode ser vendida. Então eles fizeram um
trato com os construtores do shopping que eles cederiam o terreno
para o shopping, pelo menos foi assim relatado pelo Padre Sebastião,
na época na frente de todas as pessoas que estavam na missa. Até
porque o terreno era um matagal que não servia para nada e em troca
disso a firma encarregada de construir o shopping construiria o
centro paroquial, que é o CEPAR, para o Loreto em um terreno que
também estava ali praticamente à toa, tinha apenas um salão
paroquial e um estacionamento de barro. Então, em troca eles fariam
isso: deixamos vocês construir no nosso terreno, mas vocês
também vão construir isso aqui para gente.
Em
2000 foi inaugurado o CEPAR (Centro de Estudos Paroquiais Nossa Senhora
do Loreto) que é um grande prédio composto de salas de aula,
teatros, salas de vídeo, auditórios, salão de festas
e uma capela. A inauguração do centro facilitou a organização
das atividades promovidas pela igreja. Grupos como ECC (Encontro de Casais
com Cristo), EAC (Encontro de Adolescentes com Cristo), Fé e Dons,
reuniões de pastorais e palestras passaram a utilizar esse espaço.
Reúnem-se
na igreja dois grupos de oração da Renovação
Carismática. O primeiro existe há 28 anos, desde 1975, e
chama-se “Grupo de Oração Nossa Sra. do Loreto”. Este se
reúne todas as segundas-feiras à noite. O segundo grupo existe
há 25 anos e é chamado de “Grupo de Oração
Jesus Ressurgiu”, com reuniões às segundas-feiras, à
tarde. Este último nasceu em 1978 por iniciativa de uma senhora,
que foi a primeira coordenadora do grupo e atualmente é membro da
equipe de serviço. O padre da paróquia apenas celebrava as
missas uma vez por mês e participava das reuniões com a equipe
de serviço deste grupo de oração, que ocorria a cada
15 dias. Atualmente, o grupo está estruturado de forma diferente:
possui 23 mulheres trabalhando na equipe de serviço, além
de uma banda de música que acompanha as reuniões e missas.
Uma
das características fundamentais dos grupos de oração,
tanto o grupo da noite quanto o da tarde, é a importância
que os leigos assumem em sua administração. Embora exista
um controle exercido por parte dos sacerdotes sobre as atividades, a organização
e a condução das reuniões ficam sob o encargo da equipe
de serviço. A escolha do tema a ser trabalhado, as leituras e, até
mesmo, as orações que serão realizadas ficam sob sua
responsabilidade. Além disso, é a equipe, através
dos chamados “dons espirituais”, que lidera as etapas das reuniões
e estimula os fiéis a se manifestarem, seja dando testemunhos, fazendo
orações ou desenvolvendo seus carismas. O poder de discurso
e de convencimento exercido pelos leigos no grupo de oração
é constitutivo do Movimento de Renovação Carismática.
As
reuniões do Grupo de Oração Jesus Ressurgiu acontecem
todas as segundas-feiras no espaço do Santuário Nossa Sra.
do Loreto a partir das 14:00 horas e seu encerramento se dá por
volta das 16:30. A quantidade de pessoas que freqüentam as reuniões
é variável; no entanto, a média de participantes fica
em torno de 70 pessoas em cada encontro. No primeiro momento as mulheres
da equipe de serviço se dividem entre as funções de
recepcionar os fiéis e o entretenimento dos que chegam, entoando
de cantos e discursos de boas vindas. As “Missas de Cura e Libertação”
promovidas uma vez por mês atraem uma multidão de fiéis
que vem tocar no “Santíssimo”. São fiéis que se deslocam
do seu bairro de residência, nas adjacências da cidade e de
outras cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro, principalmente
da Baixada Fluminense, em busca da cura e da libertação de
doenças e problemas diversos.
É
possível perceber que a faixa econômica do público
que freqüenta a igreja nessas ocasiões é bem diversificada.
Participam das missas de cura pessoas de camadas sociais situadas nos níveis
mais inferiores, e de camadas socialmente mais altas da população.
No entanto, há que se assinalar uma característica distintiva
com relação à participação de moradores
de áreas menos favorecidas, tais como Rio das Pedras e Anil: eles
preferem trabalhar em atividades dentro das capelas/comunidades mais próximas
ao local onde moram, privilegiando as pastorais.
A
celebração segue todos os ritos e etapas de uma missa comum.
A diferença se concentra na exposição do “santíssimo”
perante a assembléia após o sacramento da comunhão.
Durante a missa de cura, as pessoas são incentivadas a manifestarem
os carismas de línguas, profecia e revelação. Quem
celebra a missa é o pároco da igreja e o diretor espiritual
do grupo. As mulheres da equipe de serviço se dividem em diversas
funções. Algumas são ministras da eucaristia e assistem
o padre exercendo o papel de coroinha. Outras ajudam a “animar as pessoas”
e a organizar a celebração durante o ofertório ou
na passagem do “santíssimo”.
Após
a homilia, a missa segue a seqüência habitual. Após a
distribuição da eucaristia, o padre coloca uma hóstia
consagrada dentro do ostensório (mais conhecido pelos católicos
como “santíssimo”). Em seguida, o santíssimo (que deve ter
em volta de 60 centímetros e é banhado a ouro) é passado
a cada uma das pessoas presentes. Os fiéis ficam durante alguns
segundos tocando, beijando ou aproximando-o na direção de
suas frontes. Os carismáticos acreditam que o santíssimo
possui o “poder de curar e libertar de todo o mal”.
Concomitantemente,
as pessoas levantam fotos de familiares, carteiras de trabalho e carteiras
de identidade. As mulheres da equipe de serviço que possuem os dons
de profecia e revelação enumeram uma série de curas
e libertações que estão sendo realizadas a partir
do toque no santíssimo. Praticamente todos tocam no santíssimo
neste ritual que se estende por cerca de três horas. Em seguida,
o padre comanda os ritos finais da missa e termina a celebração
com a canção da família.
A
comunidade da Paróquia do Loreto, que inicialmente realizava apenas
a missa católica tradicional, foi aos poucos aderindo ao movimento
carismático. Durante as missas dominicais tradicionais que ocorrem
nesta igreja, também se percebe a influência da RCC na organização
e realização dos rituais. As atividades específicas
desenvolvidas pelos carismáticos, contrastantes quanto ao formato
assumido pelo catolicismo tradicional, trazem em seu nível discursivo
uma reapropriação de categorias como “espírito santo”,
“carismas”, “cura” e “eucaristia”, num processo de re-encantamento do mundo.
As reuniões carismáticas atuais ficam repletas de fiéis,
dobrando o número inicial de participantes. As chamadas “missas
de cura e libertação” recebem um grupo substantivo de moradores
de Jacarepaguá e também de outros bairros da cidade, além
daqueles provenientes da Baixada Fluminense. Geralmente os grupos de carismáticos
vindos de outros bairros da cidade do Rio de Janeiro e de outras regiões,
se deslocam em ônibus fretados especialmente para as missas de cura.
O
mesmo ocorre com a Catedral Mundial da Fé da IURD: caravanas de
diversas regiões do estado do Rio de Janeiro, de outros estados
e mesmo do exterior, buscam esse local por diferentes motivações,
como veremos adiante.
A
“Catedral Mundial da Fé”: um “lugar de poder mais forte”
Desde
a fundação
da Igreja Universal ,
em 1977, seus templos têm como característica principal o
diálogo com a cidade. A Igreja sempre utilizou locais que pudessem
comportar não só uma grande quantidade de pessoas, mas que
também possibilitassem a sua movimentação durante
a realização dos cultos.
No
inicio de suas atividades, Edir Macedo, fundador da IURD, pregava em uma
praça, no “coreto do Jardim do Méier”, localizada no Méier,
subúrbio do Rio de Janeiro. Essas reuniões ao ar livre chamavam-se
“Cruzada do Caminho Eterno”. Ainda em 1977, a igreja fez seu percurso por
subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, na busca de um lugar próprio
para a realização das reuniões, mas não abandonando
a pregação em lugares públicos. Primeiramente foi
alugado o cinema Bruni, localizado no Méier; depois se transferiram
para outro cinema na Piedade. Foram depois para um galpão
localizado na Avenida Suburbana, que havia sido antes uma funerária.
Foi nesse local que nasceu oficialmente uma nova igreja, sob o nome de
Igreja da Benção, em 9 de julho de 1977. A história
oficial da IURD mostra que esse local tornou-se pequeno para o número
de membros que se multiplicava (Gomes, 2004).
A
partir do final da década de 1980 e início dos anos 1990,
a IURD ficou conhecida pelas grandes concentrações de fieis
em estádios de futebol por todo o país. Considerada como
igreja essencialmente urbana
preconizou a prática de se instalar em cinemas, teatros, galpões
ou mesmo supermercados.
A discussão sobre a instalação de igrejas neopentecostais,
principalmente a Igreja Universal do Reino de Deus, em espaços da
cidade destinados a outros fins que não os “religiosos”, gerou interesse
da imprensa sobre esse tipo de intervenção na paisagem
urbana.
Somente entre janeiro e fevereiro do ano de 1997, por exemplo, o jornal
“O Globo” publicou duas notícias sobre a aquisição
de cinemas por esta igreja. Na edição do dia 23 de janeiro
de 1997 temos a seguinte notícia: “Imperator na Mira da Igreja Universal”.
No primeiro caderno do mesmo jornal, de 14 de fevereiro de 1997, temos
a seguinte notícia:
Cinema de Teresópolis,
o Alvorada – fundado há trinta e quatro anos – vai fechar as portas
em março. Vendido ao insaciável bispo Edir Macedo, terá
as duas salas de projeção transformadas em templos da Igreja
Universal do Reino de Deus. (O Globo, 1997, p.2)
Nesse
contexto havia um debate entre o que seria “espaço de culto religioso”
e “espaço de cultura”. A ocupação de cinemas
e teatros foi vista por parte da imprensa carioca como uma espécie
de agressão e usurpação da “cultura” de um povo que
supostamente já teria “pouca cultura”. Existem pelo menos dois aspectos
articulados nesta visão: o material e o imaterial. O primeiro destaca
a questão da ocupação física e do espaço
da cidade; e o segundo enfatiza a intervenção na memória
e na tradição da cidade. Era uma oposição entre
o que deveria ser permanente e o que se caracterizava, segunda essa perspectiva,
como fluido e transitório. Nesse sentido, a IURD atuava como a antagonista,
uma seita destituída de “autênticas” motivações
religiosas, sem raiz, sem história, e que atribui a esses espaços
uma função vinculada ao “mercado da fé”.
O
conflito entre parte da sociedade carioca e a Igreja Universal se estabelece
nesse contexto, uma vez que a prática do aluguel de imóveis
representou, em grande parte, a forma de instalação dos templos
da IURD até meados da década de noventa. Instalar seus templos
em locais amplos e centrais é uma prática incorporada à
forma como ela se estrutura e se pensa como igreja, como se nota também
no caso de suas “catedrais” construídas a partir de 1997. Esse tipo
de vínculo com os “lugares” permite interpretações
calcadas na noção de transitoriedade e fluidez .
Esse debate é importante para pensarmos sobre o processo de construção
da sua Sede mundial e a importância que esta assume para o local,
para a cidade e para o dia-a-dia das pessoas que vivem nos subúrbios
do Rio de Janeiro.
As
catedrais representam um marco para a IURD, um símbolo de consolidação
do seu processo institucional. A partir da construção dessas
catedrais a IURD busca responder às diversas “acusações”
e “perseguições” dirigidas à igreja. Elas aparecem
imediatamente após um período tenso e conflituoso - final
da década de oitenta e a primeira metade dos anos noventa - entre
a IURD e diferentes interlocutores. As catedrais representam para a IURD
a iniciativa de construir seus locais de culto impondo uma concepção
própria e singular de arquitetura, mantendo as principais características
que a acompanham desde a fundação: ocupar locais centrais,
de fácil acesso, em avenidas, ruas principais e praças. Ela
segue mantendo a padronização, mas em um formato diferente,
identificando-se ao estilo que chamam “ecletismo com referência ao
neoclássico” .
As
categorias “catedral” e “monumento” aparecem quase que como sinônimos
nos diversos artigos publicados pela imprensa da IURD. Os entrevistados
mostram que compartilham da mesma visão, destacando traços
como beleza, grandiosidade, conforto, lugar de paz e, ressalte-se, cercadas
por um grande poder. As catedrais também aparecem como lugares onde
todos os membros podem entrar, do qual podem partilhar e se orgulhar.
Todos
os seus templos estão posicionados de maneira a encontrarem-se sempre
presentes e facilmente identificáveis na paisagem urbana. Mais que
uma estratégia na disputa por fiéis, em um quadro de pluralidade
e mercado religioso, esse tipo de relação com a cidade é
parte fundamental do que ela pretende ser. A utilização de
cinemas, galpões, teatros não constitui uma tática
formulada essencialmente para causar um impacto e tampouco um componente
secundário de suas práticas. Ao contrário, é
um componente estruturante. A IURD formula suas práticas seguindo
o princípio de que tem que colocar “a fé em ação”
e levar a “Palavra” para todos, utilizando-se dos diversos instrumentos,
incluindo as edificações. A localização de
seus templos em áreas centrais e de passagem, sejam pequenas igrejas
ou catedrais, permite a implementação deste princípio.
A
Catedral Mundial da Fé, também conhecida como “Sede Mundial”
e hoje como Templo Maior, começou a ser construída em outubro
de 1997 e está localizada na antiga Avenida Suburbana, hoje Av.
Dom Hélder Câmara, número 4.242, em Del Castilho, subúrbio
do Rio de Janeiro. Retomando o percurso inicial da história da IURD
vemos, também, que a escolha de um subúrbio do Rio de Janeiro
para receber a “Sede Mundial” está vinculada às suas origens
institucionais. O terreno havia sido comprado pela igreja entre 1989 e
1990. Esse local já era utilizado para os grandes eventos ou as
grandes concentrações organizados pela igreja desde 1992.
O
propósito simbólico que informa sua arquitetura é
a de “levar o pensamento a Israel”. Como o próprio bispo Macedo
afirmou, ela é uma forma de deixar a “Terra Santa” mais perto dos
fiéis. O deslocamento de fiéis para a Terra Santa, através
de caravanas, é uma prática constante da IURD desde o início
de suas atividades. Em 1980, três anos após a fundação
da IURD, consta que o bispo Macedo foi pela primeira vez a Jerusalém.
Delineia-se assim um caminho inverso: ao invés de levar seus membros
a Jerusalém, reproduzem-se alguns elementos da “Terra Santa” na
construção da Sede mundial, fazendo convergir para ela a
demanda de fiéis. A concepção da Sede mundial elabora
uma experiência com o sagrado por meio da arquitetura. No caso da
IURD, mesmo aqueles membros que realizam a peregrinação a
Israel, participando das caravanas organizadas pela igreja, buscam imaginar
e visualizar o “Israel do tempo de Jesus”.
Segundo a IURD, construir catedrais “é uma necessidade”. O mesmo
raciocínio é empregado quando falam sobre a “Terra Santa”.
A impossibilidade da experiência direta com a “Terra Santa” pela
maioria de seus membros, não é um impedimento para que essa
“necessidade” seja concretizada através de objetos que ativam e
promovem o contato com este “lugar sagrado”, sejam eles utilizados em práticas
rituais, sejam nas referências materializadas na Sede mundial.
A catedral é enorme,
cabem mais de vinte mil pessoas! Ali é diferente. É como
se um time de futebol do Flamengo fosse jogar no Olaria e depois fosse
jogar no Maracanã. É muito diferente. (...) Quanto mais o
tempo vai passando, a igreja vai mudando as coisas. O tamanho chama atenção.
Tem que sofisticar, sem ficar aquela mesmice (...) Porque é uma
igreja, a gente tem que dar valor, não é qualquer coisa.
É um lugar santo, tem que manter bonita, bem tratada. (Alex, há
15 anos na igreja)
É
desta forma que a IURD imprime o aspecto simbólico do contato com
a “Terra Santa” em sua concepção religiosa. Neste sentido,
a autenticidade da construção está na idéia
de “trazer Israel” para perto de seus membros. Redefine-se a experiência
espacial com o sagrado. A elaboração arquitetônica
dessa sede tem como objetivo a demonstração material de sua
consolidação como igreja e do seu vínculo com a Terra
Santa. As referências a Israel e ao texto bíblico, inscritas
no material utilizado na construção – pedras trazidas de
Jerusalém, trechos da Bíblia colocados nas paredes dos pátios
e nas entradas e, especialmente, a “Maquete da Jerusalém Antiga”
- indicam a busca por uma confirmação de sua autenticidade
religiosa. A Terra Santa atua como mediador simbólico não
só no que tange ao edifício da sede, mas também em
diferentes momentos e rituais elaborados pela igreja.
A
sede mundial, além de dispor de um ambiente confortável,
previsto em sua concepção arquitetônica, está
localizada em uma área de trânsito intenso, que conta com
uma boa estrutura de meios de transporte urbano, como várias linhas
de ônibus, táxis e transporte alternativo (Vans e Kombis),
regularizados ou não. Dentre estas possibilidades de acesso à
sede, destaque-se o transporte metroviário, com as estações
de Del Castilho e Maria da Graça. Este último tipo de transporte
faz a ligação entre a Zona Sul e a Zona Norte do Rio de Janeiro,
cruzando o centro da cidade. Com a ampliação da linha dois
do metrô, é possível ainda o acesso à Baixada
Fluminense, Município de São João de Meriti, pela
última estação da Pavuna.
A
Sede mundial constitui-se como um espaço projetado para receber,
local de convergência de membros e não membros .
Foi concebida para receber membros e visitantes de todos os lugares, possuindo
amplas instalações que permitem a convivência e lazer.
Houve até mesmo um Projeto de Lei tramitando na Assembléia
Legislativa do Rio de Janeiro, que propôs a inclusão da Catedral
Mundial da Fé no roteiro turístico da cidade .
Trata-se de um local de encontro e sociabilidade. É um espaço
onde, além de cumprir obrigações religiosas, poderão
realizar atividades de lazer, ressalvando que grande parte dos membros
não dispõe de acesso fácil a locais de lazer. Uma
entrevistada, moradora da Baixada Fluminense, afirmou sentir-se segura
na sede mundial, uma vez que seus filhos podiam passear nos fins de semana,
usufruindo a comodidade de suas instalações, com restaurantes,
livrarias, a “Maquete de Jerusalém” e espaços para a sociabilidade
e interação com outras pessoas, membros da igreja ou não.
Uma outra entrevistada, uma senhora católica, moradora da Baixada,
trouxe-nos a mesma interpretação, disse-nos que já
tinha ido visitá-la e voltaria outras vezes.
Comodidade,
segurança, limpeza, entretenimento e cumprimento da fé são
as principais características mencionadas tanto pela liderança
quanto pelos membros e visitantes da sede. A sede mundial não é
somente palco de acontecimentos religiosos. No aspecto da construção
de uma “memória” no espaço (Halbwachs,
1990; Nora, 1993), atua como o principal suporte da
materialização do “projeto de igreja” da IURD. Ela foi concebida
e edificada para expressar uma identidade distinta e fortalecida.
No
setor leste do pátio, onde fica a cúpula da entrada auxiliar,
encontra-se uma lanchonete, do tipo fast food (Bob´s), que conta
com um bom espaço onde as pessoas podem ficar. É constante
a presença de famílias, especialmente aos domingos, que depois
das “reuniões” fazem um lanche e conversam por algum tempo nas mesas
dispostas na área à frente da lanchonete. Formam-se longas
filas. A livraria também recebe visitantes que pretendem adquirir
livros, CDs, lembranças, entre outros produtos.

A
vida das pessoas que não são da igreja também foi
atingida com a instalação da catedral. O exemplo está
nos olhares de admiração e desconfiança que a população
em geral projeta sobre a construção, sugerindo interpretações
sobre sua estética: é vista como bonita ou como kitsch.
A imagem negativa em relação à igreja, principalmente
quando associada às práticas de arrecadação
de dinheiro em suas atividades religiosas, permanece como foco de tensão.
Para os membros da IURD a sede mundial é um espaço que acolhe
e que os faz “sentir-se bem” e “tem um poder muito forte”. Além
de ressaltarem esse aspecto, associam a construção da catedral
a uma etapa de maturidade da igreja.
A catedral é um templo.
É o tudo ali. Eu me sinto bem ali, eu acho que é uma coisa
mais forte. Porque ali tá o povo unido ali, na mesma ordem e fé.
Então, eu entrando na sede, eu sinto uma coisa, da gente pisar ali
e sentir, assim, um poder muito grande. (Carlos, há 15 anos da igreja)
A catedral é a Sede
Mundial, onde a Palavra é de um bispo que tem mais experiência,
para você amadurecer mais. A palavra é mais madura”. (Alex,
há 15 anos na igreja)
“Muita gente tem saído
daqui de São Gonçalo para ir se batizar na Catedral de Del
Castilho. Eles acham que é mais forte, que lá tem mais validade
ainda. Vários colegas fizeram isso, eu mesmo fui para assistir.
Mas acho besteira, o importante é aceitar Jesus”. (Ana, há
10 anos na igreja)
Nesse
sentido, o que motiva o percurso dos fiéis pela cidade é
a busca por uma “palavra mais madura”. O local e a palavra “mais fortes”
se complementam para tornar a experiência religiosa mais autêntica
(Gomes, 2004). Os próprios rituais realizados
na catedral são considerados “mais verdadeiros” e confiáveis
pelos fiéis. Assim, a realização do batismo
nas águas pode ocorrer em uma piscina de plástico, rio, quintal
ou em igrejas locais. No entanto, a sede mundial e as demais catedrais
regionais aparecem no imaginário do fiel como locais que concentram
um “poder mais forte”.
O
mesmo pode ser dito sobre a intensa procura pela Igreja do Loreto. Por
seu intermédio, as pessoas estabelecem conexões sociais e
simbólicas nos percursos que realizam pela cidade. Neste contexto,
o exercício da experiência religiosa na cidade está
associado ao “poder” que emana de certos lugares.
Considerações
Finais
A
relação com o espaço da cidade tem repercussões
no processo de construção da subjetividade, como diversos
autores já assinalaram, notadamente
Georg
Simmel (1971; 1987) e toda a tradição de estudos da chamada
antropologia urbana (Velho, 1980; 1994). O espaço
da cidade não somente permite como suscita um trânsito e trocas
intensas entre de fiéis de diferentes confissões. O fluxo
entre fronteiras religiosas permite novas representações
em termos de categorias espaciais e sociais. No espaço da
cidade desenha-se um contexto de pluralidade em que a prática religiosa
tem sido mais transitiva e a procura por novas experiências ultrapassam
seus espaços originais.
Os
evangélicos pentecostais e os carismáticos católicos
realizam seus eventos em grandes espaços, como é o caso dos
estádios e catedrais da Igreja Universal, e mesmo espaços
públicos como a Praça XV (utilizada pela Igreja “Deus é
Amor”, em 2004); o Aterro do Flamengo (local escolhido por diferentes denominações
para a realização de eventos religiosos, incluindo a Igreja
Católica, a IURD, Igreja Internacional da Graça; entre outras).
O fato de serem realizados no espaço da grande cidade vem sendo
considerado como um dado relevante para a compreensão de práticas
e significados que a experiência religiosa assume na contemporaneidade,
na medida em que lhe impõe características fundamentais.
De
acordo com Magnani,
os atores sociais possuem múltiplos vínculos e elaboram diferentes
e criativos arranjos coletivos nos diferentes usos da cidade. Esse uso
do espaço da cidade não é errático e apresenta
padrões. Os ‘fiéis’ atravessam a cidade, segundo os fiéis
da IURD, em busca de “um lugar de poder mais forte”, seja nas catedrais
da IURD, seja nas igrejas católicas freqüentadas por carismáticos
católicos. Na maioria das vezes, o percurso não é
solitário e tampouco anônimo. Os fiéis organizam grupos,
em caravanas, em suas respectivas congregações locais e partem
juntos. Outras vezes, formam-se grupos de parentes, amigos ou conhecidos.
Um levando o outro, em uma espécie de “efeito dominó” (cf.
Natividade
2005) com o propósito de, individual e coletivamente, ter uma experiência
com o sagrado. Partem de um lugar pré-estabelecido em direção
ao “lugar de poder mais forte” (Gomes 2004). Nos
dois casos apresentados, os fiéis sabem para onde estão se
deslocando. Possuem vínculos, sejam religiosos, familiares ou de
amizade. Em última análise, não andam como “errantes”
pelas ruas da cidade, nem a contemplam sem interesse. Possuem objetivos
e vínculos concretos. Este é um ponto fundamental para se
perceber a diversidade e a multiplicidade dos usos religiosos do espaço
da grande cidade moderna. Ao mesmo tempo, a cidade recebe novas interpretações
daqueles que a percorrem. Tomam conhecimento de espaços que antes
não conheciam e estes são redefinidos como parte de seu percurso
religioso e não apenas espaços impessoais de comércio
e de serviços.
Pode-se
dizer que os dois contextos descritos - a Igreja do Loreto, em Jacarepaguá
e a Catedral da Igreja Universal, em Del Castilho - mantêm uma relação
orgânica com a cidade do Rio de Janeiro. De modos distintos, as duas
igrejas estão situadas em locais privilegiados. A Paróquia
do Loreto, situada em lugar alto e de fácil localização,
concentra um número extenso de atividades tanto religiosas quanto
sociais. A Catedral da Fé da Igreja Universal do Reino de
Deus é acessível a pessoas de diversos subúrbios,
bairros ou municípios do Rio de Janeiro. Além das atividades
propriamente religiosas e sociais, esta sede recebe um número igualmente
extenso de pessoas que querem apenas “visitar” a catedral. Ambas recebem
um grande número de fiéis e também de integrantes
de outras denominações religiosas. Nas “missas de cura” carismática,
assim como nas “reuniões de cura e libertação” da
IURD, a crença na presença do “espírito santo” é
fundamental. Podemos dizer que de alguma forma o espírito santo
faz a passagem entre os seres humanos e o universo extramundano, mas também
possibilita a relação entre um local religioso e outro.
As
tradições religiosas católica e pentecostal, respectivamente
associadas a essas igrejas, são fundamentais na própria história
da formação de cada uma das igrejas em seus contextos locais.
A Paróquia do Loreto, fundada no século XVII, teve um papel
essencial no crescimento do bairro de Jacarepaguá. Podemos dizer
que o bairro foi criado ao redor dessa paróquia. Cresceu e se desenvolveu
a partir desse centro. Este começou com a Paróquia do Loreto.
Já a Catedral Mundial da Fé, evidentemente, não se
formou junto com o bairro e sua localização foi escolhida
porque apresentava todas as características (local privilegiado
e de fácil acesso) apropriadas para ser a sede/centro dessa instituição
religiosa. Nesse caso, a Igreja Universal caracteriza-se por estar relacionada
a uma cidade que apresenta uma extensa e complexa rede de relações,
onde muitos outros grupos religiosos estão em constante movimento
de contato e trocas. No caso da Paróquia do Loreto, verifica-se
que ela cresceu praticamente sozinha, poucos grupos religiosos convivendo
na mesma região. No entanto, o seu crescimento atual se deve à
presença do movimento carismático em seu interior, no qual
interagem distintas vertentes do catolicismo. A utilização
do espaço da cidade pelas diferentes religiões proporciona
novas formas de percepção sobre o fenômeno religioso,
redefinindo as diversas formas de utilizar o espaço da cidade por
meio da experiência religiosa.
Universidade
Estadual do Rio de Janeiro - UERJ
Centro
de Estudos da Metrópole de Centro de Estudos Brasileiros de Análise
e Planejamento - CEM/CEBRAP
Notas
Desde o final da década de 1980, observa-se um movimento de mudança
dentro da própria Assembléia de Deus que se reflete no espaço
de culto. Atualmente, há investimento desta denominação
no sentido de criar espaços que possam receber maior quantidade
de pessoas, inclusive adotando estilo semelhante àquele das catedrais
iurdianas, como é o caso encontrado em Barra do Piraí, estado
do Rio de Janeiro.
A pesquisa realizada nesta igreja faz parte de um projeto desenvolvido
por Marcia Contins que teve a colaboração das alunas e bolsistas
de Iniciação Científica/PIBIC UERJ, CNPq e Faperj:
Luciana Macedo, Mariana Meireles, Clarissa Bastos de Oliveira e Renata
Maynard.
O Padre Manoel de Araújo também foi o responsável
pela fundação da “Igreja Nossa Senhora da Pena”, que está
localizada em um morro acima da “Paróquia do Loreto” ou “Loreto”
como é chamada pelas pessoas que a freqüentam. As duas igrejas
são tradicionais na região e possuem histórias que
de certa forma são significativas para o bairro. Anteriormente à
Capela Nossa Senhora da Pena havia no local uma ermida em homenagem à
santa, que é padroeira dos intelectuais e artistas.
Reconhecemos a importância da discussão sobre secularização
e dessecularização para a compreensão do fenômeno
religioso, no entanto para o momento não vamos investir nesse debate.
(Ver Weber, 1980; Berger, 1973, 2001; Mariz, 2001)
A IURD foi fundada em 09/07/1977 pelo então pastor Macedo e RR Soares
(fundador da Igreja Internacional da Graça). Na década de
1980 não aparecia no Censo do IBGE. Já no Censo de 1991,
contava com 269 000 fiéis. Hoje os dados do Censo 2000, com as atualizações
de 2002, sinalizam que ela possui 2,1 milhões de fiéis, cerca
de 12% dos evangélicos pentecostais, com crescimento anual de 25,7%,
ocupando o terceiro lugar neste grupo. A Assembléia de Deus vem
em primeiro com 8,4 milhões de fiéis, e a Congregação
Cristã, em seguida, com 2,5 milhões de fiéis. Entre
as igrejas protestantes em geral, incluindo evangélicos pentecostais
e evangélicos de missão, a IURD ocupa o quarto lugar em número
de membros. (Jacob, 2003).
O material relativo à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) foi
produzido pela pesquisa de doutorado desenvolvida por Edlaine de Campos
Gomes, com orientação de Marcia Contins.
Assim como todas as igrejas denominadas como neopentecostais. Freston (1994,
p. 132-133) aponta que a “terceira onda” do pentecostalismo no Brasil caracterizou-se
pela fundação de igrejas no Rio de Janeiro, “sobretudo por
igrejas cariocas fundadas por pessoas citadinas de nível cultural
um pouco mais elevado e pele mais clara. Iniciando-se no contexto de um
Rio de Janeiro marcado pela decadência econômica, pelo populismo
político e pela máfia do jogo, o novo pentecostalismo se
adapta facilmente à cultura urbana, influenciada pela televisão
e pela ética yuppie”.
Os dados do Censo 2000 (IBGE) mostraram que a maior parte dos 2,1 milhões
de “adeptos” da IURD no Brasil está nas capitais dos estados, principalmente
no Rio de Janeiro, com 350.000 pessoas, e São Paulo, com 240.000
pessoas. Apontam que é somente nessas cidades que há essa
presença acentuada de adeptos, refletindo uma grande dispersão
geográfica, mas com implantação nacional. (ATLAS da
Filiação Religiosa e Indicadores Sociais do Brasil, 2003,
p. 42-43).
Em pesquisa realizada por Edlaine Campos Gomes (1998), discutiu-se a ocupação
de cinemas e teatros, principalmente em lugares centrais dos diversos municípios
da Baixada, fato que também pôde ser observado nas demais
regiões nas quais esta igreja vem se instalando, bem como a constante
mudança de endereço das igrejas. A autora observa que era
até mesmo difícil acompanhar esse ritmo, não só
quanto a IURD, mas quanto a outras pequenas igrejas pentecostais que se
multiplicavam na Baixada, naquele período. Um dia, estavam num endereço;
no outro, podiam não estar mais, ficando difícil, até
mesmo para as prefeituras da região pesquisada, realizarem um levantamento
preciso sobre a quantidade de templos religiosos nos municípios.
É importante lembrar que essa característica não pode
ser utilizada sem um certo cuidado, em relação a todas as
igrejas pentecostais, e nem mesmo no caso da própria IURD.
Por exemplo, a mudança de local não é uma característica
de suas sedes regionais. Pode-se observar que a sede regional do Rio de
Janeiro, na Abolição, por exemplo, permanece no mesmo local
desde que foi instalada como igreja, para posteriormente tornar-se “Catedral
da Fé”.
O ano de 1995 é considerado o ápice dessa crise, com acontecimentos
como: o “Chute na Santa”, processos judiciais, uma série de vídeos
denúncia, a minissérie da Rede Globo “Decadência”,
entre outros. Após 1995, a IURD inicia uma série de projetos
que atuam como uma espécie de demonstração de sua
potência; assim como passa a orientar seu discurso no sentido de
que “não basta estar envolvido, tem que ter compromisso”. Para a
discussão da escolha do estilo arquitetônico adotado para
as catedrais da IURD ver em Gomes, 2004.
Esta característica não é específica da IURD;
ao analisar as peregrinações de evangélicos à
“Terra Santa”, Bloomfield (1997) observou que o que eles buscavam não
era o Israel do presente, mas aquele que é descrito na Bíblia
Gomes (2004) aponta quatro tipos ideais de “membros”, aos quais a IURD
se refere: Tipo 1 - Os membros convertidos, “os servos de Deus”, o “obreiro”:
aqueles que passaram pelo “batismo nas águas” e “no Espírito
Santo”, assumindo a identidade iurdiana; Tipo 2 - Os membros em processo
de conversão: aqueles que participam do cotidiano da igreja, já
foram batizados nas águas, mas não “no Espírito Santo”,
no entanto, continuam buscando essa “graça”; Tipo 3 - Os membros
esporádicos: aqueles não batizados nas “águas” e nem
no “Espírito Santo”, caracterizados pela busca de uma bênção
imediata, ou mesmo pela curiosidade em conhecer a igreja; Tipo 4 -
Os membros em potencial: que são todos os que devem ser levados
a conhecer a “Palavra”. Todas as pessoas, indiscriminadamente, são
consideradas como membros em potencial.
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